sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Eleições: construção, desconstrução e

 reconstrução


Flávio Aguiar                        

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Diante da perda de ímpeto da candidatura de Marina Silva, passou-se a falar da “desconstrução” de sua persona política. Segundo alguns arautos da mídia conservadora essa “desconstrução” chegaria às raias da “perversão” por parte da campanha da presidenta Dilma Rousseff. Cheguei a ler apelos indisfarçáveis, embora disfarçados, para que o ainda naquela altura “outro” candidato, Aécio Neves, não exagerasse nas suas críticas, para não ajudar a “desconstrução” perversa de Marina empreendida pelo PT, inviabilizando o segundo turno.
Na verdade foi a própria candidatura de Marina, depois da morte de Eduardo Campos, que encontrou dificuldades para se construir. Ela deu um passo em falso muito complicado e grave ao recuar e se diminuir diante das ameaças do pastor Malafaia. Depois vieram outros passos em falso. A insistência na tecla da falaciosa “independência do Banco Central” a tornou dependente da linha pessedebista: grudou-a, praticamente, na sombra de Aecio Neves.
Chorar por causa de críticas também não a favoreceu: a população sabe que a política dentro e fora do Brasil é uma selva – às vêzes uma jaula – cheia de tigres, leões, hienas, sucuris e jibóias, sem falar nos ratos de plantão. Quem quer se candidatar a entrar na jaula tem que se  mostrar capaz de enfrentar as feras. A atitude de Marina lembrou demais a de Romário chorando diante do Felipão em 2010 por não ter sido convocado. Aí mesmo é que ele próprio se cortou da seleção.
Diante das fraquezas da candidatura Marina, cada vez mais expostas à medida em que ela se expunha, Aécio começou a reconstruir a sua. Pode ser que chegue ao segundo lugar, mas ainda tem muito chão para correr, tirando votos da rival na candidatura a vice. Precisaria tirar-lhe, puxando-os todos para si, pelo menos uns quatro milhões de votos. Ou então captar quase todos os indecisos e capturar mais alguns milhões de eleitores de Marina.
Na verdade, quem aguentou um longo e desgastante processo de “desconstrução” foi a presidenta Dilma Rousseff. Este processo sempre atingiu o PT, desde sempre: Tem razão Lula ao dizer que a mídia o crucificou (o termo é meu, não dele) durante seus oito anos de presidência. Os ataques vinham de antes, inclusive.
Mas agora no caso da presidenta que disputa a reeleição, a coisa “recrudesceu”, como diria o ex-presidente Figueiredo. Recrudesceu porque a hipótese de mais quatro anos de PT no Planalto, com Dilma, exacerbou vários medos e ódios. Medo do desossamento do PSDB, como aconteceu com o DEM. Nesta altura é quase certo que o PSDB vai ficar sem Minas, reduzindo seu arraial consideravalmente. Medo de perder a “boca” que representa o pré-sal, além de outras. E o ódio: as políticas sociais do governo, ao darem certo, exacerbaram o ódio de classe, em todas as frentes. A “desconstrução” de Dilma e do governo tornou-se mais raivosa e odienta do que nunca, alimentada também por uma onda de indisfarçável, mesmo que disfarçada, de machismo.
Não só se procurou desqualificar sistematicamente o governo e a presidenta como corrupto ou conivente com a corrupção (“o mais corrupto da história”), como a partir de 2014 a mídia conservadora, dentro e fora do Brasil, entrou por uma campanha de “desconstrução” do próprio país e do povo brasileiro. O mote central desta campanha foi a nossa propalada “incompetência” para organizar a Copa do Mundo, uma verdadeira “inapetência” para o sucesso devido a sermos um país de favelados, corruptos, narcotraficantes ou narcotraficados, desorganizados, pobretões e vocacionados para a miséria eterna.
Não deu certo.
E com a campanha, enquanto Aecio se enrolava e Marina (depois de suceder a Campos) se enrolava na medida mesma em que se desenrolava, a presidenta Dilma passou a se reconstruir.
Sua reconstrução, até o momento, teve uma palavra-chave: futuro. O futuro é e continua sendo a grande palavra-chave do Brasil. É o futuro do emprego contra o futuro do desemprego, por exemplo. É a confiança versus a desconfiança no futuro. E a presidenta conseguiu, até o momento, captar a confiança de um grande número de brasileiros no futuro que ela oferece e simboliza.
Esperemos que isto se confirme de vez neste domingo, ou mesmo no segundo turno, se ele acontecer.

