quarta-feira, 2 de julho de 2014

Haddad aposta na democracia contra o caos                                 

Durante quase toda sua história, São Paulo foi tratada como um piquete de engorda do lucro imobiliário. A urbanização caótica que a define é expressão disso.

Saul Leblon    


Divulgação
Durante quase toda a sua história, São Paulo foi  tratada como um piquete de engorda do lucro imobiliário.

A urbanização caótica que a define é a pura expressão daquilo que os mercados são capazes de produzir, deixados ao próprio arbítrio.

Não por acaso, a maior crise do capitalismo desde 1929 teve seu epicentro na lambança entre o capital financeiro e o capital imobiliário.

A ocupação privada do solo é a mina de ouro de uma metrópole capitalista. Como nas lavras distantes, o fastígio dos garimpeiros imobiliários deixa para trás um rastro de cicatrizes de difícil reversão.

Riqueza e caos, quem já viu um sabe que essa é a fotografia mais fiel de um garimpo. Nada caracteriza melhor São Paulo do que esse binômio  síntese da efervescência capitalista.

Que de quando em vez a população submetida a essa chibata radiosa eleja  –a contrapelo da ordem unida do dinheiro e da mídia--  um prefeito originário da esquerda diz algo sobre a natureza asfixiante do cotidiano nesse defumador de vidas.

Intuitivamente, esses espasmos de soberania refletem uma esperança formulada com argúcia pelo geógrafo marxista David Harvey: ‘o direito à cidade não é simplesmente o direito ao que já existe na cidade, mas o direito de transformar a cidade em algo radicalmente diferente’.

O dinheiro graúdo e seus detentores sabem preservar seus direitos na cidade, mas os pobres não tem como exercê-los.  A menos que rompam com a inércia e se organizem.

Em 2012  São Paulo elegeu Fernando Haddad com 3,3 milhões de votos, derrotando o tucano José Serra que tinha o apoio de todas as ramificações graúdas do capital.

Haddad assumiu uma prefeitura afogada em corrupção, com uma dívida que é o dobro da receita líquida –da qual 13%  são destinados ao pagamento de juros.
 
Enfrentou manifestações populares, em junho de 2013, calcadas na insuportável deterioração da qualidade de vida na maior capital brasileira.

Hoje vê sua popularidade evoluir para um ponto de inflexão, ao atingir 61% de regular, ótimo e bom, segundo o Datafolha, ao mesmo tempo em que entrega à população um Plano Diretor cuja costura consagra um método diferente do que tem sido a gestão da cidade.

O novo  plano faz parte de uma determinação de criar as bases para uma regulação social que devolva a metrópole a seus cidadãos.

Não por acaso, a primeira resposta de Haddad aos protestos de junho foi criar um Conselho Municipal Popular –o maior conselho popular da história brasileira com 1.125 eleitos pelo voto direto, na proporção de 1 por 10 mil habitantes.

Com pouco espaço na imprensa e uma divulgação algo despolitizada de parte da própria prefeitura,  era, paradoxalmente, a resposta mais arrojada ao anseio de participação ecoado nas ruas todo o país.

Uma de suas primeiras tarefas foi intensificar o debate em torno do Plano Diretor agora aprovado, depois de 110 audiências com a participação de 25 mil pessoas.

O ‘método Haddad’ se fortaleceu com a aproximação entre a  prefeitura e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, cuja mobilização foi decisiva para impedir que o conservadorismo adiasse ou retalhasse a votação das diretrizes que vão ordenar a vida da cidade até 2030.

Uma das mais importantes é a ampliação das áreas com destinação preferencial à habitação popular, que no cálculo dos urbanistas significará um aumento superior a 160% em relação ao plano anterior.

No final de 2013, quando centuriões do PSDB foram à Justiça e derrubaram a cobrança do IPTU progressivo, analistas isentos –ideológicos são os outros— precipitaram em anunciar as exéquias da gestão Haddad.

O IPTU revigorou o espírito separatista bandeirante cujo horizonte comunitário começa e termina no elevador de um prédio de luxo.  O resto são câmeras de vigilância, guardas particulares e as hordas de ‘gente diferenciada’.

Como é possível construir uma nação  –uma cidade que seja, a partir dessa angulação seletiva?

Não é possível e nem eles se propõem a isso.

Marx disse que ‘o capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros, da cabeça aos pés’.

A ideia de que esse açougue possa ser administrado pelo livre curso dos interesses graúdos  que o dominam é o que de mais próximo se pode conceber  em termos de barbárie moderna.

É disso, da repressão ao livre curso dos mercados sobre a cidade, que trata o Plano Diretor de Haddad.

