sábado, 28 de fevereiro de 2015


PSDB desiste de vez do


#Impitimaémeuzovo’   


Miguel do Rosário  
PETROBRAS5
A cúpula do tucanato se reuniu nesta sexta-feira.
E amarelaram diante do impeachment.
É a primeira vitória política provocada pelo encontro na ABI da terça-feira, no qual Lula deixou bem claro que, se a direita quiser guerra, haverá guerra.
Para vocês verem como é importante fazer a luta política e ir para a contra-ofensiva.
Os próprios tucanos não conseguiram esconder que desistiram do impeachment em virtude das declarações de Lula e do MST.
Ficaram com medo de uma deflagração social.
E tem que ter mesmo, porque haveria sim um cenário de guerra civil se os tucanos, em conluio com a mídia, tramassem um golpe branco para usurpar o poder que o povo se recusou a lhes dar.
O líder do MST, João Pedro Stédile, declarou em alto e bom som que todos movimentos sociais marcharão ao lado do campo progressista contra um impeachment da presidenta Dilma.
A esquerda tem inúmeras críticas ao governo federal. Tinha antes da reeleição e tem mais ainda agora.
Mas quer exercer essas críticas num ambiente democrático.
Tem esperança de usar a democracia para convencer o governo sobre a importância de seus projetos.
O PSDB asseverou que não participará das marchas de impeachment agendadas para o dia 15 de março.
Apenas um tucano ou outro mais golpista, como Aloysio Nunes, disse que estará lá.
(Entretanto, me parece óbvio que o partido, junto com a mídia, vai tentar ao máximo insuflá-las, com dinheiro e imprensa).
Falta o governo acordar de seu torpor e reagir. Até porque, a meu ver, o PSDB aguardará ao menos 1 ano e pouco de governo para voltar a pedir o impedimento de Dilma.
Lula, sob  conselhos de Franklin Martins, que sugeriu ao presidente e ao governo que falassem todos os dias, começou a reagir à ofensiva midiática de 2005 e encerrou o governo com recorde histórico de aprovação.
Por que não chamam novamente Franklin Martins?
*********
O texto abaixo foi publicado no começo desta manhã de sábado, no blog(AQUI) do Gerson Camarotti, no portal G1(globo.com):
Cúpula tucana avalia que
'impeachment' não é solução
Num longo almoço realizado nesta sexta-feira (27) no Instituto Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo, caciques do PSDB chegaram à conclusão de que o impeachment não é solução para a crise política instalada no país. Na avaliação conjunta, um processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff traria um transtorno enorme ao país e à democracia.
“É preciso ter responsabilidade com o país maior do que qualquer projeto de partido”, resumiu ao Blog um dos presentes.
Além do anfitrião, o ex-presidente Fernando Henrique, estavam presentes os senadores Aécio Neves (MG), presidente da legenda, Cássio Cunha Lima (PB), líder da bancada, José Serra (SP), Tasso Jereissati (CE) e Aloysio Nunes Ferreira (SP). Houve consenso dos presentes de que o governo está num momento de extrema fragilidade e sem rumo.
No entanto, num cálculo pragmático, os tucanos lembraram que a queda de Dilma levaria o PMDB ao poder. E obrigaria o PSDB a compor uma coalizão em momento de grande dificuldade na política e na economia. Nesse caso, o PSDB seria chamado para ser uma espécie de avalista, com pouca influência no processo decisório.
Num momento descontraído, o ex-presidente Fernando Henrique brincou com Aécio Neves: “Diante desse quadro, ainda bem que você perdeu a eleição”. Sem perder o humor, o mineiro respondeu: “Vou para casa cuidar dos meus filhos”.
Quanto às manifestações em favor do impeachment marcadas para o dia 15 de março, o PSDB tomou a decisão de não participar. Mas alguns tucanos, como o próprio senador Aloysio Nunes – que estava no almoço -, já avisaram que estarão nas manifestações.
Na conversa, todos criticaram uma declaração recente do ex-presidente Lula de que poderia convocar o exército do MST para barrar as manifestações contra Dilma. A fala de Lula foi classificada como “inapropriada” para o momento.
Na saída, o senador Cássio Cunha Lima externou sua preocupação com o momento político. Foi quando Fernando Henrique comentou: “Estamos em cima de um barril de pólvora”.

