sábado, 2 de agosto de 2014

“Há soldados armados,  amados ou não / quase todos perdidos,  de armas na mão..."

"Em 1968, os militares tinham muito medo do poder de comnunicação da música popular..." E ordenaram à Rede Globo que a música de (Geraldo)Vandré - a preferida do público no Maracanãzinho - não poderia ganhar o Festival Internacional da Canção..."
Geraldo Vandré, no Maracanãzinho
PARA REMEMORAR...
Abaixo, vídeo sobre a música de Vandré, canção que virou libelo do povo contra o regime militar(um dos motivos para adecretação do famigerado AI-5):

                               
                                        

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Classificação  de  risco  do  Brasil desmente “mercado”, oposição e mídia

                            Blog da Cidadania por Eduardo Guimarães

No momento em que o mercado financeiro, a oposição ao governo Dilma Rousseff e a mídia espalham pessimismo com divulgação incessante de prognósticos catastróficos sobre a economia brasileira, a prova maior da má fé desse discurso essencialmente político-eleitoral reside no que, em investimento, é chamado de “classificação de crédito” (rating).
Essa classificação, levada ao pé da letra pelo mercado financeiro internacional, é feita por meio de notas representadas por letras e sinais aritméticos a partir de avaliações concedidas pelas três principais agências de classificação de risco. Quais sejam, a Fitch Ratings, a Moody’s e a Standard & Poor’s.
No quadro abaixo, o sistema de notas de cada uma das agências...

Entre 2008 e 2009, o Brasil obteve a pontuação BBB no “rating” das três agências – a Fitch Ratings usa a nota Baa2, que corresponde à nota BBB das outras duas agências. Em março de 2014, a Standard & Poor’s reduziu a nota do Brasil para BBB – e as outras agências mantiveram a nota BBB.
Contudo, tanto a nota BBB quanto a nota BBB – concedem ao país o que é chamado “grau de investimento”. As notas em azul no gráfico acima indicam aos investidores internacionais que aquele país apresenta boas condições de honrar suas dívidas.
As três agências fizeram revisões recentíssimas da nota de risco do Brasil e em nenhuma dessas avaliações foi entendido por elas que exista qualquer tipo de risco de a economia brasileira naufragar.
Para que se tenha uma ideia, a nota brasileira em ao menos duas das três agências equivale às notas de países como Itália ou Espanha. Já um país como a Argentina, que enfrenta graves problemas com sua dívida externa, teve recentemente sua nota rebaixada pela agência Standard & Poors para CCC – (vulnerável e dependente de condições favoráveis de mercado para pagar a dívida).
Contudo, enquanto a S&P rebaixava a nota do Brasil para BBB – em março último – divergindo das outras duas grandes agências, que nos mantiveram em BBB –, a agência de classificação de risco chinesa Dagong subia em três posições a nota de nossa economia.
Confira, abaixo, matéria do Estadão sobre o assunto.