Em ponto pequeno, trata-se da mesma disputa entre dois projetos de país  em confronto nas eleições de outubro: o passo seguinte da história brasileira será determinado pelos  impulsos cegos do  dinheiro ou pela construção de uma democracia social negociada?

A história sugere que a passagem de uma época para outra requer não apenas condições objetivas, mas rupturas de engajamento social que  reúnam a  energia da força e do consentimento para desbravar  novos caminhos.

O novo caminho no caso de São Paulo significa tornar  a força da cidadania  o motor determinante na gestão da cidade.

Diante do risco da morte súbita, Haddad apostou na democracia contra o caos.

A provação do Plano Diretor mostra a pertinência dessa escolha.

Leia abaixo alguns parâmetros extraídos de uma leitura preliminar do novo Plano para a cidade de São Paulo:

1. Estabelece que o Coeficiente de Aproveitamento  Básico de terrenos será igual para toda a cidade, algo talvez inédito no país. Toda construção acima dessa referência terá que ser negociada com o interesse público, representado pela prefeitura e mediado pelos critérios do novo Plano Diretor.

2. Define maior rigor no parcelamento, edificação e utilização compulsória de espaços ociosos. Novas normas permitem notificar os proprietários de áreas inutilizadas  –terrenos ou edificações--   que estarão sujeitos ao IPTU progressivo e também à desapropriação com títulos da dívida, caso ignorem as advertências.

3.Determina a criação de um Cadastro do Valor de Terreno para fins de outorga –autorização para construir acima da área disponível. 

4. Fixa a outorga onerosa do direito de construir em  5%, em média,  do Valor Geral de Venda dos Empreendimentos. A receita  decorrente será destinada ao fundo de urbanização ( FUNDURB).  Cerca de 60% da arrecadação irá para os sistemas de mobilidade (transporte coletivo, cicloviário e de pedestres). 

5. Cria a Macroárea de Estruturação Metropolitana: objetivo é consolidar o território estratégico da cidade por meio de projetos urbanísticos definidos pelo poder municipal, a serem desenvolvidos até 2018.

6. Induz a um maior adensamento nos corredores de transporte público, graças ao coeficiente de aproveitamento. Toda a ocupação nesse perímetro obedecerá a condições urbanísticas especiais: calçadas largas, fachada ativa, incentivo a uso misto (residencial/comercial)  para fruição pública de edificações etc.

7. Promove a reordenação urbana pelo coeficiente de aproveitamento (direito de construir): áreas fora dos eixos de transporte coletivo terão coeficiente máximo 2; o centro expandido terá limites inferiores aos atuais; exceto  quadras já verticalizadas, o gabarito será de 8 andares.

8.Cria a Cota de Solidariedade: estima-se que a área destinada a ZEIS, zonas especiais de interesse para moradia social terá um crescimento superior a 160% em relação ao último plano diretor.

9. Eleva capacidade financeira do município para gerir áreas de interesse social: vincula 30% do FUNDURB para compra de terrenos com essa finalidade.

10. Expande e reforça as políticas para a área  rural, ambiental e cultural através das Zonas Especiais de Preservação Cultural, Fundo Municipal de Parques, Plano de Desenvolvimento Rural do município e Plano Municipal de Mata Atlântica.


