quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A  suprema  habilidade  de  Renan ao mandar investigar questionário 

da CPI da Petrobras                           


J. Carlos de Assis (*)    Luis Nassif Online   imagem de Orlando Soares Varêda
Cometi um ato de ingenuidade ao sugerir que o presidente do Senado, Renan Calheiros, diminuiu a dignidade do Congresso ao aceitar como objeto de investigação formal as denúncias de fraude da “Veja” e do Sistema Globo sobre  o suposto vazamento de um questionário para depoentes na CPI da Petrobrás. Na verdade, Renan é muitíssimo mais inteligente que eu. Renan quer expor ao Brasil inteiro a fragilidade da denúncia na medida em que ficará claro, pela evidência dos fatos investigados, que “Veja” se acumpliciou ao Globo para dar curso a matéria falsa com claros propósitos eleitorais.
Renan, que é uma velha raposa do Parlamento, sabe que a coisa mais natural do mundo é que depoentes em CPI se preparem para os interrogatórios mediante simulações dos debates. Renan, vivo como é, já tendo ele próprio passado por interrogatórios em comissão de ética, tem conhecimento de que só os ingênuos se submeterão às perguntas de argutos senadores da República e deputados federais sem uma preparação prévia. Renan, experiente como é, seria o último a classificar como irregularidade esse tipo de preparação, que no fundo é uma atitude de respeito em relação à seriedade de uma Comissão de Inquérito, que seria em certo sentido insultada se cada depoente se apresentasse a ela como um improvisador leviano.
Na medida em que essa investigação evolua, ficará claro que o conluio de “Veja” e Globo, cuja origem nada mais é que uma insatisfação recorrente com diminuição de verba publicitária do Governo, não passa de uma tentativa golpista em situação de democracia. Seus precedentes longínquos se recuam à Carta Brandi de Lacerda e ao Plano Cohen do capitão Mourão Filho, este justificando o Estado Novo com a denúncia de um programa comunista falso, e o primeiro tentando derrubar Jango, antes de 64, com um mirabolante e não menos falso plano de instalação pela luta armada de uma república sindicalista no Brasil, com apoio peronista. O Plano Cohen gerou uma ditadura até certo ponto benigna; a Carta Brandi desempenhou um papel relevante no golpismo pré-64 espalhando confusão, mas o golpe falhou.
É a Carta Brandi o modelo de “Veja”. Minta, minta, minta, que alguém acabará acreditando. Sobretudo quando a falsidade tem plena cobertura da Globo no horário nobre. É que “Veja” se tornou uma revista decadente que só sobrevive por responder a um público de extrema direita, muito limitado numericamente, de tal forma que só supera a sua irrelevância popular pelo suporte da televisão. Já a televisão não tem muita imaginação para fraudar em primeira mão; surfa nos escândalos inventados de “Veja”, mesmo que de uma forma um tanto envergonhada.  Naturalmente que essas mídias, que no honestíssimo país de Joaquim Barbosa seriam enquadradas em crime de formação de quadrilhas para fraudar a eleição, dificilmente vão muito longe. A população do Brasil é grande demais para ser manipulada , em tempos de internet, por grupos restritos de direita por mais irados que estejam.
(*) J. Carlos de Assis - Economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB, autor de mais de 20 livros sobre economia política brasileira.

Nenhum comentário: