quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Por que a elite apoia o caminho

para lugar nenhum?

Para perdermos o rumo, é claro


Fernando Brito    
plunctplactzum
O publicitário Hayle Gadelha – que, apesar de marqueteiro, é um caráter de primeira – preparou, a partir das reflexões do professor Roberto Moraes, e manda-me uma análise da distribuição do eleitorado entre Marina Silva e Dilma Rousseff, tomando por base os números do Ibope, que a ele também fizeram franzir as sobrancelhas.
Mas, vá lá.
Reparem que curioso: os índices de Marina, além da esperada vantagem entre os evangélicos, são muito maiores entre os brancos e os de melhor renda.
Ela, a candidata que se definiu (AQUI) como negra ao TSE e tem origem pobre.
Embora eu não creia que seu crescimento vá se consolidar, por suas próprias fraquezas intrínsecas, a começar da notória  incapacidade de agregar de Marina e pelo embrulho em  ela que se meteu nessa aliança “programática”  com Eduardo Campos, é sintomática a sua “adoção” por parcelas expressivas  da classe média que ascendeu com Lula e seguiu assim com Dilma.
Deixo que Gadelha, mais tarde, no seu blog, comente esta distribuição eleitoral.
Fixo-me nisso: a dificuldade do PT – menos que a  de Lula, aliás – em politizar a questão econômica.
Na desídia ou negligência da esquerda em associar a ascensão social ao desenvolvimento nacional e a um projeto de país autônomo.
Porque a direita sempre  agita a ideia dos cortes de gastos e da entrega do país como caminho do progresso, um progresso que traga a modernidade (para ela), embora isso não tenha feito senão alienar o país e  aprofundar nossos abismos sociais.
Em 2006 e em 2010, sem sombra de dúvidas, o discurso nacionalista esteve no centro do enfrentamento com o PSDB.
Embora não fosse da tradição petista, foi ele o cerne da decisão política da população em dar continuidade ao projeto político personificado por Lula.
Parece-me que há uma inibição incompreensível em voltar a este tema, agora aparentemente limitado pelas dificuldades econômicas que reduzem este discurso a um “o Brasil está preparado para crescer”.
E crescerá com o discurso que nos sugere Marina Silva?
Ela segue desfilando sua beatitude sem ser cobrada de respostas objetivas, diretas.
Ela quer manter o controle estatal sobre o petróleo, que agora – com o pré-sal –  tem tudo para ser uma das molas do nosso progresso econômico? Ou irá adotar o discurso de que “é sujo, é poluente” enquanto os países ricos o queimam a rodo?
Vamos investir, com responsabilidade e firmeza na ampliação de nossa capacidade de gerar energia hidrelelétrica ou vamos acender velas?
Abriremos estradas, portos, ferrovias ou nos paralisaremos e vamos nos desenvolver com “a confiança dos investidores”, naturalmente alimentados por ganhos itaúticos?
Não se debate, nestas eleições, ao contrário do que se debateu em 2006 – pela negativa à privatização – e em 2010, pela esperança de Brasil, um projeto de nação.
Vocês notaram que as propostas de Marina Silva, além de repetirem a lenga-lenga neoliberal na economia (“tripé”, “autonomia do BC”, etc) não vão a lugar nenhum?
Até porque prometer mais e melhor educação, saúde, segurança e respeito ao meio-ambiente, desde que me entendo por gente, nunca deixou de estar na campanha de qualquer candidato.
Marina  foca sua proposta no diálogo. Muito bem, mas sobre o quê?
E em que ambiente se desenvolveria este diálogo, sob os apetites de um Congresso sedento ante um governo sem forças próprias e de uma mídia cuja submissão ao financismo beira a vassalagem?
Essa é a opção que será feita, mas que não está sendo compreensivelmente explicada à população.
A história da prioridade ao “diálogo” e do “há gente boa em todos os partidos” é como aquelas “comissões de alto nível” que se nomeia quando não se quer chegar a lugar algum.
O conservadorismo brasileiro precisa não de um governo que faça, mas de um governo que não faça.
Porque, não fazendo, tudo se conserva como está e está, naturalmente, bom para quem está ganhando e dominando.
Como resumiu Diego Mainardi, hoje, é preciso mudar os bandidos.
Só o que ele não diz é que isso é necessário para que o crime continue a ser praticado.

