segunda-feira, 2 de setembro de 2013


Intercâmbio de médicos cubanos

integra cooperação com a OPAS

Silvia Cavichioli, da 'Agência Saúde' logo
A parceria estabelecida pelo Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para trazer quatro mil médicos cubanos para atuar no programa Mais Médicos é desdobramento de uma ampla cooperação técnica com o objetivo de ampliar o acesso da população brasileira à atenção básica na rede pública de saúde. Os documentos que detalham a iniciativa foram apresentados nesta terça-feira (27) pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao Tribunal de Contas da União (TCU) e à Comissão Mista que analista a Medida Provisória do programa. 
O ministro explicou às autoridades que o Termo(CLIQUE AQUI PARA LER) de Cooperação Técnica, assinado em abril deste ano, estabelecia iniciativas para promover a qualificação e a valorização dos profissionais da atenção básica através da capacitação técnica, em localidades prioritárias do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse âmbito, foi desenvolvido o acordo(CLIQUE PARA LER) específico,  que possibilitou o intercâmbio com o grupo de médicos cubanos, firmado na  quarta-feira, 21 de agosto.
“Já havíamos antecipado a apresentação ao TCU e agora à presidência da comissão, imediatamente após ser solicitada para reforçar a transparência e contribuir para que o Congresso Nacional aprimore o programa”, detalhou o ministro Padilha.
Os profissionais de Cuba serão direcionados aos 701 municípios que não despertaram o interesse de nenhum profissional, brasileiros e estrangeiro, inscrito na seleção do Mais Médicos.
A maioria deles (68%) apresenta os piores índices de desenvolvimento humano do país – IDH muito baixo e baixo, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) - e 84% estão no interior do Norte e Nordeste em regiões com 20% ou mais de sua população vivendo em situação de extrema pobreza. Os primeiros 400 médicos desembarcaram no Brasil no último final de semana. Os demais chegarão até o final do ano, de acordo com cronograma estabelecido pelo Ministério da Saúde.
 

Política e ideologia conspurcam a imagem do Brasil no exterior          

Há mais ou menos uns dois meses, minha filha Gabriela, que reside há quatro anos na Austrália a fim de estudar, vendo na tevê de lá as cenas de vandalismo que ocorriam por aqui durante a onda de protestos que tomava o país, enviou-me mensagem via Facebook relatando a sua tristeza decorrente da deterioração da imagem do Brasil naquele país.
De país visto como em franco desenvolvimento, que resgatava a sua imensa dívida social, que economicamente vinha se destacando por gerar empregos em quantidades industriais enquanto o resto do mundo chafurdava no desemprego, o Brasil começava a ser visto como uma nação decadente e sem rumo.
O relato de Gabriela, então, somava-se a tantos outros feitos por brasileiros expatriados que vão constatando, envergonhados, a deterioração da imagem de um país que era visto como dotado de um povo alegre, hospitaleiro e como uma potência emergente e que, agora, estava gerando uma onda internacional de decepção.
Até junho último, a intensa campanha de desmoralização do país empreendida pela grande imprensa local não produzia efeitos. A opinião pública internacional entendia que essa imprensa brasileira estava em uma campanha política e, assim, atinha-se aos fatos, aos indicadores econômicos ao avaliar o nosso país.
As cenas de guerra que o país exportou, porém, criaram a falsa impressão de que, de fato, a situação por aqui era muito ruim. De junho para cá, outros factoides políticos vêm contribuindo para macular a imagem do Brasil.
As cenas de hostilidade aos médicos estrangeiros que estão chegando no âmbito do programa Mais Médicos se espalharam internacionalmente e chegaram à Austrália, o que fez a minha filha enviar-me, de novo pelo Facebook, sua tristeza com mais um factoide que está ajudando o mundo a ver o nosso país com maus olhos.
Médicos estrangeiros são bem vindos em incontáveis nações. Na Austrália, a maioria dos médicos é composta por estrangeiros, sobretudo asiáticos, como relata a minha filha. Ela, inclusive, disse não se lembrar, ao longo dos quatro anos em que reside naquele país, de ter se consultado com um médico australiano.
As cenas patéticas com gritos de “escravos” vertidos por médicos brasileiros brancos contra médicos cubanos negros ou as cenas de violência e até de xenofobia durante a Copa das Confederações estão, inclusive, induzindo o mundo a enxergar o Brasil como um país mal-humorado, intolerante e até preconceituoso, o que é um absurdo em um país em que a maioria do povo é negra.
Uma ansiosa blogueira amiga que viaja com frequência ao exterior, inclusive, não só referendou o que disse a minha filha Gabriela como ainda diagnosticou que “O que Lula construiu [em termos da boa imagem do país] está sendo destruído” por essa luta político-ideológica sem limites, sem juízo e sem rumo.
Pobre do país que tem uma elite porca, mesquinha e corrupta como a nossa, capaz de enlameá-lo, de literalmente destruir a sua imagem para lucro de grupos políticos e para satisfazer idiossincrasias e interesses particulares. O Brasil não merece essa parcela microscópica e abastada de seu povo que trata de difamá-lo.

Julie Feinsilver estudou a diplomacia médica cubana: mortalidade infantil caiu 50%; FBI vigiou socióloga


Heloisa Villela, de Nova York, especial para o VIOMUNDO                                 
publicado em 1 de setembro de 2013 às 16:57
                               