É alta a probabilidade de Dilma vencer no 1º turno

                              Blog da Cidadania por Eduardo Guimarães
 Pesquisas Ibope e Datafolha divulgadas no início da noite dessa quinta-feira,(2), a 3 dias da eleição, mostram quadro impensável há 30 dias: além de ser alta a possibilidade de Dilma Rousseff reeleger-se em primeiro turno, mesmo em caso de segundo turno sua vantagem é muito maior que a da (até aqui) segunda colocada, Marina Silva.
Na internet, a “Rádio Estadão”  divulgava no começo da noite passada os resultados da mais recente pesquisa Ibope (com 3010 entrevistados e campo de 29 de setembro a 1º de outubro) sobre a sucessão presidencial:
Cerca de 40 minutos depois, o portal UOL divulgava pesquisa Datafolha (com amostra muito maior, de mais de 12 mil entrevistados, e mais recente, de 1 e 2 de outubro)
Dos votos válidos, no Ibope, Dilma aparecia com 47%; no Datafolha,  com 45%. 
Se formos nos basear pelo pior resultado para a atual presidente da República (o do Datafolha), falta-lhe o percentual mais baixo de votos para vencer em 1º turno desde o início da campanha eleitoral. Precisaria crescer 2,5 pontos percentuais até domingo.
Difícil? Talvez. Impossível? Jamais. Até porque os números do Datafolha divergem de sondagens do PT.
Nesse aspecto, vale dizer que fonte da campanha de Dilma com a qual conversei recentemente previu que ela seria “retida” abaixo do necessário para vencer em primeiro turno através do uso da margem de erro e, se necessário, de algo além dessa margem. Totalmente condizente com o que dizem as duas pesquisas recém-divulgadas.
Outro ponto que vale ressaltar é que candidatos que passam para o segundo turno com tal vantagem sobre o segundo colocado dificilmente perdem a eleição. Esse é, inclusive, um conceito dos próprios institutos de pesquisa, marqueteiros, cientistas políticos etc. Desse modo, haver segundo turno não mudaria em nada o favoritismo de Dilma.
Por fim, a pesquisa Datafolha mostra que há 5% de indecisos. Se Dilma herdar desse grupo os 45% que tem dos votos válidos, estará a poucas casas decimais de se reeleger em primeiro turno. Esses números esbarram na margem de erro das pesquisas.

Após  debate  na   Globo,  Dilma brinca com o controle de tempo
na TV: 'Dois minutos para o beijo'

 Crédito: Reuters
"Isso já está virando uma febre, gente. Qualquer dia vou chegar em casa e minha filha vai perguntar? Como você está? Você tem 30 segundos".
A tirada bem-humorada ─ em alusão ao rígido controle de tempo adotado pelos mediadores nos debates ─ foi protagonizada pela presidente Dilma Rousseff durante entrevista coletiva a jornalistas após o confronto entre os candidatos à presidência na TV Globo.
Visivelmente cansada e com "vontade de dormir", segundo confidenciou a um integrante de sua equipe, a petista acabou interrompida por uma assessora da emissora carioca quando respondia a uma pergunta sobre o adversário Aécio Neves.
Quando a presidente começava a discorrer sobre o assunto, negando que houvesse dado atenção prioritária ao tucano durante o debate, ouviu a determinação de que só tinha um minuto para concluir a entrevista.
"Um minuto para quê?", questionou Dilma.
"Para terminar a [entrevista] coletiva, que tem cinco minutos", respondeu a assessora.
Dilma riu e ironizou o vício de controlar o tempo de resposta. Contrariada, alegou que se tratava de uma coletiva de imprensa e até tentou seguir adiante, mas foi interrompida novamente pela mesma assessora, que afirmou que todos os candidatos tiveram o mesmo tempo (cinco minutos) para responder às perguntas dos jornalistas ao fim do debate.
A presidente saiu do local batendo o indicador na testa e fez nova piada. Segundo ela, "os maridos vão estabelecer tempo para beijar suas esposas".
"Dois minutos para o beijo", brincou Dilma.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014