Se Dilma não reagir, 

haverá movimento

pró-Temer

                  imagem de Pintassilgo  Luis Nassif Online
()   
 

No Brasil, o impasse atual não mostra luz no fim do túnel - o que é normal nas fases de transição. Mantendo-se o vácuo, a luz surgirá em algum momento sob diversas formas.
Em outros momentos, esse impasse político era resolvido com a entrada no jogo de uma terceira força, os militares. No quadro atual de dispersão de poder não existe mais a terceira via. O racha político produz paralisia, preservando a democracia mas prolongando o impasse.
O desenho de cenário futuro se dará em cima dos seguintes protagonistas:
1. O governo Dilma
Aparentemente, Dilma abdicou de governar. Na quinta-feira, seu Ministro da Fazenda Joaquim Levy bateu duramente na política de desoneração da folha, filha direta de Dilma. Lula saiu a campo para acalmar o PMDB criticando sua exclusão do núcleo estratégico do Palácio, decisão de Dilma. Dois Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) romperam o silêncio para criticar a demora de Dilma em preencher a vaga do tribunal. O que se tem é uma presidente aturdida, na véspera de um conjunto de episódios políticos relevantes - a lista dos políticos da Lava Jato e as manifestações pelo seu impeachment.
Se nas próximas semanas o governo não mostrar sinais de vida, o vácuo político tornar-se-á irreversível.
2. A oposição do PSDB
Por outro lado, a oposição no PSDB não conseguiu se apresentar como uma alternativa minimamente viável de poder. Com sua imaginação luxuriante, ego de pessoa madura e senso estratégico campeão, Fernando Henrique Cardoso e companhia emularam os movimentos golpistas dos anos 60 sem Lacerda e sem Forças Armadas. Radicalizaram tanto o discurso que se inviabilizaram politicamente como alternativa de poder. A mera possibilidade de ascender ao poder produziria quase uma guerra civil no país.
O PSDB virou o irmão siamês do PT quando aceitou tornar-se um mero instrumento do acerto de contas de FHC com a história. Se o PT sai do poder, acaba a razão de ser do PSDB.
Hoje em dia, a cara do PSDB é a mesma: não há diferença de estatura entre um Fernando Henrique Cardoso. Aécio Neves e José Serra, de um lado, e os Carlos Sampaio, Aloyzio Nunes, Alberto Goldmann do outro. São todos do mesmo tamanho do Roberto Freire.
3. O fator Lula
Não se espere de Lula 2015 o mesmo dinamismo de Lula 2008. São visíveis os sinais de cansaço de Lula, em parte pelo estresse de quem, perto dos 70, ambicionava um mínimo de tranquilidade; em parte pelo desânimo de enfrentar o desafio quase impossível de aconselhar Dilma.
4. Os mediadores
É nesses momentos que aparecem as oportunidades para os mediadores. E o partido mediador por excelência é o PMDB, através do vice-presidente Michel Temer. O vice-presidente tem a senhoridade, o trânsito em todas as áreas, o conhecimento do mundo político e jurídico. Não seria uma aventura como Aécio Neves, nem um mergulho nas trevas como José Serra.
Se Dilma acordar nas próximas semanas, ainda terá condição de recuperar o protagonismo político. Caso contrário, o movimento pró-Temer poderá se tornar invencível, vindo juntos Eduardo Cunha, Renan Calheiros, os herdeiros de José Sarney.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Dilma   inaugura   o   maior parque eólico dasAméricas

“Se no passado [governo FHC] ocorresse isso [crise hídrica], estaríamos no maior racionamento”...
                                             CONVERSA AFIADA
Parque Eólico Geribatu: "Somos pioneiros na produção de energia eólica", disse Dilma
Nesta sexta-feira (27), na inauguração do Parque Eólico Geribatu, em Santa Vitória do Palmar (RS), a Presidenta Dilma Rousseff garantiu que, mesmo “diante do maior desafio, que é a maior seca dos últimos anos no Nordeste e a maior seca Sudeste”, não haverá racionamento no país. No entanto, ela reforçou que é preciso economizar.

