A fala de Lula divulgada hoje só tem uma coisa errada.
Deveria estar na TV aberta, não no Youtube.
Seria absolutamente natural como jornalismo, pois se trata de um ex-Presidente, vencedor de eleições ele próprio por duas vezes, e que, por mais duas vezes, saiu vitorioso como principal referência da eleição de Dilma.
Aliás, não seria apenas jornalismo com também um grande serviço público, pois se trata de um convite ao desarmamento de espíritos, à capacidade de convívio civilizado e ao bom funcionamento do país.
Infelizmente eu e você sabemos que é muito mais fácil que as tevês brasileiras veiculem a conversa de outros, mais interessados em proclamar como “venceram na derrota” e a dizer o que “exigem” que o governo faça ou deixe de fazer.
Quanto a Lula, o que os jornais se apressam em dizer, é que ele quer “interferir” no Governo Dilma.
E deixam de observar o obvio, que está expresso na camiseta inusual com que ele gravou o vídeo que reproduzo abaixo.
Lula vai assumir o comando não do Governo, mas de seu partido, o PT.
E tentar devolver a ele o discurso que faz, o do progresso social e da ampliação de oportunidades, sem exclusões.
A capacidade de falar às pessoas.
Lula percebeu que transferiram ao PT o ódio que não puderam dirigir a ele.
Por isso, ao mesmo tempo, adota o discurso antidivisão.
Divisão que azeda e estraga a vida, inclusive seus momentos de festa democrática.
Lula resgata o verso de Tom Jobim – “é impossível ser feliz sozinho” – e cria um caminho para sua reentrada no mundo da política.
O da socialização da felicidade. No vídeo abaixo.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
O que Dilma quis dizer com “Não vai ficar pedra sobre pedra”
Por volta das 19 horas de domingo, faltando uma hora para o TSE divulgar o resultado da eleição presidencial devido ao fuso horário que fez o Norte do país continuar votando enquanto as outras regiões já tinham encerrado a votação, sintonizei a Globo News. O semblante dos comentaristas já indicava que Dilma Rousseff fora reeleita.
Comentei com a esposa que o semblante sobretudo de Merval Pereira era escandaloso. Mais escandaloso do que os dos colegas de bancada. Renata Lo Prete, Cristiana Lobo e Gerson Camarotti ainda tentavam disfarçar o abatimento, pois, tal qual este que escreve, já sabiam que Dilma derrotara Aécio Neves. Merval, não. Exibia, despudoramente, sua tristeza.
Este blogueiro, àquela altura, também já sabia que Dilma estava reeleita. E bem antes das 19 horas. Às 18 horas em ponto, postei no Twitter a mensagem abaixo.
Faltando 2 minutos para as 19 horas, pouco antes de sintonizar a Globo News, postei na mesma rede social a confirmação que recebi de uma fonte palaciana de que Dilma Rousseff já era a presidente reeleita do Brasil.
Sintonizei a tevê na GloboNews devido a um lado obscuro da alma que me fez querer ver justamente o que encontrei: os semblantes combalidos dos comentaristas tucanos daquela concessão pública, que não apenas não disfarçavam a dor pela vitória de Dilma, mas tratavam de criticar a presidente e exaltar o que pareceram querer insinuar que fora uma espécie de “vitória moral” de Aécio.
Quem tiver estômago, confira aquia lenga-lenga partidarizada daqueles que deveriam oferecer análises ao espectador, não a doutrinação política que praticam naquela emissora dia após dia. Inclusive de forma ilegal, pois a faixa do espectro radioelétrico que ocupa a Globo News é concedida à família Marinho, mas não pertence a ela.
Mais tarde, ainda na mesma GloboNews, minha sala-de-estar é invadida por um crime de discriminação. Diogo Mainardi, ex-colunista da Veja, insultador profissional da família Marinho insulta impunemente o povo nordestino tanto quanto qualquer um dos energúmenos que, em todas as quatro eleições presidenciais que o PSDB perdeu para o PT desde 2002, vão às redes sociais dizer a mesma coisa que o comentarista do programa Manhattan Connection.
Palavras de Mainardi:
“O Nordeste sempre foi retrógrado, sempre foi governista, sempre foi bovino, sempre foi subalterno, em relação ao poder”
Assista, no vídeo abaixo, ao crime de discriminação que Diogo Mainardi cometeu no último domingo, direto de Nova Iorque.
