terça-feira, 5 de maio de 2015

O  editor  de  factoides da Época, dos   mesmos   donos  da   Globo,   tripudiado pelo Jornal  Nacional 

Paulo Nogueira                  


Diego Escosteguy, editor chefe da Época, é o Kim Kataguiri do jornalismo.
É um militante de direita, um cruzado do antipetismo, muito, mas muito mais que jornalista.
Vendo coisas que ele escreveu no Twitter, me veio à cabeça outro militante da Globo vestido de jornalista, Erick Bretas, diretor de mídias digitais.
No Facebook, Bretas achou normal, aceitável, bonito até convocar as pessoas para a manifestação contra Dilma de 15 de março.
Ele não enxergou ali conflito de interesses.
Aparentemente, a Globo está produzindo este tipo de antijornalista.
Escosteguy é da mesma linhagem de Bretas.
Pelo que entendi, ele ficou bravo porque a capa da Época sobre Lula não deu em nada.
Amigos: quando nem o Jornal Nacional repercute coisa da casa contra Lula é porque é ruim mesmo.
Quantas vezes o JN deu absurdos sem consistência nenhuma na Veja nas noites de sábado?
Tinha ouvido falar de Escosteguy recentemente. Correu  que ele se apresentou na primeira reunião como editor chefe da revista com ares de Norman Mailer.
Não estava assumindo o segundo cargo de uma revista semimorta e catatônica, mas o comando da News Corp de Murdoch, tal a pretensão com que se comportou na reunião.
Mas o que mais me impressiona em caras como ele é o completo grau de desinformação.
Escosteguy parece não ter ideia, ou finge, de que a Globo foi inteiramente construída com dinheiro público, em troca de conhecidos favores sobretudo aos generais que mataram, torturaram e perseguiram tantos brasileiros.
Escosteguy não sabe que sua empresa ainda hoje se beneficia de uma inacreditável reserva de mercado, coisa de quem quer capitalismo e concorrência só para os outros.
Saberá da sonegação da Copa de 2002? Do detalhe da trapaça fiscal feita pela Globo: alegou que ia fazer um investimento no exterior para não pagar o imposto devido pela compra dos direitos? Da tentativa de dar fim, por uma ex-funcionária da Receita, ao documento que comprovava a fraude dos Marinhos?
A Época mesma em que ele é vice-chefe com ares napoleônicos agora.
Quando eu cheguei à Editora Globo, o pobre contribuinte do Amazonas era instado a melhorar as contas da editora mediante compras milionárias de livros da Globo.
Dinheiro público, sempre dinheiro público.
Em troca, o governador recebia matérias louvatórias da Época.
Meu primeiro choque na Globo, e na Época, se deu exatamente aí. Briguei com o “operador” que fazia a ponte entre a editora e o governo do Amazonas.
O governador do Amazonas foi a São Paulo me intimidar. Tivemos um encontro patético, ao fim do qual ele me ameaçou: “Vou falar com o João Roberto Marinho.”
Escosteguy terá noção de como foi feito o Projac? Com dinheiro do Banerj, sempre público, e pago depois, pausa para gargalhadas, com anúncios.
E vem posar de Catão, este Kim Kataguiri do jornalismo, como se trabalhasse na Santa Casa de Misericórdia? Tem coragem de falar em “sites financiados pelo PT” — sem prova nenhuma, aliás — quando a empresa em que trabalha leva só das estatais federais 500 milhões de reais por ano com audiências despencando?
Sobre o jeito Lula de ser, talvez Escosteguy pudesse acrescentar, no levantamento sobre a Odebrecht, uma história que Jorge Paulo Lemann, da Ambev, me contou, com gratidão.
A Ambev vinha enfrentando problemas na Argentina. O caso foi levado a Lula, então presidente. Imediatamente Lula apanhou o telefone e ligou para a Argentina. Resolveu em minutos a questão.
“Você chegava com alguma coisa desse tipo ao Fernando Henrique e ele dizia: ‘Deixa que eu resolvo’”, me disse Lemann. “Nunca resolvia.”
Mas com Lemann, grande anunciante dos Marinhos, Escosteguy com certeza não vai querer brincar.
Escrevi, outro dia, que o lixo se queixou a Lula(LEIA AQUI) por ter sido comparado à Veja e à Época.
Faltou o lixo dizer: “Putz, Lula, eu não publico o Escosteguy!”