“Se no passado ocorresse isso, estaríamos no maior racionamento. Em 2001, no racionamento, tinha energia no Rio Grande do Sul, mas não tinha linhas de transmissão. Hoje tem”, disse a Presidenta em referência ao governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Não iremos ter problemas sérios ou mais sérios na área de energia. Mas não significa que devemos jogar energia fora”, explicou Dilma, para continuar: “Diversificação da matriz mais desperdício zero é garantia de segurança energética do País”.

O empreendimento, que teve investimentos que somam R$ 2,1 bilhões – no parque eólico e nos sistemas de transmissão associados – possui 258 megawatts (MW) de capacidade instalada e deve produzir energia suficiente para abastecer 1,5 milhão de habitantes, segundo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

“É um parque eólico excepcional porque é o maior da América Latina”, declarou Dilma em Santa Vitória. “Aqui vocês têm uma oportunidade de desenvolvimento aberta para toda a região e para o Brasil”, destacou.

Segurança energética
“Temos trabalhado muito para garantir a segurança energética do País. Nos quatro anos do meu primeiro governo, ampliamos a produção em mais de 21 mil MW”, lembrou a Presidenta.

“Além das hidrelétricas, temos de ter eólicos, termelétricas, diversidade de fontes”, concluiu. “Aumentamos as linhas de transmissão, as termelétricas e as eólicas”.

Aumento da tarifa de energia

No evento, a Presidenta esclareceu o aumento na tarifa das contas de energia. “Os aumentos nos preços da energia são passageiros, estão em função do Brasil enfrentar a maior falta de água dos últimos 100 anos”, contou.

“Isso não significa que vamos ter algum problema sério na área de energia. Não vamos ter porque temos segurança”, seguiu Dilma.

“Neste ano de 2015, nós vamos entregar mais 6.400 MW de energia e mais 7 mil km de linhas de transmissão”.

“Estamos sendo pioneiros na questão da energia eólica. Sem dúvida, a vocação dessa região vai permitir grande exploração da energia eólica”, encerrou a Presidenta.
Dilma ao lado do ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga: "Os aumentos nos preços da energia são passageiros""
Assista aos vídeos, retirados do Blog do Planalto:





(Alisson Matos, editor do Conversa Afiada)


O “apoio” da juventude ao “Dia do Orgulho Hétero” de Eduardo Cunha

Fernando Brito                                

hetero
Muito mais eficiente que manifestos, protestos e argumentações convencionais, uma boa risada tem uma força arrasadora contra as idéias imbecis.
Foi o que a garotada do grupo de humor “Põe na roda” fez com o projeto do “Dia do Orgulho Hétero”, desengavetado às pressas pelo deputado Eduardo Cunha, assim que chegou à Presidência da Câmara.
E reduziu a ideia ao que ela é: uma coisa ridícula.
Sexo ou orientação sexual não é ideologia.
Repeito às pessoas, é.
Muito bom que haja na juventude quem entenda a velha máxima latina do “ridendo castigat mores”, rindo criticam-se os costumes” e tenham feito essa versão:  Ridendo castigat Cunha.
Assista ao vídeo abaixo. 

A mão da rua

Em sucessivos plebiscitos, a população islandesa decidiu deixar a banca quebrar, estatizou a sobra e colocou banqueiros na cadeia...

Saul Leblon                      

Chris Ford / Flickr
A  Islândia é uma nação diminuta perto do Brasil, uma espécie de Santa Catarina de gelo, com população menor que a de Jundiaí(SP). Apenas 320 mil habitantes.
 