O canal GloboNews foi transformado, pois, em um mero diretório do PSDB. Ilegalmente. É como se eu ou você chegássemos a uma grande avenida, interrompêssemos o trânsito e lá instalássemos uma mesa de bilhar para nos divertirmos com meia dúzia de amigos, apesar de não sermos donos da rua – ou, no caso, da avenida.
Pior do que tudo isso é que tanto na bancada de comentaristas da Globo News supracitada quanto no programa que a sucedeu, inúmeras vezes os funcionários da família Marinho pregaram o golpe. Ou, no dizer deles, o “impeachment” da presidente da República.
Ou seja: independentemente de ser verdade ou não a matéria criminosa da Veja que levou o TSE a punir a revista com direito de resposta e multa de 500 mil reais por cada hora que o site dessa mesma revista descumpriu a decisão da corte e não deu o devido destaque àquele direito de resposta, os funcionários da Globo News já haviam condenado Dilma.
Por que tudo isso? Tenha um pouco mais de paciência, leitor, que você já vai entender.
Em outras eleições que o PT surrou o PSDB, a postura escandalosa desses “jornalistas” não foi igual. A tropa da família Marinho manteve um mínimo de compostura e fingiu (mal) não estar tão abalada pela derrota.
Para melhor entendimento da tese desta página, avancemos cerca de 24 horas no tempo.
Dilma escolheu a TV Record para dar sua primeira entrevista como presidenta reeleita. A entrevista, porém, foi um tanto quanto tumultuada. A repórter Adriana Araújo quis saber de Dilma quem seria o novo ministro da Fazenda e a presidente, por óbvio, irritou-se. Afinal, uma decisão dessa magnitude envolve muita coisa e por certo não poderia ser anunciada daquela forma.
Alguns minutos depois, ao contrário da Record, que enviou uma repórter ao Palácio da Alvorada para entrevistar Dilma, a Globo preferiu um “link” do Palácio para o Jornal Nacional. Com ar de deboche estampado nos rostos, William Bonner e Patrícia Poeta começaram a inquirir Dilma quando ela provocou em seus rostos a expressão que você pode conferir no alto da página.
Palavras de Dilma a Bonner:
“Você pode ter certeza: eu não falei contra a corrupção e impunidade só durante a eleição. Eu não só falei durante a eleição, como você pode ter certeza que eu farei o possível e o impossível para colocar às claras o que aconteceu. Neste caso da Petrobrás e em qualquer outro que apareça. Não vou deixar pedra sobre pedra. Não vou investigar divulgando, apenas, seletivamente informações. Eu vou fazer questão que a sociedade brasileira saiba de tudo”
Muitos podem imaginar que Dilma tenha feito apenas um exercício de retórica para convencer o público de que vai investigar TUDO. Bem, tanto quanto William Bonner, Patrícia Poeta, os zumbis da Globo News e o mercado financeiro – que, quando Dilma subia nas pesquisas, caía – este blogueiro sabe que a presidente reeleita falou MUITO sério.
Por isso o mercado caía e, por isso, os teleguiados da Globo, da Veja etc a atacam com tanta fúria. Quando digo que é “por isso”, refiro-me ao que você poderá deduzir, estimado leitor, nas matérias da Folha de São Paulo reproduzidas abaixo. A primeira é do dia 2 de outubro e a segunda, do dia 17.
Quero afiançar ao leitor, pois, o que William Bonner, Patrícia Poeta, a 'tchurma' da Globo News, a família Marinho, a Veja e seus pitbulls, entre outros, já sabem: Dilma vai para cima de TODOS. Inclusive dos corruptores – como a Odebrecht, por exemplo. E não vai deixar que a banda tucana da PF, do MP, do Judiciário e da mídia acobertem os tucanos.
Por isso, essa turma chegou ao absurdo de inventar aquela matéria criminosa da Veja e a divulgar no Jornal Nacional a poucas horas do início da eleição presidencial em segundo turno. Por isso, gente com os mesmos interesses chegou ao ponto de falsificar a notícia da “morte” do doleiro Alberto Yousseff.
O segundo mandato de Dilma dará o maior golpe na corrupção que já foi visto no Brasil. Aqueles que sempre ficaram confortavelmente vendo políticos que compraram sendo presos, vão para o centro do palco. Por isso querem implicar Dilma e derrubá-la – antes que ela os pegue. Por conta disso, seria bom que ela reforçasse sua segurança.