O jornalismo claudicante   

Luciano Martins Costa      Resultado de imagem para Imagem da logo do Observatório da Imprensa

               


A imprensa brasileira parece ter entrado em rota de ziguezague no fim de semana prolongado. Na falta de equipes adequadas à cobertura dos principais acontecimentos do período, que incluiu o feriado do Dia do Trabalho, a solução para preencher o tempo e o espaço foi fazer uma seleção de declarações, explorar factoides e requentar acusações já exploradas em outros carnavais. É como se a redação fosse um corpo com uma perna mais curta que a outra.
No balanço desses dias, registre-se também o esforço que fez a revista Época para apagar a boa impressão criada inicialmente por sua nova direção. A reportagem de capa na qual “acusa” o ex-presidente Lula da Silva de haver atuado como embaixador abrindo mercados para empresas brasileiras no exterior é um primor de manipulação. O “crime” enxergado pela fonte da revista: “Tráfico de influência em transação comercial internacional”. Na lista de negócios obtidos ou incentivados por Lula, o foco são contratos feitos pela empreiteira Odebrecht, principalmente na África e na América Latina, com apoio do BNDES.
Como tem sido praxe no jornalismo brasileiro, há uma escolha seletiva de tempo e acontecimentos e se ignora o contexto em que o assunto deve ser colocado: a Odebrecht já fazia grandes obras na maioria desses países durante o governo do PSDB, e o aval do governo petista foi importante para evitar que algumas mudanças ocorridas nas políticas locais afetassem esses contratos.
A Odebrecht já prospectava negócios de longa data em Angola, no Peru, na Líbia, na Venezuela de Hugo Chávez, além de ter contratos em Portugal, na Polônia e em outros países de vários continentes. O sistema de irrigação que resgatou para a agricultura amplas áreas de deserto na América Latina, a modernização do sistema viário e do aeroporto de Trípoli, a reorganização da economia rural da Venezuela, a ponte sobre o rio Orinoco, uma usina hidrelétrica construída na encosta de um vulcão no Peru, são alguns resultados desses contratos.
Em praticamente todos esses casos, a multinacional brasileira superou, com suporte oficial, a concorrência de empresas chinesas, que desembarcavam nesses países com o apoio do capitalismo de Estado praticado por Pequim.
O que faz a revista Época é levantar suspeitas contra a Odebrecht para criminalizar a ação do então presidente da República.
A denúncia “esquecida”
Mas o fim de semana teve outras peripécias, como a tentativa da Folha de S.Paulo de enxergar uma associação do prefeito da capital paulista, Fernando Haddad, com o crime organizado na Cracolândia, uma enorme confusão em torno do projeto de terceirização de mão de obra e uma nova frente de denúncias, desta vez envolvendo o marqueteiro de campanhas eleitorais do PT.
O pano de fundo desse novo esforço parece ser a decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal, que, na terça-feira (28/4), havia concedido prisão domiciliar para os executivos presos em Curitiba por conta da Operação Lava Jato. A medida sinaliza para a interpretação segundo a qual o juiz responsável pela condução do processo na primeira instância andou abusando da restrição de liberdade para obter confissões, que são oficializadas ou não segundo seu arbítrio muito pessoal.
Na edição de segunda-feira (4/5), a Folha de S. Paulo indica que houve uma omissão importante no processo, em relação a informações vazadas a partir da delação premiada que beneficia o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa. Desapareceram dos autos, por exemplo, referências dos denunciantes ao senador Aécio Neves (PSDB-MG), ao presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) e ao também senador Romero Jucá (PMDB-RR).
Numa delas, Youssef afirmava que o senador mineiro, presidente do PSDB, candidato derrotado à Presidência da República em 2014, recebia propina de uma diretoria da hidrelétrica de Furnas, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu o arquivamento da denúncia contra Aécio no dia 4 de março. No dia 21 do mesmo mês, um vídeo com o depoimento de Youssef sobre o envolvimento de Aécio Neves foi divulgado no blog do jornalista Fausto Macedo, repórter do Estado de S. Paulo (ver aqui).
“Detalhes” como esse começam a aflorar à medida que o processo sai das mãos do juiz paranaense, e nas redes sociais observa-se que até alguns dos mais convictos leitores midiotizados pelo noticiário passam a desconfiar de que há um viés partidário nesse ziguezague. 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Finalmente a mídia será enfrentada? A resposta de Lula à Época
Fernando Brito                       
                                                                                                                 institutolula
                         institutolula