O Brasil mantém, oficialmente, contrato para classificação de seu crédito com as agências Standard & Poor´s (S&P), Fitch Ratings (Fitch) e Moody´s Investor Service. Contudo, outras agências internacionais monitoram o risco econômico do país: Dominion Bond Rating Service(Canadá), Japan Credit Rating Agency (Japão), Rating and Investment Information (Japão), NICE Investors Service (Coréia do Sul) e a chinesa Dagong Global Credit Rating.
Seja qual for a agência de classificação de risco internacional, porém, o consenso é um só: a economia brasileira não sofre nenhum tipo de ameaça relevante. A S&P rebaixou um único nível a nossa nota e não foi acompanhada por nenhuma outra agência relevante. E, apesar da redução da nota, manteve-nos em “grau de investimento”.
É nesse ponto que o leitor discordante – ou tendente a discordar – dirá que essas instituições que avaliam as condições econômicas dos países erraram ao mensurar o risco de empresas americanas, sobretudo o banco Lehman Brothers, que deu início ao derretimento da economia americana e mundial em 2008.
Este Blog não faria restrições a esse argumento se essas agências de classificação de risco não fossem parte da ideologia do setor do “mercado” que faz propaganda eleitoral negativa contra Dilma Rousseff e que alardeia desastres econômicos próximos no Brasil. Para empresas como o Santander ou como certa consultoria Tabajara que espalha pânico para beneficiar Aécio Neves, essas agências têm que ser levadas muito a sério.
Aliás, mesmo quem não confia muito nelas tem que lhes dar crédito por conta de seu poder de determinar que nível de custo financeiro (taxa de juros) um país paga no mercado financeiro internacional. Ou seja: acreditando ou não nessas agências, todo o sistema financeiro mundial acredita, apesar dos erros de 2008.
Quanto aos erros das agências, vale comentar que elas se defendem dizendo que as instituições financeiras que avaliaram bem – como o próprio Lehman Brothers – ocultavam fatos, fraudando os analistas e até o Estado.
Segundo as três grandes agências de classificação de risco soberano dos países, portanto, o Brasil é um dos lugares mais seguros do mundo para investir. Ao contrário do mercado financeiro e empresarial brasileiro, essas agências julgam que o favoritismo de que ainda desfruta a presidente Dilma em sua própria sucessão é um fator positivo para a economia.
O fato é um só: toda a campanha oposicionista na eleição presidencial de 2014 está se sustentando não mais em “corrupção”, como em anos anteriores, mas na situação econômica do país. As “balas de prata” de 2006 e 2010” – denúncias de corrupção contra o governo federal – tendem a sumir em 2014, sendo substituídas pelo terrorismo econômico.
Por que? Porque a direita midiática já entendeu que “É a economia, estúpido!”. Contudo, há muito o que dizer na campanha que se avizinha. Ao refrescar a memória dos brasileiros e ao mostrar fatos como o que este post menciona, o discurso catastrofista, na melhor das hipóteses, não ganhará credibilidade suficiente para eleger Aécio Neves.
Confira, abaixo, alguns dos fatos que o brasileiro não sabe ou não lembra, mas dos quais será informado ou relembrado.




“Mercado” que quebrou o mundo toca terror     

                         

capadoglobo
Capa de O Globo: “Instituições financeiras já temem sofrer represálias do Planalto”
“As instituições temem sofrer retaliações do governo, segundo analistas”, diz o jornal carioca sem identificá-los.
O economista chefe da TOV Corretora, Pedro Paulo Silveira, chamou a reação do PT (Nota do Viomundo:À análise do Santander] de “postura bolivariana” e disse que a credibilidade do governo já está em baixa por causa de indicadores ruins da economia...

Enquanto isso, diz o jornal nas submanchetes:
FMI diz que economia é vulnerável            
Inflação muda hábito de consumidores      
Confiança da indústria cai pela sétima vez
Juro para pessoa física sobe de novo        

Leia agora a análise de Bob Fernandes sobre terrorismo econômico:

O “mercado”, que toca o terror

na eleição, quebrou o mundo

por Bob Fernandes, em seu blog

O “mercado” não quer Dilma. Isso está nas manchetes há dias, semanas. A Bolsa sobe ou cai a depender de pesquisas que mostram Dilma em baixa ou em alta. E não só pelos erros do governo Dilma.
Em 2002, em pleno governo Fernando Henrique, o “mercado” fez terror com a hipótese da vitória de Lula. Qual foi o resultado daquele terror todo? Basta conferir num site de buscas.
O governo Fernando Henrique terminou melancólico, com dólar a quase R$ 4, risco-país acima de 4 mil pontos, e inflação de 12, 53% ao ano.
Sobre qualquer assunto que tenha algo a ver com economia, largos setores da mídia dão voz preferencial e, a depender da mídia muitas vezes única, a “especialistas” do “mercado”. O que é o tal “mercado”? É o sistema de bancos e demais instituições financeiras.
Assim sendo, vale lembrar os custos da crise criada no e pelo “mercado” e que explodiu em 2008. Mark Anderson, ex-chefe da Standart and Poor’s, o homem que rebaixou a nota de crédito dos EUA, diz que o custo final da crise mundial é de US$ 15 trilhões.
Estima-se que hoje o chamado “mercado de derivativos” seria de US$ 1,2 quatrilhão. Isso é 20 vezes todo o PIB do mundo. Ou seja, é só ficção. É “dinheiro” de mentira. Isso existe apenas como alavanca para quem pilota o tal “mercado” acumular ainda mais fortuna. Com grandes riscos para o próprio sistema financeiro.
Nem se diga para os demais pobres mortais. Relatório da ONG britânica Oxfam informa: 85 pessoas das 7 bilhões e 200 milhões da Terra têm patrimônio igual à metade da população do mundo. O 1% mais rico do mundo tem US$ 110 trilhões. O que é 65 vezes mais do que tudo que tem metade da população mundial.
No Brasil, apenas 4 dos bancos tiveram lucro líquido de R$ 50 bilhões em 2013. Isso é mais do que a soma do PIB de 83 países no mesmo ano passado. Isso é o tal “mercado”. O resto é conversa mole e disputa pelo Poder.

A consultoria que diz que o Brasil

vai acabar

Paulo Nogueira           

Miranda no centro das atenções
Miranda, um  vigarista como tantos por aí,  no centro das atenções
O Brasil vai acabar.
Quem diz isso é o analista de investimentos Felipe Miranda, um dos sócios e fundadores da consultoria de investimentos Empiricus.
Num texto que a própria Empiricus define como “leitura obrigatória”, Miranda vaticina o fim do Brasil.
Para breve.
Isto, é claro, caso Dilma se reeleja. Aí, segundo ele, o caos vai se instalar na economia, e estaremos todos fritos.
Quer dizer: todos menos os sócios da Empiricus. Porque eles estão fazendo do horror econômico uma arma de vendas.
Num anúncio controvertido na internet, eles prometeram aos eventuais clientes a fórmula infalível para “se proteger da Dilma”.
O anúncio foi tirado do ar por ordem do Tribunal Superior Eleitoral, depois de uma reclamação do PT.
O TSE entendeu que aquilo era uma peça eleitoral contra Dilma.
Tenho outra visão. Não é exatamente contra Dilma, mas contra a decência.
Pelo seguinte: eu induzo você a achar que uma bomba atômica está prestes a explodir onde você vive. E ao mesmo tempo ofereço a você abrigo antinuclear.
Sua crendice é meu lucro.
É uma coisa próxima da vigarice. Eu estou engambelando você.  Eu estou vendendo o problema e ao mesmo tempo a solução para você.
A Empiricus é pequena, e não tem grandes histórias a contar em sua até aqui breve existência de cinco anos.
Mesmo assim, por causa do anúncio, ela virou notícia.
Pelo menos numa ocasião cometeu um erro monumental de avaliação. No final de 2009, recomendou entusiasmadamente que os investidores comprassem papeis da OGX, de Eike.
“OGX pode dobrar de valor na bolsa, diz Empiricus”: este o título de uma matéria da Exame.
Bem, o final da história todos sabemos.
Você conhece a alma da Empiricus vendo sua conta no Twitter. Ela tem pouco mais de 5 000 seguidores. E segue apenas vinte pessoas.
Entre elas estão Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Lobão, Roger e Danilo Gentili.
Todos eles saíram a campo para defender a Empiricus do “terror petista” por conta da retirada do anúncio do ar.
Felipe Miranda talvez não seja brilhante em avaliações, ou um exemplo de ética, mas de marketing ele tem boas noções.
Sabe aparecer.
No meio da confusão, ele aproveitou para avisar que está pensando em contratar a analista demitida pelo Santander depois de oferecer, ela também, proteção contra Dilma.
(O Santander errou duas vezes: ao publicar o boletim e depois ao demitir a autora.)
Tenho aqui um pressentimento.
Com a notoriedade adquirida agora graças ao anúncio e ao relatório que enterra o Brasil, Felipe Miranda se credencia a ser mais um colunista da Veja, ou do Globo, ou da Folha/SP, ou do Estadão.
Pressinto que vamos ouvi-lo com frequência na CBN e na Globonews, em programas sobre a economia.
Daí, da alavanca esplêndida da mídia, a palestras de 10, 20 ou mesmo 30 000 reais é um pulo.
Com a vantagem que, na mídia, ele pode fazer avaliações como a relativa a Eike sem consequência nenhuma para si próprio.
Basta falar mal do PT. O resto não importa.
Paulo Nogueira
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