Quem ganhou e quem perdeu na eleição presidencial
Flávio Aguiar
Tão importante quanto dizer quem ganhou e quem perdeu é dizer quem saiu ganhando e quem saiu perdendo. Nem sempre estas coisas coincidem, como se verá.
Dilma Rousseff – ganhou e saiu ganhando. O sucesso de sua candidatura dependeu muito de seu estoicismo (ao enfrentar os insultos no Itaquerão), da sua firmeza (ao responder de modo duro às acusações de Aécio nos debates), de sua capacidade de se comprometer com a manutenção (salário, empregos) e com a mudança (eventual correção no caso Petrobrás) de rumos. Provou e comprovou que tem luz própria e estofo de estadista.
Aécio Neves – perdeu e saiu perdendo. Provou que sua habilidade retórica não o protege de ataques porque não está preparado para isto. Achou que podia ganhar no grito, isto é, só atacando uma pauta negativa, sem se comprometer ou revelar seu verdadeiro programa para o país. Tergiversou. Conseguiu mais votos pelo antipetismo do que por si próprio. Não tem luz própria, e agora está ameaçado em seu arraial. José Serra já afia os caninos e Geraldo Alckmin planta seus chuchus na cerca de São Paulo para aprimorar seu picolé, ambos tendo em vista 2018. A vida de Aécio não será fácil.
Armínio Fraga – perdeu, mas se saiu perdendo é outra história. Cometeu um erro fatal. No debate com Guido Mantega, ao falr das dificuldades do cidadão brasileiro, falou de alguém que quer comprar ações na Bolsa. Mantega falou de quem quer trocar de geladeira. Claro: no Brasil tem mais gente preocupada em trocar de geladeira do que em comprar ações na Bolsa. Mas seu erro não foi este. Foi o de imaginar que quem assiste este tipo de debate hoje no Brasil é apenas quem quer comprar ações na Bolsa. Enterrou um pouquinho a candidatura de Aécio. Saiu perdendo? Ora ora, tem muito mundo financeiro pelo mundo afora querendo gente com Fraga.
Marina Silva – perdeu e saiu perdendo. Cresceu nas pesquisas depois da tragédia de Eduardo Campos e seus companheiros de vôo, mas se confundiu com o próprio crescimento. Atirou para todos os lados em busca de votos, rolou e enrolou, disse e desdisse, contradisse e entrou na dança e na contradança, mas o que ficou na lembrança é que quem tem poder sobre ela é o pastor Malafaia. Quem se curva à chantagem de pastor jamais vai chegar à presidência. De quebra, apresentou uma lista de reivindicações a Aécio para apoiá-lo, não viu nenhuma atendida e apoiou assim mesmo. Eu não votaria nela nem pra Associação de Pais e Mestres. Comprometeu a credibilidade de sua futura Rede, que pode virar uma rede para pescar goiabas. É pena. O Brasil precisa de um partido ambientalista forte.
PT – Empate técnico, graças à atuação e à vitória de Dilma Rousseff. Na verdade saiu perdendo. Perdeu cadeiras no Parlamento, mas não só isto. Em alguns momentos, em alguns lugares (sobretudo São Paulo) lembrou aquele ditado nordestino: “em tempo de murici, cada um cuide de si”. Murici vem do tupi-guarani e quer dizer “árvore pequena”. Pois é. O PT está se acostumando ao estilo “árvore pequena” tão característico da política brasileira. Fica pensando mais na próxima eleição do que nas utopias que o fundaram e o fundamentam. O PT precisa se reciclar (detesto o “refundar”, que me parece próximo do “afundar”). Ter uma política para a juventude mais efetiva. Uma política para o meio-ambiente mais visível e propositiva. Retomar a ideia de um projeto de futuro mais amplo, não apenas o de administrar este e aquele governo. Enfim…
PSDB – Desastre. Perdeu e saiu perdendo. Na mídia internacional, que pode ser conservadora em grande parte mas sempre chama os bois pelo seu nome verdadeiro, e não o de fantasia, o PSDB brasileiro é descrito como “business friendly”, o que deve ser traduzido por “amigo do mercado”. Isto quer dizer que o PSDB hoje é visto como estando à direita dos partidos da social-democracia europeia. Em termos de Alemanha, por exemplo, o PSDB de hoje é um clube misto de União Democrata Cristã, da chanceler Angela Merkel e do FDP, uma espécie de DEM (PFL) sem coronéis nordestinos por detrás. Periga entrar para a história dentro de um sarcófago de múmias sagradas. Para não dizer vacas.
