domingo, 28 de junho de 2015

Fracasso da novela 'Babilônia' marca o fim da tevê como            a conhecemos 

Paulo Nogueira

O fim de um ciclo na mídia
O fim de um ciclo na mídia
A Globo vive num regime de autoilusão, como se pode verificar pela entrevista com o diretor-geral Carlos Schroder publicada pela Folha.
Perguntaram a Schroder sobre o fiasco da novela Babilônia, que dias atrás cravou 17 pontos no Ibope em São Paulo, um extraordinário recorde negativo na trajetória das novelas da Globo.
Schroder achou vários culpados.
O primeiro deles, naturalmente, é o povo brasileiro, “mais conservador” do que as pessoas imaginam.
Depois, ele citou uma novela da Record e outra do SBT.
Admitiu, ligeiramente, que alguma coisa na trama “não funcionou”.
Schroder só não tocou na maior razão do fracasso: o declínio veloz da televisão como mídia na Era Digital.
Rapidamente, a tevê como conhecemos caminha para o mesmo local reservado a jornais e revistas: o cemitério.
Considere o slogan do aplicativo de vídeos que a Reuters acaba de lançar: “A tevê de notícias para quem não vê tevê”.
O consumo de vídeos está cada vez menos na televisão e cada vez mais na internet.
No campo do entretenimento, sites como o Netflix e agora a Amazon oferecem uma fabulosa quantidade de séries, filmes e documentários.
Você vê quando quer, na hora que quer, o que quiser.
No campo das notícias, vídeos selecionados pelas comunidades são postados nas redes sociais, e ali consumidos – fora das emissoras tradicionais.
Uma parte expressiva dos vídeos que viralizam nas redes sociais é produzida pelos próprios internautas – ao flagrar cenas notáveis no dia a dia, como a surpresa que aguardou o dono de um automóvel que parou numa vaga de deficientes.
No esporte, você começa a ter a opção de assinar canais específicos para ver o que deseja – sem ter que comprar um pacote caro de tevê por assinatura.
Sabia-se faz tempo que a internet ia matar jornais e revistas. Mas não se imaginava que a tevê se transformaria tão celeremente na próxima vítima.
Uma pesquisa recente nos Estados Unidos mostrou que o número de pessoas que não se imaginam sem internet e celular cresceu vigorosamente nos últimos anos, na mesma medida em que decresceu o contingente dos que não podem viver sem tevê.
No Brasil, um levantamento deixou claro que televisão é hoje uma coisa para um público velho e com baixo nível de educação, exatamente o oposto daquilo que os anunciantes buscam.
A Globo, neste sentido, é a próxima Abril.
Caíram todas as circulações das revistas da Editora Abril nos últimos anos. A única falsamente estável é a da Veja, graças a manobras (custosas) que inflam artificialmente os números, e que os anunciantes fingem não ver.
Do mesmo modo, todas as audiências da Globo são uma sombra do que foram antes do surgimento e expansão da internet.
O Jornal Nacional luta para se manter na casa dos 20 pontos, marca que seria uma tragédia há dez anos.
O Fantástico já escorregou para baixo dos 20, e ninguém mais comenta o que ele deu ou deixou de dar.
Quando, no futuro, alguém for estudar a história da tevê convencional, Babilônia será citada provavelmente como um capítulo especial.
Babilônia, com sua miséria de Ibope, é o grande marco do fim da tevê como a conhecemos.
A culpa não é do povo, como quer a Globo, mas de uma coisa chamada vida, ou mercado, como você preferir.

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Dilma  visita EUA  para  restaurar  confiança  e impulsionar economia

a BBC Brasil em Washington)

Após se encontrar com Obama na última Cúpula das Américas em abril, Dilma afirmou que o episódio da espionagem havia sido superado
Quase dois anos depois de cancelar uma viagem aos Estados Unidos após denúncias de que havia sido espionada pelo governo americano, a presidente Dilma Rousseff desembarcou neste sábado no país para tentar restaurar a confiança entre as duas nações e buscar estímulos para recuperar a economia brasileira.
Do lado brasileiro, a missão tem sido tratada como a mais importante viagem da presidente em seu segundo mandato. Com popularidade em baixa e enfrentando os efeitos da crise mundial, Dilma priorizará na visita discussões sobre como ampliar os laços econômicos com os Estados Unidos.
Ao discursar em evento sobre a visita, na última quinta-feira(25) em Washington, o embaixador brasileiro nos EUA, Luiz Alberto Figueiredo, só tratou de um assunto: economia. "Há uma forte confiança nos dois países sobre os benefícios em aumentar o comércio e os investimentos bilaterais", afirmou na sede do CSIS (Center for Strategic and International Issues).
Em entrevista na mesma quinta-feira, Ben Rhodes, assessor do Conselho Nacional de Segurança americano, e Mark Feierstein, diretor sênior da Casa Branca para o Hemisfério Ocidental, disseram que o comércio será um ponto central da visita e que Brasil e Estados Unidos podem dobrar o volume de suas transações em uma década. Hoje as trocas somam cerca de US$ 100 bilhões ao ano.

