sexta-feira, 3 de maio de 2013


Começou outro carnaval…

Do AMgóes - Resgato o sintomático texto abaixo, da doutora FÁTIMA OLIVEIRA, publicado em março último no jornal O TEMPO e reproduzido pelo site VIOMUNDO. Por oportuno: Maria de Fátima Oliveira é médica, escritora e ativista do movimento inbternacional de mulheres. Membro do Conselho Diretor da CCR (Comissão de Cidadania e Reprodução) e do Conselho Consultivo da RSMLAC (Rede de Saúde das Mulheres Latino-americana e do Caribe) Foi uma das 52 brasileiras indicadas ao Prêmio Nobel da Paz em 2005.
Autora dos seguintes livros de divulgação e popularização da ciência: Engenharia genética: o sétimo dia da criação (Moderna, 1995 – 14a; Bioética: uma face da cidadania (Moderna, 1997 – 8a.; Oficinas Mulher Negra e Saúde (Mazza Edições, 1998);Transgênicos: o direito de saber e a liberdade de escolher (Mazza Edições, 2000); O estado da arte da Reprodução Humana Assistida em 2002 e Clonagem e manipulação genética humana: mitos, realidade, perspectivas e delírios (CNDM/MJ, 2002); Saúde da população Negra, Brasil 2001 (OMS-OPS, 2002). Autora de dois romances: A hora do Angelus (Mazza Edições, 2005) e Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras (Mazza Edições, 2008).

                                                                                       
publicado em 20 de março de 2013 às 8:48
A moda papal 'vintage' e a simplicidade franciscana falam
AO INVÉS DE O CARNAVAL TER ACABADO, COMEÇOU OUTRO…
Fátima Oliveira, no Jornal OTEMPO
Médica – fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_
Em meio à overdose papal das últimas semanas e ao deslumbre midiático com a operação de cosmetologia que chega ao Vaticano, um misto de estilo jesuíta e do jeito franciscano de ser, reservo-me o direito de esperar a primeira encíclica do papa Francisco na certeza de que os temas palpitantes de direitos humanos não serão olhados com misericórdia, pois integram as chamadas “questões doutrinárias” católicas, e já foi dito, à exaustão, a respeito do louvor do papa a elas.
Ao contrário do que disse o papa, que “o Carnaval acabou”, é perceptível que apenas começou outro… “Minutos após o resultado da eleição no conclave ter sido declarado na Capela Sistina, o mestre de cerimônias do Vaticano ofereceu ao novo papa a tradicional capa vermelha decorada com pele, que Bento XVI usava com orgulho em cerimônias importantes. ‘Não, obrigado, monsenhor’, teria afirmado o papa Francisco. ‘Você pode vesti-la. O Carnaval acabou!”. (BBC, 16.3). Foi uma direta, ou indireta, à moda papal vintage de Bento XVI?
Publicações de moda eclesiástica ou clerical falam da fixação de Bento XVI em vasculhar vestes antigas de papas e reeditá-las em alto estilo: reabilitou o camauro, “o mais comum dos chapéus nos retratos papais históricos – do latim camelaucum (chapéu de pele de camelo), originalmente os chapéus dos imperadores bizantinos”; o chapéu Saturno; a mozetta, espécie de capa até a altura do cotovelo, em desuso desde Paulo VI.
Para a analista de moda Lola Galan: “Ratzinger deixou clara sua preferência pela pompa das roupas litúrgicas arcaicas, pré-conciliares”. Ele disse que “a magnificência das vestes serve para a Igreja comunicar-se com o mistério e a divindade”. Bento XVI é um ícone da moda eclesiástica e um papa ‘fashion’, que usava óculos escuros da Gucci e sapatilhas Prada (o Vaticano nega!).
As más línguas dizem que o luxo acintoso das roupas do papa tinham o dedo do seu secretário particular, desde 2003, o lindo arcebispo titular de Urbisaglia e prefeito da casa pontifícia, desde 2012, Georg Gänswein, o “George Clooney do Vaticano”, que inspirou Donatella Versace, que o vê como um “sex symbol”, a criar, em 2007, uma coleção com o nome dele; e, depois, a linha masculina Gänswein.
O papa Francisco usará os sapatos vermelhos? Talvez. “A tradição de os papas usarem sapatos vermelhos tem uma longa história… Eram feitos de simples couro vermelho de Marrocos e tinham uma cruz dourada. João XXIII acrescentou fivelas douradas, eliminadas pelo seu sucessor, Paulo VI. Contudo, o antecessor de Bento XVI, o papa João Paulo II, preferiu os normais sapatos castanhos (…).
Em ‘Why Does the Pope Have Red Shoes?’, livro que responde a questões das crianças, Georg Gänswein explica o significado dos acessórios vermelhos: ‘vermelho é a cor do martírio, do amor ardente e da chama do Espírito’. Daí ser a cor preferida no vestuário de Bento XVI” (“Moda papal”, “Portugal Têxtil”, 2008).
Os jesuítas são especialistas em comunicação e mais que ninguém sabem o exato valor do ditado popular “o hábito faz o monge” – a confirmação de que a moda não apenas fala, mas como uma vestimenta pode afetar processos cognitivos.
Com a moda clerical, particularmente a papal, não é diferente. E ela funciona como uma vitrine. De modo que a simplicidade franciscana do papa jesuíta tem de estar em correspondência com as vestes de suas aparições públicas. O que não é um pormenor… A moda papal também fala: “Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento”. ('Em tempo' do AMgóes:'vintage' é sinônimo de antigo, retrógrado, medieval, em desuso, fora de época etc)

Um comentário:

Ponto Avançado de Leitura disse...

Com relação ao papa Bento VI não resta dúvidas que ele se utilizou de uma identidade visual forte para alcançar, principalmente as pessoas mais distantes, no sentido intelecto-social.Mas eu não vejo isso com o papa Francisco; talvez ele utilize justamente a linguagem contrária para alcançar os restantes.