Geraldo Alckmin – ganhou, mas saiu perdendo. Sua gestão da água em São Paulo foi, é e será um desastre. Ajudou Aécio a perder votos no segundo turno. Bom, pode ser que isto seja bom para ele e seu projeto. Em tempo de murici…
Lula – não ganhou porque não concorria. Mas saiu ganhando: continua sendo a principal referência de unidade do PT e seu maior cabo eleitoral, além de não se entregar à política das “árvores pequenas”. Jogou um bolão. Vão querer pegá-lo na volta da esquina e por na geladeira. Pode vir processo judicial em cima dele.
Fernando Henrique Cardoso – não perdeu, porque não concorreu. Mas saiu perdendo feio, sobretudo por ter perdido várias oportunidades de ficar quieto e não dizer nada. As mais evidentes foram a de dizer que pobre (nordestino, leia-se) vota mal não porque é pobre, mas porque é desinformado (por acaso quando pobre nordestino votava no PFL ele era bem informado?) e que o salário mínimo no seu governo era muito maior do que no governo Dilma, uma ofensa à aritmética, à geometria, à álgebra e à trigonometria, sem falar na teoria da relatividade e na física quântica. Disse tanta bobagem que foi rebaixado: de Príncipe da Sociologia (seu apelido nos meios acadêmicos, tanto pela elegância no falar e no trajar, quanto pela qualidade de seus trabalhos e seu apreço pela corte que lhe faziam admiradores, colegas e alunos, mais do que merecida) passou a Barão de Higienópolis. Que se cuide, pode virar Juiz de Luta-Livre, entre Geraldo, Aécio e José. O tempo dirá.
Luciana Genro – perdeu, mas saiu ganhando. Os elogios à sua campanha superaram as hostes 'psolistas'. Deu demonstração de coerência e consistência. Aguentou dedo na cara de Aécio (o que não o ajudou) e se saiu bem nas perguntas e nas respostas. É verdade que no segundo turno se enrolou brabo nas palavras, para não declarar apoio à Dilma. Seu correligionário, candidato ao governo de São Paulo, Gilberto Maringoni, se saiu melhor: “voto contra o Aécio”, e ponto. Sem vírgula.
Eduardo Jorge e o Partido Verde – que vergonha! Apoiar o Aécio no segundo turno! Viraram um puxadinho, o biocapitalismo do capitalismo selvagem. Bom, muitas cúpulas do PV aqui na Europa se comportam assim. Precisavam ter mais contato com a esquerda verde por aqui. Para não dar vexame.
Extrema-direita – saiu ganhando. Malafaia chantageou Marina com sucesso. Feliciano e Bolsonaro tiveram votações consagradoras. Levy Felix, o candidato do conduto excretor, triplicou seus votos. O Pastor Everaldo tanto latiu que mereceu audiência especial com Aécio. Esse pessoal tem um poder de fogo notável. Dá engulhos e medos.
PMDB – Empate técnico, o que para ele é vitória. Saiu ganhando. Continua sendo um partido-esponja, que tudo absorve. Parece um polvo, com tentáculos em toda a parte. É capaz de compor até com Levy Felix, Pastor Everaldo e Luciana Genro ao mesmo tempo. Tem vida longa.
PIG e Veja em particular – perderam feio, a ver se saíram perdendo. Puseram todas as suas fichas em derrubar Dilma e o PT desta vez por todas. Não deu certo. Esqueceram de combinar com o povo brasileiro, que, acham, são o círculo externo da teoria da pedra no lago: como são ignorantes mesmo, o importante é atingir os “esclarecidos” que “esclarecerão” a “gente diferenciada”. Como a base do PIG é o Rio e São Paulo, desconfio que vão enviar seus copiadores no Norte e no Nordeste para um campo de reeducação em Miami. Daqui pra frente vão começar a pregar primeiro veladamente depois com velas acesas o impeachment, a condenação do Lula (afinal, ele não fez nada para impedir o afundamento do Titanic nem a crise econômica europeia) e coisas assim. Pode apostar. Quando digo que não sei se saíram perdendo, é porque o PIG é como o vampiro: morreu nesta eleição, mas vai renascer mais cruento e sanguinário na próxima. Com verbas de publicidade do governo e das estatais.