Liberdade de difamar: Gilmar Mendes

cassa direito de resposta do PT à Veja


Fernando Brito   
mendes
Gilmar Mendes, em decisão individual, cassou nesta quinta-feira(2) a noite decisão do plenário do Tribunal Superior Eleitoral, tomada por unanimidade dos votos, de conceder direito de resposta ao PT contra a revista Veja por ter acusado o partido de ter pago – e com dólares – a chantagistas para ocultar escândalos de corrupção.
Trata-se de uma monstruosidade , porque Gilmar Mendes sabe perfeitamente que sua decisão cairá, ao ser examinada pelo plenário.
Só que, quando isto acontecer, já terão passado as eleições, em primeiro turno.
E, portanto, o objetivo eleitoral inequívoco da revista difamadora terá sido atingido.
O que torna a decisão singular de Mendes, na prática, uma licença para que a Veja pratique um crime impune de manipulação eleitoral.
Mendes afronta o entendimento de pelo menos três de seus pares no STF, integrantes do TSE: Dias Tóffoli, Rosa Weber e Teori Zavascki.
Pior, ele é integrante do TSE e não estava na sessão para que, derrotado, ficasse numa situação mais canhestra se – como ocorreu – a ele fosse distribuído o recurso da Editora Abril.
Inaugura-se agora a liberdade de difamar às vésperas das eleições.
O direito de resposta, agora, é uma simples emanação jurídica e servirá apenas para dizer, aliás como já ocorreu de outras vezes: “você lembra daquilo que disseram do seu candidato e que fez você mudar o voto? Era brincadeirinha, não era verdade”.

A assombração na urna

Saul Leblon                      

Arquivo
Quando as urnas de outubro emitirem o seu veredito, sendo ele o que se espera, terá início um novo turno.

Ele desenhará um capítulo decisivo na história da luta progressista no Brasil.
É recomendável acalmar o país após um pleito encarniçado, aconselham setores do PT à Presidenta Dilma.
É verdade. A primeira obrigação de um Presidente vitorioso é desarmar os espíritos, reabrir canais de diálogo, propor uma agenda de negociação. Pacificar a crispação eleitoral.
Mas é preciso ter claro: repetir o que já vem sendo feito será pouco mais que mendigar indulgência aos mercados.
Eles não a concederão.
A menos que o vencedor adote o programa derrotado.
Não se trata, portanto, apenas de exercer um quarto e sucessivo mandato progressista em um país em desenvolvimento.
O ponto a reter é que estamos diante de desafios que prenunciam o ciclo mais delicado da trajetória nacional desde 2002.
A vitória nas urnas será um passo do caminho.
Entre outros recados, a reeleição de Dilma significará que uma parcela majoritária dos brasileiros se recusou a delegar a tarefa do futuro à livre escolha dos mercados.
Não é pouca coisa.
Dadas as condições da disputa, contra uma frente única conservadora local e global, em meio a uma crise internacional que se arrasta por seis anos, e considerando-se o desgaste inevitável de 12 anos de governos progressistas, chega a ser um feito histórico.
O safanão dos votos nos apetites plutocráticos, portanto, demarca as linhas de campo do jogo.
Mas está longe de encerrar a disputa.
O nome do jogo é construir uma alternativa à lógica dos puros-sangues cevados na alfafa rentista, que exaurem a sociedade, tem maioria no legislativo, detém meios financeiros para sabotar a economia e dispõem de um oligopólio midiático para acabrunhar as expectativas de toda a sociedade.
Indiferentes ao veredito das urnas, eles não cessarão de escoicear as estrebarias cobrando a validação da rédea solta que a vitória de Marina ou Aécio lhes facultaria.
Mudar essa correlação de forças é o turno histórico que começa imediatamente após a contagem do último voto em outubro.
Trata-se de encurtar a rédea do tropel xucro para devolver ao Estado e à sociedade a capacidade de mobilizar forças e recursos e assim coordenar o passo seguinte do país no século XXI.
O Brasil dispõe hoje de uma incontrastável rede de controles financeiros e ideológicos, públicos e privados, nativos e forâneos, com braços que se articulam de dentro e de fora do país, indo das universidades às consultorias de mercado, da prontidão midiática aos partidos políticos conservadores.
Esse redil articulado e eficiente trabalha sob prontidão máxima para não deixar escapar um objetivo central.
Qual?
Assegurar a valorização real à liquidez rentista, independente do seu custo social.
Garantir que anualmente se reserve algo como 3% do PIB em recursos fiscais ao pagamento de juros da dívida pública (cujo serviço efetivo atinge quase o dobro disso, somadas rolagens, vencimentos, capitalizações).