A cidadania e a Reforma Política


Marcelo Barros - de Pernambuco    

Esse tempo final de preparação do Plebiscito Popular é um momento especial de compromisso de cidadania
Esse tempo final de preparação do Plebiscito Popular é um momento especial de compromisso de cidadania
Pesquisa da Fundação Perseu Abramo constatou: a maioria da população brasileira (89%) é favorável a uma reforma política. As manifestações de junho de 2013 que reuniram nas ruas de nossas cidades mais de dois milhões de pessoas tinham como um dos objetivos expressar que o povo não se sente realmente representado pelo atual Congresso Nacional. Como, em artigo recente, afirmou Frei Betto: “Hoje, nós votamos e o poder econômico elege! O financiamento deveria ser com recursos públicos e contribuição de pessoa física no limite de R$ 700. No sistema atual, qualquer candidato pode ser financiado por empresas.
Uma vez eleito, passa a defender interesses corporativos, e não da população.” Diante dessa realidade, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reuniu mais de cem entidades da sociedade civil brasileira para propor uma iniciativa popular de Reforma Política. Ao mesmo tempo, os movimentos sociais reunidos propuseram um Plebiscito Popular para que todos os brasileiros que quiserem possam votar pedindo a Reforma Política. A diferença entre as duas iniciativas é que a das entidades confia ao atual Congresso a tarefa de reformar a Constituição. Já os movimentos sociais pensam que será muito difícil os atuais congressistas, dos quais muitos (a maioria) são financiados pelas grandes empresas, votarem contra eles mesmos e os seus interesses. Por isso, propõem que possamos eleger uma Assembleia Constituinte, Exclusiva e Soberana para fazer a Reforma Política.
Recentemente, a CNBB e as organizações que tinham proposto a Iniciativa Popular assinaram um documento no qual expressam que as duas propostas se completam. Por isso, apoiam também o Plebiscito Popular, a ser realizado do 01 a 07 de setembro próximo. Nessa próxima semana, todos os brasileiros poderão votar por um Brasil que se tornou independente dos impérios políticos e agora se tornará libertado de todo domínio econômico abusivo de empresas privadas. Essa proposta do Plebiscito é apartidária. Não está vinculada à campanha de nenhum candidato ou partido político. Como nenhum dos grandes meios de comunicação colabora com esse instrumento de educação do nosso povo, esse mutirão de cidadania tem de ser preparado e organizado por todas as pessoas de boa vontade que desejam uns pais mais igualitário.
Esse tempo final de preparação do Plebiscito Popular é um momento especial de compromisso de cidadania para as comunidades cristãs e para todos os que se sentem herdeiros de profetas como Dom Helder Camara, Dom Tomás Balduíno e de tantos outros irmãos e irmãs que nos ensinaram a unir fé e compromisso de justiça e libertação. Como herdeiros desses grandes profetas, temos de conscientizar nosso povo, informar as pessoas do que se trata e ajudar os movimentos sociais a colher votos e organizar a votação na semana da pátria.
Em uma carta aos fiéis da sua arquidiocese, Dom Fernando Saburido, arcebispo de Recife, afirmava: “Há cristãos que ainda pensam que a fé possa ser desligada da realidade concreta. Se nos desinteressamos pelo processo político, corremos o risco de deixar a Política nas mãos dos que não buscam o interesse comum. Como afirmou o papa Francisco: “Apesar de se notar uma maior participação de muitos (cristãos) nos ministérios laicais, esse compromisso (de fé) não se reflete ainda suficientemente na penetração dos valores cristãos no mundo social, político e econômico. Limita-se muitas vezes às tarefas no seio da Igreja, sem um empenho real pela aplicação do Evangelho na transformação da sociedade” (Evangelii Gaudium, n. 102)”. Como cristãos, devemos apoiar e participar dessas iniciativas que visam a transformação justa da sociedade e da organização do Estado. Como escreveu São Paulo: “Estejam atentos para a maneira como vocês vivem. Não sejam ingênuos, mas pessoas sensatas. Aproveitem bem o tempo, porque esses dias são maus… (Em meio a essa realidade), procurem compreender a vontade do Senhor” (Ef 5, 15 e 17).
(*) Marcelo Barros, é monge beneditino, escritor e teólogo brasileiro. Em 1969 foi ordenado padre por Dom Helder Camara e, durante quase dez anos, de 1967 a 1976, trabalhou como secretário e assessor de Dom Hélder para assuntos ecumênicos. 