O Instituto Lula publicou nesta segunda-feira(4)  texto sob o título “As sete mentiras da capa de Época sobre Lula”.
Só o fato de não ter como título “Nota de Esclarecimento” já seria animador.
Porque mentira é mentira e só deve virar “inverdade” quando a gente está se cuidando de não receber um processo daqueles com pobres razões e ricos advogados.
Nem vou entrar nos temas levantados pela revista, porque a revista Época e a imprensa, de forma generalizada, hoje está criminalizando ir a uma festa de aniversário.
Deixo que o leitor siga o texto do Instituto.
Mas é animador que se tenha deixado de lado a afetação “republicana”, de responder com pelica às bordoadas mais grosseiras.
Muito mais ainda aquela teoria esdrúxula de “não vou responder para não dar cartaz a este tipo de coisa”.
Foi assim que “transformaram” o filho do Lula em dono de fazenda, jatinho, frigorífico etc…
Nem é o caso de discutir “regulação da mídia”, porque este tema jamais se aplicou à jornais e revistas, embora queiram fazer crer que isso seria censura.
Mas é preciso restabelecer o que foi revogado na prática pelo Supremo, numa infeliz decisão.
O direito de responder.
Esta “aberração autoritária”, segundo uma imprensa que quer falar o que quiser e só se quiser apresentar o contraditório.

As sete mentiras da capa
de 'Época' sobre Lula      

A revista Época, em nota assinada pelo seu editor-chefe, Diego Escosteguy, na sexta-feira (1º), , reafirmou o que está escrito na matéria “Lula, o operador”, como sendo correto e verdadeiro. Como a nota do seu editor é uma reiteração de erros cometidos pela revista, apontamos aqui as 7 principais dentre as muitas mentiras da matéria de Época.

1ª mentira –  dizer que Lula está sendo investigado pelo Ministério Público.

A Época afirma que o Ministério Público abriu “uma investigação” na qual o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seria “formalmente suspeito” de dois crimes. Época não cita fontes nem o nome do procurador responsável pelo procedimento.
O Núcleo de Combate à Corrupção da Procuradoria da República do Distrito Federal não abriu qualquer tipo de investigação sobre as atividades do ex-presidente Lula. O jornal O Globo, do mesmo grupo editorial, ouviu a propósito a procuradora Mirella Aguiar sobre o feito em curso e ela esclareceu: há um “procedimento preliminar”, decorrente de representação de um único procurador, uma “notícia de fato”, que poderá ou não desdobrar-se em investigação ou inquérito, ou simplesmente ser arquivada.
A mesma diferenciação foi observada pelo jornal The New York Times e pela agência Bloomberg. O The New York Times chamou de “preliminary step” (um passo preliminar) e não de investigação.
Isso não é um detalhe, e para quem preza a correção dos fatos, faz diferença do ponto de vista jurídico e jornalístico.
Ao publicar apenas parcialmente o cabeçalho de um documento do MP, sem citar os nomes do procurador Anselmo Lopes, que provocou a iniciativa, e da procuradora Mirella, que deu prosseguimento de ofício, e sem mostrar do que realmente se trata o procedimento, Época tenta enganar deliberadamente seus leitores.

