segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Frangalhos ideológicos de uma
burguesia hipócrita e bastarda
A. Sérgio Barroso                     Fundação Maurício grabois 
Velório do presidente Getúlio Vargas mostrou a dimensão da comoção popular pelo suicídio e o repúdio ao golpismo da imprensa
Logo pelo título do texto publicado por Otavio Frias Filho na Folha de S. Paulo, de sua propriedade, “O atentado, o suicídio e a carta. Mil disfarces de Getúlio Vargas convergem num gesto de coerência”, o diretor de redação diz a que veio: atacar, enxovalhar e tentar enterrar a memória do líder político número um e fundador consciente da industrialização capitalista no Brasil.
Numa pretensa “resenha” do 3º livro de Lira Neto, sobre Getúlio Vargas (Getúlio 1945-1954: da volta pela consagração popular ao suicídio), o diretor de redação da Folha de S. Paulo, Otavio Frias Filho retrata em inteireza e sem qualquer pudor a ideologia do setor da classe que ele teima em representar.
A propósito, renitência inútil: a corte endividada ao grande capital financeiro que a ele se gruda está irremediavelmente decrépita. [1] Não é à toa que tal vocalização da burguesia se agarra à desonrosa aflição de lutar até cair defendendo o fracasso das teorias dos “mercados autorregulados” que afundaram o capitalismo central na depressão![2]
Indo ao assunto, logo pelo título do texto publicado no jornalão de sua propriedade, “O atentado, o suicídio e a carta. Mil disfarces de Getúlio Vargas convergem num gesto de coerência”, Frias Filho diz a que veio: atacar, enxovalhar e tentar enterrar a memória do líder político número um e fundador consciente da industrialização capitalista no Brasil. Certamente: sendo parte de um grupo restrito de países latino-americanos que enfrentaram Grande Depressão de 1929, o Brasil à frente dos demais no concurso da industrialização, necessário “deixar bem claro que ainda que as pressões do processo econômico por mudanças estivessem presentes, foi necessária sua condução, pelo Estado, pela liderança de Vargas”, dissertou Wilson Cano. [3]
“Mil disfarces”, por óbvio, é maneira hipócrita (desrespeitosa e apátrida) que Frias Filho encontrou para esconder – apagar - a excepcional capacidade política de Vargas em desafiar conjunturas políticas inéditas, estranhas e de duro enfrentamento à corja de reacionários de sua própria classe, teimosa com Frias em jogar a história da República no pântano do atraso e de saudosismo passional ao comando escravocrata. Sim, os que odiavam Getúlio – que, além, foi ditador influenciado pela ascensão do fascismo, democrata e estadista - queriam que tipo de destinação ao processo colapsante de Império e República Velha?
Escória de uma burguesia bastarda
Ora, o traço mais relevante que emergiu da ordem burguesa brasileira e sua sociabilidade – a marca mais importante dela - é a escandalosa desigualdade social, que, como disse Wanderley Guilherme dos Santos importa captar a oração subordinada que assevera ser a desigualdade “a mais importante delas”, das contradições que atormenta aos trabalhadores e as camadas populares. Nas precisas palavras do eminente cientista social Guilherme dos Santos, a sociabilidade capitalista “moldou-se” – palavra-chave – pela inércia do escravismo, sequencialmente à construção do Estado capitalista estruturado pela escravidão reproduzindo dinâmica e inércia institucional de uma geração a outra. “Getúlio Vargas, nesse sentido, representa importante ruptura com a dinâmica herdada da escravidão, ao renovar as estruturas do Estado capitalista para incorporar aquela questão em seu próprio âmago” – sublinha Guilherme dos Santos (Apresentação à “A construção da sociedade do trabalho no Brasil”, de Adalberto Cardoso, FGV/FAPERJ, 2010).