Javier Bardem escreve carta contra a covardia de Israel    

“É vergonhosa a postura ocidental de permitir o genocídio em Gaza. É uma guerra de extermínio contra um povo sem meios”. Leia abaixo a íntegra da carta publicada pelo ator Javier Bardem, vencedor do Oscar por “Onde os fracos não têm vez”.
                                             
          

Javier Bardem, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante   no
filme 'Onde os Fracos não têm vez', publicou uma carta de  repúdio
ao  massacre  promovido  por Israel  na Faixa  de  Gaza.   Na carta, 
divulgada originalmente  pelo   jornal  La  Marea,  o  ator    espanhol 
considera  vexatória  a postura  do  Ocidente diante   do  genocídio
 do  povo palestino. Leia a íntegra abaixo.

GENOCÍDIO 

No horror que está acontecendo em Gaza não há espaço para equidistância nem neutralidade. É uma guerra de ocupação e de extermínio contra um povo sem meios, confinado em um território mínimo, sem água, e onde hospitais, ambulâncias e crianças são alvos e suspeitas de terrorismo. Difícil de entender e impossível de justificar. E é vergonhosa a postura ocidental de permitir tal genocídio. Não entendo essa barbárie e os horríveis antecedentes vividos pelo povo judeu tornam-na ainda mais incompreensível. Só as alianças geopolíticas, essa máscara hipócrita dos negócios – como, por exemplo, a venda de armas – explicam a posição vergonhosa dos Estados Unidos, União Europeia e Espanha.

Sei que eles sempre deslegitimaram meu direito à opinião com temas pessoais,  por isso quero  explicar os seguintes pontos: 

Sim, meu filho nasceu em um hospital judeu porque tenho muita gente querida ao meu redor que é judia, e porque ser judeu não é sinônimo de apoiar um massacre, assim como ser hebreu não é o mesmo que ser sionista, e ser palestino não é ser um terrorista do Hamas. Isso é tão absurdo como dizer que alguém ser alemão o vincula com o nazismo.

Sim, trabalho também nos EUA, onde tenho amigos e conhecidos hebreus que rechaçam tais intervenções e políticas de agressão. “Não se pode invocar autodefesa quando se assassina crianças”, me dizia um deles por telefone ontem mesmo. E também outros com que discuto abertamente sobre nossas posições divergentes. 

Sim, sou europeu e me envergonha uma comunidade que diz me representar com seu silêncio e ausência de vergonha. Sim, vivo na Espanha pagando meus impostos e não quero que meu dinheiro financie políticas que apoiem esta barbárie e o negócio armamentista com outros países que se enriquecem matando crianças inocentes. Sim, estou indignado, envergonhado e dolorido por tanta injustiça e pelo assassinato de seres humanos. Essas crianças são nossos filhos. É o horror.

Oxalá haja compaixão nos corações dos que matam e desapareça esse veneno assassino que só cria mais ódio e violência. Que aqueles israelenses e palestinos que só sonham com paz e convivência possam um dia partilhar sua solução.

A tragédia palestina e a vitória dos “anões diplomáticos” sobre os israelenses na ONU                    


                               Mauro Santayana                   

 O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, deve estar achando o máximo ter sido repentinamente elevado, pela rançosa e entreguista direita latino-americana - como o Sr. Andrés Oppenheimer - à condição de “superstar”, depois de ter chamado o Brasil de “anão diplomático” e de ter nos lembrado, com a autoridade moral de um lagarto, que “desproporcional é perder de 7 x 1”, referindo-se à Copa do Mundo, e não, matar e ferir mais de 3.000 pessoas e desalojar quase 200.000, para “vingar” um número de vítimas civis que não chegam a cinco.