A ideia do novo na política brasileira

Wagner Iglecias (*)    Luis Nassif Online     imagem de Jorge Luis
Um dos argumentos mais usados pelos mais diversos políticos na História brasileira é chamar para si e para seu grupo a perspectiva do novo. Parte-se do pressuposto de que a estrutura política existente está carcomida e é preciso inaugurar uma nova era. Sob a vanguarda do grupo político que se auto-intitula portador da novidade, obviamente. O mais recente exemplo é aquilo que parece ser o principal slogan de campanha da candidata Marina Silva (PSB), que diz querer ser presidente da república para inaugurar a “nova política”.
Mas o fenônemo não é exatamente inédito e nem recente. E nem é só brasileiro. Regimes socialistas mundo afora pretenderam criar o “novo homem”. No que não foram bem sucedidos, como se viu depois. Nos anos 1930 o então presidente dos USA, Franklin Delano Roosevelt, lançou o “New Deal”, amplo programa econômico de inspiração keynesiana destinado a tirar aquele país da depressão econômica. Aqui, na mesma época, tivemos a inauguração do Estado Novo, período mais duro da ditadura de Getúlio Vargas, no qual de fato foram lançadas as bases do Brasil moderno, industrial e urbano, que a partir de 1937 finalmente adentrava ao século XX e deixava para trás o seu perfil de velha fazenda agro-exportadora. Perfil talvez recuperado mais recentemente, conforme atestam os dados da nossa Balança Comercial.
O século XX brindou o país ainda com a “Nova República”, de José Sarney, a partir de 1986, pela qual se dizia que uma nova época estava se iniciando, deixando para trás os 21 anos de ditadura militar e inaugurando uma nova dinâmica nas relações entre Estado e sociedade civil. Naufragada na inflação e em denúncias de corrupção e fisiologismo, ela foi substituída pelo “Brasil Novo”, de Fernando Collor de Mello, entre 1989 e 1992. Brasil Novo que acabou quando Collor sofreu o processo de impeachment pelo Congresso Nacional, também por conta de denúncias de corrupção.
Diante dos vários insucessos no combate à inflação ao longo do século passado a ideia de novo também foi usada na economia. O Brasil teve os chamados “Cruzeiro Novo”, entre 1967 e 1970, e “Cruzado Novo”, entre 1989 e 1990, criados após reformas monetárias destinadas a combater a corrosão do valor das cédulas de dinheiro diante de processos inflacionários galopantes. Ambas as medidas mostraram-se fracassadas pouco depois.
Marina Silva apenas repete o que tantos outros já fizeram no passado. Anuncia uma “nova política”, mas por seu discurso tão similar ao de tantos outros políticos, e por seu tão heterogêneo arco de apoios no meio partidário e na sociedade civil, parece ser uma candidata tão tradicional quanto tantos outros, de hoje e do passado. Tomara que este humilde escriba esteja enganado, e que não estejamos diante, novamente, de um museu de grandes novidades, como diria não o novo, mas o eterno Cazuza.
(*) Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. 