Pois bem. Para Frias Filho, o padrão de revoluções no país, “com pouco ou nenhum derramamento de sangue e de transições negociadas” – ele queria ou gostaria mesmo que fossem derramados rios de sangue? -, onde estas por sua vez “se transfere por osmose à nova”, como 1989, 1930... e ele acaba por se denunciar ao incluir “1964” a tais transições “negociadas”! Ora, para quem assistiu seu próprio império de comunicação ceder seus automóveis para carregar presos políticos totalmente indefesos aos porões da tortura e assassinados pelos militares da OBAN; para depois, bem depois chamar pelo editorial de seu jornal o regime militar exatamente de “ditabranda”, é ou não é confissão deliberada e livre de defesa, inclusive do fascismo?
Acusação ideológica alucinada
Por isso também, para Frias Filho, o que importa da biografia dramática e trágica de Getúlio - um “sedutor matreiro capaz de se safar das piores encrencas” - é que ele “sentia atração pelo suicídio honroso”; que um dos filhos de Getúlio que suicidou-se em 1977, “parece sugerir alguma propensão inata” ao mesmo. Ora, desde Èmile Durkheim, ilustre sociólogo burguês, sabe-se que o suicídio egoísta, o altruísta e o anômico (ausência de regras na sociedade, gerando o caos, fazendo com que a normalidade social não seja mantida), todos eles sem exceção e suas causas, são segundo Durkheim, “sempre sociais”. No nosso tempo, as principais causas estatísticas de suicídio normalmente ocorrem em pessoas com o transtorno bipolar, a depressão, a dependência de drogas e também a esquizofrenia; não existe nenhuma evidência de “hereditariedade” suicida, mesmo que fatores genéticos atuem com frequência (irregular) em inúmeras sociopatias.
Frias Filho, “psicólogo” farsesco e arrogante acaba de descobrir o suicídio hereditário!
Sim, a imputação a uma família – de Vargas – de geneticamente suicida, por inferir Getúlio um doente mental, talvez seja a mais odiosa da história da República.
Há bem mais: no jogo de palavras aparentemente enganador de Frias Filho, Getúlio Vargas ao escrever em sua carta-testamento “Nada mais vos posso dar, a não ser o meu sangue” revelaria apenas uma ressonância cristã ao sacrifício “feito em nome do povo” e que sela sua aliança (“uma chama imortal”) com o líder imolado; que numa “condensação teatral de um drama muito maior”, o governo Getúlio via seu “raio de manobra” se estreitando por uma “polarização entre forças econômicas e interesses sociais contraditórios”, mas “o cobertor era curto, como sempre”, num momento de ambiente de negócios que se reclamava “como se diria hoje, mais amigável”.
Aliás, como diz e repete hoje a mesma linguagem das forças reacionárias e golpistas – “polarização”, diz ele - a que presta contas Frias Filho, Getúlio, então, “concedeu o controvertido reajuste de 100% do salário mínimo, elevando-o a valor real próximo ao de hoje” - vejam outro crime do presidente! Na mesma batida e mentindo novamente, Frias Filho afirma que o Partido Comunista rompera com Getúlio “por orientação de Moscou” (1954) para fazer agitação operária nas greves. Não houve interferência de Moscou à época, a orientação era nacional: Prestes e o partido inclusive já discutiam apoiar Getúlio assim como a seguir fez-se aliança com o PTB de Vargas, antevendo em certo sentido as tendências da onda golpista, apesar do giro à esquerda do Manifesto de Agosto (1950).
Baixo nível e manipulação
A ”resenha” de Frias Filho, sinuosa em elogios ao livro de Lira Neto - e chegando a chamar Getúlio de “estadista”, entre ataques -, é, além, francamente inspirada na famosa frase de Fernando Henrique Cardoso, de 20 anos atrás, “Eu disse (...) quando fui eleito que queria botar fim da Era Vargas”, referindo-se exatamente ao seu “modelo autárquico e ao Estado intervencionista” (1994).
Todavia, no exato momento em que se debate no Brasil os 60 anos do enorme impacto, a perplexidade da decisão de Vargas e sua herança como estadista, para Frias Filho:
“Getúlio foi um oportunista por excelência, adotando disfarces ideológicos que mais lhe convinha, a cada conjuntura”; sendo sua filha e colaboradora Alzira “também uma mulher corajosa, arguta e dotada de tino maquiavélico”.