Se é possível dizer que essas características lhe dão flexibilidade para soluções impensáveis aos ‘baleias’ -- viver de turismo e pesca, por exemplo -- também é verdade que o seu poder de barganha é infinitamente menor.
 
Guiar-se pelo imperativo dos mercados seria o previsível no seu caso, deixando-se levar de forma mais ou menos passiva pela maré dos interesses graúdos que dominam a cena global.
 
Não foi o que ocorreu na crise de 2008.
 
Driblar a fatalidade de uma receita de arrocho em condições de estresse econômico e político extremo, eis aí uma dimensão que conecta as singularidades dessa ilha polar às urgências dos trópicos nos dias que correm.
 
A crise mundial de 2008 pegou a economia e a sociedade islandesa no contrapé de uma vulnerabilidade extrema, confrontando-a, entre outros, com interesses bancários britânicos, alemães e holandeses.
 
A Islândia não tinha mais nada a perder – e isso não é retórico.  A banca do país mergulhara de cabeça na farra financeira da década e havia acumulado o equivalente a uma dúzia de PIBs em operações e compromissos tornados impagáveis do dia para a noite.
 
Quando a ciranda parou de girar com a explosão da bolha imobiliária nos EUA, os credores externos – bancos europeus —  quiseram  empurrar a fatura para a população islandesa.
 
A ideia era transformar a Islândia num duto conectado à central de sucção da finança global, que assim resolveria  a sua parte no imbróglio escalpelando a sociedade -- como de fato tem sido feito com vários outros países.
 
O pagamento seria em moeda sonante e em espécie:  alguns milhares de dólares per capita em impostos, cortes de gastos,  privações, privatizações, demissões e o que mais fosse necessário para servir ao principal e aos juros por longos dez  a quinze anos.
 
A nota dissonante suficientemente conhecida é que a população islandesa não concordou.
 
Em vez de se entregar à mastigação, ela resolveu ajustar a engrenagem a seu favor, e não aos desígnios da banca ou de seus acionistas.
 
Ao recusar o matadouro, inverteu a sentença: em sucessivos plebiscitos, a população decidiu deixar a banca quebrar, estatizou a sobra e colocou banqueiros na cadeia.
 
Parecia um delírio no gelo, mas o vaticínio do fracasso devastador não se confirmou.
 
Ao contrário. Deu certo. E os dados mais recentes confirmam a vantagem do método em relação ao quadro de terra arrasada observado em sociedades que seguiram a receita oposta.
 
Essa é a notícia fresca na praça, pouco contemplada, porém, pela emissão conservadora.
 
A mão plebiscitária da democracia pode corrigir e ordenar uma transição de ciclo econômico melhor que a do mercado sozinha.
 
Isso é tão útil e carregado de atualidade numa hora em que a Grécia se rebela e o Brasil se depara com a encruzilhada do seu crescimento que fica a dúvida: por que o saldo favorável da experiência islandesa, com a mão dupla, não borbulha nas manchetes e escaladas de nosso 'glorioso' jornalismo de economia?
 
Um bom pedaço da explicação está justamente no fato de que os resultados exibidos pelos hereges afrontam a fatalidade que amparou e preserva a solução defendida pelo 'mainstream' aqui e em todo o planeta.
 
Afinal, se ‘there is no alternative’, como dizia lady Tatcher, o melhor é esquecer o 'mau' exemplo islandês.
 
As estatísticas do país mostram o inaceitável:  há vida fora do limbo a que foram encurraladas as economias submetidas a ajustes tidos como mais consistentes e responsáveis.
 
Em todas elas – tirando a boa saúde da riqueza financeira --  os demais indicadores rastejam e escavam o fundo do abismo para o qual foram empurrados a partir de 2008..
 
Tome-se os resultados ilustrativos da Grécia em transe (25% de desemprego), Portugal (45% de aumento da pobreza nos últimos cinco anos), Itália (dívida de 130% do PIB) e Espanha (50% da juventude sem trabalho).
 
Invariavelmente é assim: os indicadores de pobreza, PIB, emprego, dívida pública  e desempenho fiscal encontram-se  muito mais deteriorados do que antes de dar entrada à UTI salvadora.
 