De Wall Street ao Vale do Silício

A programação da viagem reforça a ênfase econômica. Em Nova York, primeira parada da presidente, ela se reune com empresários brasileiros neste domingo (28)e, na segunda(29), tentará convencer investidores americanos a participar dos leilões que o governo prepara na área de infraestrutura.
Na terça(30), em Washington, ela encerrará um encontro de empresários na Câmara de Comércio americana e, na quarta, se encontrará com executivos do Vale do Silício, na Califórnia.
A visita aos Estados Unidos se insere numa ofensiva diplomática da presidente e sinaliza uma guinada da estratégia econômica do governo. No início do mês, ela viajou à Bélgica para tentar acelerar o acordo de livre comércio que a União Europeia e o Mercosul negociam há 15 anos e, em maio, esteve no México, onde deu início a negociações para um amplo acordo comercial com o país.
Dilma diz que a nova postura reflete o fim do "superciclo das commodities" (matérias-primas), cujos altos preços na última década alimentaram o crescimento econômico do Brasil. Segundo ela, com os preços das matérias-primas em baixa, para voltar a crescer o Brasil agora terá cada vez mais de atrair investimentos externos e abrir mercados estrangeiros a produtos industrializados brasileiros.
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Vale do Silício é uma das paradas de Dilma
Esperam-se na visita aos Estados Unidos alguns anúncios pontuais, como a abertura do mercado americano para a carne brasileira in natura, medidas para facilitar o comércio nos setores de cerâmica, máquinas e materiais de construção e ações para reduzir os custos e a burocracia nas transações bilaterais.
Grandes empresas dos dois países pressionam os governos a começar negociações para um acordo de livre comércio, pôr fim à bitributação de produtos vendidos entre os dois países e eliminar a exigência de vistos de turismo e negócios para brasileiros e americanos.
Executivos dos dois países se reuniram em Brasília há dez dias para discutir propostas a serem apresentadas às duas delegações durante a visita. Vice-presidente da Archer Daniels Midland, empresa americana que opera no setor agrícola brasileiro, Shannon Herzfeld diz que o encontro foi "uma explosão de entusiasmo".
"Ideias surgiam aqui e ali, as pessoas interrompiam umas às outras. Havia um imenso esforço no setor privado dos dois lados em identificar propostas tangíveis", ela afirmou em evento na quarta-feira no Council of the Americas, em Washington.
Os próprios empresários avaliam, porém, que ainda não há condições para grandes avanços nessas áreas, e que primeiro os dois governos precisam intensificar o diálogo.
Por isso muitos analistas que acompanham os preparativos vêm dizendo que o ponto mais importante da visita será pôr fim ao distanciamento que sucedeu o cancelamento da viagem de 2013.
"Se há um único resultado concreto que nós absolutamente deveríamos conseguir na semana que vem, é reconstruir a confiança nos altos níveis dos governos", disse em evento no Wilson Center Kellie Hock, sócia-gerente da consultoria internacional McLarty Associates.
Após se encontrar com Obama na última Cúpula das Américas em abril, no Panamá, Dilma afirmou que o episódio da espionagem havia sido superado, tendo o presidente americano assegurado que os fatos não se repetiriam.
Agora, segundo Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, cabe à presidente passar ao governo americano "uma mensagem clara" sobre quais são as prioridades do Brasil na relação com a maior potência global.
"A visita é uma oportunidade para enviar esses sinais, mesmo que a estratégia geral ainda não esteja lá", ela disse no Wilson Center.
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Presidente está no meio de uma ofensiva diplomática; acima, visita à Bélgica para a Cúpula EU-Celac, no início do mês
De concreto, é provável que os dois países anunciem um acordo na área climática, em esforço liderado pela Casa Branca. Em novembro, os Estados Unidos fecharam com a China um acordo para a redução voluntária das emissões de carbono.
Obama tem dito que frear as mudanças climáticas é um dos maiores objetivos de seu governo. Ao negociar acordos com outras potências emergentes, ele espera chegar fortalecido à próxima cúpula do clima em Paris (COP-15), em dezembro.
O Brasil, porém, resiste em anunciar metas de redução de emissões agora, o que deve tirar a força de  eventual acordo nessa área.