O camarote do Itaú no Itaquerão – perdeu, saiu perdendo, deu vexame internacional. Foi se roçar nas ostras, como se diz.
Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa e Sérgio Moro – não perderam, porque não concorriam. Mas saíram perdendo. Gilmar Mendes suspendeu um dos direitos de resposta conseguidos pelo PT em relação à Veja numa decisão por 7 x 0, postergando-a para depois das eleições. Joaquim Barbosa sumiu, depois de ser o grande herói do linchamento conhecido como processo 470 (do “mensalão”, sem provas). Pode se recuperar. Se quiser se candidatar a vereador em 2016, talvez seja eleito. Sérgio Moro vai se candidatar ao título de “Juiz Transparência”, tal é a quantidade de vazamentos em suas audiências. Deve ser coisa da National Security Agency, um caso para Snowden e Assange juntos.
O povo brasileiro – ganhou e saiu ganhando. Não precisa explicar.
A primeira entrevista
de Dilma, reeleita
Fernando Brito
Muito melhor do que a dada ao Jornal Nacional, a entrevista de Dilma Rousseff ao Jornal de Record, nessa última segunda-fira, foi reveladora do espírito da Presidenta.
Ela vai ouvir, esperando passar a histeria de uma direita que sentou na boca o gosto da vitória e se retorce de ódio.
E também de passar a ação dos espertalhões que manipularam o mercado acionário nos últimos 60 dias.
É claro que a situação econômica do país não é uma maravilha, como não é uma maravilha em parte alguma do mundo.
Só que nós temos vantagens que os outros não têm.
Um mar de petróleo, para começar.
Um potencial mercado consumidor onde a inclusão de um décimo da população nos direitos da cidadania moderna equivale a um país inteiro na Europa.
Dilma garantiu que não vai tocar no emprego e no consumo, a não ser para ampliá-los.
Não aceitou nem mesmo especulações sobre a linha de suas escolhas ministeriais.
E aí sangrou na veia da saúde, quando se falou em corrupção.
Não tem terceiro turno.
“Ganha quem conquista a maioria e foi isso que aconteceu: eu conquistei a maioria”.
Eu sou uma pessoa com uma trajetória política e uma integral dedicação à coisa pública. Jamais na minha vida houve uma única acusação. Eu não vou deixar que passadas as eleições esqueça-se as acusações.(…) Antes de quererem investigar, eu quero saber.
Lascou a crise hídrica em São Paulo no silêncio da imprensa.
E disse para todos o que significou o recado do eleitor a ela, na reeleição.
“Olha, eu acho que você acertou numas coisas, mas você que tem de fazer mais”
O Brasil vai ser um país que cuida de todos, mas em especial dos pobres, das mulheres, dos negros e dos jovens, que foram os grandes segmentos que emergiram nestes 12 anos”.
“Há uma ponte para fazermos isso. Qual é a ponte? É que todos nós queremos o melhor para o Brasil.”
Nós vamos defender esta ponte, contra quem quer um Brasil em ilhas.
Atenção, separatistas! Quem
decidiu a eleição
de Dilma foram o Sul e o Sudeste, não o Nordeste...
Marcos Sacramento
O mapa da vereadora do RN Eleika Bezerra Guerreiro
Minutos depois do resultado que confirmou a reeleição da presidente Dilma Rousseff, uma onda de preconceito tomou as redes sociais. Internautas revoltados despejaram ódio contra nordestinos – ela venceu em todos os estados da região Nordeste.
Ofensas como essas não são novidade. Em 2010, a estudante de direito Mayara Petruso, revoltada com a eleição da presidente Dilma, soltou uma série de impropérios dirigidos nordestinos. Ela foi denunciada pelo Ministério Público Federal (MPF) e julgada por crime de discriminação ou preconceito de procedência nacional. A pena foi prestação de serviços comunitários e pagamento de multas.
Quatro anos depois, milhões de mayaras estão por aí espalhando veneno. A SaferNet Brasil, ONG que atua em defesa dos direitos humanos na internet, registrou um aumento de 342,03% nas denúncias de racismo e crimes semelhantes no último domingo, em comparação com o primeiro turno.