E, finalmente, na analogia com a atualidade política do país, pergunta descaradamente o chefão da Folha: “O PT em vez do PTB, Lula em vez de Getúlio (Dilma em vez de Dutra?), o PSDB em lugar da UDN?...”. Como? Dilma Rousseff igual ao ditador liberal e entreguista Gaspar Dutra? Não há qualquer lógica nisso, mas claro que a pergunta é novo jogo de palavras para, a seguir, assinalar que ”essa identidade é aparente”. Então, por que a “pergunta”? Porque, para Frias Filho:
“O maniqueísmo ideológico dos anos 1950 se dissolveu numa espécie de centrismo tecnocrático, administrativista, no qual as alternativas, por mais encarniçada que continue sendo a luta de suas falanges pelo poder, não passam de versões um pouco mais à esquerda ou à direita –precisamente como PT e PSDB na atualidade, separados por divergências mais de grau e estilo do que de essência”.
Assim e principalmente, não existe, é nula na “resenha” de Frias Filho a fundação por Getúlio Vargas da Petrobras - quando no livro de Lira Neto há simplesmente 22 referências a Petrobras e petróleo! [4]
Não existe na “resenha” de Frias Filho nenhuma referência à criação do BNDE (BNDES), inclusive apoiada pela UDN golpista, bem como por jornais oposicionistas como “O Correio da Manhã”, questão e suas consequências que aparecem descritas em quatro páginas do livro de Lira Neto. [5]
Também como não existe qualquer referência as pressões do imperialismo na carta-testamento de Getúlio Vargas, carta esta manipuladamente “analisada” – à base de fofocas e intrigas fantasiadas ou amplificadas - pelo responsável editorial e chefe maior da FSP, para quem a ditadura militar foi uma “ditabranda”.
Lembremos então essa passagem imorredoura da carta de Getúlio Vargas:
“Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre”.
NOTAS
[1] Lê-se no Observatório de Imprensa (“Mídia endividada preocupa a sociedade”, 28/08/2014) a seguinte análise retrospectiva: “se a situação financeira do Grupo Folha é menos grave (de acordo com os dados de endividamento em eurobônus), sob o ponto de vista estratégico sua situação é mais séria, considerando que se trata de um grupo jornalístico que depende majoritariamente de apenas um veículo (a Folha de S. Paulo), enquanto os demais estão apenas alçando vôo (Agora São Paulo e Universo OnLine)”. Doutra parte, Octavio Frias, o pai, fundador do jornal, disse em entrevista a Jorge Felix, originalmente no AOL Notícias (21/10/2003): “Nunca vi a mídia tão endividada como hoje. Mas acho que é fruto da situação geral que não é fácil. Não só nacional, como mundial. O mundo atravessa uma crise econômica”.
[2] A declaração recentíssima de J. Stiglitz é apenas mais uma demonstração de lucidez: “A única maneira de descrever o que está acontecendo em alguns países europeus é depressão” (“Espectro de uma década perdida, como no Japão, ameaça a zona do euro”, Valor Econômico/ Financial Times, 22/098/ 2014).
[3] Ver: ”Crise de 1929, soberania na política econômica e industrialização”, de W. Cano, in: “A era Vargas. Desenvolvimento, economia e sociedade”, Bastos, P.P.Z., Fonseca, P. C. D. (orgs.), UNESP, 2013. Bom registar que Eleonora de Lucena, veterana jornalista da mesma FSP e sua diretora-executiva, em resenha decente e honesta considerou este livro “ótimo” (ver: “Atual, livro exibe a gênese da filosofia de Getúlio Vargas”, FSP, 9/12/2013).
[4] Em seu livro (p.217), Lira Neto faz questão, inclusive, de reproduzir a ordem de Getúlio frente às queixas contra os gastos (cerca de R$ 3,3 bilhões em valores atuais) envolvendo a criação da “Petróleo Brasileiro Sociedade Anônima”: “Prossigam os estudos sem temor quanto ao vulto dos investimentos, desde que os fundamentos do programa sejam objetivos e a possibilidade de mobilizar recursos seja efetiva”.
[5] Ver: páginas 232-3, 265, 396.

O neoliberalismo

de  Marina Silva

'Independência' do Banco Central representa, por um lado, a prioridade do mercado, subtraindo o BC às posições políticas do governo, para deixá-lo aberto às pressões dos interesses do mercado
Emir Sader,  especial para a RBA                                 
VALTER CAMPANATO/ABR
marina silva
Centralidade do mercado e prioridade dos ajustes fiscais são propostas de Marina alinhadas ao neoliberalismo
Independência do Banco Central, baixar o perfil do pré-sal e baixar o perfil do Mercosul, estabelecendo acordos bilaterais. Nesses três eixos pode se resumir a substância da proposta programática da Marina. Posições que se chocam frontalmente com as dos governos que lutam pela superação do neoliberalismo aqui, na Argentina, no Uruguai, na Venezuela, na Bolívia, no Equador. Estes têm em comum a prioridade das políticas sociais, dos processos deintegração regional e o resgate do papel do Estado diante da centralidade do mercado.
independência do Banco Central representa, por um lado, a prioridade do mercado, subtraindo o BC às posições políticas do governo, para deixá-lo aberto às pressões dos interesses do mercado, em particular dos bancos privados. Essa posição atenta contra a prioridade das políticas sociais, porque o modelo atual é o do desenvolvimento econômico com distribuição de renda, em que as políticas sociais têm um papel central.
A autonomização do BC coloca um obstáculo central para esse modelo, porque a tendência será que o banco priorize os ajustes fiscais em detrimento da expansão econômica e da distribuição de renda. A equipe de direção da campanha da Marina – Andre Lara Resende, Eduardo Gianetti da Fonseca e Neca Setúbal – corrobora que essa tendência predominaria.
Essa posição, ao mesmo tempo, enfraquece o resgate do Estado como indutor do crescimento econômico e dos direitos sociais, com um braço importante da ação estatal ficando submetido à lógica do mercado,
Baixar o perfil do pré-sal vai na mesma direção de debilitamento do papel do Estado para enfrentar um tema central como a questão energética, ao mesmo tempo que enfraquece os recursos destinados atualmente às políticas sociais – 7,5% para a educação e 2,5% para a saúde.
Baixar o perfil do Mercosul e estabelecer acordos bilaterais aponta para uma reinserção distinta do Brasil no marco internacional. Mercosul significa também Unasul, Banco do Sul, Conselho Sul-Americano de Defesa, Celac, opções preferenciais do governo atual, como alternativa aos Tratados de Livre Comércio com os EUA. Ao contrapor acordos bilaterais ao Mercosul, a posição é contraditória, porque os acordos do Mercosul impedem esses acordos. Como se pode imaginar que a visão é dirigir acordos com os EUA, a contradição é maior ainda.
Não há referência aos Brics, mas se pode ler a posição como apontando ao deslocamento da prioridade das alianças para os países do centro do capitalismo, direção radicalmente oposta ao que representam hoje os Brics.
As propostas da Marina reivindicam assim os pressupostos centrais do neoliberalismo: centralidade do mercado, prioridade dos ajustes fiscais, aliança subordinada com os EUA no plano internacional.

Marina e Aécio: 'um' em dois

Ou há duas Marinas ou há dois Aécios; as propostas definidoras dos respectivos governos não têm diferença...


janio de freitas                   FOLHA DE SÃO PAULO          


O catatau dado como programa de governo de Marina Silva e do PSB, mas que contraria tudo o que PSB defendeu até hoje, leva a uma originalidade mais do que eleitoral: na disputa pela Presidência, ou há duas Marinas Silvas ou há dois Aécios Neves. As propostas definidoras dos respectivos governos não têm diferença, dando aos dois uma só identidade. O que exigiu dos dois candidatos iguais movimentos: contra as posições refletidas nas críticas anteriores de Marina e contra a representação do avô Tancredo Neves invocada por Aécio.

Ao justificar sua proposta para a Petrobras, assunto da moda, diz Marina: “Temos que sair da Idade do Petróleo. Não é por faltar petróleo, é porque já estamos encontrando outras fontes de energia”. Por isso, o programa de Marina informa que, se eleita, ela fará reduzir a exploração de petróleo do pré-sal.