Ajuda a entender, talvez, cogitar que o tratamento de choque é para isso mesmo: para exaurir o organismo, sob monitoramento especializado, de modo a extrair dele o que se quer: a transfusão de riqueza aos mercados e credores.
 
No caso da Islândia aconteceu o oposto. Depois de amargar um retrocesso superior a 8% do PIB, em 2008, com taxas de desemprego explosivas de 12%, o país deu as costas aos mercados e voltou a crescer.
 
A estimativa para este ano é de uma expansão do PIB(3,5%), com uma  taxa de desemprego que já recuou para um degrau confortável em torno de 3,5%.  
 
A economia deixou de ser um guichê do sistema financeiro internacional e se voltou para seus poucos, mas consistentes, trunfos – sendo o turismo o principal deles, ao trazer anualmente um fluxo de um milhão de visitantes, três vezes o tamanho da população.
 
Em um giro pela Europa esta semana, o presidente  Olafur Ragnar Grimsson explicou aos jornalistas atônitos a receita de sucesso do liliputiano universo islandês contra um mercado comandado por gullivers financeiros nada amistosos nem colaborativos.

‘Você  tem que ter a economia em uma mão e a democracia na outra’, resumiu Grimsson ao El País. 
Para ter a economia na mão, a Islândia, além de deixar quebrar e estatizar bancos, cometeu outras sugestivas heresias.
 
A primeira foi adiar seu processo de adesão ao euro, ficando livre para manejar a própria moeda, drasticamente desvalorizada para atrair capitais, baratear exportações e fortalecer o turismo.
 
Sobretudo, porém, não hesitou em decretar um rigoroso controle de capitais, impedindo que os fluxos especulativos fizessem da sua crise uma pista de pousos e decolagens de especuladores e chantagistas financeiros.
 
O controle de capitais islandês persiste; hoje estabelece cotas para a presença de fundos na economia como uma proporção do PIB,  uma espécie de trava de segurança para salvaguardar o comando do país na mão da sociedade, e não dos circuitos financeiros voláteis.
 
Enfim, o que a pequena Islândia fez de muito anormal foi inscrever na própria engrenagem econômica o controle da nação sobre o dinheiro.
 
O que o exemplo das duas mãos do presidente Grimsson demonstra é que essa foi uma ação política, não uma fórmula técnica.
 
Expor o mercado ao diálogo direto com a democracia, leia-se, com o discernimento e as escolhas da sociedade, é o pulo do gato para escapar à rendição incondicional à chibata insaciável dos impulsos rapinosos.
 
A Islândia não descobriu a pólvora, mas teve a coragem de usá-la em proporções adequadas na hora certa, contra um alvo devastador.
 
Num mundo em que a ubiquidade das finanças desreguladas gera a crise e avia a receita para seus efeitos, sem espaço para uma segunda opinião, ela ousou mudar as instâncias ordenadoras do seu futuro até então capturadas pela insanidade financeira.
 
A metáfora do dirigente islandês, note-se, dirigente de um governo de centro-direita, remete diretamente à encruzilhada brasileira.
 
Seu cerne é a questão do poder subjacente às escolhas políticas que se disfarçam em ciência econômica.
 
Aquilo que ele denomina ‘a mão da democracia’.
 
Engana-se quem supõe que a escolha islandesa envolvia grandezas singelas, sendo por isso foi tolerada.
 
A quebra de seu sistema financeiro gerou um apreciável rombo da ordem US$ 85 a mais de US$ 100 bilhões nos credores europeus.
 
Quem pagaria a conta?
 
A resposta imediatamente sugerida pelo mercado teve o efeito de um choque de realidade no ambiente entorpecido de consumismo e crédito fácil vivido até então pela sociedade islandesa.

O país, como de resto o mundo, surfou durante anos de vento em popa num mar de liquidez irreal.

Em 2007 sua renda per capita estava entre as seis maiores do mundo. Um islandês tinha então um padrão de vida em dólar mais de 50% superior ao desfrutado por um norte-americano.
 