2ª mentira- Lula seria lobista

No início da matéria a revista lembra um fato: Lula deixou o poder em janeiro de 2011 com grande popularidade e desde então, não ocupa mais cargo público. Segundo a revista, Lula faria lobby para privilegiar seus “clientes”. Que fique bem claro, como respondemos à revista: o ex-presidente faz palestras e não lobby ou consultoria.
A revista Época colocou todas as respostas das pessoas e entidades citadas nas suas ilações no fim da matéria, que não está disponível na internet. Por isso vale ressaltar trecho da resposta enviada pelo Instituto Lula:
“No caso de atividades profissionais, palestras promovidas por empresas nacionais ou estrangeiras, o ex-presidente é remunerado, como outros ex-presidentes que fazem palestras. O ex-presidente já fez palestras para empresas nacionais e estrangeiras dos mais diversos setores – tecnologia, financeiro, autopeças, consumo, comunicações – e de diversos países como Estados Unidos, México, Suécia, Coreia do Sul, Argentina, Espanha e Itália, entre outros. Como é de praxe as entidades promotoras se responsabilizam pelos custos de deslocamento e hospedagem. O ex-presidente faz palestras, e não presta serviço de consultoria ou de qualquer outro tipo.”
Os jornalistas Thiago Bronzatto e Felipe Coutinho, que assinam o texto, chamam Lula de “lobista em chefe”.  A expressão, além de caluniosa, não condiz com a verdade, e revela o preconceito e a ignorância dos jornalistas de Época em relação ao papel de um ex-presidente na defesa dos interesses de seu país.
O que Lula fez, na Presidência e fora dela, foi promover o Brasil e suas empresas. Nenhum presidente da história do país liderou tantas missões de empresários ao exterior, no esforço de internacionalizar nossas empresas e aumentar nossas exportações.