Estadão: Não houve empréstimo
de avião!  Campos participou
da compra do Cessna

 Fernando Brito                           
uberaba
Novamente, o Estadão(AQUI) confirma,  com bom trabalho de seus repórteres, as informações que este blog tinha conseguido reunir e publicar, com os poucos meios de que dispõe.
No final da noite desta quarta-27, Ricardo Brant e Andreza Matais publicam que o ex-governador Eduardo Campos aprovou, pessoalmente(AQUI), a aquisição do Cessna do grupo AF Andrade, como já tinha ficado claro por uma publicação(AQUI) da Folha, no dia seguinte ao acidente, quando ainda não havia elementos para que a reportagem pudesse ver o quanto obscuro era o negócio.
Portanto, não houve empréstimo de avião dos empresários a Eduardo Campos: o ex-governador participou diretamente da compra do aparelho, dando a palavra final para sua aquisição, segundo os próprios empresários que estariam vendendo o aparelho.
João Carlos Lyra Pessoa de Mello, da JCL Factoring, marcou com os donos da AF Andrade o dia 8 de maio. Diz o jornal que “de Congonhas, o jato partiu com o ex-governador para Uberaba (MG), com o piloto da AF Andrade, Fabiano Peixoto. No dia, Campos visitou a 80ª Expo Zebu, em agenda de pré-campanha”.
Mas há mais fatos sendo confirmados.
Na noite de ontem, a Polícia Federal confirmou, com mais detalhes, o que havia sido informado (AQUI) no sábado: Campos estendeu os incentivos fiscais dados à empresa Bandeirantes Companhia de Pneus.
Segundo o Valor: “O decreto do ex-governador eliminou limites de importação de pneus à empresa, estabelecidos na gestão anterior à de Campos.
O dono da Bandeirantes é o próximo personagem que vai surgir: Apolo Santana Vieira,  dono da Bandeirantes. Não é à toa que o aparelho em que voava Eduardo Campos antes da compra do Cessna, era um Learjet da Bandeirantes que, ao ser matriculado na Anac, teve escolhido o prefixo  (PP) ASV.
Este prefixo estava desativado desde 1966, quando pertencia a um Handley Page  HP-100 Herald, da então Sadia Transportes Aéreos, que viria a se tornar a Transbrasil.
E foi solicitado por causa das iniciais: Apolo Santana Vieira...



MARINA    FALA     EM   


UNIDADE   NACIONAL.

SÓ PODE SER COMÉDIA...

1Paulo Moreira Leite  
Depois de romper com Lula, com o PT, com o PV, e isolar-se no PSB, Marina Silva é uma salvadora da pátria que quer juntar Neca (Setubal) e Chico (Mendes). Pode?
Foi possível comprovar no debate da Bandeirantes que Marina Silva escolheu o caminho mais confortável para fazer campanha eleitoral.
Se você passar as ideias de Marina numa máquina de fazer suco, irá sobrar um ponto: a pregação da unidade. Marina diz que o Brasil está cansado da polarização. Diz que o tempo de conflito entre PT e PSDB acabou. Afirma que é preciso unir os bons, os capazes, os honestos, que estão em toda parte, em todos os partidos. Diz que o país está cansado de criticar uma “elite” onde se encontram Neca Setubal e Chico Mendes(?), e também lideranças indígenas e grandes empresários. Olha que bonito! Não há poder econômico, nem desigualdade, nem poder de classe. Não há, é claro, um sistema financeiro de um país que, tendo a sétima economia do mundo, possui bancos cujo rendimento encontra-se entre os primeiros do planeta.
É bom imaginar que o mundo é assim. Relaxa, conforta. Permite interromper o debate e tirar férias. Pena que seja uma utopia de conveniência.
Mais. É uma fantasia que não cabe na biografia de Marina Silva. Pelo contrário.
Poucas vezes se viu uma história de divisão e desagregação como método de ação política.

Veja só. Ela rompeu com o governo Lula, onde fora instalada no Ministério depois da campanha — de oposição — contra o governo Fernando Henrique Cardoso. Saiu do PT e foi para o PV. Saiu do PV e foi para a Rede. Incapaz de unificar os militantes e ativistas que queriam transformar a Rede num partido, bateu às portas do PSB depois de denunciar a decisão do TSE. Criou casos, brigas e divergências desde o primeiro dia. Brigada à esquerda e à direita do partido, era protegida por Eduardo Campos, a quem interessava contar com seu Ibope para evitar um desempenho pequeno demais no primeiro turno.

Marina estava isolada dentro do PSB, afastada dos principais dirigentes, quando, por “força divina”, como ela diz, ocorreu a tragédia que permitiu que se tornasse candidata a presidente. Seguiu brigando: logo de cara o secretário-geral, homem de confiança de Miguel Arraes, patrono histórico do PSB, foi embora da campanha, dizendo que não iria submeter-se “àquela senhora.” Outras brigas ocorreram. Outras foram suspensas porque, pela legislação eleitoral, já venceu o prazo para candidatos a deputado, senador e governador trocarem de partido.

O discurso da unidade pode ser real. Depois da posse de Lula, o país buscou e construiu uma unidade política real, que nunca esteve isenta de conflitos, mas se destinava a atender a uma necessidade histórica reconhecida: ampliar os direitos da maioria, diminuir a desigualdade, desenvolver o mercado interno e definir um papel altivo do país no mundo. Melhorias que estão aí, à vista de todos.