Corporativismo e falta de conhecimento a respeito do sistema de saúde cubano são apenas alguns dos motivos para a reação de alguns médicos brasileiros à chegada dos colegas de Cuba, na visão da socióloga norte-americana Julie Feinsilver, estudiosa da diplomacia médica cubana.
Ela é produto daquelas coisas bem paradoxais dos Estados Unidos. O país que ainda mantém o embargo a Cuba, tantas vezes tentou matar Fidel Castro e minar a revolução também produziu uma estudiosa dedicada a acompanhar a revolução da saúde em Cuba e a diplomacia médica que transformou a pequena ilha em uma potência sem comparação no planeta.
Julie lançou, em 1993, o livro Healing the Masses (poderia ser traduzido para “Curando as Massas”) e mandou uma cópia para a então primeira dama Hillary Clinton que estava, naquele momento, encarregada de propor um novo modelo para o sistema de saúde dos Estados Unidos. Quem sabe Cuba poderia ensinar algo ao inimigo do norte?
Claro que a socióloga nunca ouviu qualquer comentário da Casa Branca. Mas hoje o livro e os artigos de Julie Feinsilver são referência para quem quer estudar o assunto e até a Casa Branca deu sinal de vida.
Julie já viu algumas citações de representantes do governo Obama pescadas do trabalho dela e até recebeu telefonemas de gente que trabalha no atual governo.
Hoje ela conta, entre uma risada e outra, que o presidente Barack Obama foi procurado por vários líderes da América Central e da América do Sul durante a Cúpula das Américas, em 2009, com pedidos para que suspendesse o embargo a Cuba. Muitos citaram a diplomacia médica cubana como exemplo. Obama teria dito (imaginem!) que os Estados Unidos poderiam aprender algo com o que Cuba vem fazendo.
Se hoje acha graça das reações a seu trabalho, Julie Feinsilver também lembra que a pesquisa teve momentos bastante difíceis.
Ela foi vigiada pelo FBI e pela CIA, teve o telefone obviamente grampeado e mais de uma vez entrou em casa e percebeu uma coisa ou outra fora do lugar.
Teve medo, sim, mas nunca largou o assunto pelo qual se interessou quando ainda era estudante. Antes de entrar na faculdade, Julie partiu para uma viagem de mochila nas costas, que começou pela América Latina.
Conheceu vários países, navegou rios da Amazônia e ficou muito impressionada com as desigualdades dentro dos países e entre eles. Ela terminou a viagem em Praga onde, por acaso, comprou “A história me absolverá”, de Fidel Castro.
Foi quando decidiu que a experiência de Cuba era algo interessante, que merecia ser estudado, principalmente levando em conta a realidade que acabara de conhecer.
Dados que ela cita sobre o trabalho médico dos cubanos: 153 milhões de consultas em todo o mundo, sendo 47 milhões em visitas caseiras; 3,5 milhões de cirurgias, sendo 1,6 milhão oftalmológicas; 1 milhão de partos e 1 milhão de doses de vacinas aplicadas. Cerca de 30 mil estudantes recebendo treinamento em seus próprios países. Desde 1961, os cubanos trabalharam em 103 países, seja em serviços médicos duradouros ou por causa de desastres.
Julie Feinsilver conhece bem o Brasil, foi consultora da Fiocruz e está acompanhando o bate-boca em torno do programa Mais Médicos.
De Washington, onde mora, ela conversou conosco.
Viomundo – Essa reação aos médicos cubanos também aconteceu em outros países?
JF – Sim, mas não na proporção do que aconteceu no Brasil. No Brasil o protesto foi mais sério, mais organizado e elevado a outro nível.
Viomundo – Por que essa reação toda?
JF – Não sei, mas talvez as organizações médicas sejam mais fortes do que em outros países, ligadas a partidos poderosos. Talvez o número de médicos seja maior. Também acho que pode haver uma confusão no Brasil por causa dos protestos que já estavam acontecendo, com relação aos gastos em estádios de futebol e preparativos para eventos esportivos no lugar de investimentos em saúde, educação e comida. Transporte, moradia e empregos.
Talvez haja uma confusão entre os assuntos. Mas a primeira coisa que eles pensam é: “Esse cara veio roubar o meu emprego”.  Não é o caso. Até onde eu entendi, poucos médicos brasileiros se inscreveram no programa e como na maioria dos países, profissionais altamente preparados não querem trabalhar em áreas remotas, em favelas. Nos EUA é a mesma coisa. Você não encontra muitos médicos trabalhando em áreas remotas.
Viomundo – Os médicos cubanos ajudam nessas situações?
JF – Tremendamente porque vão lá e trabalham nas áreas onde os médicos locais não vão. Desde 1961, mais de 135 mil profissionais de saúde cubanos trabalharam em 107 países e nas áreas onde trabalharam, em geral reduziram a taxa de mortalidade infantil pela metade. De acordo com as estatísticas deles, salvaram mais de quatro milhões de vidas.
Levaram atendimento básico a áreas onde as pessoas não tinham médico algum. E isso faz uma diferença enorme. O foco deles é bem diferente do foco dos médicos treinados no Brasil e em quase todos os países. Eles focam na medicina preventiva. Na promoção da saúde e na prevenção de doenças. E inclui o que chamam de aspectos bio-psicológico-sociais e de meio ambiente.
Eles olham para a pessoa em todas as suas dimensões e não apenas para um fígado, uma gripe, ou malária…
Eles vão para a comunidade e fazem uma pesquisa epidemiológica. Analisam a situação, os fatores de risco do indivíduo e da comunidade. Ao invés de adotar um ponto de vista da oferta, eles adotam o ponto de vista da demanda. Olham para os problemas da comunidade e tentam resolvê-los, mas também tentam evitar o desenvolvimento de doenças.
Viomundo – Em geral, eles trabalham nos países por um período de dois anos e depois vão embora ou ficam por mais tempo?
JF – Em geral eles vão por dois ou três anos, às vezes renovam o programa para mais uma rodada. Mas em geral são dois anos e vão embora, apesar de alguns ficarem… extra-oficialmente.
                    