O que falta à Petrobras não é 

petróleo nem gestão. É entender 

o povo como a sua energia


Fernando Brito   
graf500mil
Ontem, atendendo ao gentil convite de sua diretoria, passei o dia na Petrobras, começando pela solenidade de comemoração dos 500 mil barris diários produzidos no pré-sal brasileiro até, já à noitinha, uma conversa da presidenta Graça Foster com alguns blogueiros.
Com os dias, à medida em que tocar em pontos concretos da exploração petroleira, vou abordando os dados e as visões da empresa mostrados ontem.
Prefiro, agora, uma reflexão.
Na contramão das acusações que se fazem a elas, não houve, seja da presidenta Dilma, seja da dirigente da empresa e de seus auxiliares, uma palavra sequer que misturasse política à gestão técnico-empresarial de nossa petroleira.
Ao contrário, o que se ouviu deveria soar como música aos ouvidos do “mercado”.
O respeito às melhores práticas de gestão, o planejamento criterioso, a seletividade dos investimentos, a responsabilidade empresarial e, sobretudo, o horizonte próximo de uma grande crescimento da produção e, em consequência, das receitas da empresa.
A marca alcançada no pré-sal, num prazo que, para a indústria petroleira, é absurdamente curto.
Em qualquer das multinacionais do petróleo seus executivos estariam festejando com foguetes e, claro, polpudos bônus.
Aqui, mal e porcamente nossa imprensa registrou o fato, e cheia de senões e dúvidas.
A Petrobras está prontíssima para ingressar no seleto grupo das cinco maiores petroleiras mundiais naquela conta que realmente vale – e não a das especulações de bolsa: a da quantidade de  produção e reservas de petróleo.
Mas há algo em que esta gestão da empresa ainda claudica, embora  parece que tenha melhorado, sobre isso, a sua percepção.
Creio que, em meio à cerimônia de ontem, poucos tenham percebido o que quis dizer o geólogo Guilherme Estrela, agora aposentado e o líder da descoberta do nosso pré-sal.
” O que seria do Brasil sem o pré-sal?”
Não sei se ele se referia ao fato de que, com as reservas conhecidas até então, talvez tivéssemos de lutar apenas para manter a semi-independência que as já declinantes jazidas do pós-sal da Bacia de Campos – cuja descoberta está completando 40 anos –  nos proporcionavam.
Mas acho que o pensamento do  Dr. Estrela vai além: seríamos um país com dificuldades muito maiores em transformar em realidade o sonho de ter um destino próprio como Nação.
A Petrobras está se tornando uma empresa que, muito embora a anos-luz da simplicidade que marcou seus primeiros e heróicos tempos em que enfrentou a odisseia  de dar petróleo ao Brasil “que não tinha petróleo”,  está cada vez mais próxima daquele desafio: o de nos tornar um grande produtor de petróleo de forma muito diferente daquela em que se tornaram quase todos os outros grandes do petróleo.
Se o geólogo Estrela chegasse àqueles tempos e dissesse que perfuraríamos a sete mil metros de profundidade jazidas de bilhões de barris de óleo seria chamado de louco e não lhe dariam nem terra de jardim para analisar: um lunático.
Grande parte história do petróleo – e a do petróleo no Brasil, especialmente – foi escrita por lunáticos, que sonharam e (mais que isso, os benditos) e entregaram a vida e sua capacidade a tirar do sonho estes sonhos.
A Petrobras, como qualquer outra empresa, precisa de uma administração competente como a que tem e de planejamento como o que tem, para o curto e o “longo” prazo dos negócios do petróleo.
Não pode, como foi no período neoliberal, ser administrada  somente com a “lógica de botequim”  do “quanto vai ser a féria hoje”, ou no final do mês, ou do ano, ou no ano que vem.
Assim, como gosta “o mercado”, que não descola os olhos dos balancetes e balanços. Claro, eles têm de “fechar”, mas não a nossos olhos capazes de ver o horizonte.
Ontem, Graça Foster e o diretor de Exploração e Produção da empresa, José Formigli, lembraram que quando se atingiu os 500 mil barris diários na Bacia de Campos, ambos estavam comemorando de botas e macacão.
De alguma forma, todos vestimos botas e macacão com a descoberta do pré-sal, também.
O petróleo não é só um produto, sujo e viscoso, que aparece em barris que a gente nem sabe como são e, afinal, nem existem mais, caminhando por dutos e tanques imensos.
Nem está presente, como insumo, em plásticos, tecidos, fertilizantes, e uma infinidade de coisas.
É a matéria prima para um desafio muito maior do que o da Petrobras, que é o de achá-lo, extraí-lo e processá-lo.
O Governo, e Dilma especialmente, sempre falam dos benefícios que ele trará, e a presidente ontem fez questão de mencionar que o pré-sal, com os campos de Libra e os entregues, como o de Búzios, à Petrobras, trarão perto de R$ 1,3 trilhão (é trilhão, mesmo, não bilhão) à educação e a saúde, em 30 anos.
Não é delírio imaginar que a entrada de novas áreas dupliquem ou tripliquem esta quantia, nos próximos sete ou oito anos, pelo que há ainda por descobrir.
Mas os efeitos disso, olhando com os olhos mesquinhos do hoje, são imateriais.
Só podem ser vistos com o olhar do desejo.
O mesmo olhar que levantou do nada esta gigante do petróleo.
E o dono deste olhar é o povo brasileiro.
É por isso que a Petrobras e a exploração de petróleo no Brasil  não podem ser vistas, apenas, como resultado de profissionalismo, capacidade, técnica, projetos e resultados, mesmo os mais expressivos e responsáveis do ponto-de-vista empresarial, ambiental, social e econômico.
Não basta à Petrobras ser tão capaz e eficiente – e ela é, com sobras – como as maiores petroleiras, nem ao Brasil se tornar um dos grandes produtores do mundo.
É essencial para ela ter a contrapartida do ódio e do desprezo que lhe despejam, todos os dias.
Esta contrapartida é o amor e a admiração do povo brasileiro, que sente – mais até que entendem, porque não lhe mostram – o que ela é capaz de fazer por sua vida.
E que é dos desejos deste povo que ela tira seu combustível para crescer, a sua energia, sem a qual estaria fatiada e morta.
Ou, aliás, nem teria nascido.
Renato Russo, há décadas, escreveu, no início de sua carreira, uma música curiosamente chamada “Petróleo do Futuro”, que terminava com estes versos:
O que é que eu tenho a ver com isso?
Sou brasileiro errado
Vivendo em separado
Contando os vencidos
De todos os lados.