Com acesso a drones e a sofisticados satélites de vigilância norte-americanos, e a compra de espiões em território “controlado” pelo Hamas – traidores e mercenários existem em todos os lugares - Israel poderia, se quisesse, capturar ou eliminar, com facilidade, em poucos meses, os responsáveis pelo lançamento de foguetes contra seu território, assim como alega contar com eficaz escudo que o protege da maioria deles.

O governo de Telaviv - e o Mossad - não o faz porque não quer. Prefere transformar sua resposta em expedições punitivas não contra os responsáveis pelos projéteis, mas contra todo o povo palestino, matando e mutilando - como fizeram os nazistas com os próprios judeus na Segunda Guerra Mundial- milhares de pessoas, apenas pelo fato de serem palestinos.      

Essa atitude, no entanto, não impediria que surgissem novos militantes dispostos a encarar a morte, para continuar afirmando – pelo único meio que bélico lhes restou - que a resistência palestina continua viva.

Do meu ponto de vista, nesse contexto de cruel surrealismo e interminável violência do confronto, para chamar a atenção do mundo, os palestinos, principalmente os que não estão ligados a grupos de inspiração islâmica, deveriam não comprar mais pólvora, mas tecido.

Milhares e milhares de metros de pano listrado, como aqueles que eram fabricados por ordem doKonzentrationslager Inspetorate, e das SS, na Alemanha Nazista, para vestir entre outros, os prisioneiros judeus dos campos de extermínio.

Os milhões de palestinos que vivem na Cisjordânia e na Faixa de Gaza poderiam - como fez Ghandi na Índia - adotar a não violência, raspar as suas cabeças, as de suas mulheres e filhos, como raspadas foram as cabeças dos milhões de judeus que pereceram na Segunda Guerra Mundial, tatuar em seus braços, com números e caracteres hebraicos, a sua condição de prisioneiros do Estado de Israel, costurar, no peito de seus uniformes, o triângulo vermelho e as três faixas da bandeira palestina, para ser bombardeados ou morrer envoltos na mesma indumentária das milhões de vítimas que pereceram em lugares como Auschwitz, Treblinka e Birkenau.

Quem sabe, assim, eles poderiam assumir sua real condição de prisioneiros, que vivem cercados dentro de campos e de guetos, por tropas de um governo que não é o seu, e que, em última instância, controla totalmente o seu destino.

Quem sabe, despindo-se de suas vestimentas árabes, das barbas e bigodes de seus homens, dos véus e longos cabelos de  suas mulheres, despersonalizando-se, como os nazistas faziam com seus prisioneiros, anulando os últimos resquícios de sua individualidade, os palestinos não poderiam se aproximar mais dos judeus, mostrando-lhes, aos que estão do outro lado do muro e aos povos  do resto do mundo - com imagens semelhantes às do holocausto – que pertencem à mesma humanidade, que são, da mesma forma,  tão vulneráveis à doença, aos cassetetes, às balas, ao desespero, à tristeza e à fome, quanto aqueles que agora os estão bombardeando.

As razões da repentina e grosseira resposta israelense contra o Brasil - que ressaltou, desde o início, o direito de Israel a defender-se - devem ser buscadas não no “nanismo” diplomático brasileiro, mas no do próprio governo sionista.

É óbvio, como disse Yigal Palmor, que no esporte bretão 7 a 1 é um número desproporcional e acachapante.

Já no seu campo de trabalho - a diplomacia –como mostrou o resultado da votação do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que aprovou, há três dias, a investigação das ações israelenses em Gaza, os “anões” diplomáticos - entre eles o Brasil, que também votou contra a posição israelense - ganharam por 29 a 1, com maioria de países do BRICS e latino-americanos. Só houve um voto a favor de Telaviv, justamente o dos EUA.