Esse é o dogma angular da catedral conservadora.
Foi sobretudo em torno dele que se estruturou a lengalenga do discurso da terceira via vocalizado pela doce Marina, assim como a promessa de resgate ‘dos fundamentos’, ecoada por Aécio e seus armínios.
Os efeitos colaterais da ração rentista –uma taxa de retorno irreproduzível no investimento produtivo, nas mesmas condições de liquidez, segurança e rentabilidade– explicam em boa parte a anemia na formação bruta de capital fixo no país.
Com os desdobramentos sabidos.
O investimento (em máquinas, tecnologia) é a alavanca da inovação e da produtividade sistêmica.
Sem ele, a economia cresce pouco, a indústria murcha, os empregos de melhor qualidade escasseiam.
O país perde competitividade internacional. Seu mercado é invadido por importados.
Empregos, renda e impostos vazam para o exterior. Cadeias produtivas locais são corroídas, ademais de desequilibrar a contabilidade externa: hoje, mais de 1/5 da manufatura consumida no país é importada. O déficit cambial da indústria é de quase US$ 100 bi, o valor equivale a cerca de 25% das reservas brasileiras.
O conjunto favorece a arenga do ‘custo Brasil’, que em certa medida pretende compensar a atrofia do investimento com a hipertrofia da exploração dos assalariados.
Mas também com privatizações e sucateamento de serviços –recurso ortodoxo para emagrecer a máquina pública exposta a uma espiral de demandas que as receitas atrofiadas do baixo crescimento não dão conta de atender.
O saldo da condicionalidade rentista é tão compatível com o equilíbrio macroeconômico quanto enxugar o chão com a torneira aberta.
Não é uma questão técnica ou uma queda de braço apenas local.
Thomas Piketty que o diga.
A renda média da família norte-americana hoje é 8% inferior a existente em 2007, antes da crise. E já estava estagnada em relação ao nível de 1999.
Ou seja, há 15 anos a renda da classe média da nação mais rica da terra não cresce, enquanto nesse meio tempo a bocarra financeira já se empanturrou de lucros e bolhas suficientes para levar o capitalismo mundial a sua pior crise desde 1929.
Essa é a determinação central da luta de classe em nosso tempo, que tem na bomba norte-americana de sucção de capitais um abrigo seguro para o dinheiro arisco de todo o mundo.
É assim que a livre mobilidade dos capitais desautoriza as urnas e afronta governos progressistas em todo o planeta.
Ao mesmo tempo que impede o controle dos juros pelo Estado, sabota impostos e taxas que compensem a sua sangria no poder fiscal dos governos.
A ‘solução’ proposta pelo conservadorismo nas eleições presidenciais de 2014 consiste em resgatar o Estado mínimo, dar independência ao BC em relação à democracia, ‘flexibilizar’ a correção do poder de compra das famílias assalariadas.
Enfim, oficializar o descompromisso entre as urgências da população e as obrigações do Estado.
É forçoso repetir: se tudo ocorrer como se prenuncia, essa diretriz terá sido rechaçada nas urnas de 2014 no Brasil.
O desafio será substituí-la por uma coordenação –interna e de alianças internacionais– que propicie a delicada sintonia política entre a agenda do Bem-estar Social e a produtividade capaz de suportá-la.
A prioridade recente à infraestrutura e o impulso industrializante do pré-sal em toda cadeia de fornecedores da Petrobrás constituem trunfos invejáveis do Brasil na disputa pela competitividade em nosso tempo.
O conjunto, porém, ainda carece da legitimidade de um projeto ancorado em amplo escrutínio social, que dê ao governo meios políticos para agir além da margem incremental que desacredita o Estado e enerva a cidadania.
Hoje, esse debate sobre custos, prazos, metas, concessões, sacrifícios e salvaguardas flutua acima da sociedade, restrito à linguagem cifrada do jornalismo econômico conservador.
Será preciso politizá-lo, como Dilma e Lula começaram a fazer na campanha em relação ao BC independente, para explicitar escolhas e pactuar compromissos de curto, médio e longo prazo.
Embora a Presidenta Dilma tenha repelido a ideia de promover desemprego e castrar direitos trabalhistas –‘nem que a vaca tussa’, disse ela– para reduzir a inflação ou baixar custos’, hesita-se em transformar a encruzilhada brasileira em uma agenda de debate popular.
Tal blindagem permite que se difunda a confusão proposital entre eficiência e exploração.
Na vida real de uma nação, as urgências da sociedade, quando despolitizadas e tratadas em regime incremental de longo prazo, não raro levam ao desatino regressivo.
Massas de forças descomunais em conflitos insolúveis podem arrastar uma nação para correntezas incontroláveis, sujeitando-a a predadores ferozes.
Sacudir a agenda do futuro brasileiro a salvo da entropia do arrocho, requer uma alavanca capaz de irradiar impulsos tão fortes quanto aqueles derivados das assembleias históricas registradas no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo nos anos 80.
Não será o PT exaurido por 12 anos de governo que fará isso sozinho –ele próprio carente de um aggiornamento só crível se tiver forças dirigentes que o reconduzam a um mergulho de volta à organização de base dos movimentos sociais.
O terceiro turno das eleições de 2014 é uma tarefa para o engajamento democrático de amplas forças da sociedade brasileira, cujo catalisador pode ser a luta pela Constituinte da reforma política.
Nisso o destino do PT e o do desenvolvimento progressista se entrelaçam firmemente.
Por exemplo, no desafio de engajar politicamente 24 milhões de jovens brasileiros moradores das periferias urbanas.
Eles representam cerca de 17% da população ,conforme estudo da Serasa Experian, divulgado esta semana, que traça o perfil de 11 segmentos que compõem o mosaico de renda da sociedade.
Hoje, a inserção desse contingente se dá, predominantemente, pelo rally do consumo.
Embora desfrutem de renda baixa, esse grupo de moços e moças entre 21 e 35 anos captou um quinto de todo o crédito liberado pelo sistema financeiro brasileiro.
Seu caso evidencia uma dimensão não mais adiável do terceiro turno à vista.

