terça-feira, 20 de maio de 2014

Na terra do futebol, não tem fundamento dizer ‘não vai ter Copa’

               
Marilza de Melo  Foucher(*)                           
                          
Um país que teve ídolos como Tostão, Pelé, Jairzinho, Rivelino e tantos outros não pode desprezar o fato de que a Copa do Mundo será realizada em casa
Segundo o que se lê e vê nos canais de televisão no Brasil dá para perceber como a mídia e a oposição se articulam para aumentar o clima de tensão. Existe, mesmo, uma incitação à violência. Que ninguém se iluda: esses canais e as mídias associados ao grupo Abril e a outros reacionários nunca darão espaços aos movimentos sociais, aos grupos organizados que já fizeram alguns protestos e desejam protestar durante os eventos.
A oposição e seus aliados nunca irão projetar aqueles que defendem a urgência de uma nova constituição para que se reforme, em profundidade, o sistema político brasileiro. Nenhum desses meios de comunicação mostrará que, na realidade, os brasileiros querem um serviço publico de qualidade nas áreas da saúde, da educação e dos transportes. Os brasileiros de cabeça mais arejada (e eles são numerosos) não se submeterão às manipulações produzidas pela oposição e por alguns setores da sociedade. O que está em jogo não é a Copa do Mundo, mas as eleições do próximo outubro.
O fato de dizer que o brasileiro não está nem aí para a Copa não tem fundamento na terra do futebol. O que a mídia não diz é que os brasileiros, hoje, são mais exigentes e começam a exercer sua cidadania. Não são mais os otários dos jogos eleitoreiros.
Sob os governos de Lula e Dilma o povo conquistou mais democracia. A esquerda guarda a tradição das lutas sociais. A rua sempre foi do povo. Todos são livres para lutar por um Brasil melhor, com Copa ou sem Copa o Brasil vai continuar a caminhada por um mundo melhor.
Ninguém quer que o Brasil pegue fogo e vire um caos nacional! Se fizéssemos um retrocesso na memória, a primeira imagem seria aquela explosão de alegria no Rio de Janeiro e outras capitais quando o Brasil foi selecionado. Por que esta noticia gerou tanto entusiasmo junto ao povo brasileiro? Por que os opositores não protestaram naquele momento?
Se os políticos da oposição tivessem uma noção de responsabilidade republicana eles teriam desde inicio da escolha buscado respostas a certas questões:
Que benefícios a Copa traria ao Brasil? Qual a relação entre investimentos já previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e quais seriam as prioridades a serem privilegiadas em função da Copa e das Olimpíadas. Este programa foi lançado em 2007, com o objetivo de reduzir as deficiências do Brasil em quatro áreas principais: saneamento, logística, energia e habitação. A carência do país em infraestrutura levou o governo brasileiro, por exemplo, a priorizar o setor de transportes.
Antes das críticas irracionais neste momento, os opositores, se fossem mais conscientes politicamente, teriam exercido um controle social maior junto aos governos municipais e estaduais. Esses espaços de poder são ideais para se praticar a cidadania.
Não teria sido melhor exigir dos prefeitos e dos governadores uma melhor articulação no acompanhamento das obras previstas no PAC e listar as outras necessidades em função da escolha das capitais onde acontecerá a Copa?
Por que não exigir da FIFA, e dos grandes clubes, certas garantias adicionais? Segundo informações publicadas no site oficial da Copa, os gastos com os estádios foram pagos com financiamento do Governo Federal, recursos locais de Estados e Municípios, e recursos privados. No caso do Governo Federal, portanto, não competem com saúde e educação, uma vez que estas políticas são financiadas com recursos do orçamento oriundos de impostos pagos pelos contribuintes, diferentemente dos empréstimos.
Em resumo, além de não competirem com os gastos federais em saúde e educação, os investimentos em estádios, quando financiados com recursos públicos locais, não desobrigam Estados e municípios de manter e ampliar suas despesas com educação e saúde.
Todavia, esta informação não invalida o questionamento que fazem muitos brasileiros. Por exemplo: Por que foram escolhidas algumas cidades nas quais não existem grandes clubes, de visibilidade nacional? Por que os brasileiros que vivem em Manaus não protestaram desde o inicio pra dizer que Manaus não precisava de uma arena, que o Estado tinha outras prioridades no lugar de construir um megaprojeto?
Daí os amazonenses poderiam ter questionado desde a origem dos recursos; quem solicitou o ingresso de Manaus no circuito dos jogos, até como se deram os empréstimos. Agora, quem assume este financiamento? E depois da Copa, quem vai administrar este espaço? Qual será sua utilidade pública? Esses questionamentos seriam os mesmos para as capitais Cuiabá, Natal, Fortaleza e Recife.
Fora destes questionamentos, os benefícios da Copa para a economia brasileira são visíveis e imediatos. Ela permitiu uma aceleração de investimentos em infraestrutura, como em mobilidade urbana e aeroportos; ampliação do turismo doméstico e de estrangeiros no país; e amplo retorno financeiro desses empreendimentos.
Ao todo, o plano de investimentos nas cidades-sede da Copa totaliza R$ 25,6 bilhões. Quase 70% desse montante (R$ 17,6 bilhões) representam investimentos em infraestrutura e políticas públicas, especialmente, em mobilidade urbana (R$ 8 bilhões), aeroportos (R$ 6,2 bilhões), segurança (R$ 1,9 bilhão) e portos (R$ 600 milhões). São investimentos, em sua maior parte, que ocorreriam independentemente da Copa, mas que foram por ela antecipados ou acelerados.
De acordo com a Fundação Getúlio Vargas, o potencial de movimentação de recursos ligado ao futebol brasileiro chega a R$ 60,0 bilhões por ano com 2,1 milhões de empregos diretos e indiretos.
Uma critica que se poderia fazer está relacionada ao atraso nas obras. Este é o mau da administração pública no Brasil. Qualquer programa de investimentos sofre com a deficiência no planejamento das obras, o que resulta em excessivas revisões de cronogramas, nos acréscimos de novos investimentos e em dificuldades na obtenção de licenças e liberação de recursos. A responsabilidade é conjunta, a gestão da coisa pública, a exigência da qualidade e o acompanhamento dos projetos sempre foram problemáticos no Brasil.
Na certa, esta Copa contribuirá diretamente para acelerar investimentos associados ao bem-estar da população, bem como impulsionar a melhoria das políticas públicas. Vamos torcer para que o Brasil ganhe esta Copa e que seja também campeão na luta contra as desigualdades sociais. Os que querem denegrir a imagem do Brasil e apostam na violência e no caos serão, certamente, derrotados.
Boa sorte, Brasil!
(*)Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil em Paris.

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