Junto com as ofensas vieram propostas absurdas de dividir o Brasil em dois: entre os estados que elegeram Dilma e aqueles onde Aécio teve mais votos.
Ideia estapafúrdia que não vem só de bobalhões com vontade de desabafar suas frustrações. A vereadora de Natal Eleika Bezerra, do PSDC, partido do eterno candidato José Maria Eymael, propôs criar uma região chamada de “Nova Cuba”.
Apesar de ser professora aposentada, Eleika ignorou o fato de que Dilma perdeu no Espírito Santo e em três estados da região Norte. No mapa da vereadora, o estado natal de Aécio seria “implodido para construção de um lago”.
No editorial desta terça-feira (28), o jornal O Globo reverberou a voz da parcela da população insatisfeita com o resultado das urnas: “Fica evidente que o país que produz e paga impostos — pesados, ressalte-se — deseja o PT longe do Planalto, enquanto aquele Brasil cuja população se beneficia dos lautos programas sociais — não só o Bolsa Família —, financiados pelos impostos, não quer mudanças em Brasília, por óbvias razões.”
O problema é que, de acordo com o resultado das urnas, essa interpretação está, além de tudo, incorreta.
De acordo com dados fornecidos pelo TSE, a vitória do PT foi garantida por eleitores do Sul e Sudeste, com 26,6 milhões dos votos totais obtidos por Dilma — mais de 2 milhões além dos obtidos no Norte e Nordeste (24,5 milhões de votos).
Dilma obteve 48,8% do sufrágio no que o Globo chamou de áreas “ricas e produtivas” do Sul e Sudeste; 45% vieram dos “pobres”.
“Se prestassem mais atenção nos números do TSE, editorialistas, sociólogos e analistas perceberiam que não é o país que está dividido ao meio, geográfica e socialmente, mas apenas os votos dos partidos”, apontou o jornalista Ricardo Kotscho em seu blog.
Isso tudo, no entanto, é irrelevante para os derrotados. O que importa, para eles, é perpetuar uma ideia de superioridade de quem não vota no PT e contaminar com esse pensamento elitista a parcela desinformada e acrítica da classe média. Só isso, sem compromisso com ética ou verdade.
(*) Marcos Sacramento, capixaba de Vitória, é jornalista.
Dilma: A fama de durona desaparece
em 10 minutos de prosa
Carla Jiménez, do
A Dilma Rousseff que eu conheci pessoalmente
A primeira coisa que fiz ao ser apresentada a Dilma Rousseff, em junho deste ano, foi reparar nos seus sapatos. Baixinhos, um tipo de sapatilha de couro, arredondada na ponta, me deixaram claro que ela precisa de calçados muito confortáveis para lidar com a rotina maçante de uma presidência da República. O encontro com ela aconteceu de forma inesperada. A presidenta queria reunir os correspondentes internacionais para falar sobre os preparativos para a Copa do Mundo. Ao confirmar a participação no jantar no Palácio da Alvorada, tremi. Por mais anos de estrada que se tenha na profissão, ver um chefe de Estado ao vivo sempre dá um certo nervosismo. Pois assim cheguei no dia 3 de junho a Brasília, para seguir ao Palácio da Esplanada, véspera da Copa do Mundo.
O time de jornalistas estrangeiros esperava do lado de fora da casa, observando o belo jardim do Palácio, enquanto conversávamos com alguns ministros, até que ela chegou cumprimentando com beijinhos quem não se intimidou. Ela então puxou o assunto: "E a Copa?", e logo em seguida pipocaram as perguntas sobre os fantasmas que cercavam o evento – atraso de obras, surto de dengue, entre outras. Enquanto anotava discretamente o que ela dizia – a regra estabelecida pela presidência era não gravar o encontro – passei a reparar em alguns detalhes. Ficava olhando de perto o rosto da presidenta que tem fama de brava, séria, grossa, trator, e toda sorte de apelidos que a tiram do campo da feminilidade. Queria reparar nas rugas – muito menos do que eu imaginava – enquanto ela sorria. E sim, a presidenta sorri. E muito. Deu muitas risadas, e estava entusiasmada, pois tudo estava pronto para o início da Copa do Mundo, a contento.