Nem a pesca do bacalhau, nem o turismo, sempre forte, explicavam o fastígio de consumo, luxo e certa ostentação dos ricaços.
 
Por trás do reluzente bisão de ouro estava a engenharia financeira que catapultou três modestos bancos locais ao grupo dos 300 maiores titãs do vale tudo financeiro mundial.
 
Como? Gerando uma imensa espuma de operações ancoradas na lógica das pirâmides, operações ‘apoiadas’ em prazos descasados, crédito abundante e sem lastro em reservas, promessas de rentabilidade descoladas da vida real, ações puxadas por operações fraudulentas de bolsa em triangulações bancárias, ademais de associações ilícitas entre governantes e banqueiros e outras modalidades e práticas de multiplicação da riqueza papeleira.
 
Em resumo, a Islândia entrou de cabeça na onda e virou a estação de esqui do malabarismo financeiro e especulativo.
 
Ativos inativáveis foram sendo empilhados para formar uma gigantesca torre de babel de temeridade financeira, cujo valor passou em poucos anos do equivalente a um PIB islandês para dois, três, quatro, cinco ...
 
Chegou a algo como doze vezes o PIB nacional, o que na prática inverteu a razão jurídica da sociedade: a Islândia era um sistema bancário que possuía um país, não o inverso.
 
Esse traço revelar-se-ia particularmente assertivo na esfera das relações políticas entre governantes e bancos.
 
Em setembro de 2008, essa metáfora do nosso tempo ruiu de uma só vez quando os credores chegaram no fim de festa com a conta, dispostos a espetá-la  no lombo dos 320 mil islandeses de carne e osso.
 
Tangido pelos protestos, o governo, que já havia se rendido, convocou um plebiscito que decidiu por 93% não pagar a dívida e nacionalizar o sistema financeiro.
 
Uma nova consulta, em abril de 2011, agora cercada de pressões e terrorismo, ademais de certa suavização de imposições, teve mais de 60% de nova rejeição.
 
Não foi um processo linear.
 
Definitivamente, o capitalismo em crise não é um enredo de heróis inquestionáveis e virtudes angelicais.
 
A determinação dos islandeses, na sua dramática viagem de volta ao próprio país, conheceu revezes.
 
Um deles incluiu uma ida ao FMI no meio do caminho.
 
Mas o fato é que não se pagou os bancos e não se arrochou a sociedade para prover rentistas.
 
Banqueiros fraudulentos foram em cana e se fez um bem sucedido controle de capitais.
 
Hoje o país emerge como um solitário ponto de vitalidade em um cenário global que tem no impasse entre Grécia e  Alemanha o retrato de um esgotamento de ciclo e de método, cuja superação dificilmente poderá prescindir das lições islandesas.
 
Uma delas soa particularmente pertinente a um Brasil enredado na complexa busca de um novo impulso de crescimento em meio à desordem mundial.
 
Até que ponto uma alternativa ao arrocho ensaiado por aqui é viável, sem se recorrer à mão da democracia que tão bons serviços  prestou aos islandeses?
 
A tarefa de ajudar a mão do mercado – reordenando-a em favor da sociedade -- não parece estar ao alcance, nem nas cogitações, da democracia representativa realmente existente no país.
 
Eduardo Cunha e o seu agendamento religioso homofóbico que o digam.
 
A Islândia conseguiu driblar essa armadilha graças ao arcabouço plebiscitário de uma democracia em que 1.500 assinaturas bastam para se convocar uma consulta popular.
 
O equilíbrio reiterado pelo presidente islandês entre as duas mãos derrapa quando esse extravasamento do poder para a rua é boicotado pelo intercurso da política com o numerário empresarial.
 
Ademais de erradicar o financiamento privado de campanhas, o Brasil precisa reforçar a mão da democracia na rua, se quiser um dia redesenhar sua travessia para um novo ciclo de desenvolvimento, sem delegar ao mercado a distribuição do seu custo.