Nela, as forças progressistas vão se defrontar com seu principal fantasma e a mais grave omissão.
A abrangência das mutações econômicas e sociais registradas no país desde 2004 não se fez acompanhar de uma contrapartida no plano da representação política.
O economista Márcio Pochman, arguto observador desse assombração político, sugere que ele lança a luz mais esclarecedora sobre irrupção de protestos registrados nas ruas brasileiras em 2013.
Sua angulação expõe um flanco pouco debatido das políticas sociais desse período, na verdade, quase um tabu.
O carro-chefe delas, o decano Bolsa Família, chega hoje a 14 milhões de lares, reúne o formidável contingente de 50 milhões de beneficiados.
Não possui um único fórum próprio que os expresse.
O engajamento dos principais interessados talvez até barateasse a estrutura do programa, obsessão do conservadorismo que, todavia, vetou os comitês gestores formados por representações locais do Fome Zero, logo no início de 2003.
Do alto de seus 380 anos de casa grande e senzala, as elites brasileiras são acometidas de surtos psicóticos ao menor ensaio de organização democrática dos interesses populares.
‘Bolivarianismo’ , sapecam de bate pronto, como o fizeram agora contra a Politica de Participação Social do governo –um bem-vindo sinal de autocrítica do governo, ao lado da proposta de plebiscito pela Constituinte da reforma política.
Outros paradoxos associados às politicas e programas desenvolvidos nos últimos anos sugerem que o próprio PT se deixou amedrontar pelo preconceito conservador.
Cerca de 1,7 milhão de jovens beneficiados pelo Programa Universidade para Todos (PROUNI) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) somam 31% do total das matrículas no sistema privado de ensino superior no Brasil.
Todavia, pergunta Pochmann, onde estão as entidades estudantis revigoradas por esse aluvião de juventude popular no ensino superior?
Não acabou.
Mais de 20 milhões de trabalhadores conquistaram um emprego no mercado formal desde 2003. Mas e a taxa de sindicalização? Ela permanece estagnada, fuzila o economista.
O Programa Minha Casa Minha Vida completou cinco anos em abril tendo contratado 3,39 milhões de unidades (das quais, 1,68 milhão já foram entregues).
Mais de seis milhões de pessoas foram beneficiadas. Quantas associações de moradores foram estruturadas e participam da agenda urbana atualmente?
Assim por diante.
As perguntas incômodas de Márcio Pochmann –já listadas mais de uma vez neste espaço– indicam que certas dimensões do desafio do desenvolvimento foram perigosamente negligenciadas nos últimos anos.
Transformações democráticas fornecem, muitas vezes, a única alavanca capaz de remover obstáculos econômicos intransponíveis quando abordados no âmbito de sua própria lógica.
Por isso mesmo, o baixo incentivo ao engajamento dos contingentes ticados pelas políticas sociais nos últimos anos talvez tenha atingido seu ponto de saturação.
Os impasses sobrepostos na engrenagem do desenvolvimento brasileiro implicam romper estruturas anacrônicas e construir outras novas, ao mesmo tempo e com igual intensidade. Quase como atravessar um rio de dupla correnteza, uma puxando para cada lado.
Quem acha que pode haver equilíbrio macroeconômico nesse ambiente açoitado por ventos em litígio, acredita em fadas. A fada dos mercados autorreguláveis, por exemplo.
Mas quem acredita que é possível desencadear um novo ciclo de desenvolvimento sem um protagonista social que o conduza, incorre igualmente em perigosas ilusões.
O turno à vista após outubro oferece ao campo progressista a chance de se desfazer dessas miragens.
Talvez a derradeira oportunidade, para não ser engolido por elas.

