Começou outro carnaval…
Do AMgóes - Resgato o sintomático texto abaixo, da doutora FÁTIMA OLIVEIRA, publicado em março último no jornal O TEMPO e reproduzido pelo site VIOMUNDO. Por oportuno: Maria de Fátima Oliveira é médica, escritora e ativista do movimento inbternacional de mulheres. Membro do Conselho Diretor da CCR (Comissão de Cidadania e Reprodução) e do Conselho Consultivo da RSMLAC (Rede de Saúde das Mulheres Latino-americana e do Caribe) Foi uma das 52 brasileiras indicadas ao Prêmio Nobel da Paz em 2005.
Autora dos seguintes livros de divulgação e popularização da
ciência: Engenharia genética: o sétimo dia da criação (Moderna, 1995
– 14a; Bioética: uma face
da cidadania (Moderna, 1997 – 8a.; Oficinas Mulher Negra e Saúde (Mazza Edições,
1998);Transgênicos: o direito de saber e a liberdade de escolher (Mazza
Edições, 2000); O estado da arte da Reprodução Humana Assistida em
2002 e Clonagem e manipulação genética humana: mitos, realidade,
perspectivas e delírios (CNDM/MJ, 2002); Saúde da população Negra,
Brasil 2001 (OMS-OPS, 2002). Autora de dois romances: A hora do
Angelus (Mazza Edições, 2005) e Reencontros na travessia: a tradição
das carpideiras (Mazza Edições, 2008).
publicado em 20 de março de 2013 às 8:48
A moda papal 'vintage' e a simplicidade franciscana falam
AO INVÉS DE O CARNAVAL TER ACABADO, COMEÇOU OUTRO…
Fátima Oliveira, no Jornal OTEMPO
Médica – fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_
Médica – fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_
Em meio à overdose papal das últimas semanas e ao deslumbre midiático com a operação de cosmetologia que chega ao Vaticano, um misto de estilo jesuíta e do jeito franciscano de ser, reservo-me o direito de esperar a primeira encíclica do papa Francisco na certeza de que os temas palpitantes de direitos humanos não serão olhados com misericórdia, pois integram as chamadas “questões doutrinárias” católicas, e já foi dito, à exaustão, a respeito do louvor do papa a elas.
Ao contrário do que disse o papa, que “o Carnaval acabou”, é perceptível que apenas começou outro… “Minutos após o resultado da eleição no conclave ter sido declarado na Capela Sistina, o mestre de cerimônias do Vaticano ofereceu ao novo papa a tradicional capa vermelha decorada com pele, que Bento XVI usava com orgulho em cerimônias importantes. ‘Não, obrigado, monsenhor’, teria afirmado o papa Francisco. ‘Você pode vesti-la. O Carnaval acabou!”. (BBC, 16.3). Foi uma direta, ou indireta, à moda papal vintage de Bento XVI?
Publicações de moda eclesiástica ou clerical falam da fixação de Bento XVI em vasculhar vestes antigas de papas e reeditá-las em alto estilo: reabilitou o camauro, “o mais comum dos chapéus nos retratos papais históricos – do latim camelaucum (chapéu de pele de camelo), originalmente os chapéus dos imperadores bizantinos”; o chapéu Saturno; a mozetta, espécie de capa até a altura do cotovelo, em desuso desde Paulo VI.
Para a analista de moda Lola Galan: “Ratzinger deixou clara sua preferência pela pompa das roupas litúrgicas arcaicas, pré-conciliares”. Ele disse que “a magnificência das vestes serve para a Igreja comunicar-se com o mistério e a divindade”. Bento XVI é um ícone da moda eclesiástica e um papa ‘fashion’, que usava óculos escuros da Gucci e sapatilhas Prada (o Vaticano nega!).
As más línguas dizem que o luxo acintoso das roupas do papa tinham o dedo do seu secretário particular, desde 2003, o lindo arcebispo titular de Urbisaglia e prefeito da casa pontifícia, desde 2012, Georg Gänswein, o “George Clooney do Vaticano”, que inspirou Donatella Versace, que o vê como um “sex symbol”, a criar, em 2007, uma coleção com o nome dele; e, depois, a linha masculina Gänswein.
O papa Francisco usará os sapatos vermelhos? Talvez. “A tradição de os papas usarem sapatos vermelhos tem uma longa história… Eram feitos de simples couro vermelho de Marrocos e tinham uma cruz dourada. João XXIII acrescentou fivelas douradas, eliminadas pelo seu sucessor, Paulo VI. Contudo, o antecessor de Bento XVI, o papa João Paulo II, preferiu os normais sapatos castanhos (…).
Em ‘Why Does the Pope Have Red Shoes?’, livro que responde a questões das crianças, Georg Gänswein explica o significado dos acessórios vermelhos: ‘vermelho é a cor do martírio, do amor ardente e da chama do Espírito’. Daí ser a cor preferida no vestuário de Bento XVI” (“Moda papal”, “Portugal Têxtil”, 2008).
Os jesuítas são especialistas em comunicação e mais que ninguém sabem o exato valor do ditado popular “o hábito faz o monge” – a confirmação de que a moda não apenas fala, mas como uma vestimenta pode afetar processos cognitivos.
Com a moda clerical, particularmente a papal, não é diferente. E ela funciona como uma vitrine. De modo que a simplicidade franciscana do papa jesuíta tem de estar em correspondência com as vestes de suas aparições públicas. O que não é um pormenor… A moda papal também fala: “Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento”. ('Em tempo' do AMgóes:'vintage' é sinônimo de antigo, retrógrado, medieval, em desuso, fora de época etc)
Um comentário:
Com relação ao papa Bento VI não resta dúvidas que ele se utilizou de uma identidade visual forte para alcançar, principalmente as pessoas mais distantes, no sentido intelecto-social.Mas eu não vejo isso com o papa Francisco; talvez ele utilize justamente a linguagem contrária para alcançar os restantes.
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