[O vídeo acima diz respeito ao programa do Departamento de Estado dos Estados Unidos que tenta convencer médicos cubanos que trabalham fora da ilha a desertar  -- denúncia do Jair de Souza, no Viomundo]
Viomundo – E o que acontece com essa população que não tinha atendimento, volta a ficar desassistida?
JF – Esses acordos são bilaterais, entre governos. E o governo se compromete a melhorar a saúde da população, mas muitos países não tem um número suficiente de médicos e tem que contratar de fora. O compromisso é do governo e ele decide se vai continuar prestando o serviço ou não. Os cubanos também tem um programa de treinamento de profissionais de saúde locais. E mudaram de estratégia. Antes eles ofereciam bolsas de estudo para esses alunos estudarem em Cuba. E formaram mais de 28 mil médicos de outros países desde que começaram o programa, em 1961.
Mas agora estão treinando 50 mil médicos de outra forma. Criaram um modelo tutorial para os médicos cubanos que vão nessas missões internacionais poderem dar aulas. Tornam-se tutores de três ou quatro estudantes locais de medicina. Esses alunos acompanham os médicos e no começo, claro, apenas observam. Depois pesam bebês, medem pressão, não fazem nada muito sério. Mas aprendem técnicas clínicas e epidemiológicas, ao mesmo tempo em que tem aulas e instruções via internet.
É um tipo de treinamento no trabalho com algo mais. E esse, em geral, é o plano quando Cuba envia médicos: treinar alunos locais. Sempre alguém da comunidade mesmo, que vá trabalhar ali e que vai ficar ali porque não está acostumado com outro tipo de vida.
Viomundo – Como nasceu esse sistema de saúde cubano? Muita gente diz que foi inspiração do Che Guevara…
JF – O Che Guevara, que era médico, realmente se preocupou muito com a medicina e com a saúde durante a revolução. Ele teve influência. Mas Fidel Castro, desde cedo, foi um médico frustrado e admitiu isso em biografias. Eu o vi, pessoalmente, em conferências médicas, em Cuba, passar horas questionando os palestrantes. Ele conhece os detalhes. Todo mundo que o conhece e trabalha com ele diz que ele tem uma preocupação constante com a saúde.
Quando a revolução triunfou e os guerrilheiros entraram em Havana, Fidel foi fazer um grande discurso e uma pomba branca pousou no ombro dele. A pomba branca é um símbolo, na santeria afro-cubana, do Obatalá, o deus da saúde e da educação. Você pode olhar as fotos da época. Em 1978 o Fidel disse que faria de Cuba um poder médico mundial e via nisso uma competição moral com os Estados Unidos.
Viomundo – Quem venceu essa competição?
JF – Acho que foi Cuba!
Viomundo – O que é incrível para um lugar tão pequeno com tão poucos recursos…
JF – É extraordinário. Eles têm pouquíssimos recursos materiais, mas têm recursos humanos. E desde cedo Fidel percebeu a importância de investir em saúde, educação e ciência. Em 61, se não me engano, ele disse: “Nós vamos criar cientistas, não somos uma porção de indígenas de fraque”.
Viomundo – Eles perderam muitos médicos no começo da revolução?
JF – Perderam metade. Tinham pouco mais de seis mil médicos e perderam 3 mil imediatamente. Por isso tiveram que mudar o modelo de medicina que era praticado. Como em quase todos os países do mundo, existia uma má distribuição dos profissionais de saúde e das instalações, com grande concentração nas áreas urbanas. Inicialmente, se concentraram na zona rural e enviaram médicos para o interior.
Viomundo – Por que tiveram tanto sucesso? Por conta do planejamento centralizado? Por que não existe a necessidade do lucro então podem conduzir a medicina de outra forma? Por que existia um empenho pessoal?
JF – Acho que é uma combinação de tudo isso. Houve uma mística revolucionária entre os médicos. A experiência que as pessoas tiveram em Sierra Maestra, trabalhando durante a revolução, vendo pessoas morrendo de fome, com todo tipo de doença, resultado das condições em que viviam ou da falta de assistência médica, influenciou. Mas uma vez que o estado é o dono dos meios de produção, da educação e dos empregos ficou tudo muito mais fácil. Mas inicialmente, eram voluntários que se deslocavam porque havia esse idealismo, esse entusiasmo em corrigir os erros do passado. De melhorar a vida das pessoas na zona rural.
Viomundo – E as brigadas internacionais, você  sabe como selecionam quem vai viajar?
JF – Não sei os detalhes, mas existe uma seleção. As pessoas são voluntárias e eles selecionam, checam a experiência e as necessidades da missão. Mas analisam com cuidado os candidatos. Sabem quem trabalha aonde e quais são as qualificações dos candidatos. Muitos querem ir porque ganham bem mais e podem levar para casa produtos que não podem comprar lá [em Cuba]. Muita gente tenta entrar na lista e não consegue. Mas precisam de um grande número de candidatos.
Viomundo – Como a Venezuela resolveu o problema da revolta dos médicos locais?
JF – O governo foi adiante e passou por cima dos médicos. Mas hoje vários médicos venezuelanos estão trabalhando com os cubanos no programa Barrio Adentro. Os cubanos foram trabalhar em áreas onde ninguém queria trabalhar. Algumas muito perigosas. 68 médicos cubanos já foram mortos. Não foi por problemas políticos, mas por causa da violência mesmo.
Viomundo – Você disse, em um artigo, que a presença dos médicos cubanos em alguns países está promovendo mudanças nas relações entre médicos e pacientes, na forma de pensar a medicina. Poderia explicar melhor?
JF – Os médicos cubanos, quando criam um programa (não sei se será assim no Brasil porque já tem o SUS), eles trabalham em pequenas clínicas e vivem na comunidade. Estão sempre disponíveis. Visitam pacientes em casa, nas escolas, no trabalho. Isso muda a natureza da relação médico-paciente.
Os médicos cubanos não são da elite. Tratam os pacientes mais de igual para igual, sem a hierarquia que você encontra na maior parte do mundo. Eu saí com eles, acompanhei o trabalho. Eles não ficam sentados dentro da clínica. Vão visitar as pessoas e quando fazem isso, estão analisando os fatores de risco, as condições do local para tentar identificar quais podem ser as ameaças à saúde para propor trabalhos conjuntos com outras agências. Distribuição de água, ou algo assim.
E quando circulam na comunidade, são abraçados e cumprimentados como velhos amigos. É uma relação próxima, familiar, o que é uma grande diferença. Isso muda a maneira como olhamos para o serviço de saúde. Os cubanos se destacaram no mundo com esse serviço básico de saúde. Mas ao mesmo tempo eles têm um serviço terciário muito avançado, e biotecnologia, desenvolvimento farmacêutico. Procedimentos cirúrgicos muito avançados também.
Mas quando os pacientes veem a medicina de outra forma, os políticos enxergam uma relação de custo benefício melhor porque a prevenção é sempre mais barata do que a cura, isso obriga a repensar. Como resultado, nos países em que os cubanos trabalharam ou ainda estão trabalhando, muitos decidiram adotar um programa de saúde mais abrangente baseado no modelo cubano.
Isso aconteceu em muitos países da África, da América Central. Foi feito no Haiti, com o apoio do Brasil, através da Organização Pan-Americana de Saúde. E claro, a Venezuela, onde foi feito em larga escala, e no Timor Leste.
Quando as pessoas veem esse modelo funcionando e os resultados, se convencem. Claro que você não vai mudar a estrutura da medicina no Rio, em São Paulo ou Brasília porque são sistemas muito grandes e complexos, com vários interesses poderosos em jogo. Mas para lidar com as necessidades primárias dos cidadãos que não tem nenhum acesso, é uma ótima saída.
Eu ouvi alguns médicos do Brasil dizendo: “Se não tem médico na cidade, os pacientes podem ir até a próxima cidade”. Por favor! Estão pensando apenas nos interesses corporativistas deles. Mas esses que estão reclamando são médicos especializados, que trabalham em hospitais. Se estão chateados assim, por que não vão ao Amapá trabalhar?
Mas lá não poderão ver o paciente por uma hora, no sistema público, e depois enviá-lo para sua clínica particular. Acho que existe uma certa confusão de assuntos e os médicos que estão reclamando não estão pensando com clareza. Fizeram o Juramento de Hipócrates realmente a sério ou estão apenas buscando seus benefícios próprios?
Viomundo – Você se sente uma voz isolada, nos Estados Unidos, neste assunto?
JF – Com certeza! Mas sei que não sou a única voz. Comecei a escrever sobre isso em 1989. Desde então, alguns alunos, que agora são professores, escreveram dissertações sobre o assunto. Usaram meu livro e meu primeiro artigo em seus próprios trabalhos. Mas não existe muita gente estudando e falando disso. É uma pena.
Quando o meu livro foi publicado em 1993 (“Healing the Masses”) mandei uma cópia para a Hillary Clinton porque ela estava encarregada de um projeto de reforma da saúde. Não sei se ela recebeu e ninguém nunca me contatou. Mas sei que algumas pessoas do governo atual usaram meu trabalho porque vi citações e alguns me contataram nos últimos anos.
Em 2009, durante a Cúpula das Américas, o presidente Barack Obama foi abordado por quase todos os líderes regionais pedindo que ele suspendesse o embargo a Cuba e um dos temas mais citados foi a diplomacia médica de Cuba nestes países. E o bem que fez. Ao saber de tudo isso, na época, o presidente Obama disse: “Podemos aprender muito com o que Cuba está fazendo”.
Viomundo – Por que você resolveu se dedicar a este estudo?
JF – Quando terminei a escola, antes de entrar na faculdade, fui viajar pela América do Sul.  Fiquei impressionada com a disparidade de renda dentro dos países e entre os países. Também fui à Europa e fui parar em Praga. Lá entrei em uma livraria e vi esse livro intitulado “A história me absolverá”, do Fidel Castro. Achei interessante. Não era muito consciente politicamente. Mas fiquei impressionada. A revolução cubana era uma experiência nova que tentava reduzir as disparidades entre ricos e pobres, centros urbanos e zona rural. Depois de tudo que eu tinha visto…
Viajei muito pelo Brasil, pela Amazônia cruzando estradas que não existiam na estação chuvosa, descendo rios em pequenos barcos, e vi muitas coisas em vários países e achei que a revolução cubana era algo que merecia ser estudado. E foquei na política de saúde.
Viomundo– Por ser norte-americana, você teve problemas para ir e voltar? Para entrar nos Estados Unidos novamente?
JF – Na verdade, não. Mas os vistos para Cuba muitas vezes chegavam com bastante atraso.
Viomundo – Então, com o governo norte-americano você nunca teve problemas?
JF – Não é bem assim… Em 1979, quando estava voltando de Houston para Nova York, dormi no carro que me levava do aeroporto para New Haven, em Connecticut. Um caminhão bateu no carro bem onde eu estava sentada, no meio da noite.
Fui levada para o hospital com o nariz quebrado. Fui liberada as quatro ou cinco da manhã. Me deram um remédio forte para dor e fui para meu dormitório na Universidade de Yale. Às 8 da manhã recebi uma chamada de um agente do FBI.
Ele pediu desculpas por me incomodar depois do acidente, mas disse que precisava me fazer umas perguntas. Ninguém sabia do acidente! Eu estava sozinha!  Tinha ido a Cuba uns meses antes. Disse que não podia falar e no dia seguinte procurei um advogado de direitos civis que defendeu um dos Panteras Negras [grupo que atuou em defesa dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos].
Ele mandou dar o número de telefone dele caso ligassem novamente. Decidimos entrar com um pedido, dentro da Lei da Liberdade de Informação e consegui a cópia do arquivo a meu respeito no FBI. Eles estavam me vigiando. Os relatórios estavam quase todos cobertos com tarjas pretas. Não pude ler quase nada além do meu nome e do meu endereço. Mas na lateral estava escrito: “Enviado para a CIA”.
Viomundo – Você ficou com medo?
JF – Claro! Eu chegava em casa e algumas vezes algumas coisas estavam um pouco fora do lugar nas minhas gavetas. A minha linha de telefone sempre tinha uns barulhos estranhos. Acho que eles queriam me assustar porque não precisavam deixar sinais. Fiquei um pouco paranoica por um tempo. Descobri que meu telefone estava mesmo grampeado com a ajuda de um amigo especialista nisso.
Viomundo– E no meio acadêmico, teve dificuldades?
JF – Uma vez, com a editora da Universidade Harvard. Mandei um manuscrito. Exigiram mudanças em umas comparações que fiz com os Estados Unidos. Era importante demais e me recusei. Então, não publicaram.
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Abaixo, em inglês (desculpem, não tivemos como traduzir) a participação de Julie Feinsilver em um seminário sobre saúde em Cuba. Com ela participa o canadense John Kirk, co-autor do livro Cuban Medical Internationalism: Origins, Evolution, and Goals. Foi no Centro para Estudos Estratégicos Internacionais, em Washington.