Cooperação militar

Durante a visita, também deverá haver avanços no diálogo entre os dois países sobre defesa.
Na quinta-feira, o Senado brasileiro aprovou dois acordos com os Estados Unidos que tramitavam há vários anos, liberando os dois documentos para a assinatura dos presidentes durante seu encontro em Washington.
Um dos acertos traça os parâmetros para cooperação bilateral em defesa. O outro trata da proteção de informações militares sigilosas.
Nathan Thompson, pesquisador no Instituto Igarapé, no Rio de Janeiro, diz que os Estados Unidos "veem o Brasil como um parceiro capaz de abordar outros países tanto diplomática como militarmente de uma forma que os Estados Unidos não conseguem, por serem o cara mais forte da turma".
Thompson tem estudado a crescente presença militar brasileira na África. Hoje o país mantém parcerias em defesa com 33 nações africanas.
Segundo Thompson, embora os movimentos brasileiros no continente gerem "tensão e fricção" nos Estados Unidos, os dois países já cooperam em ações contra a pirataria na costa africana do Atlântico e há margem para mais ações conjuntas.
"O Brasil tem uma pegada mais leve nessa área que pode ser útil aos Estados Unidos".

sábado, 27 de junho de 2015

      (Najla Passos) 

Paul Singer:  "O  PT   tem   que optar   entre  as  vantagens  do poder e seu projeto para o país"

Decepcionado com o partido, ele afirma que o último congresso passou em branco. Mas defende que não é possível esquecer o legado que o PT deixou ao Brasil...


EBC
Na segunda parte da entrevista que concedeu à Carta Maior, o economista e sociólogo Paul Singer analisa os desafios do partido que ajudou a fundar, 12 anos após ele ter se tornado governo: do desencanto da sua base social com a política de ajuste fiscal do governo Dilma Rousseff a sua falta de capacidade de continuar a apresentar uma utopia ao país. 

Secretário Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Singer também anuncia as boas novas que vêm dessa atividade que abraçou como intelectual e militante. Para ele, é a economia solidária que organiza os verdadeiros socialistas do país. E, apesar da voracidade do agronegócio, garante que ela está avançando. 
Confira:
CM - Poucos dias antes do 5º Congresso do PT, o senhor disse, em entrevista à Folha de S. Paulo, que o PT poderia perder sua base social, por conta dessa política econômica do governo Dilma. Como o senhor avaliou o Congresso, já que essa vontade de mudança, de pelo menos grande parte da militância, não teve muita acolhida?
PS -  Naquela entrevista, eu mencionei o Congresso, que não tinha acontecido ainda, na esperança de que ele discutisse essas e muitas outras questões, que o PT fizesse uma autocrítica do seu papel na conjuntura atual. Congresso é para isso. Agora, eu não tenho nenhuma notícia de que isso aconteceu. A imprensa não tratou do assunto. 
CM - Eu li alguns artigos de pessoas que estiveram presentes. E me parece que ficou tudo como está. Nenhuma mudança programática, nem de procedimentos internos. Nenhum movimento na direção da criação da Frente Popular, que era um dos caminhos de enfrentamento proposto que, inclusive, o senhor defendia. 
PS -  A primeira reação minha ao que você tá me contando é que foi um congresso que passou em branco. Por que será? Era a hora de discutir o que está acontecendo, sem querer fuxicar, puxar briga, mas o PT tem que fazer um balanço. Eu acho que nós precisamos fazer um outro congresso. Eu li na imprensa uma fala do Lula que me impressionou muito. Ele diz que o PT, devido ao longo período no poder, se “aburguesou”. Ele não usou esse termo, mas disse que não há mais ninguém que queira fazer alguma coisa pelo partido de graça. Tudo tem que ser pago. E não era assim no PT. Nunca foi. 
CM - O PT está se tornando igual aos demais partidos?
PS -  O que a fala do Lula traz de importante é que o PT tem que optar entre essas pequenas vantagens pessoais e seu projeto.  Quando ele fala que o PT precisa de uma nova utopia, ele está de alguma maneira usando um linguajar que eu, de certa maneira, comecei a usar. Não que eu seja dono da expressão. Mas a palavra utopia é muito expressiva, porque significa uma proposta à sociedade de como nós achamos que o país deveria ser. E isso dentro de uma democracia é essencial. Um partido político tem que expor a sua utopia, a sua ideia do que há e do se deve fazer. E isso o PT está deixando de fazer.
CM - Por quê? Aquele mundo que o PT propunha lá na sua fundação já é inviável, venceu, precisa de atualização? Ou é o PT que não é mais aquele?
Resultado de imagem para Fotos de Paul SingerPS -  A pergunta é muito boa, porque me faz pensar. Eu diria o seguinte. O PT realizou coisas importantes. Muitos analistas falam que foi o melhor governo da república. O governo do Lula, do Lula e da Dilma, e eu acho que há motivos para isso. Não há garantia de que seja o melhor, mas ninguém tirou tanta gente da miséria quanto os governos do PT. E isso para mim é fundamental. Absolutamente fundamental. Os longos anos de pleno emprego foram importantíssimos para o Brasil.  Importante para o movimento sindical ou movimento operário, para a esquerda de uma forma geral. Primeiro, porque foi a esquerda que conseguiu realizar isso. Numa escala, eu diria que isso é surpreendentemente grande. E seria injusto ignorar isso. O PT não é a Dilma neste momento. É um momento difícil para ela, as intenções, a meu ver, são boas. Poderão se viabilizar ou não. Ninguém sabe ainda. Vai demorar meses e etc. 