Concluindo, se Palmor – que parece falar em nome do governo israelense, já que até agora sequer foi admoestado - quiser exemplo matemático ainda mais contundente, bastaria  lembrar-lhe que, no covarde “esporte” de matar seres humanos indefesos – entre eles velhos, mulheres e crianças –  disputado pelo Hamas e a direita sionista israelense, seu governo está ganhando de goleada, desde o início da crise, pelo brutal - e desproporcional placar - de quase 300 vítimas palestinas para cada civil israelense.

We dont't need no tought control
(Não precisamos de nenhum controle do pensamento)
Jacques  Gruman(*)                

                 
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Perdoai. Mas eu preciso ser outros(Manoel de Barros).

Ainda estava atordoado. Devia voltar para casa ou pegar o primeiro ônibus e desaparecer no mundo ? Acreditar na Palavra ou no discernimento dos pais ? De manhã, o susto. Obedecendo à mais nova lei municipal, sua escola exigia que os alunos lessem todos os dias um versículo da Bíblia. O comando foi claro: turma, hoje leremos Deuteronômio, 21, 18 a 21. Os amigos ateus, candomblecistas e muçulmanos não tiveram refresco, eram ordens da autoridade municipal, sem exceções. Em uníssono, muitos engolindo em seco, balbuciaram: Quando tiver um homem um filho contumaz e rebelde, que não obedece à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e ainda que o castiguem não lhes dá ouvidos, pegarão nele seu pai e sua mãe e o levarão aos anciãos de sua cidade e à porta do tribunal de seu lugar, e dirão aos anciãos de sua cidade: Este, nosso filho, é contumaz e rebelde, não obedece a nossa voz; é glutão e beberrão. E o apedrejarão todos os homens de sua cidade, e morrerá; e eliminarás o mal do meio de ti; e todo Israel ouvirá e temerá. Aquela revelação era terrível. Ele adorava comer, bebericava aqui e ali, e, espírito rebelde, desafiava conceitos e valores dos pais, discutindo quase todo santo dia. Para o Velho Testamento, era um criminoso, merecia a morte. Sentado no meio fio, colocou a cabeça entre as mãos, afundado na dúvida, na ignorância humana e na tutela religiosa.
Quem dera fosse ficção. A Câmara de Vereadores de Nova Odessa, interior de São Paulo, acaba de aprovar projeto obrigando alunos da 1ª à 5ª série a ler um versículo da Bíblia por dia. A obrigatoriedade, que precisa de sanção do prefeito, pode atingir 4 mil alunos. A argumentação do autor do projeto é típica da investida religiosa contra os espaços públicos. Diz o vereador que patrocinou a marotagem: “O projeto não se contrapõe à ideia do Estado laico e tem o objetivo de melhorar a capacidade de leitura dos alunos”. Por trás da intenção razoável, se esconde o proselitismo que vê na Bíblia a única fonte segura dos “bons costumes”. Se o objetivo real fosse mesmo incentivar a leitura, não faltariam bons autores e bons livros, destes que marcam a vida dos leitores. Que tal, por exemplo, circular a obra do João Ubaldo Ribeiro, grande cronista e literato apaixonado pelo Brasil e sua língua ?
Infelizmente, Nova Odessa está longe de ser um gueto isolado no meio do nada. Na maioria das escolas públicas brasileiras, para passar de ano, os alunos têm que rezar. Dados do Ministério da Educação mostram que, em 51% dos colégios, há o costume de se fazer orações ou cantar músicas religiosas. Embora a Lei de Diretrizes e Bases exija que o ensino de religião na rede pública seja facultativo, em quase metade dos estabelecimentos (49%) a presença nas aulas desta disciplina é obrigatória. Para agravar o quadro, em 79% das escolas não há atividades alternativas para estudantes que não queiram assistir às aulas. O resultado dessa agressão é um politraumatismo mental. A arregimentação confessional nas escolas, feita à sombra do Estado, gera preconceitos, marginaliza estudantes, consagra uma ilegalidade. Uma adolescente de 13 