"NÃO VAI TER COPA": MÁ FÉ E CINISMO DO PIG          

A autópsia de um Golpe fracassado
                    CONVERSA AFIADA

​O CONVERSA AFIADA reproduz do Observatório da Imprensa artigo impecável do professor Venício Lima:

A ALTERIDADE CÍNICA DA GRANDE MÍDIA (2)


Venício A. de Lima(*)

Em pelo menos três ocasiões distintas, nos últimos cinco meses, registrei, no 'Observatório da Imprensa', a obstinação da grande mídia brasileira em torno de uma pauta negativa.

Em janeiro,referindo-me à tradicionalíssima oração católica “Salve Rainha”, escrevi:


Um visitante estrangeiro que desembarque no Brasil e que tome como referência as notícias diariamente veiculadas na grande mídia brasileira se convencerá de que o “vale de lágrimas” da interpretação cristã do Salmo 84 é aqui, hoje e agora. No enquadramento padrão do jornalismo praticado entre nós, até mesmo as notícias eventualmente “boas” são acompanhadas de comentários irônicos e jocosos insinuando que alguma coisa deu ou dará errado, mantendo-se o “clima geral” de que estamos vivendo numa permanente e irrecorrível sequência de sofrimento e purgação de pecados. (…). Por óbvio, o “vale de lágrimas” não é a única característica do jornalismo brasileiro que omite e/ou enfatiza seletivamente aquilo que atende mais ou menos aos seus interesses, implícitos e/ou explícitos. (…) Não haveria nada de positivo eventualmente acontecendo e merecedor de ser noticiado neste pedaço do planeta “descoberto” por Cabral? No jornalismo do “vale de lágrimas” que vem sendo praticado pela grande mídia, salvar o Brasil, só com ajuda divina. Vamos todos rezar o “Salve Rainha” [ver “O ‘vale de lágrimas’ é aqui“].

Em fevereiro, discutindo a questão da violência urbana, registrei uma orientação da TV Globo que, embora posteriormente desmentida, confirmou-se na cobertura jornalística oferecida. Afirmei naquela ocasião:

A Rede Globo de Televisão recomendou a seus jornalistas, inclusive os que trabalham em suas 122 (cento e vinte e duas) emissoras afiliadas, “que a Copa e a seleção brasileira são uma paixão nacional, mas que irregularidades deverão ser denunciadas e ‘pautas positivas’ deverão ser evitadas, a não ser que ‘surjam naturalmente’. Reportagens que mostram como a Copa está beneficiando grupos de pessoas, como os comerciantes vizinhos a estádios, já não estão sendo produzidas para o Jornal Nacional” (ver aqui, e aqui a resposta da Globo). (…) O que me traz de volta ao tema é, especificamente, a alteridade cínica do jornalismo do vale de lágrimas na cobertura da violência urbana. Esse tipo de jornalismo “faz de conta” de que a mídia não tem qualquer responsabilidade em relação ao que ocorre na sociedade brasileira. Ela seria apenas uma observadora privilegiada cumprindo o seu papel de tornar pública a violência e cobrar mais policiamento dos governos local e federal – como se a solução da violência fosse um problema apenas de mais ou menos policiamento [ver “A alteridade cínica da grande mídia“].

E, finalmente, em maio, analisei, como exemplo concreto, matéria de capa do portal UOL, assinada por Aiuri Rebello, com o título: “Brasília inaugura seu único legado de mobilidade para a Copa no escuro”. Comentei:


Trata-se aqui da incansável e sistemática pauta negativa que tem orientado a quase totalidade da cobertura jornalística da grande mídia nos últimos meses (…). A matéria do UOL, contudo, destaca os seguintes pontos: 1. “a única [obra] de mobilidade urbana prevista em Brasília para sair a tempo da Copa; 2. “não há iluminação instalada em um raio de pelo menos 50 metros no entorno da rotatória, o que dificulta a vida de motoristas e pedestres por ali”; 3. “não há uma calçada ou qualquer ponto de travessia próximo para pedestres, como faixa ou passarela”; 4. “não há nenhuma sinalização viária ou placa de qualquer espécie, tanto na rotatória quanto no túnel e suas imediações para indicar os caminhos certos aos motoristas”; e 5. “em agosto do ano passado, o UOL Esporte mostrou que centenas de árvores e plantas nativas do Cerrado e tombadas pelo governo foram desnatadas (sic) durante a obra.” [Observação: no dicionário Aurélio, “desnatar” significa “tirar a nata a (o leite)”.] Ser “a única” obra de mobilidade urbana altera o valor intrínseco dela? Na verdade, a obra inaugurada se integra a outras do Expresso DF Sul em fase de testes, no mesmo espaço. Problemas de iluminação e de sinalização, na obra e em seu entorno, sim, existem e, pelo que se vê, tenta-se resolvê-los após a inauguração. Por outro lado, como sou usuário frequente do acesso do Plano Piloto ao aeroporto, posso garantir que (1) não há fluxo de pedestres na região do túnel inaugurado e (2) não havia como fazer obras no local sem a retirada de “árvores e plantas nativas do Cerrado”. O GDF garante que as 67 árvores [e não “centenas”] da espécie sibipiruna deslocadas para as obras do Expresso DF Sul foram replantadas pela Novacap com sucesso e que foram ainda plantadas 400 mudas de ipês (cores branca, roxa e amarela), 250 palmeiras e 47 flamboyants. Tenho chamado essa prática de pauta negativa de “jornalismo do vale de lágrimas”. Afinal, há algum limite para a pauta negativa? [ver “Há limite para a pauta negativa?“]
Do '#nãovaiterCopa' à 'Copa das Copas'

Como inúmeros outros observadores, ao longo dos últimos meses, registrei a pauta negativa unânime da grande mídia, não só em relação aos preparativos para a Copa, mas também ao cotidiano da vida dos brasileiros, nos seus mais distintos aspectos.

Luciano Martins Costa constatou com propriedade, neste Observatório, poucos dias antes do início da Copa do Mundo que “se o leitor ou leitora afeto à visão crítica dos acontecimentos fizer uma visita ao noticiário dos últimos doze meses, vai observar que o estado de espírito negativo que contamina o Brasil não decorre de um efeito colateral do noticiário: é o propósito central da atividade da imprensa hegemônica. (…) A leitura dos jornais nesse período indica claramente o desenvolvimento de uma campanha com objetivo de destruir a autoestima dos brasileiros” [ver “Imprensa e jornalismo, nada a ver“].

Pois bem.

Chegou a Copa do Mundo. Eis que o '
#imaginanaCopa' e o '#nãovaitercopa' foram superados por um evento alegre e festivo, celebrado nas ruas do país e nas “arenas” das 12 cidades-sede por milhões de brasileiros e estrangeiros de todas as regiões do planeta.

Diante desse fato incontornável, a grande mídia do “vale de lágrimas” passou a praticar um malabarismo digno das Olimpíadas que acontecerão no Rio, em 2016.

A alteridade cínica se repete

O campeão da pauta negativa, o Jornal Nacional da TV Globo, na edição de quinta-feira (26/6), por intermédio de seu editor-chefe e âncora, atribuiu o “ar de preocupação generalizada” em relação à realização da Copa do Mundo no Brasil “especialmente” às críticas “ácidas” da imprensa estrangeira. Disse ele:


Durante meses, os atrasos e os problemas de organização da Copa do Mundo foram assunto de muitas reportagens no Brasil e no exterior. Existia no ar uma preocupação generalizada com as consequências dos atrasos, das obras não concluídas. E os jornais estrangeiros eram especialmente ácidos nas críticas. Mas o fato é que, aos poucos, desde o início desse Mundial, isso tem mudado.

E a correspondente da TV Globo em New York, Elaine Blast, completa:

Muitos problemas que antes eram previstos para a Copa do Mundo no Brasil não se confirmaram. Aos poucos, o tom crítico da imprensa internacional foi mudando, com reportagens que também retratam o clima festivo desse Mundial [cf. texto e vídeo disponíveis aqui].


Será que a cobertura negativa da grande mídia brasileira – do JN, em particular – não serviu de referência para as críticas “ácidas” que “os jornais estrangeiros” fizeram ao país?

Será que os 22 mil jornalistas estrangeiros, de mais de 60 países, credenciados para cobrir in loco a Copa do Mundo (18.800 diretamente pela FIFA e 3.300 pelo governo brasileiro, o maior contingente de todas as Copas) não teriam constatado, eles próprios, que a realidade do país não era exatamente aquela que a mídia brasileira mostrava?

Será que a TV Globo insiste em trabalhar com a suposição de que a sua audiência (ou a maioria dela) é tola, desmemoriada [ver Laurindo Leal Filho, “De Bonner para Homer“] e não se recordará da obstinação pela pauta negativa que marcou a cobertura da emissora e de suas afiliadas até o início da Copa do Mundo?