CM – Na sua avaliação, um governo do PT poderia fazer diferente?
PS - Eu queria dizer o seguinte. Há uma parte importantíssima da classe dominante, que nunca foi PT, nem esquerda, mas com a qual nós temos interesses em comum. Estou me referindo a burguesia industrial. Para nós, do Partido dos Trabalhadores, ter uma indústria crescendo seria importante. E, pelo contrário, essa indústria está em um processo de contração. Ela está ficando cada dia menor. Pelo que estou sabendo, em parte pelo grande volume de importação de produtos que antes nós fabricávamos no Brasil e, agora, estamos importando da China, principalmente, ou da Coreia. Esses produtos não são fabricados mais no Brasil e mais empregos se perdem, de modo de que aí eu tenho uma crítica a fazer: seria importante taxar essas importações, porque o sistema comercial internacional permite isso. Um país não pode discriminar o produto estrangeiro, isso é o livre-comércio. Mas, se este produto estrangeiro causa um prejuízo seja à indústria, seja à agricultura do país, esse país tem o direito de defender sua população. Ao meu ver, isso não está sendo usado. 
CM - Esse mecanismo de defesa já foi usado no Brasil?
PS -  Se não me engano, até o Fernando Henrique, a uma certa altura, usou para a importação de brinquedos. A indústria de brinquedos do Brasil estava praticamente na lona, porque vieram enormes quantidades de brinquedos da china. Daí ele usou esse dispositivo e taxou, tornou mais caro os chineses. E, de fato, a indústria brasileira de brinquedos sobreviveu. É interessante porque ele é um adversário, mas de vez em quando acerta.
Eu diria que a situação atual tanto pode melhorar, porque há sinais de que parte do empresariado está ganhando confiança por melhores condições. Por outro lado, como o ajuste fiscal está cortando fundo no gasto público, uma grande parte do comércio, mas também da indústria, não vai investir em ampliar a produção porque não vai vender. Nem faz sentido. Então, é preciso mudar um pouco a política, no sentido de crescer, que é o que a Dilma realmente quer. E, acredito, é o que o Joaquim Levy também quer. Mas, até agora, fora alguns sinais como a subida da bolsa, ainda não se vê concretamente uma retomada. O que os capitalistas estão fazendo, no momento, pelo menos, é mandar gente embora ou dar férias coletivas. 
CM - O governo Dilma tem como, por meio de políticas públicas, proteger mais os trabalhadores?
PS -  Neste Programa de Proteção ao Emprego, que o governo colocou em ação como Medida Provisória, os trabalhadores estão sendo colocados à disposição dos empreendimentos sem trabalhar e ganhando bem menos. Isso se faz no mundo inteiro. É muito melhor você licenciar o trabalhador, ainda que ele vá ganhar bem menos, para depois voltar a trabalhar. Porque se você o despede, ele está despedido e tem que achar algum outro emprego, o que nesta condição é quase impossível. 
CM - E como vai a economia solidária no Brasil? Está conseguindo avançar, mesmo em tempos de cortes e de ajuste fiscal?
PS -  Está sim, particularmente no campo. A agricultura familiar é hoje uma parcela significativa da produção agrícola. Não é a maior ainda. O agronegócio é maior, mas ela cresceu bem e está em melhores condições, inclusive de qualidade de vida, com menos pobreza. Fundamentalmente, o grande benefício que a agricultura familiar traz ao Brasil é a agroecologia, ou seja, uma agricultura absolutamente saudável não só para quem consome, mas para o ambiente. A agricultura cheia de produtos químicos polui a terra, polui a água, polui o ar. Nós deveríamos, se possível, proibir esse tipo de agricultura, porque ela destrói, cria desertos. Então, aqui a economia solidária tem um papel importante. Hoje eu almocei na Torre de TV, aqui em Brasília, com uma rede de cooperativas chamada Rede Terra. Comi uma comida boa, produzida por uma rede de mais de 400 cooperativas de toda essa área do Distrito Federal, de Goiás. A economia solidária dá uma contribuição nesse sentido. Sem a economia solidária isso poderia acontecer? Talvez, mas acho menos provável. A economia solidária organiza os trabalhadores, que são os donos dos meios de produção... 
CM - Porque há uma demanda de mercado, das pessoas que querem comer com mais qualidade, e há, obviamente, a necessidade de tirar esses pequenos agricultores da pobreza. O governo, então, está conseguindo dar uma resposta positiva no sentido de organizar essa rede?