Reduzir o pré-sal e atingir a Petrobras no coração são a mesma coisa. Sustar o retorno do investimento astronômico feito no pré-sal já seria destrutivo. Há mais, porém. Concessões e contratos impedem a interferência na produção das empresas estrangeiras no pré-sal. Logo, a tal redução recairia toda na Petrobras, com efeito devastador sobre ela e em benefício para as estrangeiras.
Marina Silva demonstra ignorar o que é a Idade do Petróleo, que lhe parece restringir-se à energia. Hoje o petróleo está, e estará cada vez mais, por muito tempo, na liderança das matérias-primas mais usadas no mundo. Os seus derivados estão na indústria dos plásticos que nos inundam a vida, na produção química que vai das tintas aos alimentos (pelos fertilizantes), na indústria farmacêutica e na de cosméticos, na pavimentação, nos tecidos, enfim, parte do homem atual é de petróleo. Apesar de Marina da Silva. Cuja proposta para o petróleo significaria, em última instância, a carência e importação do que o Brasil possui.
A Petrobras é o tema predileto de Aécio Neves nos últimos meses. Não em ataque a possíveis atos e autores de corrupção na empresa, mas à empresa, sem diferenciação. Que seja por distraída simplificação, vá lá. Mas, além do que está implícito na candidatura pelo PSDB, Aécio Neves tem como ideólogo, já anunciado para principal figura do eventual ministerial, Armínio Fraga — consagrado como especialista em aplicações financeiras, privatista absoluto e presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique, ou seja, quando da pretensão de privatizar a Petrobras.
A propósito, no debate pela TV Bandeirantes, Dilma Rousseff citou a tentativa de mudança do nome Petrobras para Petrobrax, no governo Fernando Henrique, e atribuiu-a à conveniência de pronúncia no exterior. Assim foi, de fato, a ridícula explicação dada por Philipe Reichstuhl, então presidente da empresa. Mas quem pronuncia o S até no nome do país, com States, não teme o S de Petrobras. A mudança era uma providência preparatória. Destinava-se a retirar antes de tudo, por seu potencial gerador de reações à desnacionalização, a carga sentimental ou cívica assinalada no sufixo “bras”.
Ainda a propósito de Petrobras, e oportuno também pelo agosto de Getúlio, no vol. “Agosto – 1954″ da trilogia “A Era Vargas”, em edição agora enriquecida pelo jornalista José Augusto Ribeiro, está um episódio tão singelo quanto sugestivo. Incomodado com o uso feroz da TV Tupi por Carlos Lacerda, o general Mozart Dornelles, da Casa Civil da Presidência, foi conversar a respeito com Assis Chateaubriand, dono da emissora. Resposta ouvida pelo general (pai do hoje senador e candidato a vice no Rio, Francisco Dornelles): se Getúlio desistisse da Petrobras, em criação na época, o uso das tevês passaria de Lacerda para quem o presidente indicasse. De lá para cá, os diálogos em torno da Petrobras mudaram; sua finalidade, nem tanto.
De volta aos projetos de governo, Marina e Aécio desejam uma posição brasileira que, por si só, expressa toda uma política exterior. Pretendem o esvaziamento do empenho na consolidação do Mercosul, passando à prática de acordos bilaterais. Como os Estados Unidos há anos pressionam para que seja a política geral da América do Sul e, em especial, a do Brasil.
Em política interna, tudo se define, igualmente para ambos, em dois segmentos que condicionam toda a administração federal e seus efeitos na sociedade. Um, é o Banco Central dito independente; outro, é a prioridade absoluta à inflação mínima (com essa intenção, mas sem o êxito desejado, Armínio Fraga chegou a elevar os juros a 45% em 1999) e contenção de gastos para obter o chamado superavit primário elevado. É prioridade já conhecida no Brasil.
Pelo visto, Marina e Aécio disputam para ver quem dos dois, se eleito, fará o que o derrotado deseja.