Vale lembrar o refrão do sucesso de Paul Simon na década de 1970: “Who do you think you’re fooling?” (“Love me like a rock”, 1973).

Não é sem razão que essa alteridade cínica, repetida e conveniente, tem provocado, já há algum tempo, a queda contínua de credibilidade da grande mídia brasileira.

(*) Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizador de Para Garantir o Direito à Comunicação – A lei argentina, o relatório Leveson e o HGL da União Europeia, Perseu Abramo/Maurício Grabois, 2014; entre outros livros 


O aniversário do real


e o valor do dinheiro


Dinheiro real, aquele que você recebe


Fernando Brito   
real
Os jornais publicam  matérias mostrando que a nota de 100 reais, lançada no Plano Real, por Fernando Henrique Cardoso, hoje vale apenas R$ 22.
É verdade. A inflação, claro, come o valor do dinheiro.
Então, este humilde blogueiro, que tem mania de fazer conta, foi lá na “Calculadora do Cidadão” do Banco Central ver como foi este processo de desvalorização.
E fez a conta para saber quanto aquela nota perdeu em cada governo.
Mas não esqueceu de fazer a outra conta, tão importante ou mais, que é a de quanto dinheiro (o de papel e o verdadeiro, que é o seu poder de compra) recebe.
Acompanhe com atenção.
A azulada pelega de 100 de FHC, em fevereiro de 2002, oito anos depois de sua estréia, tinha sido vítima de uma inflação de 143,3%.
Para comprar o mesmo que 100 reais de 94,  seriam precisos 243, 29 reais.
A nota de 100, portanto,  valia  41,11 reais.
No governo Lula, aqueles R$ 41,11 também perderam valor, é claro.
Até fevereiro de 2011 – iguais oito anos – a inflação pelo IPCA foi de 65,37%.
E a cédula de R$ 100, que já começou este período valendo R$ 41,11, desvalorizou-se para R$ 24,85.
No governo Dilma, com a inflação de 19,74% acumulada até fevereiro e mais 6% de inflação estima da até fevereiro de 2015, a perda será de 27,1%, aproximadamente.
O que faria aquela nota de R$ 100, que FH transformou em R$ 41, que baixou com Lula a R$ 25, vá chegar, ao final do período Dilma, valendo R$ 19,56.
Se eu fosse fazer uma conta desonesta – não sei onde já se viu fazer contas desonestas na imprensa brasileira, né? (rsrs) – poderia dizer que Fernando Henrique tirou 59 reais da nota, ou R$ 7,37 por ano, enquanto Lula tirou bem menos, 26 reais ou R$ 3,66 por ano, e Dilma, em quatro anos, perto de R$ 4,50, ou R$ 1,10 por ano.
Mas não é assim que se avalia, exceto quando se quer fazer comparações desonestas.
O certo é dizer que FHC fez a nota perder 59% de seu valor, ou 6 por cento ao ano, em oito anos.
Que Lula assistiu a uma redução de 39,4% do seu valor, em oito anos, o que dá  4,2% ao ano.
E que Dilma a viu reduzir-se em  21,3%, ou 4,9% ao ano, em quatro anos.
Um pouco acima de Lula, bem abaixo de FHC.
Agora, a trajetória do dinheiro real, para milhões de trabalhadores, aposentados, pensionistas e avulsos: o salário mínimo.
No final do Governo FHC, ele era pago com duas daquelas notas de cem reais que, como vimos, valiam R$ 41,11. Então, em valor deflacionado, valia R$ 82,22.
A história de que Fernando Henrique deu ganho real ao salário mínimo está apoiada precariamente no fato de ele ter “herdado” quatro meses de salário a R$ 80, fixado por ele mesmo no finzinho do Governo Itamar Franco.
Já no final do Governo Lula, em 2010, o salário mínimo era de R$ 510, ou pouco mais que cinco notas de cem. Como, no fim deste período, cada uma destas notas tinha valor real de R$ 25, isso equivalia, em dinheiro “forte” do início do real a R$ 127, 50, ou 55% mais do que aqueles R$ 82,22 que Fernando Henrique deixou como herança.
E com Dilma, o que temos hoje?
O salário mínimo passa de sete notas de cem: 7,24 delas, precisamente. Como cada uma delas valerá R$ 19,56, isso dá R$ 141,61, sempre naquele “real forte” do início do plano.
Em percentagem: 11% mais que no final do Governo Lula e 72% mais que no final do Governo Fernando Henrique.
Esta é a verdadeira medida do poder de compra.
Não apenas o da moeda, mas o da moeda que se recebe.
O que, no caso de quem trabalha, chama-se salário.
Mas salário não é santo do altar dos nossos economista, mais devotos do “santo tripé” macroeconômico, não é?