PS -  Nós já temos convênios com 16 estados que fazem políticas de economia solidária, que têm uma secretaria ou uma superintendência que fazem essa política, que têm uma lei que institui a economia solidária e uma assembleia, porque a política é feita em consulta aos que praticam a economia solidária. Neste sentido, está havendo progresso. O número de municípios já deve ser alguma coisa em torno de 20% do total, o que não é pouco. O que nós conseguimos fazer foi levar a economia solidária aos rincões mais pobres ou relativamente pobres, através do Programa Brasil Sem Miséria. E isso a gente deve à Dilma. Ela fez essa promessa e fez o que pode para cumpri-la. Então, a economia solidária está cumprindo determinadas funções e tarefas que me parecem muito boas.
CM - E como se dá a disputa com o agronegócio, que é forte neste governo? O agronegócio freia o espaço da economia solidária ou ambos crescem em paralelo, sem interferências?
Resultado de imagem para Fotos de Paul SingerPS -  O Brasil é muito grande e eu sempre tomo cuidado em generalizar, mas a tendência do agronegócio é muito agressiva e, inclusive, expulsa os pequenos. Temos inúmeras provas disso. Desde os indígenas, que foram quase exterminados. Hoje em dia, muitos camponeses ainda perdem suas terras também. Agora, o agronegócio está se opondo a determinação do território dos quilombos. A lei permite que o quilombo seja propriedade coletiva daquela comunidade. E o agronegócio está claramente contra indígenas e contra quilombos. Eu acho que tanto os indígenas quanto os quilombolas são os verdadeiros brasileiros. E também são verdadeiros socialistas ou comunistas, se assim você quiser chamar. Eu tenho muita admiração por essas populações que a gente chama de tradicionais. Eu fico comovido. Como as cooperativas de quebradeira de nozes do babaçu. São cooperativas grandes, daquela região entre a Amazônia e o Nordeste. E elas se organizaram em cooperativas que funcionam. Conseguem trabalhar, já conseguiram mecanizar parte da extração dos produtos. Os indígenas pedem economia solidária. Eles precisam de nós, no sentido de darmos uma certa assistência técnica e jurídica. Então, só o fato da economia solidária não discriminar as mulheres, eu já acho fantástico.
CM - Não é difícil para o senhor lutar com o agronegócio dentro do governo?
PS -  É curioso, mas o agronegócio fica meio na defensiva. A Kátia Abreu é a nossa ministra da Agricultura, que falou que no Brasil não tem latifúndio. Mas ela não está contra a economia solidária, não tem nos enfrentado. Nós estamos com uma lei legalizando a economia solidária. Hoje, 90% dos empreendimentos de economia solidária são informais, e isso prejudica muito, inclusive porque eles não podem vender nos mercados que exigem nota.
CM - É uma lei que está em gestação?
PS -  É, uma lei em gestação que já foi aprovada em várias comissões e está em vias de ser aprovada. E um deputado que é fazendeiro requereu que esta lei passasse pela Comissão de Agricultura. E nem vejo muita razão, porque a lei que instaura a economia solidária não é só da agricultura. Mas tudo bem. A lei ficou uns meses lá e essa comissão é 90% agronegócio. Mas, por fim, esta Comissão não mudou a lei, não fez nenhuma emenda, mas chamou uma audiência para discutir a lei. E a OCB [Organização das Cooperativas Brasileiras] mandou três ou quatro jovens mulheres que são do setor jurídico. E elas fizeram propostas de mudanças. Eu fui ver e aprovei todas. Elas não queriam inviabilizar a lei, mas melhorá-la, de modo que, neste momento, entre nós e a OCB não há grandes divergências. E eu sempre tive total apoio da presidenta Dilma, dos diferentes ministros da Secretaria Geral da Presidência, antes o Gilberto [Carvalho], agora o Rosseto [Miguel], de modo que eu tenho apoio muito amplo de todos os lados do governo, inclusive da presidência. Seria até deselegante eu omitir isso. Eu tive muito apoio na época do Lula, que era um entusiasta da economia solidária. Dos ministros, nem tanto, porque ainda havia oposição ao cooperativismo dentro do próprio Ministério do Trabalho. Porque há um certo antagonismo entre sindicatos e cooperativas. E aqui é a casa dos sindicatos, mas das cooperativas também. Mas nunca deu grandes problemas. Não me sinto desamparado. Temos cooperação de 22 ministérios que estão no Conselho Nacional de Economia Solidária, de modo que o governo Lula nos ajudou muito, não só criou a Senaes [Secretaria Nacional de Economia Solidária], mas também apoiou a causa. E Dilma também.