Mas a “unidade” pode ser um recurso retórico para apagar as diferenças — reais e importantes — entre os candidatos a presidente. Permite fugir do debate real, desfavorável quando travado com lucidez e racionalidade. Ajuda a fingir que todos são equivalentes em virtudes e defeitos, e podem ser colocados no mesmo nível. Elimina-se a história, num esforço para apagar a memória.

Marina precisa minimizar os bons dados do emprego, do consumo, do salário mínimo, preparando o terreno para revogar essas mudanças. Este comportamento ajuda a criar a ilusão de que todos — banqueiros e seringueiros para começar — têm as mesmas ambições e mesmos projetos. A mágica fica aqui: basta que surja uma liderança providencial — olha a força divina, de novo — para convencer todos a dar-se as mãos em nome do bem, sob liderança de Marina Silva. Não há projeto, não há o que fazer. Tudo pode ser o seu avesso.

A sugestão é que só faltava aparecer alguém com tanta capacidade permitir que isso ocorra em 2014. Felizmente, essa personagem apareceu. Sou totalmente favorável a liberdade de religião mas temo que, em breve, alguém possa sugerir que oremos olhando para cima para agradecer. Essa linha de argumentos é uma tentativa de eliminar as conquistas e vitórias importantes dos últimos anos, passar uma borracha nos avanços obtidos e preparar a revanche dos derrotados de 2002.

Por isso Marina fala de uma 'unidade' que esconde dados reais. Os economistas de seu círculo são tão conservadores que já reclamaram dessa “extravagância” brasileira que é comer um bife por dia, como já fez Eduardo Gianetti da Fonseca. Dizem que a humanidade andou consumindo demais e que o regime de contemplação típico da religião budista pode ser uma condição para o progresso, como já disse André Lara Rezende, que, coerentemente, já escreveu que a posição do país na divisão de riqueza mundial não lhe permite ambicionar um crescimento econômico em taxas mais do que medíocres.

Todos ali celebram o governo de FHC como patrono da moeda sem lembrar que em seus dois mandatos a inflação subiu mais do que nos anos Lula e também nos anos Dilma. Todos lamentam o Brasil de 2009 — justamente o momento em que Lula reagiu à crise mundial e impediu que o país afundasse como a Grécia, a Espanha, a Irlanda, quem sabe a França. Balanço para 2014: defender a independência do Banco Central em cima desses selvagens, entendeu? Como se atrevem a tentar — mesmo parcialmente — encarar o mercado?

O esclarecimento das opiniões e o conflito de ideias são elementos indispensáveis da democracia, como ensinou Hanna Arendt, autora essencial para se entender que as ditaduras e governos autoritários nascem pela negação da existência de classes sociais e interesses divergentes.

Foi este o aprendizado que, numa longa caminhada iniciada no ABC de Luiz Inácio Lula da Silva, nos estudantes que enfrentaram a ditadura, nos trabalhadores rurais do Acre de Wilson Pinheiro e Chico Mendes, foi possível construir uma aliança política nacional capaz de abrir brechas num sistema de poder eternizado pela força bruta dos cassetetes e por vários salvadores da pátria. Este é o debate.


