sexta-feira, 3 de maio de 2013


Estado laico contra a intolerância religiosa


 
O secularismo e o laicismo contra a intolerância religiosa
QUANDO RELIGIOSOS ACALENTAM O SONHO DE DITAR REGRAS A TODOS
Fátima Oliveira, em O TEMPO
Médica – fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_
O fundamentalismo religioso cristão no Brasil, de extração católica e evangélica, adquiriu fôlego na última década, centrado na abolição dos direitos reprodutivos e dos direitos sexuais, vincando interferência perturbadora e preocupante, em todos os sentidos, em nome da defesa da família na vida política nacional.
Tanto evangélicos (dia e estatuto do nascituro, cura de gays, projetos de lei da grife “Estuprobrás”, as recentes infelicidades felicianas satanizadoras…) quanto católicos (concordata Brasil-Vaticano, obra de Lula, ai, meus sais!) acalentam o sonho de ditar regras de comportamento de suas visões de mundo para todo o povo.
Lembremo-nos da interferência do Vaticano nas últimas eleições presidenciais, indicando o voto no beato Serra! Vide Eleições presidenciais 2010: em leilão, os ovários das mulheres!  Os fundamentalistas cristãos brasileiros lutam por leis que transformem a nossa República democrática e laica numa teocracia!
E, ao mesmo tempo, as manifestações de intolerância religiosa não param de crescer, seja intramuros nas religiões ou nas seitas – caso da desassociação de Testemunhas de Jeová – ou na vida pública, sobretudo de algumas igrejas evangélicas contra as religiões de matrizes africanas.
Além da perplexidade causada pela lassidão do governo brasileiro diante dos fatos, não avancei muito na compreensão de tais nefastos fenômenos, sobretudo porque a responsabilidade maior de garantir a liberdade de religião e de assegurar os princípios da República laica é da Presidência do Brasil, que, dolorosa e praticamente, tem silenciado, mas tem cedido muito, em especial para o intuito da Igreja Católica de satanizar as mulheres.
Se a Presidência da República cede quanto aos direitos reprodutivos, como registrei em Governo Dilma submete corpos das brasileiras ao Vaticano, assiste à carruagem da intolerância religiosa passar e avançar sobre os princípios da República e faz de conta que não lhe diz respeito, estamos a pé mesmo…
Todavia, sou teimosinha, teimosinha e continuo firme em meu propósito: “Quero o aconchego de uma República laica e nada mais” (O TEMPO, 31.5.2011). Então, urge enfrentar quem mina os alicerces da República!
Em tal peleja, tenho refletido sobre o papel do secularismo e do laicismo diante da intolerância religiosa.
Compreendo secularismo, grosso modo, como o princípio de separação entre Estado e religiões de qualquer naipe, garantindo e defendendo a liberdade religiosa.
E laicismo é “uma visão filosófica que defende e promove a separação do Estado das igrejas e das comunidades religiosas, bem como a neutralidade do Estado em matéria religiosa”; tem como valores a liberdade de consciência; a igualdade entre cidadãos em matéria religiosa e a origem humana – todos, pilares da liberdade em questões de fé.
Na prática, e é uso consagrado, se diz Estado secular ou Estado laico ou Estado não confessional como significando a mesma coisa: o Estado não professa religião e protege quem tem ou não uma fé, como agnósticos e ateus.
O que fazer? Ampliar a consciência da sociedade. Dou muito valor ao debate incansável, assim é que atividades como o “1º Seminário nacional multidisciplinar de diálogo inter-religioso contra a intolerância religiosa no Brasil”, de 9 a 11 de maio de 2013, no Centro Cultural da UFMG (avenida Santos Dumont, 174, Centro), em Belo Horizonte, são valiosas, contam com o meu apoio e devem ser exaustivamente divulgadas.
Do AMgóes - Nascido(faz tempo, outubro/1942) em Penedo, cidade alagoana de tradições católicas quase quadrisseculares, situada à margem esquerda do rio São Francisco, o 'da unidade nacional', fui iniciado desde a infância nos ritos religiosos, na perspectiva(abortada quando adolescente) de me 'vocacionarem', por sacrossanta indução, para o ministério sacerdotal.                                                    
Eu e outros camaradas de meu tempo, guiados pelos preceitos 'santificadores' da Cruzada Eucarística(onde cheguei à função de 'apóstolo'), tão logo experimentamos a 'primeira comunhão'(o 'dia mais feliz de minha vida', segundo consta do 'santinho' distribuído entre parentes e amigos próximos, cujo amarelado e resistente exemplar preservo em meus alfarrábios).                                                    
O Antônio Manoel aqui era uma referência  de 'santidade' para mães e pais de colegas 'rebeldes' em minha antiga rua Bela Vista(atual D.Jonas Batinga), coincidentemente ao lado da Catedral Diocesana e a poucas quadras do Convento franciscano de Nossa Senhora dos Anjos. Cumpri os mais variados preceitos 'santificadores', entre os quais  comungar às nove e consecutivas primeiras sextas-feiras.                                                                          
Já éramos, desde os primórdios da República(1889) um 'estado laico',  mas a cultura dos 'fluidos 'teocráticos', de visceral e monopolista base católica, sobrevivera imperante por gerações. Ter um filho 'padre' ou uma filha 'freira' seria, por óbvio, uma honra para qualquer família  imbuída de seus deveres eclesiais.                                                                                                                                              
Minha cidade de então, cercada de vetustos templos católicos por todos os lados, abrigava  duas pequenas comunidades evangélicas, Batista e Assembleia de Deus, cujos 'crentes' eram chamados pejorativamente de 'bodes', porque - 'quanta insolência, onde já se viu?' - cantavam 'muito alto' em seus cultos, isto é, 'berravam' desabridamente, daí o epíteto depreciativo com que foram nomeados(pelas costas). Afinal, 'ovelhas negras', dissociadas do 'nosso rebanho', eram tratados com alguma reserva. Podíamos 'até' falar com  'eles', desde que mantivéssemos 'profilática' distância, para que não nos 'contaminassem'.                                                                                                                                     
Hoje, os remanescentes católicos(na realidade, não tão 'católicos' assim) de Penedo  têm que dividir espaços com mais de duas dezenas de denominações evangélicas, a maioria de  'renovadas', com  seu viés milagreiro de 'felicidade aqui e agora'.                                                                                            
Ironia: a intolerância religiosa, premissa secular dos 'nossos' e 'nossas', agora também é exercitada pelos do 'lado de lá' que, imperativos e furibundos, apontam o fogo do inferno para quem não reconhece 'o Senhor Jesus como seu Salvador'.                                                                                                        
Já pensou se não fôssemos, constitucionalmente, um 'estado laico'?  Muitos de nós, na prática,  já estaríamos ardendo entre as chamas da moderna inquisição...                                                                   

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