3ª mentira – sobre as viagens de Lula

A “reportagem” de Época não tem sustentação factual. A revista afirma que nos últimos quatro anos Lula teria viajado constantemente para “cuidar dos seus negócios”. E continua: “Os destinos foram basicamente os mesmos – de Cuba a Gana, passando por Angola e República Dominicana.” 
Vamos deixar bem claro: o ex-presidente não tem nenhum negócio no exterior. E, ao dizer “a maioria das andanças de Lula foi bancada pela construtora Odebrecht”, mente novamente a revista. Não é verdade que a maioria das viagens do ex-presidente foi paga pela Odebrecht. Repetimos trecho da nota enviada para a revista: “O ex-presidente já fez palestras para empresas nacionais e estrangeiras dos mais diversos setores – tecnologia, financeiro, autopeças, consumo, comunicações – e de diversos países como Estados Unidos, México, Suécia, Coreia do Sul, Argentina, Espanha e Itália, entre outros. Como é de praxe as entidades promotoras se responsabilizam pelos custos de deslocamento e hospedagem.”
Mesmo sem ter obrigação nenhuma de fazê-lo, as viagens do ex-presidente estão documentadas no site do Instituto Lula e as suas viagens ao exterior foram informadas à imprensa.
De novo, diferente do que diz a revista, depois que deixou a Presidência, Lula viajou para muitos países, e o mais visitado foi os Estados Unidos da América (6 viagens), onde entre outras atividades recebeu o prêmio da World Food Prize (http://www.institutolula.org/lula-recebe-nos-eua-premio-por-trabalho-de-combate-a-fome), pelos seus esforços de combate à fome, em outubro de 2011, e do International Crisis Group, em abril de 2013,  por ter impulsionado o Brasil em uma nova era econômica e política (http://www.institutolula.org/lula-recebe-premio-em-nova-york-por-impulsionar-o-pais-a-nova-era-economica-e-politica). 
Nos EUA encontrou-se ainda, por duas vezes, com o ex-presidente Bill Clinton –que também tem o seu instituto e também faz palestras. 
Dois países empatam no segundo lugar de mais visitados por Lula após a presidência: o México e a Espanha (5 visitas cada um). No México, além de proferir palestras para empresas do país, Lula recebeu o prêmio Amalia Solórzano, em outubro de 2011 (http://www.institutolula.org/lula-recebe-no-mexico-o-premio-amalia-solorzano) e lançou, junto com o presidente Peña Nieto, a convite do governo mexicano, um programa contra a fome inspirado na experiência brasileira: http://www.institutolula.org/lula-no-mexico-eu-vim-aqui-dar-um-testemunho-e-possivel-acabar-com-a-fome-do-mundo . 
Na Espanha, Lula recebeu os prêmios da cidade de Cádiz (http://www.institutolula.org/cidade-espanhola-de-cadiz-premia-lula-por-combate-a-pobreza),  o prêmio internacional da Catalunha (http://www.institutolula.org/lula-recebe-24o-premio-internacional-Catalunha), e o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Salamanca (http://www.institutolula.org/lula-recebe-titulo-de-doutor-honoris-causa-da-universidade-de-salamanca-na-espanha).
Os leitores que eventualmente confiem na Época como sua única fonte de informação, não só não foram informados desses prêmios, como foram mal informados sobre as atividades do ex-presidente  no exterior.
Sobre os países citados pela revista, Lula esteve, desde que saiu da presidência, três vezes em Cuba, duas em Angola, e somente uma vez em Gana e na República Dominicana, os dois países mais citados na matéria.
A revista diz serem “questionáveis” moralmente as atividades de Lula como ex-presidente. Em primeiro lugar, como demonstrado acima, a revista está mal informada ou informando mal sobre tais atividades (provavelmente os dois). Por exemplo, a revista acha moralmente questionável organizar, na Etiópia, um Fórum pela Erradicação da Fome na África, junto com a FAO e a União Africana (http://www.institutolula.org/e-preciso-investir-nos-pobres-para-acabar-com-a-fome-disse-lula-a-uma-plateia-de-15-chefes-de-estado-africanos)? Esse evento não foi noticiado pela Época, nem pela Veja. Mas foi noticiado pelo jornal britânico The Guardian (em inglês – http://www.theguardian.com/global-development/2013/jul/01/africa-brazil-hunger-lula). 
Ou em Angola, país citado pela Época, a revista acha moralmente questionável fazer uma grande conferência, (http://www.institutolula.org/lula-em-angola-e-possivel-para-qualquer-pais-acabar-com-a-fome) para mais de mil representantes do governo, do congresso, de partidos políticos e de ONGs, além de acadêmicos e jornalistas angolanos, reunidos para ouvir sobre as políticas públicas de Angola e do Brasil para reduzir a pobreza e promover o desenvolvimento econômico?
Ou em Gana participar de um evento organizado pela ONU, lotado e acompanhado pela mídia local, novamente sobre combate à fome (http://www.institutolula.org/e-plenamente-possivel-garantir-que-todo-ser-humano-possa-comer-tres-vezes-ao-dia-diz-lula-em-gana)? 
Parafraseando a revista, moralmente, o jornalismo de Época, que mente para seus leitores desde a capa da revista, é questionável. Mas será que à luz das leis brasileiras, há possibilidade de ser objeto de ação judicial?

4ª mentira – sobre a visita de Luiz Dulci à República Dominicana

A revista Época constrói teorias malucas não só sobre as viagens do ex-presidente, mas questiona e faz ilações também sobre a visita do ex-ministro e diretor do Instituto Lula, Luiz Dulci, à República Dominicana em novembro de 2014. A revista foi informada, e publicou que o ex-ministro viajou ao país para fazer uma conferência, mas não que era sobre as políticas sociais brasileiras. Deu entrevistas à imprensa local e foi convidado pelo presidente Medina para uma conversa sobre as políticas sociais brasileiras, das quais o presidente dominicano é um admirador. A revista registrou apenas como “versão” que Dulci foi convidado pelo Senado do país. Todos os documentos do convite e da viagem estão disponíveis para quem quiser consultá-los.  O que a revista não fez antes de se espantar com o interesse no exterior sobre os  êxitos do governo Lula.