A justa quase-maldição


da vaia ao  hino chileno


Emir Ruivo      
 
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     Torcedoras da elite 'limpinha e cheirosa', embora mal-educada e sem-noção, vaiando o hino do Chile,      no Mineirão, sábado passado
Eu torci muito pelo Brasil. De joelhos, que é a máxima forma de torcer para mim. Mas, em alguns momentos (pênaltis perdidos, bola na trave), achei que uma eliminação poderia ser o resultado mais justo para aquelas pessoas que vaiaram o hino do Chile.
Não era o resultado que eu desejava. Não era justo com os jogadores, com o técnico, com todos os torcedores que não participaram daquele patético comportamento de massa. Mas era justo para eles.
Algumas pessoas no Facebook tentaram defender ou relativizar. Não é verdade que foi só no fim, durante o “acapella”. Houve um ensaio de vaias já no começo do hino. Mas ainda que fosse. Raios, só nós podemos?
Essa edição que a Fifa faz nos hinos não é legal. Tudo bem que eles são longos e chatos, mas afinal alguém inventou de tocar o raio do hino antes dos jogos. Então que toque na íntegra.
Os cortes da Fifa me lembram aquelas edições que as rádios costumavam fazer nas músicas, sobretudo nos anos 90. Naquela época, as rádios eram tudo para o mercado fonográfico. Ou você aceitava a edição, ou não tocava. Até hoje as rádios vêm com a sua vinheta muitas vezes antes do fim das músicas.
Essas edições simplesmente matam toda a intenção artística. É como cortar um pedaço de uma pintura. E nos hinos não é diferente.
E nós gostamos de cantar até o fim. Na verdade, não até o fim – cantamos duas das quatro partes. E parece que os chilenos também. E daí?
Me parece que há uma confusão nessa história. Vaia é normal num jogo. Mas vaia-se o time adversário. Vaia-se, sei lá, a torcida adversária. Vaiar o hino é misturar as coisas.
Um hino é, junto com a bandeira, o maior símbolo pátrio. Vaiar um hino é uma agressão.
Não acredita? Faça o seguinte: ateie fogo numa bandeira da Colômbia na porta do estádio antes do próximo do Brasil e veja se você não será preso. O hino é a representação musical na bandeira. Nem para a bandeira se coloca a mão no coração (por mais ridículo que isso possa ser, mas essa não é a discussão).
Deveria ser, sempre, aplaudido. E depois que xingue-se todos os jogadores, as mães dos jogadores, a avó deles. O cachorro, sei lá. Isso é outra coisa.
É verdade que posteriormente os chilenos também nos vaiaram. Mas coloque-se no lugar deles. Você está cantando o seu hino e de repente vem uma agressão gratuita. Eu vaiaria de volta. É legítima defesa. Como diria meu avô,  reciprocidade.
Agora, claro que não é o fim do mundo. Nada é. A mordida do Suárez não foi, a cabeçada do Zidanne em 2006 também não. Agora, isso não impede que umas mães dêem uns tapas na bunda de seus filhos, ainda que eles tenham 20, 30, 40 anos.
Estão precisando.
Chile_Hino
Emir Ruivo é músico e produtor formado em Projeto Para Indústria Fonográfica na Point Blank London. Produziu algumas dezenas de álbuns e algumas centenas de singles. Com sua banda, Aurélios, possui dois álbuns lançados pela gravadora Atração. Seu último trabalho pode ser visto no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=dFjmeJKiaWQ

Legado da Copa: fatos e falácias (parte 2)

A realização da Copa neste momento em que todos desejam que o PIB cresça mais do que está permitindo a crise mundial, é fundamental para o país

José Augusto Valente (*)   

Arquivo
Em relação ao chamado “Legado da Copa”, o que a grande imprensa tem veiculado sobre o assunto tem mais falácias do que fatos comprováveis. É o que estou tentando demonstrar numa série de artigos. (Clique AQUI e leia a parte 1)

Falácia 2 – Dinheiro utilizado na construção dos estádios poderia ser destinado para a saúde e educação

Eu acredito, assim como os críticos à realização da Copa no Brasil, que os governos federal, estadual e municipal têm que investir, com alta prioridade, em saúde e educação, entre outras políticas sociais. O Brasil precisa e merece isso.

Ao contrário deles, entretanto, defendo que o governo tem que investir, também, no desenvolvimento do país. Para isso há várias formas, entre elas o financiamento pelo BNDES, com seus juros subsidiados e eventuais parcerias,  a empreendimentos com potencial de gerar desenvolvimento econômico e social.