Agroecologia: o revolucionário 

Polo Sindical da Borborema       

                   
O Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo deve ser lançado neste mês pelo governo federal na Serra da Borborema, Paraíba. O local é um dos mais organizados do sertão e do semiárido nordestino, e começou a escrever a sua história entre os anos 1962 e 63, quando foram fundados os primeiros sindicatos de trabalhadores rurais. Por Najar Tubino

O Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PLANAPO) provavelmente será lançado na semana entre 16 e 20 de setembro, conforme informação de Selvino Heck, secretário-executivo da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO), se possível com a presença da presidenta Dilma Roussef, e na Serra da Borborema, Paraíba. O local é um dos mais organizados do sertão e do semiárido nordestino, integra 21 municípios, l5 sindicatos, l2 associações de assentados, 85 bancos de sementes comunitárias, envolvendo quatro mil famílias e começou a escrever a sua história entre os anos 1962 e 63, quando foram fundados os primeiros sindicatos de trabalhadores rurais. Ou seja, na época da luta das Ligas Camponesas. Hoje, é considerado o Território da Borborema, onde são desenvolvidos muitos projetos com investimentos do governo federal, mas para as 150 comunidades que vivem na região – população de 65l mil habitantes, sendo 148mil na zona rural- é o Polo Sindical e das Organizações da Agricultura Familiar da Borborema. Dos 21 municípios 10 têm assentamentos.