5ª mentira – a criminalização da atividade diplomática do Brasil em Gana

Época relaciona como denúncia “dentro de um padrão”, um comunicado diplomático feito pela embaixada brasileira no país um ano antes de Lula visitar Gana, enviado em 30 de março de 2012. Lula esteve em Gana apenas um ano depois de tal comunicado, em março de 2013. É importante lembrar aos jornalistas “investigativos” da Época, que em março de 2012, Lula estava se recuperando do tratamento feito contra o câncer na laringe, que havia sido encerrado no mês anterior.
Quanto ao telegrama de Irene Gala, embaixadora do Brasil em Gana, a resposta do Itamaraty colocada no fim do texto da Época, malandramente longe da ilação contra a diplomata, é cristalina sobre não haver qualquer irregularidade nele: “O Itamaraty tem, entre as suas atribuições, a atuação em favor de empresas brasileiras no exterior. Nesse contexto, a realização de gestões com vistas à realização de um investimento não constitui irregularidade.”
É lamentável que o grau de parcialidade de certas publicações tenha chegado ao ponto de tentar difamar funcionários públicos de carreira por simplesmente fazerem o que é parte de suas atribuições profissionais. Seria como criticar uma embaixada brasileira por dar apoio a um jornalista da Época, uma empresa privada, quando o mesmo estivesse em visita a um país.

6ª mentira – a criminalização do financiamento à exportação de serviços pelo Brasil

A revista criminaliza e partidariza a questão do financiamento pelo BNDES de empresas brasileiras na exportação de serviços. É importante notar que esse financiamento começou antes de 2003, ou seja, antes do governo do ex-presidente Lula. 
Sobre o tema, se pronunciou o BNDES em comunicado (https://www.facebook.com/bndes.imprensa), e também a Odebrecht (http://odebrecht.com/pt-br/comunicacao/releases/nota-de-esclarecimento-01052015). A questão foi analisada em textos de Marcelo Zero (http://www.pt.org.br/ignorancia-ou-ma-fe-amparam-desinformacao-do-mp-publicada-pela-epoca/) e Luís Nassif (http://jornalggn.com.br/noticia/na-epoca-o-alto-custo-da-politizacao-do-ministerio-publico-federal), que lembrou que a publicação irmã de Época, Época Negócios, exaltou a internacionalização das empresas brasileiras em outubro de 2014.