Marina no Jornal Nacional 


Paulo Nogueira                

Captura de Tela 2014-08-27 às 21.01.08

Acabou a folga para Marina.
Esta é a principal conclusão que emerge da entrevista com ela no Jornal Nacional.
Até aqui, ela só bateu nos outros. Quer dizer em Dilma e em Aécio, os representantes da “velha política”. Nem Dilma e nem Aécio, tão entretidos um com o outro, revidaram.
Agora, com seu crescimento vertiginoso nas pesquisas, ela vai começar a apanhar.
A pergunta que só encontrará resposta nas próximas semanas é quanto este novo cenário – em que ela passa a ser o alvo preferencial de Dilma e de Aécio – poderá afetá-la.
Que ela tem pontos vulneráveis ficou claro na entrevista do Jornal Nacional.
Patrícia Poeta lembrou, por exemplo, um fato que ninguém usou ainda contra ela: a baixa votação de Marina, em 2010, em sua terra natal, o Acre.
Marina ficou em terceiro, atrás de Serra e de Dilma.
Isso pode ser usado da seguinte forma pelos adversários: atenção, quem conhece não gosta.
Em 2010, ela disse, com voz embargada, que o terceiro lugar era “uma tristeza muito grande”. (Seu então companheiro de chapa, o empresário Guilherme Leal, foi breve: “Não tem explicação.”)
Agora, ela tirou da bolsa o velho clichê que diz que 'santo de casa não faz milagre'.
Invoco aqui, mais uma vez, Wellington com sua sentença definitiva: quem acredita que o provérbio explica a surra de Marina entre seus conterrâneos, acredita em tudo.
Marina também se enrolou para dizer por que quando os outros se juntam a pessoas diferentes para compor uma chapa é “velha política” e quando ela se junta a alguém como Beto Albuquerque é “nova política”.
Albuquerque é financiado por empresas de transgênicos, armas e bebidas – algo que um alguém realmente “puro” simplesmente não engoliria.
Marina desconversou. Fez a apologia da “diversidade”, e aproveitou para dizer que trabalhar com pessoas diferentes prova que ela, ao contrário do que se diz, não é “intransigente”.
Marina demonstrou aí a cara de pau cínica não da velha, mas da velhíssima política.
Marina pode ser desconstruída, sem dúvida. Mas vai ser?
A descontrução leva algum tempo. Dificilmente o cenário vai mudar daqui até o primeiro turno. Dilma e Marina passarão, muito provavelmente, para o segundo turno.
Aí então começará uma nova disputa.
A surpresa já terá passado, a onda também, as emoções associadas à morte de Campos igualmente. E Marina dificilmente sustentará a imagem virginal.
Muitos dos jovens idealistas que viram nela uma resposta ao mofado mundo político nacional – e eles são a essência do fenômeno Marina — perderão as ilusões diante dos fatos como eles são.
Isso tudo quer dizer o seguinte.
Até há pouco tempo, com Campos na corrida, estava espalhada a sensação de que Dilma já ganhara, ou no primeiro ou no segundo turno.
Agora, com o surgimento estrepitoso de Marina na disputa, para muitos ela já ganhou.
Nem Dilma estava garantida antes, e nem Marina agora.
Terminada a fase de pêsames e de luto, liquidada uma situação que a deixava fora dos ataques de Dilma e de Aécio, começa um novo tempo para Marina, muito mais áspero e volátil.
O jogo está aberto — exceto para Aécio, cuja candidatura se parece cada vez mais com um cadáver.
Paulo Nogueira
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Taxas de desemprego nunca estiveram tão baixas                   

                                                      Brasil Debate

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O Brasil tem historicamente um mercado de trabalho desestruturado, heterogêneo e desigual. Tais características se expressam em altos índices de desemprego, mas também em alta informalidade ou subemprego.
No entanto, nos últimos 10 anos, as taxas de desemprego aberto no País vêm caindo vertiginosamente, como se observa pelo gráfico abaixo.
Se comparadas às taxas de desemprego na década de 1990, percebe-se uma expressiva melhoria, que se traduz em melhoria de vida para a grande maioria da população, que depende do mercado de trabalho para sobreviver:
grafico taxa de desemprego
É necessário lembrar que isso ocorre em um contexto de crise internacional, com os países ditos 'desenvolvidos' enfrentando altas taxas de desemprego (gravíssimo problema social), como se percebe pelo gráfico abaixo, que compara a média das taxas de desemprego de países selecionados com o Brasil entre os anos 2009 e 2013.
Ainda é importante lembrar que, em alguns desses países, as taxas de desemprego entre os jovens é mais que o dobro da taxa da população em geral.
grafico media taxa desemprego países selecionados
Ainda é interessante apontar que esse quadro favorável do mercado de trabalho brasileiro ocorre em um contexto de crescimento constante não só do salário mínimo – cujo poder de compra cresceu cerca de 68% de maio de 2004 a janeiro de 2014 (ver nota técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – Dieese: notaTec136SalarioMinimo)-, mas também do rendimento médio mensal dos trabalhadores brasileiros, que passou de R$1029 para R$1475 de 2003 a 2012, em valores reais expressos aos preços vigentes no mês de referência da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – IBGE (Pnad) disponível, ou seja, com um crescimento de cerca de 43% nesse período.
Assim, para a grande maioria da população, que depende do mercado de trabalho para sobreviver, o quadro do mercado de trabalho mudou muito nos últimos anos: e para melhor.