Blog da Cidadania por Eduardo Guimarães

UTC doou mais  a Aécio que a Dilma: “novas” denúncias são requentadas pelo PiG

UTC capa
Por que tanta celeuma em torno das acusações do dono da UTC, Ricardo Pessoa, a políticos de vários partidos? E por que razão só as acusações do empresário à campanha de Dilma Rousseff e ao seu partido ganharam as manchetes? ÓBVIO: a pérfida sequência do 'terceiro turno' de 2014 encadeado no dia seguinte às eleições de 2014.
UTC 1
Quem leu os principais jornais dando conta de que a UTC doou 7,5 milhões de reais à campanha de Dilma Rousseff fica com a impressão de que há, aí, uma grande descoberta e que a presidente foi especialmente beneficiada por essa empresa. Nada mais falso.
Em primeiro lugar, se os 'grandes' veículos fizessem jornalismo de verdade, deveriam esclarecer que essa empresa doou mais dinheiro à campanha de Aécio Neves no ano passado do que à de Dilma Rousseff.
Levantamento feito pelo site Às Claras(AQUI), ligado à ONG Transparência Brasil, mostra que a UTC doou R$ 8.722.566,00 para a campanha a presidente de Aécio Neves, no ano passado. O valor é R$ 1,22 milhão superior ao valor doado à campanha de Dilma Rousseff na mesma época.
UTC 2
 Diz o noticiário que Pessoa se sentiu pressionado a doar a Dilma e ao PT porque tinha medo de que, se não doasse, o governo petista prejudicaria seus negócios. A pergunta que é obrigatório fazer, diante de tal acusação, é muito simples: por que Aécio, sem pressionar, recebeu mais do que Dilma?
Uma campanha(de Dilma) recebeu 7,5 milhões de reais do empresário porque o intimidou e a outra(de Aécio) – que, conforme a omissão do noticiário em citá-la, subentende-se que não intimidou – recebe 8,7 milhões de reais.                                   
A primeira doação decorre de chantagem e a segunda de “amor” ao candidato?
Ora, façam-me o favor…
Mas o pior não é isso. Uma simples busca na internet revela que essa celeuma que dominou a grande mídia a partir da última sexta-feira (26) por conta das “novas” revelações de Ricardo Pessoa, da UTC, não tem a menor justificativa porque é matéria requentada.
Os três maiores jornais do país (Folha/SP, Globo e Estadão) publicaram, neste sábado (27/06), praticamente a mesma matéria sobre o tema, inclusive com manchetes praticamente idênticas. Desse modo, tomemos como exemplo a matéria da Folha, que afirma que “Revelações de empreiteiro ampliam pressão sobre o PT”.
FOLHA DE SÃO PAULO - 27 de junho de 2015
DE BRASÍLIA,  CURITIBA E SÃO PAULO
Depoimentos prestados pelo empresário Ricardo Pessoa, dono da empreiteira UTC, aos procuradores da Operação Lava Jato ampliaram a pressão sobre o governo da presidente Dilma Rousseff e seu partido, o PT, lançando novas suspeitas sobre doações feitas à sua campanha à reeleição em 2014.
Apontado como um dos líderes do cartel de empreiteiras acusadas de participar do esquema de corrupção na Petrobras, Pessoa fez acordo com a Procuradoria-Geral da República para colaborar com as investigações em troca de uma pena reduzida. O acordo foi homologado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) nesta quinta-feira (25).
Pessoa doou R$ 7,5 milhões para a campanha de Dilma. A contribuição foi declarada à Justiça Eleitoral pelo PT, mas, como a Folha revelou em maio, Pessoa disse que só fez a doação por temer prejuízos em seus negócios na Petrobras se não ajudasse o partido. Ele disse que tratou da contribuição com o tesoureiro da campanha de Dilma, o atual ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Edinho Silva.
Nesta sexta (26), a revista “Veja” afirmou que Pessoa detalhou também contribuições feitas para 18 campanhas políticas, incluindo repasses de R$ 15 milhões para o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e de R$ 750 mil ao ex-deputado José de Fillipi (PT-SP), que foi tesoureiro da campanha de Dilma em 2010 e hoje é secretário da administração do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT).
Segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, Pessoa indicou aos procuradores que os repasses para Vaccari e Fillipi foram feitos de maneira ilegal, e não por meio de doações oficiais. Em nota, o PT afirmou que todas as doações recebidas pelo partido foram declaradas à Justiça Eleitoral.
Como a Folha informou nesta sexta (26), Pessoa também detalhou a maneira como foi negociada uma contribuição à campanha do petista Aloizio Mercadante ao governo do Estado de São Paulo, em 2010. Em 2010, Mercadante declarou à Justiça Eleitoral uma doação de R$ 250 mil da UTC. Hoje ministro da Casa Civil, Mercadante é o principal auxiliar de Dilma.
As novas revelações sobre os depoimentos de Pessoa fizeram Dilma convocar uma reunião de emergência nesta sexta. Participaram Mercadante, Edinho Silva e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Nenhum se manifestou sobre o assunto.
Em avaliações internas, ministros afirmavam que o episódio poderá contribuir para abalar ainda mais a frágil popularidade da presidente, que tem 10% de aprovação, segundo o Datafolha.
Preso desde novembro de 2014 e hoje em prisão domiciliar, Ricardo Pessoa negociou durante meses o acordo de delação premiada. A Folha apurou que Pessoa descreveu em detalhes a maneira como acertava o repasse de recursos destinados ao PT.
‘PIXULECO’
Segundo ele, o então diretor da Petrobras Renato Duque, ligado ao PT, avisava João Vaccari sempre que a estatal fechava um contrato com a UTC e o tesoureiro então procurava o empreiteiro para cobrar o “pixuleco”, como ele chamava a propina de 1% que seria destinada ao PT.
Segundo Pessoa, eles então combinavam de que forma, e em quantas parcelas, esse pagamento seria feito.
Na maior parte das vezes, Pessoa disse que optou por fazer doações oficiais ao PT ou a candidatos do partido. Às vezes, disse, Vaccari pedia que o pagamento fosse feito por fora. Segundo Pessoa, nesses casos o dinheiro era passado em espécie ao partido.
Na delação, Pessoa também citou contribuições a políticos de outros partidos, entre eles os senadores Aloysio Nunes (PSB-SP), Fernando Collor (PTB-AL) e Edison Lobão (PMDB-MA). Todos negam irregularidades.
(ANDRÉIA SADI, MARINA DIAS, NATUZA NERY, ESTELITA HASS CARAZZAI E FLÁVIO FERREIRA)
O que você, atento leitor, entende dessa matéria e, sobretudo, da manchete que a intitula é que surgiu alguma novidade que “ampliou” a “pressão” sobre “o PT”. Ou seja, o que se subentende da manchete é que alguma coisa nova veio à tona.
Pois bem. Vejamos, então, matéria da mesma Folha de São Paulo publicada 49 dias antes, de autoria da mesma Estelita Hass Carazzai que assina a matéria publicada pelo jornal neste sábado.
FOLHA DE SÃO PAULO - 9 de maio de 2015
FLÁVIO FERREIRA E ESTELITA HASS CARAZZAI, DE  CURITIBA
O empresário Ricardo Pessoa, dono da empreiteira UTC, disse a procuradores da Operação Lava Jato que doou R$ 7,5 milhões à campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff por temer prejuízos em seus negócios na Petrobras se não ajudasse o PT.
Segundo Pessoa, a contribuição da empresa foi tratada diretamente com o tesoureiro da campanha de Dilma, o atual ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Edinho Silva.
Preso desde novembro do ano passado e hoje em regime de prisão domiciliar, o empresário negocia desde janeiro com o Ministério Público Federal um acordo para colaborar com as investigações em troca de uma pena reduzida.
Nos contatos com os procuradores e no documento em que indicou as revelações que está disposto a fazer caso feche o acordo, Pessoa descreveu de forma vaga sua conversa com Edinho, mas afirmou que havia vinculação entre as doações eleitorais e seus negócios na Petrobras.
O empreiteiro contou ter se reunido com Edinho a pedido do então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, apontado como o principal operador do partido no esquema de corrupção descoberto na Petrobras e hoje preso em Curitiba.
As doações à campanha de Dilma foram feitas legalmente. Segundo os registros do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), foram três: duas em agosto e outra em outubro de 2014, dias antes do segundo turno da eleição.