As propriedades na região tem uma média de dois a 10 hectares, sendo 8.842 contam com apenas 3,2% das terras, e 254 com 43,6%. São mais de 21mil estabelecimentos baseados na agricultura familiar. O Nordeste concentra quase a metade das propriedades com modo de produção baseado na família – cerca de dois milhões. O estado com maior número é a Bahia com 665 mil, seguido por Minas Gerais com 437 mil e o Rio Grande do Sul com 378 mil. O Nordeste ainda concentra a maior área do semiárido, com mais de um milhão de quilômetros quadrados distribuídos em nove estados.
                   
Primeiras desapropriações
A luta no semiárido sempre foi por terra e água. Na Paraíba a situação ficou pior com a falência de 18 engenhos que deixou desempregados quatro mil trabalhadores. Com a dificuldade de acesso à água, desmatamento da caatinga, erosão, ameaça de desertificação, práticas agrícolas inadequadas e até mesmo salinização em áreas de irrigação, um grupo de trabalhadores e agricultores familiares começou a reagir. Em 1997 foram realizadas as cinco primeiras desapropriações, e em 1998 outras quatro. Em 2002 criaram o Fórum dos Assentamentos. Um ano depois conseguiram financiamento para bancar os viveiros de mudas nativas, o Banco Mãe das Sementes e as feiras agroecológicas.

Entre 2003 e 2007 foram apoiados 12 projetos do Programa Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Rurais com uma verba aplicada de R$1,6 milhão. Os temas variam de sementes crioulas, recursos hídricos, cultivos ecológicos, criações de animais, saúde e alimentação saudável. A definição de Território também envolve a atuação das organizações em rede, de um lado as entidades da sociedade civil, principalmente dos trabalhadores rurais, assentados e agricultores familiares, de outro os representantes dos governos federal, estadual e municipal, além de entidades como a Embrapa, Emater e as universidades federal e estadual, institutos federais e escolas agrícolas.
                
Ao redor de casa
No Território da Borborema funcionam sete feiras agroecológicas – duas em Campina Grande, 1 em Esperança, 1 em Remígio, 1 em Lagoa Seca, 1 em Solânea, 1 em Massaranduba e 1 em Alagoa Nova. As primeiras experiências com agroecologia surgiram nos municípios de Remígio e Solânea, ainda na década de 1990. Depois as experiências foram se espalhando, os agricultores começaram a visitar projetos no Ceará e em Pernambuco e, posteriormente, até mesmo no exterior. As feiras comercializam 600 toneladas de alimentos por ano. O passado do Território envolvia a produção de sisal, fumo e cana-de-açúcar. Em 2009, a Souza Cruz ainda tentou expandir as lavouras de fumo no Território, mas foi bloqueada pelas organizações do Polo Sindical.

Um trabalho realizado pelo Centro de Geografia do Trabalho da Universidade Federal da Paraíba, com visitas de campo e entrevistas com 60 agricultores familiares na microrregião do Curimataú Oriental, envolve o agreste com uma área de Brejo (úmida) e outra semiárida. A média de precipitação de chuvas na região é de 800 a 1.000mm por ano, com intervalo de seca de cinco a seis meses. A retenção e a gestão dos recursos hídricos é pedra fundamental na prática da agroecologia. Não somente com a construção de cisternas de placas, colhem a água das chuvas, mas também com barragens subterrâneas, barreiro, tanque de pedra, cisterna calçadão. A meta de construir um milhão de cisternas no nordeste ainda não foi alcançada. Os números estão entre 500 e 600 mil. Os pesquisadores da UFPB identificaram o que eles chamam de mudança “ao redor da casa”,
“Com a instalação de cercas para a produção de verduras em hortas e plantas medicinais e a criação de aves. Fazem doces e geleias de frutas nativas, produzem multifarinha com produtos locais para complemento alimentar e produzem forragem – estoque de alimento verde – para os animais.”

Os pesquisadores registram no final do trabalho: ”todo o conjunto de experiências vem produzindo impactos importantes na economia da casa, na maior diversificação e produção de alimentos, no uso do solo, nas estratégias de armazenamento e gestão da água, na saúde, enfim, na melhoria da qualidade de vida destas famílias”. As propriedades, no geral, possuem benfeitorias, como curral, cocheira, cisternas, galinheiro e eletricidade.
                    
Transformar ou ir embora
O Território da Borborema também é conhecido pela produção de frutas, sendo Matinhas considerado o município maior produtor de tangerina do Brasil. Eles identificam por Brejo, áreas mais úmidas. Tem o Brejo da banana, Brejo da Laranja o Brejo do Roçado, que é diversificado. Produziram, segundo o censo do IBGE (2006) 388.477 toneladas de frutas em 87 mil hectares. Além de banana, laranja tangerina, tem jaca,manga, caju, macaíba, coco, jabuticaba, cajá, entre outras.

É claro, que o Território da Borborema é um exemplo de organização dos trabalhadores rurais e da agricultura familiar. No Nordeste existem dezenas, talvez centenas. Muito mais pelo país. Esse é um movimento que já desencadeou uma transformação no cenário rural brasileiro. É o outro lado do agronegócio, mas que tem muito mais gente, uma produção saudável e justa, com capacidade de refazer o ambiente, reconstruir uma condição de vida que não existia mais, ou estava indo para o beleléu. Com a opção de ir embora para São Paulo ou Rio de Janeiro, ou qualquer outro centro.
                 