Chamei a sua atenção quando fiz perguntas de infraestrutura, e as estradas que estavam sendo construídas no Centro-Oeste do país. Sabia que era um assunto que a presidenta gosta de falar, por ter criado um programa de concessões bilionário para melhorar a logística do país. E, efetivamente, ela disparou a falar com uma naturalidade que me deixou até assustada. Em nada lembrava o 'dilmês', como foi apelidado seu modo de falar que por vezes repete palavras e dificulta o entendimento imediato. Ela tem um pouco de cabeça de engenheira, que absorve números, e desenhava no ar o que algumas estradas iriam fazer pelo país.
Mas o momento de ver a Dilma humana foi quando o assunto enveredou para as obras de infraestrutura no Nordeste. Nesse momento, os olhos da presidenta brilharam, e eu pude ver bem de perto que não era mais o cérebro da economista-engenheira, mas o coração da mãe de Paula, e avó de Gabriel, que se manifestava. Ela falou sobre o programa de cisternas, que levou perto de um milhão de reservatórios de água para as casas de pessoas carentes, que antes sofriam com a carestia. "Antes se trocava água pelo voto", disse Dilma, que tomou o meu caderno para desenhar como eram as cisternas. Ela lembrou dos caminhões pipas que chegavam nessas regiões em véspera de eleições, para fazer 'escambo' de voto. O reservatório, porém, ficará para sempre, independentemente do governante que assumir a cidade ou Estado em questão.
Depois de algum tempo, a figura formal da presidenta havia desaparecido. Já era uma pessoa normal, uma profissional em seu ofício como os jornalistas que a rodeavam. Seguimos então para a bela mesa de jantar, e estava curiosa para saber quem se sentaria ao lado da presidenta. Ficou o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, do seu lado esquerdo, e um jornalista boa pinta do seu lado direito. Pensei com meus botões: "Ah, mas essa Dilma não tem nada de boba... ministro e jornalista bonitão, um de cada lado!".
Lembrei desse detalhe quando, um mês depois, ela recebeu o ator Cauã Reymond no Palácio do Planalto, e ela o saudou antes que ao vice-presidente, Michel Temer, como manda o protocolo. "Desculpe Temer, mas não é todo dia que a gente tem um Cauã no Planalto", disse ela, para deleite da plateia que caiu na gargalhada.
Dilma mora com a sua mãe na residência oficial, e não se tem notícias de amores ou namorados. "Não dá tempo", respondeu ela certa vez numa entrevista. Por isso, nesse pequeno detalhe de quem estaria ao seu lado no jantar, que possivelmente era apenas uma coincidência, me despertou a curiosidade sobre como deve ser abrir mão de um relacionamento, e ser cercada por homens poderosos o tempo todo. A presidenta tem um quê de sedutora que o dia a dia não capta.
Em alguns momentos, passava pela minha cabeça que Dilma foi torturada brutalmente com choques elétricos durante a ditadura, chegando a ter a arcada dentária descolada de tantos socos. Quem consegue sobreviver sem amargura a isso? Tive vontade de enchê-la de perguntas a respeito, mas não vi brecha. Continuava reparando na Dilma humana, que evitou a sobremesa para não engordar, embora não tenha resistido a um bocadinho de sorvete, se a memória não me falha.
Depois de tanta informalidade, as perguntas duras já haviam sido feitas e houve espaço para matar as pequenas curiosidades. Quantas horas dorme? – Seis horas por noite. – Gosta de seriados? – Adoro as séries da BBC de época, e Downton Abbey. Quais livros está lendo? – O livro de Thomas Pikkety, Capital do Século XXI. E gostei de O homem que amava os cachorros (de Leonardo Padura).
Em seguida, ela mostrou o resto da casa, as pinturas, e os detalhes de obras do arquiteto Oscar Niemeyer na residência oficial. Ao final, antes de se despedir, reuniu os jornalistas para uma foto oficial. Sem me dar conta estava ao lado dela, e ela colocou as duas mãos nos meus ombros, numa proximidade inesperada. Cheguei do jantar pensando: "Por que ela tirou foto ao meu lado? Agradei nas perguntas?". Ao trocar de roupa, me dei conta de um detalhe. Eu vestia um casaquinho vermelho, da cor do PT, o que deve explicar por que ela me escolheu para sair ao lado. Essa presidenta não tem nada de boba...