Se Pessoa fechar o acordo de delação premiada com os procuradores, ele terá então que fornecer provas e detalhar suas denúncias em depoimentos ao Ministério Público e à Polícia Federal.
Em janeiro, Pessoa já havia indicado sua disposição de falar sobre a campanha de Dilma Rousseff em documento escrito na cadeia e publicado pela revista “Veja”. “Edinho Silva está preocupadíssimo”, escreveu o empresário.
CAIXA DOIS
Pessoa também afirmou aos procuradores que fez contribuições clandestinas para a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição, em 2006, e a do prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad, em 2012.
O empreiteiro disse que deu R$ 2,4 milhões à campanha de Lula, via caixa dois. O dinheiro teria sido trazido do exterior por um fornecedor de um consórcio formado pela UTC com as empresas Queiroz Galvão e Iesa e entregue em espécie no comitê petista.
Pessoa afirmou também que, a pedido de Vaccari, pagou outros R$ 2,4 milhões para quitar dívida que a campanha de Haddad teria deixado com uma gráfica em 2012. O doleiro Alberto Youssef, outro operador do esquema de corrupção na Petrobras, teria viabilizado o pagamento.
Segundo o empreiteiro, o valor foi descontado de uma espécie de conta corrente que ele diz ter mantido com Vaccari para controlar o pagamento de propinas associadas a seus contratos na Petrobras.
Pessoa também promete revelar às autoridades detalhes sobre seus negócios com o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que hoje cumpre prisão domiciliar por seu envolvimento com o mensalão.
O empreiteiro, que pagou R$ 3,1 milhões à empresa de consultoria de Dirceu entre 2012 e 2014, diz que o contratou para prospectar negócios no Peru, mas afirmou aos procuradores que a maior parte dos repasses foi feita após a prisão do ex-ministro, para atender a um pedido de ajuda financeira da sua família, em razão de sua influência no PT.
OUTRO LADO
O PT rejeitou as acusações do empresário Ricardo Pessoa e afirmou em nota que todas as doações à campanha da presidente Dilma Rousseff em 2014 foram feitas de acordo com a legislação eleitoral.
O partido ressaltou que as contas da campanha de Dilma foram aprovadas por unanimidade na Justiça Eleitoral.
A assessoria do ministro Edinho Silva, chefe da Secretaria de Comunicação Social, que foi o tesoureiro da campanha presidenical, informou que a nota do PT deveria ser considerada sua reposta às alegações do empreiteiro.
A Presidência da República e a assessoria do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disseram que não fariam comentários sobre o assunto.
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou que as doações à sua campanha foram todas feitas de acordo com a lei, e que as dívidas foram absorvidas e quitadas posteriormente pelo PT.
O advogado Luiz Flávio Borges D’Urso, que defende o ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto, disse que ele só captou doações legais para o partido e não participou do esquema de corrupção descoberto na Petrobras.
O advogado do ex-ministro José Dirceu, Roberto Podval, informou que seu contrato de consultoria com a UTC tinha como objetivo prospectar negócios no Peru, sem qualquer relação com a Petrobras.
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Alguém, por favor, ajude este desorientado blogueiro: o que é, diabos, que há de novo nas notícias recém-publicadas sobre as denúncias do empreiteiro Ricardo Pessoa? O que é que ele acrescentou ao que já havia dito que justifique que a mídia e a oposição façam esse estardalhaço e digam que, à luz das “novas” revelações, há que tirar o mandato de Dilma Rousseff?
O que esse estardalhaço todo significa é, no fim das contas, um imenso desrespeito à opinião pública, obviamente vista pela mídia e pela oposição como desmemoriada, idiotizada, incapaz de juntar fatos escandalosamente óbvios e deles tirar uma simples conclusão.
Infelizmente, pensando bem, tanto a mídia quanto a oposição têm boas doses de razão para enxergar assim a sociedade brasileira, ou ao menos sua maioria esmagadora.