Pesquisas de quinta: Dilma confortável em qualquer     cenário eleitoral                 

                               
publicado em 2 de outubro de 2014 às 20:14
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O “pesquisas de quinta” do título deve ser lido literalmente e não literalmente.
Nas últimas horas houve pesquisas para todos os gostos.

Tranquilo, mesmo, só Fernando Pimentel (PT), que disparou e deve vencer em Minas Gerais no primeiro turno.

O Ibope de hoje coloca Dilma subindo de 39% para 40%, Marina Silva caindo de 25% para 24% e Aécio Neves estável, em 19%.

Na margem de erro, Dilma pode ter até 42%.

É onde entra o tracking interno do PT, que terminou a quinta-feira em 43% para Dilma contra 40% para a soma dos adversários (22% de Marina e 18% de Aécio). Isso seria suficiente para uma vitória de Dilma em primeiro turno.

Já o Datafolha coloca Dilma estável com 40%, Marina caindo para 24% e Aécio subindo para 21%. Os dois estariam em empate técnico.

Os números mais recentes, os do Ibope, falam em 7% de indecisos.

Esta margem permite supor que qualquer resultado é possível domingo, menos que Dilma fique fora do segundo turno.

Aliás, segundo o Ibope, Dilma abriu sete pontos de vantagem sobre Marina (43% a 36%) numa eventual disputa em returno.

Contra Aécio Neves, a presidente tem 13 pontos de vantagem (46% a 33%).

Em resumo, se não vencer em primeiro turno, Dilma começa na segunda-feira duas semanas de campanha com uma vantagem confortável sobre qualquer adversário. Isso, mesmo considerando as famosas margens de erro do Datafolha e do Ibope.

Datafolha “empurra” Aécio


mas Ibope deixa Dilma a 3 


pontos do primeiro turno   

Fernando Brito                 
novarodada
O Datafolha fez o que pôde.
E pode ser, mesmo, que funcione, porque Marina Silva não para de cair.
Embora Ibope não confirme o crescimento do mineiro, mantendo-o ainda fora da margem de erro para um empate, não há dúvida de que a tendência do conservadorismo vai ser a de migrar para ele.
Se “vai dar tempo” ou não, é outra coisa.
O fato é que, ainda que a possibilidade de não haver segundo turno esteja mais próxima com a queda de Marina se acentuando – é mais que duvidoso que todos os seus votos migrem para Aécio – qualquer dos dois que passe à segunda rodada, admitindo-se para argumentar que não estejam “segurando” Dilma e que o crescimento de seu favoritismo não some alguma coisa mais a seu desempenho, irá mais fraco, muito mais fraco.
Marina, com a queda vertiginosa de seus índices e a subida acelerada de seus níveis de rejeição.
Aécio, numa eventual decisão no “photochart” com o fantasma de uma provável derrota em primeiro turno em Minas.
É por isso que disse, no post anterior – além da óbvia “forcinha” paulista para levar o tucano à rodada final, que de pouco serviam as pesquisas de segundo turno (onde, aliás, Dilma já colocou frente) neste momento.
O importante, mesmo, é que com toda a capacidade de jogarem um pontinho para lá ou para cá, os institutos de pesquisa não tiveram como sufocar Dilma na reta final e, nem mesmo, tirá-la do limiar de uma decisão definitiva.
É é com essa confiança que ela vai, tenham certeza, absolutamente tranquila para o debate desta noite na Globo, embora Aécio e Marina – que disputam um com o outro o troféu de mais reacionário, que os coloque em segundo lugar – vão com os nervos à flor da pele.
Vai ser tudo muito apertado, é verdade. Mas o primeiro turno, acreditem, não é uma impossibilidade.
Depende destes três dias.