Outra via de produção
O PLANAPO é uma oportunidade histórica para quem está empenhado nesta transformação, além de ser uma reivindicação da sociedade civil organizada em seu local de trabalho e moradia. Por isso mesmo, a tarefa daqui até 2015, data que estão previstas as ações do PLANAPO, é colocar em prática os projetos, que são muitos. Além das tradicionais verbas de custeio e investimentos, tem a extensão rural que é estratégica – previsto R$758 milhões-, mais tecnologias sociais e acesso à água de produção com R$600 milhões, também para fortalecimento de redes de agroecologia, do agroextrativismo e da produção orgânica com R$100 milhões e outros R$150 milhões na aquisição de recursos genéticos vegetais e animais, como sementes crioulas e R$65 milhões para pesquisa e extensão tecnológica. Isso fazendo um resumo superficial.

Na verdade, a agroecologia há muito deixou de ser alternativa, para ser outra via de produção de alimentos, sem agroquímicos e venenos. Muito mais do que isso, a consciência de trabalhadores rurais assentados e agricultores familiares, que são a maioria no campo brasileiro, expressará a forma de luta contra o agronegócio mundial, que se organiza num sistema de dominação tecnológica, principalmente, com corporações dos Estados Unidos. Os transgênicos surgiram em St. Louis, na sede da Monsanto há 20 anos. A primeira base de expansão e experimentação no campo foi o meio-oeste estadunidense. Depois as corporações compraram as empresas de sementes e, já em 2005, a Monsanto começou a comprar empresas que produzem sementes de hortigranjeiros.
                 

Especuladores financeiros
Por outro lado, reconhecidos especuladores mundiais e integrantes do sistema financeiro começam a vislumbrar o campo como um grande negócio. Temos o exemplo de George Soros no Brasil, principal acionista da Cia. Agrícola Adecoagro, inaugurou a sua terceira usina de açúcar em abril de 2013, em Ivinhema (MS). Mas a Adecoagro produz milho, soja e algodão também no Uruguai e Argentina. Em 2012 faturou US$604,7 milhões. O ex-sócio de George Soros, Jim Rogers recentemente deu uma entrevista falando que os próximos 10, 20 anos serão terríveis para o setor financeiro, porque a alavancagem é muito grande e há muita competição. Por isso, ele está investindo em ativos agrícolas como fazendas de capital aberto na Austrália, Indonésia e África – onde existem 80 milhões de agricultores familiares.

Os Estados Unidos montaram o modelo tecnológico e químico, sempre com a participação europeia, onde a adubação química e os agrotóxicos, agora as sementes transgênicas formam o tripé de produção. Espalharam pelo mundo que não precisava ter gente no campo – somente 2% da população. Lógico, que na conta não entram os mais de dois milhões de imigrantes ilegais que trabalham nas fazendas dos EUA, 600 mil somente na Califórnia. Um modelo que nunca colocou o custo dos resíduos e do solo erodido e que vai embora com as chuvas todo ano – 25% das terras agrícolas do mundo estão degradadas, segundo a ONU. Muito menos as consequências da mudança climática e a destruição dos ecossistemas. A cobrança desta fatura está bem próxima de ser executada.
             
       Panorâmica de Campina Grande(PB)                  Festa junina, marco de Campina Grande

domingo, 1 de setembro de 2013

Por que a direita odeia tanto Zé Dirceu?      

 Provavelmente porque ela não conseguiu seduzi-lo como fez com tanta gente...                                                                                      

PAULO NOGUEIRA                           DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO                            

  Dirceu

Por Por que Zé Dirceu é tão odiado pela direita?
Ele é ainda mais odiado que Lula, o que não é pouco.
Tenho minha tese. 
 De Lula era esperado, mesmo, que estivesse do lado oposto ao da direita. Operário, nordestino, nove dedos, pouca oportunidade de estudar.

De Lula era esperado, mesmo, que estivesse do lado oposto ao da direita. Operário, nordestino, nove dedos, pouca oportunidade de estudar.

Seria uma aberração Lula se alinhar ao 1%, para usar a grande terminologia do movimento Ocupe Wall Street.

Mas Dirceu não.

Ele tinha todos os atributos para figurar no 1% que fez o país ser o que é, um dos campeões mundiais de iniquidade, a terra das poucas mansões e das tantas favelas.

Articulado, inteligente, dado a leituras. Bem apessoado. Na ótica do 1%, pessoas como Zé Dirceu são catalogadas como traidoras, e devem ser punidas exemplarmente para que outras do mesmo gênero, ou se preferirem da mesma classe, não sigam seu exemplo.

Na França revolucionária, a aristocracia entendia que os Marats, os Desmoullins, os Héberts pregassem a morte do velho regime, mas jamais conseguiu compreender o que levou o Duque de Orleans a também lutar pela liberdade, pela igualdade e pela fraternidade.
O 1% brasileiro, na história recente, soube sempre atrair equivalentes a Dirceu. Carlos Lacerda, por exemplo, era de esquerda na juventude.

Depois, se tornou um direitista fanático. Segundo relatos de quem o conheceu, ele se cansou da vida dura reservada aos esquerdistas em seus dias e foi para onde o dinheiro estava.

O 1% recompensa bem. Nos dias de hoje, se você defende os privilégios, acaba falando na CBN, aparecendo em entrevistas na Globonews, tendo coluna em jornais e revistas, dando palestras muito bem pagas. E, com a carteira abastecida, ainda pode posar de ‘corajoso’ defensor da ‘imprensa livre’.

Dirceu não fez a trajetória de Lacerda. Não abjurou suas crenças.

E então virou o demônio.

Quem o demonizou foram exatamente aqueles que o adulariam se ele se vendesse. A imagem que a mídia construiu de Zé Dirceu concentrou num único homem todos os defeitos possíveis: vaidoso, arrogante, corrupto, inescrupuloso, maquiavélico.

Um monstro, enfim.

Pegou essa imagem? Menos do que o 1% gostaria, provavelmente. Quem não se lembra de Serra, num debate com Haddad, repetidas vezes tentar encurralar seu oponente com a acusação de que era “amigo do Dirceu”?

Haddad reconheceu tranquilamente a amizade, e quem terminou eleito não foi Serra.

Na mídia tradicional, a campanha contra Dirceu desconhece limites jornalísticos e, pior que isso, legais.