7ª e maior mentira – o “método jornalístico” de Época

Bolsas de estudo pomposas nos Estados Unidos pagas por institutos conservadores (http://www.institutomillenium.org.br/blog/instituto-ling-concede-mais-27-bolsas-de-estudos-exterior/ ) valem pouco se o jornalismo é praticado de maneira açodada, com má vontade e parcialidade, de uma forma mentirosa. 
Não é a primeira vez que o Instituto Lula, ou outras pessoas e entidades tem contato com o método “Época” de jornalismo (que não é também exclusivo desta revista). Resumindo de forma rudimentar, o método constitui na criação de narrativas associando fatos, supostos fatos ou parte de fatos que não têm relação entre si, e que são colados pelo jornalista, construindo teorias sem checar com as fontes se a realidade difere da sua fantasia.
Poucas horas antes do fechamento, quando pelos prazos de produção jornalística provavelmente a matéria já está com as páginas reservadas na revista, capa escolhida e infográficos feitos, o repórter entra em contato, por e-mail, com as pessoas citadas na matéria. Em geral sem contar sobre o que realmente o texto se trata (Época não perguntou ou mencionou a iniciativa do Ministério Público). Não há interesse real em verificar se as acusações, em geral muito pesadas, se sustentam e justificam o espaço dado ao assunto ou o enfoque do texto.
Mesmo que a tese do jornalista não se comprove, a matéria não será revista e será publicada.  Na “melhor” das hipóteses, as respostas das pessoas e entidades envolvidas serão contempladas ao final da matéria, e este trecho não será disponibilizado online (e muitas vezes não é visto com cuidado por jornalistas de outros veículos que dão a “repercussão” do fato). É feito assim, primeiro porque a revista não teria nenhuma matéria para colocar no lugar, e segundo porque isso poderia afetar o impacto político, bem como a repercussão em outros órgãos de imprensa e nas mídias sociais. 
Foi exatamente isso que a Época fez. Contatou o Instituto Lula, a partir de Brasília, três horas antes do fechamento. Haviam duas opções: falar por telefone ou por e-mail. O presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, para registrar inclusive as perguntas e respostas à revista, optou por responder por e-mail, lamentando que não houve a possibilidade de esclarecer as dúvidas da revista pessoalmente (http://www.institutolula.org/resposta-do-instituto-lula-a-revista-epoca ).
É importante registrar que Época ou não ouviu, ou não registrou o outro lado de todos os citados na matéria. Cita e publica fotos de dois chefes de Estado estrangeiros, John Dramani Mahama, de Gana, e Danilo Medina, da República Dominicana, ambos eleitos democraticamente e representantes de seus respectivos países. E não os ouve, nem suas embaixadas no Brasil. 
Mais absurdo ainda porque, em tese, a revista Época deveria seguir os “Princípios Editoriais do Grupo Globo”, do qual faz parte, e que foram anunciados  para milhões de brasileiros, no Jornal Nacional (http://g1.globo.com/principios-editoriais-do-grupo-globo.html ).  
Como a revista não parece respeitar o jornalismo, diplomatas, chefes de estado dominicanos ou ganenses, ou ex-ministros e ex-chefes de estado brasileiros, melhor lembrar a recomendação de um norte-americano, Joseph Pulitzer, sobre os danos sociais da má prática jornalística. “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária e demagógica formará um público tão vil quanto ela mesma.”

O terceirizado que jogou

o Ministério Público

no show bizz


(Luis Nassif)            Luis Nassif Online imagem de Roberto Monteiro
       
A Lava Jato marca uma inflexão na imagem do Ministério Público Federal. Não pela extensão do caso, em si, mas pelo fato de ter consolidado uma imagem institucional de um poder atrás de holofotes.
Nos anos 90 houve participações individuais de procuradores atrás de manchetes.
Na gestão Rodrigo Janot tornou-se prática institucionalizada, mais adequada a um candidato político, com necessidade de aparecer diariamente nos jornais. A maneira de criar fatos, factoides, de vazar qualquer nome que apareça nos depoimentos, independentemente da apuração dos fatos, a disputa de protagonismo midiático com a Polícia Federal é um comportamento indigno, ainda mais para um órgão com as responsabilidades institucionais do Ministério Público Federal.
A criação do hotsite foi uma boa iniciativa. A prática de entrevistas coletivas diárias, um desastre institucional de responsabilidade do secretário de comunicação da Procuradoria Geral da República, Raul Pilatti. E o viés dado à divulgação e ao vazamento de fatos, algo que contaminou a imagem de isenção que deveria ser a marca do MPF.
Tive um contato com Pilatti, quando obtive informações sobre algumas atividades do MPF, mas recorrendo a um procurador. Pilatti enviou as informações para um email que constava no site do GGN, não se preocupou em saber se havia chegado.  Depois, telefonou para alertar que "não participa de discussões desinformadas" e que só prestara esclarecimentos porque solicitado pelo procurador".
Julguei tratar-se de algum jovem procurador deslumbrado e ignorante em relação ao jornalismo. Houve uma discussão rápida. Depois de desligar o telefone fui conferir e descobri tratar-se de um jornalista. Voltei a telefonar para ele para manifestar minha absoluta surpresa com o fato de ele ser jornalista e brandir argumentos tão rasos e arrogantes.
Agora, a revista Forum divulgou um manifesto de funcionários da comunicação do MPF, protestando contra a nova política de comunicação do órgão (http://goo.gl/vBnVw2). E aí é possível entender a barafunda em que a PGR se meteu com a Lava Jato e com o fator Raul Pilatti.
O manifesto dos assessores de comunicação
Em uma carta ao Procurador Geral, o grupo fala de seu orgulho de trabalhar para o MPF e as preocupações com a imagem do órgão em um momento delicado, como da operação Lava Jato. Depois, aponta os problemas que vêm enfrentando.
Em dezembro passado transmitiram ao PGR a preocupação com a contratação da Oficina da Palavra, a assessoria a quem Janot conferiu a gestão de informações críticas do MPF. A carta denuncia a desarticulação da informação interna, um descontentamento generalizado que provocou, inclusive, a paralisação dos funcionários do órgão.