anos, candomblecista, frequenta uma escola municipal em São João de Meriti. Tem três professoras evangélicas, que não se envergonham de, dentro do espaço educacional, desqualificá-la. É obrigada a frequentar as aulas de religião e fazer orações. Quando se recusa, é expulsa de sala e mandada para a direção. O que faz a diretora? Dá razão à professora! No município de Engenheiro Paulo de Frontin, o pai de um jovem denunciou que o filho, estudante do 9º ano de um Ciep, era obrigado a rezar o Pai-Nosso todos os dias na escola. Detalhe: tratava-se de uma família judia. O adolescente, constrangido, acabou se recusando a voltar às aulas. Alegação da inspetora: o Pai-Nosso é uma oração universal (sic). É essa a sociedade generosa, plural e tolerante que se diz existir no Brasil? Há uma guerra subterrânea contra a juventude, travada em nome de Deus (qual deles?), com a omissão criminosa do Estado. A catequese em curso é um passo gigantesco rumo ao obscurantismo.
A encrenca vai além das escolas. Certo dia, indo para uma reunião na Assembleia Legislativa do Rio, esbarrei com um cartaz no elevador do prédio. Convocava para um culto evangélico nas dependências daquela Casa do Povo (desculpem por essa denominação meio esculhambada, obsoleta). Fuça daqui, assunta dali, acabei descobrindo que eventos religiosos são rotina na Alerj. Cultos evangélicos acontecem todas as quartas-feiras há pelo menos nove anos! Animados com a farra evangélica, os católicos já estão agendando eventos. Cultos e missas, que deveriam se circunscrever a templos e igrejas, estão vazando para o espaço legislativo, ferindo os princípios básicos do Estado laico. Mais do que inadequada e inconstitucional, a prática ajuda a despolitizar o povo, que acaba confundindo orientação espiritual/religiosa com ideologia. Os lobbies religiosos, nosso Cinturão da Bíblia parlamentar, estão cada vez mais insolentes. Sabem de seu poder eleitoral, fincado no atraso, e o usam para ampliar rebanhos e fortalecer uma agenda ultraconservadora.
No Brasil, templos de 5 estados (Rio, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina) têm grandes isenções fiscais. Resultado de pressões das bancadas evangélicas, acabam beneficiando, por isonomia, outras religiões. Pelo menos mais 11 estados estudam concessão de novos benefícios. O corporativismo teísta garante privilégios que não se justificam. Como qualquer atividade privada, a prática religiosa deveria ser financiada por seus seguidores. A renúncia fiscal a favor dos clubes clericais, todos eles, se dá em prejuízo da população. Cada real não arrecadado equivale a um real sonegado para áreas vitais. Como dizem os economistas: não há almoço grátis. Políticos, digamos, espertos, sabem jogar esse jogo. O ex-prefeito do Rio, César Maia, foi condenado em julho de 2013, em segunda instância, por ter financiado com dinheiro público a construção de uma igreja no Rio. Por isso, a Procuradoria Regional Eleitoral do Rio impugnou o registro da sua candidatura ao Senado. Cinicamente, e certo da impunidade, comentou: “O Ministério Público tem todo o direito de questionar candidaturas. No caso é uma capelinha de São Jorge e o argumento é que o Estado é laico”. Curiosamente, não se ouvem as trombetas da indignação vindas dos castelos eclesiásticos. O silêncio pode ser um grande discurso.
Dias atrás, morreu Rubem Alves. Como a gente diz na gíria do futebol, era um ensaboado. Difícil de marcar. Educador e teólogo, nunca foi ortodoxo. Defendia a educação como exercício da liberdade e da imaginação. Não se conformava com o uso leviano, medíocre e oportunista dos dogmas religiosos. Imagino a revolta com o que via nas escolas e nos púlpitos. Vá, Rubem, nós, que aqui estamos, por vós pelejamos.
Crédito da foto: latuff.
(*) Jacques Gruman, 55 anos,  engenheiro químico, é militante internacionalista da esquerda judaica no Rio de Janeiro.