MARINA TOPA TUDO. O PT TOPA OUSAR OU VAI SE RENDER?

saul leblon                                                  


Montagem divulgada pelo Facebook da presidente Dilma
O programa de Marina Silva, lançado na mesma sexta-feira em que o Datafolha lhe dava uma vantagem de 10 pontos sobre Dilma Rousseff no segundo turno –ao qual se credenciou depois de crescer nada menos
É um livro.
Mas poderia ser resumido em uma linha: a ‘ que 13 pontos em 11 dias– tem 242 páginas.nova política’ da novíssima Marina Silva é ortodoxa nas questões econômicas que condicionam o destino da sociedade, e liberal nos costumes que já romperam as amarras do presente.
Assim: o Brasil de Marina Silva entrega a moeda, os juros, o câmbio, os salários, a política externa e a fiscal à supremacia dos mercados financeiros.
Em resumo, o país renuncia ao comando do seu destino e ao destino do seu desenvolvimento.
Mas acolhe o que já é um fato reconhecido até pela Justiça: o justo pleito da união civil entre homossexuais e o direito à adoção de crianças por casais gays, por exemplo.
Se do ponto de vista da evangélica Marina Silva isso pode criar algum ruído junto a apoios prometidos –como o do pastor Silas Malafaia , um cruzado da homofobia (leia ‘Ousar e vencer ou entregar o Brasil aos mercados passivamente?’; nesta pág) ; de outro lado, essa concessão é mais que compensada pela abrangência de interesses contemplados por outras diretrizes de superlativo impacto na repartição do poder e da renda.
Por exemplo, rebaixar o espaço estratégico do pré-sal na política de desenvolvimento e resgatar o da energia nuclear.
Mas também fragilizar o Mercosul em benefício de acordos bilaterais –leia-se subordinar a diplomacia brasileira à agenda hegemônica dos livres mercados numa restauração da lógica da Alca sepultada desde 2003.
Marina Silva se oferece assim às elites e aos endinheirados como uma espécie de ‘topa tudo’. Um candidatura desfrutável como um Bom Bril, que se presta a mil e uma utilidades.
Não é pouco .E não surpreende que amplas parcelas do PSDB –e da mídia que apoiava seu candidato, já tenham 'cristianizado' Aécio Neves, para embarcar no meteórico ônibus da ‘nova política’, rumo à Brasília.
Repita-se aqui o que disse Carta Maior em nota anterior. A oportunidade representada por Marina Silva contempla aspirações de poder que invariavelmente, desde 2002, encontraram dificuldade de se expressar através de um palanque que emprestasse carisma popular a um projeto de raízes tão excludentes.
Agora não mais, graças à ascensão desse 'super-bond' chamado ‘nova política.
De novo, vale repetir: trata-se de um retrofit político e ideológico.
Retro, do latim “movimentar-se para trás” e fit do inglês, adaptação, ajuste.
Termo originado da arquitetura, o retrofit é recomendável quando um edifício chega ao fim de sua vida útil.
É uma opção para corrigir o desgaste e a decadência do uso sem, todavia, alterar seus alicerces e estruturas de sustentação. Fica mais barato e é funcional.
O programa de Marina Silva é um retrofit do neoliberalismo .
O desafio de vida ou morte do campo progressista nesse momento é restaurar a transparência dos dois polos em confronto na sociedade brasileira, dissimulados sob a aparência de uma ‘nova política’.
O calcanhar de aquiles do retrofit conservador é o antagonismo entre a maquiagem da fachada e de alguns equipamentos e a rigidez dos pilares e colunas estruturais.
Num edifício isso é contornável com algum jogo de decoração.
Numa sociedade pode ser insuportável.
A participação soberana e democrática da população nas decisões sobre o desenvolvimento frequentemente evoca mudanças estruturais que colidem com os interesses calcificados que a ‘nova política’ visa preservar.
Um exemplo resume todos os demais.
O programa de Marina Silva afirma que vai destinar 10% do orçamento à educação em seu mandato –antes, portanto, do ciclo de dez anos previsto pelo governo Dilma, que ancora sua projeção em ganhos com os royalties do pré-sal, cuja centralidade será descartada em um governo do PSB.