domingo, 3 de maio de 2015

Pensando no   impensável      

Alberto Dines             Resultado de imagem para Imagem da logo do Observatório da Imprensa

Graves crises econômicas – incluindo inflação, recessão e estagnação – podem ser superadas desde que as autoridades competentes tenham a competência necessária. E disponham também de poder suficiente para determinar, implementar e fiscalizar ajustes.

E no caso dos impasses situados numa esfera tão flexível e subjetiva como a política, o que é competência, credibilidade e o que significa “uso de poder” sem ferir o Estado de Direito?
Em artigo de quinta-feira (30/4) publicado na prestigiosa ágora da Folha de S. Paulo (sua página 3,ver aqui), o ex-presidente do PSB Roberto Amaral constata uma crise republicana, institucional, fruto de um golpe branco contra o agonizante presidencialismo de coalizão substituído por um parlamentarismo de fato, a partir da composição entre os presidentes das duas casas legislativas, Eduardo Cunha e Renan Calheiros.
Há seis meses, imediatamente após o segundo turno e no mesmo privilegiado espaço (onde mais tarde seria justificado o impeachment de Dilma Rousseff), o ex-presidente José Sarney convocou a recém-eleita a encaminhar uma proposta para nova experiência parlamentarista.
Àquela altura, ainda que inviável, a ideia fazia algum sentido, ao menos sob o ponto de vista teórico. O repúdio ao golpe parlamentarista proferido pelo ex-vice-presidente da UNE, Roberto Amaral, tem algo de estudantil, inconsequente. Eduardo Cunha e Renan Calheiros foram eleitos em pleitos legítimos, representam o Legislativo de um governo democrático, sua parceria além de legal justifica-se, já que ambos militam no mesmo PMDB. Ainda que condenados pelo STF no curso dos julgamentos da Operação Lava Jato dificilmente serão depostos pelos respectivos eleitorados no parlamento.

30 anos

O que deixou de ser assinalado – isso, o mais grave – é o estado em que se encontram o país, o regime e algumas das suas instituições mais expressivas incapazes de precaver-se contra um formidável impasse caso os dois políticos sejam considerados culpados pela suprema corte.
É precisamente esta possibilidade – aliás, nada remota – a responsável pela insônia que aflige muita gente. Cônscios deste perigo, Cunha e Calheiros pisam no acelerador dispostos a atropelar não apenas a chefe do governo (a quem atribuem as respectivas incriminações pela Procuradoria Geral da República), mas todos aqueles que se empenham em garantir um mandato sem traumas.
O jogo está empatado, insuportavelmente tenso. Cada avanço nas investigações do megaescândalo na Petrobras traz riscos imprevisíveis, imponderáveis. Impossível afrouxar o cerco à corrupção, impensável retroceder. A tenebrosa lavagem de nossas entranhas tem um potencial para sanear nossos costumes políticos e a administração da coisa pública. A ninguém ocorreria apostar em pizza ou num abrandamento do seu rigor tantas as esperanças que a desintoxicação está fabricando.
E, no entanto, cada rosca apertada pela justiça nos aproxima inexoravelmente de um confronto que uma democracia com 30 anos de idade certamente terá condições de superar. Ou não.