A realização da Copa, no Brasil, neste momento em que todos desejam que o PIB precisa crescer mais do que está permitindo a crise mundial, é fundamental para a realização dos investimentos nas arenas, nos aeroportos e em obras de mobilidade urbana, como também pelos serviços daí decorrentes, pois estes gerarão receitas diretas e indiretas nos próximos anos.

Como afirmamos no artigo anterior, os locais onde acontecem as partidas da Copa não são simples estádios de futebol, mas arenas multiuso, e isso faz toda a diferença. 

Essas arenas foram projetadas para receber, além de partidas de futebol, grandes eventos, como shows, espetáculos, conferências e reuniões, com conforto, segurança e qualidade.

Do ponto de vista de legado da Copa, isso tem impacto na geração de possibilidades de ganhos dos cidadãos, uma vez que na maioria das capitais do país não existem espaços como esses para a realização de megaeventos. 

Várias arenas estão formatadas para PPP ou concessão (governos estaduais/empresas privadas), além de três que são exclusivamente privadas. Todas demandaram recursos do BNDES.

As equipes altamente qualificadas desse órgão analisaram os empreendimentos por essa ótica, não só para garantir o retorno financeiro do mesmo, mas também para alavancagem de novos projetos econômicos e sociais, na cidade e na região. 

Para se ter idéia, a arena de Brasília, que é totalmente pública, em seis meses, recebeu 27 eventos, entre jogos de futebol e shows , como da Beyoncé e das bandas Aerosmith e Metallica. Nesse período, a nova arena atraiu 640 mil pessoas. Para se ter um comparativo, o antigo Mané Garrinha teve público de 340 mil torcedores em 36 anos.

Mas o BNDES não poderia financiar saúde e educação? 

É importante frisar que o BNDES financia basicamente empresas e não governos (há alguns poucos casos de financiamento a governos). Os juros subsidiados tem a ver com a expectativa de desenvolvimento econômico e social de cada empreendimento. Há um montante de recursos disponíveis para empréstimos, há critérios para aprovação dos projetos, são exigidas garantias e o BNDES é muito rigoroso no caso de inadimplência. 

Mas, arguem os críticos à Copa no Brasil, os recursos do BNDES não têm origem no orçamento da União, o que permite deslocar parte deles para saúde e educação?
 
Basicamente, a origem dos recursos do BNDES é não orçamentária, como segue: os de capital; as receitas operacionais e patrimoniais; os oriundos de operações de crédito; a remuneração que lhe for devida pela aplicação de recursos originários de fundos especiais instituídos pelo Poder Público e destinados a financiar programas e projetos de desenvolvimento econômico e social; os resultantes de prestação de serviços e, quando for necessário, as dotações que lhe forem consignadas no orçamento da União.

Saúde e educação públicas são despesas de investimento e de custeio que precisam ser realizadas, de forma permanente, por prefeituras, estados e governo federal, através de recursos orçamentários definidos via PPA, LDO e LO ou pela iniciativa privada, com seus próprios recursos. 

Entretanto, saúde e educação, com recursos do BNDES, de forma contínua, não há como! 

Assim, no máximo, o que se poderia dizer é “em vez de financiar arenas, o BNDES deveria direcionar esses recursos para portos privados, concessões rodoviárias/ferroviárias e coisas do gênero”. Mas não foi essa a escolha do governo federal, na ocasião, com o apoio da maioria da população.

O custo total da Copa, com recursos federais, estaduais e da iniciativa privada, entre empréstimos e recursos a fundo perdido, foram estimados em R$ 28 bilhões, dos quais: R$ 8 bilhões com as arenas; R$ 8,4 bilhões com obras de mobilidade urbana; R$ 8,4 bilhões em aeroportos e R$ 1,9 bilhões em segurança. 

Todos esses investimentos geraram produtos que serão um legado da Copa, pois continuarão atendendo às necessidades do país, pelos próximos  cinquenta anos.

Cabe finalizar com a informação da Secretaria Geral da Presidência, de que, desde 2010, o governo federal investiu em educação e saúde R$ 825,3 bilhões. 

O  mais interessante é que, no rol de pessoas com quem me relaciono, as que apregoam a tese de não investir na Copa são as mesmas que foram favoráveis a retirar R$ 40 bilhões/ano da saúde, através de campanhas nas redes sociais, e conseguiram que o Congresso Nacional extinguisse a CPMF, importante fonte de recursos para esse fim, além de mecanismo efetivo para reduzir a sonegação fiscal, que impede, todo ano, que mais alguns bilhões possam ser direcionados para saúde e educação.

Nos próximos artigos, tratarei de discutir as obras de mobilidade urbana constantes do “Legado da Copa 2014”, onde também há mais falácias do que fatos.

(*) José Augusto Valente, engenheiro, é especialista em logística, transportes, infraestrutura e mobilidade territorial.