Um repórter tenta invadir criminosamente o quarto do hotel que ele ocupa, e ainda assim é Dirceu que aparece como o vilão do caso.

Quem conhece o Dirceu real, com seus defeitos e virtudes, grandezas e misérias, são aqueles poucos de seu círculo íntimo. Para eles não faz efeito o noticiário que o sataniza. (Caso interesse a alguém, nunca votei em Dirceu e não o conheço pessoalmente.)

De resto, esse noticiário – ou propaganda – não é feito para eles, mas para os chamados ‘inocentes úteis’, aqueles que em outras épocas acreditaram no “Mar de Lama” de Getúlio Vargas ou no “perigo comunista” representado por João Goulart.

É a imagem demoníaca de Dirceu construída pela mídia que, nestes dias, é utilizada pela maioria dos juízes do Supremo no julgamento do Mensalão.

Não chega a ser surpresa. A justiça brasileira tradicionalmente foi uma extensão do 1%.

Estudiosos já notaram a diferença da atuação da justiça no Brasil e na Argentina na época das duas ditaduras militares.

No Brasil, a justiça foi servil aos militares. Na Argentina, a justiça desafiou frequentemente os militares ao declarar inocentes muitos acusados de “subversivos”.

Isso acabou levando os militares argentinos a simplesmente matar milhares de opositores sem que fossem julgados.

Fundamentalmente, Dirceu paga o preço de sua opção teimosa pelo 99%.

Mas quem vai julgá-lo perante a história não é o 1%, representado por uma mídia que defende seus próprios privilégios e finge se bater pelo interesse público. E nem uma corte em cuja história a tradição é o alinhamento alegremente pomposo com o 1%.

Ele deve saber disso, e imagino que isso o conforte em horas duras como esta.
(Do AMgóes - Tenho asco de neoudenistas sem causa nem futuro, cujo inexorável       destino será o reservado à   mediocridade: o lixo da História. A sociedade está farta deles e já faz tempo que não lhes dá o menor crédito. Diferentemente de José           Dirceu, todos  passarão, irresgatáveis, sem choro nem vela, porque nada                   representam para o país e a cidadania.)                                                                     

Levante Popular da Juventude:     Por que jogamos merda na Globo

                                                            
                                            
                                  glob
No dia 30 de agosto último, sexta-feira, realizamos protestos em sete capitais brasileiras em frente à Rede Globo e afiliadas, pela democratização da comunicação. A ação que realizamos que ganhou maior repercussão nos escrachos foi jogar merda em frente às sedes da emissora.

No dia posterior, as Organizações Globo lançaram na internet a sua confissão de culpa, em relação ao apoio que deu ao Golpe de 1964 e à Ditadura Militar. Nesse sentido, apresentamos aqui as razões que levaram a nos manifestar dessa maneira:

-Jogamos merda na Globo porque ela é ilegal e antidemocrática. A Globo é a representação máxima do monopólio das comunicações em nosso país, exercendo um poder absoluto na definição do que é verdadeiro e do que é falso, do certo e do errado, do que é legítimo e do que é ilegítimo no Brasil. Tal grau de concentração é incompatível com a Constituição de 1988, que proíbe expressamente o monopólio e oligopólio dos meios de comunicação. Um poder de controlar corações e mentes como o construído pela Globo jamais seria tolerado mesmo em países liberais.

-Jogamos merda na Globo porque ela é manipuladora e faz censura. Está intimamente associada às forças conservadoras do Brasil. Sua trajetória está marcada por uma relação intrínseca com o sistema político vigente e com a classe dominante. Para tanto, a Globo manipula fatos, constituindo e desconstituindo presidentes de acordo com seus interesses e das frações de classe as quais representa. É notória a sua orientação editorial no sentido de criminalizar e deslegitimar a ação dos movimentos sociais e suas bandeiras populares.

-Jogamos merda na Globo porque ela é golpista. Foi o suporte ideológico do Golpe Militar de 1964. As Organizações Globo, como recentemente assumiu, foram cúmplices de um regime ditatorial que perseguiu, prendeu, sequestrou, torturou e assassinou milhares de brasileiros que lutaram pela democracia, mas que eram tratados como “terroristas” nas manchetes dos seus jornais. A Globo foi conivente com a maior marca de sangue que o povo brasileiro carrega em sua história.

-Jogamos merda na Globo porque ela foi beneficiada e construiu um império sobre a obra da ditadura assassina. Nunca assumiu que seu império só se formou a partir das vantagens que obteve por sua associação com as forças sociais, políticas e militares que sustentaram a ditadura. E por conta dessa parceria, até o final do regime ocultou as lutas por redemocratização – inclusive o histórico comício de São Paulo, em 1984, pelas Diretas Já – prolongando ao máximo a sua duração. Portanto, não cometeu um erro, mas um crime.

- Jogamos merda na Globo porque ela É contra as mudanças que o povo quer. Em seu editorial, a Globo reafirma que era contra as Reformas de Base propostas por João Goulart. Interrompidas pelo golpe, essas Reformas até hoje não foram realizadas, na medida em que o povo permanece sem acesso pleno a direitos elementares. A Globo é um dos principais entraves para o avanço nas necessárias reformas estruturais no Brasil, como a Reforma Educacional e Política.

-Jogamos merda na Globo porque ela é hipócrita. A Globo é propriedade da família mais rica do Brasil. Os filhos de Roberto Marinho somam um patrimônio de R$ 51 bilhões. Ao mesmo tempo, a Globo deve ao Estado brasileiro R$ 615 milhões, somando os impostos que sonegou na compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002 e as multas que recebeu da Receita Federal. Ou seja, suas empresas de comunicação atuam como agente moralizante da sociedade brasileira(julgando e denunciando desvios de verbas públicas) e promovem ações voltadas para “inclusão social”, enquanto acumulam o maior riqueza familiar do país e sonegam impostos.

-Jogamos merda na Globo porque ela joga merda na gente. A Globo contribui decisivamente para a formação de um visão de mundo conservadora, alienada e discriminadora. Sua programação está repleta de narrativas que degradam o papel da mulher, que invisibilizam a população negra e estigmatizam os homossexuais. A Globo representa também o monopólio da arte, da música e do cinema no Brasil, atuando como um torniquete que impede acesso, difusão e produção das expressões culturais mais genuínas do povo brasileiro. A emissora transformou um dos maiores patrimônios do país, o futebol, em um ativo no mercado publicitário, controlando desde a direção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) até os horários dos jogos.