Diz, ainda, que assentará 85 mil famílias de sem terra (em 2012 foram assentadas 23 mil).
E sinaliza que destinará outros 10% do orçamento à saúde.
Uma pergunta: fará tudo isso ao mesmo tempo em que entrega aos centuriões do mercado o comando da política fiscal para procederem ao arrocho no gasto público?
Não só.
Marina afirma apoiar o decreto de Dilma, demonizado pela elite que a festeja, da Política Nacional de Participação Social.
É justo perguntar: participação em que, quando se terceiriza aos operadores do mercado a prerrogativa de fixar os principais preços da economia, entre eles a taxa de juros, delegada a um Banco Central independente? 
Marina e seus formuladores defendem a mesma autonomia em relação a outros preços estratégicos.
O câmbio, segundo eles, deverá flutuar livremente.
Quanto aos salários (o terceiro preço decisivo no capitalismo) , já se antecipou que a política de valorização do salário mínimo adotada pelos governos petistas será revertida.
É justo repetir a pergunta: assim encapsulada a economia nas mãos do mercado, o que sobra à participação social endossada por Marina Silva?
Visto desse prisma da dinâmica econômica e social, o programa de 242 páginas resume-se a um embrulho vistoso que guarda uma única determinação implacável: devolver a agenda do desenvolvimento à supremacia dos mercados.
A um custo social não mencionado, mas implícito.
Dizer que manterá o Bolsa Família , como o faz o calhamaço, mas sinalizar com o arrocho do salário mínimo, implica devolver à miséria milhões de famílias assalariadas.
Prometer assentar 85 mil sem terra e praticar uma política cambial, monetária e tarifária como querem os operadores de mercado é enxugar o chão com a torneira aberta: centenas de milhares de famílias serão cuspidas de seus lugares e de seus empregos.
Por tudo isso, é pertinente dizer que o endosso de Marina à política de participação social lançada por Dilma significa pouco mais que um retrofit na palavra simulacro.
O conjunto, porém, envolve uma operação de potencial lucrativo tão elevado que ao mercado compensa tolerar os penduricalhos da ‘professora que veio dos seringais’ –desde que a cozinha econômica fique, como já se definiu que ficará, nas mãos experientes dos açougueiros do mercado financeiro.
Não é só uma sucessão presidencial, portanto, o que está em jogo.
É uma mutação histórica do desenvolvimento brasileiro que se for implementada marcará funestamente a vida desta e de futuras gerações.
Diante da gravidade do que se avizinha, Carta Maior reitera seu editorial anterior:
Ao aluvião de interesses graúdos — e de descontentamento difuso, seduzido pelo glamour da ‘nova política’, não basta contrapor o exaustivo balancete publicitário do que se conquistou e se incorporou à rotina do país nestes últimos 12 anos.
É importante, mas não é suficiente.
É forçoso contrapor à ‘nova política’ aquilo que a desnuda e afronta.
É urgente dizer pelo que se luta; e contra quem se trava a batalha dos próximos dias e noites.
Essa é uma batalha entre a democracia social e as forças regressivas mobilizadas pelos interesses globais que acossam a economia brasileira.
É preciso escancarar a contradição entre o retrofit messiânico que as expressa e as estruturas calcificadas que ele maquia.
É preciso contrapor a isso um salto efetivo da democracia participativa que devolva à sociedade o poder reordenador que agora se pretende terceirizar aos mercados.
Tornar esse salto palpável aos olhos da população requer um símbolo de magnetismo equivalente às tarefas que essa agenda encerra em termos de repactuação de metas, concessões, salvaguardas e organização política.
Um novo governo estruturado em torno dessa renegociação do desenvolvimentorequer um chefe de Casa Civil dotado, ao mesmo tempo, de inexcedível sintonia com a Presidenta Dilma , e de incontrastável representatividade popular.
Essa referência existe; já funciona de fato como líder político do campo progressista; deveria ser oficializado desde já no anúncio antecipado da composição de um segundo governo Dilma.
Seu nome é Lula.