-Jogamos merda na Globo para quebrar um pacto de silêncio que existe sobre o seu Império, pois a maior parte das forças políticas, seja por cumplicidade ou por medo de se desgastar politicamente com a emissora, não questiona o seu poder. Da mesma forma, o governo federal, em nome desse pacto, silencia quanto à regulamentação dos meios de comunicação e continua alimentando essa máquina de recursos por meios das verbas publicitárias dos ministérios e empresas estatais.

-Jogamos merda na Globo pois a merda é a representação do que há de mais sujo e repugnante. É aquilo que deve ser descartado. Ao mesmo tempo, a merda fertiliza e pode fazer nascer algo novo, como a confissão de culpa que a empresa assumiu por ter apoiado a ditadura durante 21 anos. Como poderá fertilizar a regulamentação e a efetiva democratização dos meios de comunicação.

Somente com atos dessa natureza seria possível expressar a necessidade urgente de democratizarmos a comunicação em nosso país. Assim como a luta por Memória, Verdade e Justiça, que pautamos a partir dos escrachos aos torturadores, a luta pela democratização da comunicação é uma etapa fundamental para consolidarmos o processo de redemocratização da sociedade brasileira até hoje inacabado.
Não descansaremos enquanto esses objetivos não forem alcançados.

Pátria Livre, Venceremos!
1º de setembro de 2013
Levante Popular da Juventude


Formados em Cuba em 

1º lugar no Revalida!      


Miguel do Rosário                                                            TIJOLAÇO                                                      

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1 de setembro de 2013 | 09:27

O jornal Estado de São Paulo usou a Lei da Informação, criada por Dilma, e solicitou os resultados do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida) em 2011 e 2012. O jornal, ultraconservador e inimigo mortal de Cuba, certamente queria usar os dados para atacar a iniciativa do governo federal de importar médicos cubanos.
Foi um tiro no pé.
Os dados repassados pelo Ministério da Educação revelaram que os médicos formados em Cuba foram os que obtiveram o melhor desempenho no exame.
A matéria traz ainda a declaração de uma médica que se formou em Cuba:
“A gente vê que os formados em Cuba têm um enfoque mais humanitário. Na faculdade, por exemplo, tive uma disciplina específica de Medicina Familiar e Comunitária e atendi os pacientes onde eles precisavam”, afirma a médica paulistana Denise Assumpção do Nascimento, de 32 anos.
Ela se formou na Elam em 2003, fez especialização em Medicina Comunitária na Venezuela e teve seu título revalidado no Brasil em 2011. Hoje, cursa Medicina do Trabalho no Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo (USP).
Alguém poderia repassar essa matéria para o pessoal da Globo, que apesar das desculpas esfarrapadas sobre seu apoio à ditadura (sobre o que ainda falaremos muito), insiste na prática da distorção sistemática das informações. Neste domingo, o Globo diz que, “na Venezuela, acordo com Cuba foi negativo”, mas não traz nenhum dado, apenas uma declaração genérica de “analistas locais” e “importantes médicos”.
Médicos e analistas tão importantes que não tem sequer um nome… Onde estão as estatísticas?
A bem da verdade, uma informação parecida já havia sido publicada, inclusive por aqui, há algumas semanas, quando foi divulgada uma tabela com a taxa de aprovação do Revalida em 2011 e 2012 segundo a nacionalidade dos candidatos inscritos. Venezuelanos e cubanos figuram em primeiro lugar.
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Abaixo a matéria do Estadão:

Formados em Cuba lideram nos exames do Revalida                         

Dos 77 aprovados em 2012, 15 vieram da Escola Latino-Americana, cujo currículo é criticado por especialistas; exame é obrigatório no Brasil

31 de agosto de 2013 | 19h 45
BÁRBARA FERREIRA  SANTOS     ESTADO.COM.BR - Saúde
A escola oferece curso de Medicina para estudantes de 113 países, incluindo brasileiros saídos de movimentos populares. A instituição, porém, recebe críticas de especialistas e conselhos de Medicina brasileiros, pois seus profissionais têm de fazer um complemento nos estudos para atuar no sistema de saúde cubano. 
Para o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), Cid Célio Jayme Carvalhaes, os médicos aprovados no Revalida têm o conhecimento necessário para exercer a profissão no Brasil, apesar das críticas à escola. “Sabemos que, por determinação do governo cubano, os alunos da Elam não podem atuar em Cuba sem o complemento (residência). Mas, se foram aprovados no Revalida, têm o mínimo exigido para atuar no Brasil. Eles passaram, tiveram mérito”, disse. 
Quem estudou na Elam e teve seu título aprovado no Brasil diz que não há diferença na prática médica dos dois países. “Mas a gente vê que os formados em Cuba têm um enfoque mais humanitário. Na faculdade, por exemplo, tive uma disciplina específica de Medicina Familiar e Comunitária e atendi os pacientes onde eles precisavam”, afirma a médica paulistana Denise Assumpção do Nascimento, de 32 anos.
Ela se formou na Elam em 2003, fez especialização em Medicina Comunitária na Venezuela e teve seu título revalidado no Brasil em 2011. Hoje, cursa Medicina do Trabalho no Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo (USP). 
O corpo técnico e a vice-reitora da Elam, Yoandra Muro Valle, foram procurados pelo Estado, mas não responderam aos pedidos de entrevista.
Nessas duas edições do exame, os médicos formados na Bolívia foram os que mais se inscreveram. Em 2011, dos 677 inscritos, 304 haviam se formado naquele país. Em 2012, eles foram 411 dos 884. Porém, o porcentual de aprovação foi um dos menores, de 4,61% e 3,65%, respectivamente.
Para os estudantes que foram estudar na Bolívia, o principal fator para a baixa aprovação é a falta de controle do governo sobre a qualidade das escolas. “Os brasileiros são maioria na Bolívia e querem voltar para o País quando se graduam, como eu estou tentando. O problema é que tem aumentado o número de escolas de baixo preço, sem controle adequado do Estado”, diz o brasileiro Juan Domingo Alpire Ramos, formado em 2011 em Cirurgia Geral pela Universidad Mayor de San Simón, uma das mais tradicionais do país.