quinta-feira, 31 de julho de 2014


Espaço vital e mortal


janio de freitas               

                             
Destruir por bombardeio a única usina de energia elétrica em Gaza não é procurar e destruir túneis dos combatentes palestinos. É o modo escolhido de causar o dano mais geral à população civil e às instalações essenciais que são os hospitais e postos de socorro ao que reste de vida nas vítimas das bombas, do canhoneio naval e dos tiros de tanques. Crime de guerra, pela Convenção de Genebra, e crime contra a humanidade, pelos princípios da ONU e pelas leis internacionais.

Os túneis como motivo dos ataques são apenas uma mentira a mais. O sistema de informação e vigilância de Israel não seria enganado, enquanto o Hamas construiria rede subterrânea tão extensa e sofisticada quanto diz o governo israelense. Mentira como a velha alegação de que os hospitais, escolas, mesquitas e moradias destruídos serviam de depósitos de armas e munição do Hamas. Se fossem, o ataque a tanto material explosivo teria levado toda Gaza pelos ares há muito tempo. Em vez disso, ruínas e crateras documentadas são compatíveis com o efeito normal dos bombardeios, sem a expansão de paióis explodidos.

O objetivo não são os túneis. Nem o foram os lançadores de foguetes do Hamas, como alegado ao início do atual ataque. O objetivo que pode explicar tamanho massacre é outro. Tem nome, já foi assunto de interesse da imprensa na Europa há uns 30 anos, mas veio a ficar cercado por um silêncio raras vezes transposto. O mesmo silêncio útil, e em grande parte pelas mesmas razões, adotado no último dia 24, quinta-feira.

Uma posse presidencial não é fato que passe sem se fazer notar. Tanto mais se quem deixa o posto é o último estadista de Israel, que se despede da vida pública aos 90 anos, e Nobel da Paz há exatos 20 anos. Foi diante de poucos convidados, no entanto, que Shimon Peres entregou a Presidência a Reuven Rivlin, que fez carreira como advogado de árabes moradores no território israelense. Sem que a atividade profissional tenha qualquer significado político.

O novo presidente de Israel não é apenas de ultradireita, integrante do mesmo Likud do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Ex-oficial de informação do Exército, Reuven Rivlin defende e incentiva a multiplicação de bairros ("assentamentos") israelenses em terras da Cisjordânia. Combate a hipótese do Estado Palestino previsto no ato de criação de Israel pela ONU. Em último caso, diz, seria admissível conceder aos árabes da Cisjordânia a cidadania de israelenses.

Reuven Rivlin é entusiasta e propagador do plano Grande Israel, hoje raramente citado, ao menos de público. Projeto que se origina (ou termina) em ideia semelhante à do "espaço vital" que figurou nas causas da Segunda Guerra Mundial. Nele se vê a explicação para os continuados "assentamentos", apesar da condenação da ONU e do poder conflituoso que têm, além de serem obstáculo central nos arremedos de diálogo de paz entre Israel e Cisjordânia.


Com o cadastro de Reuven Rivlin, o realce à sua posse tenderia a agravar a imagem de Israel propagada por sua ferocidade bélica. Mas a importância da ligação ostensiva do novo presidente com o plano Grande Israel não é só um prenúncio de sua ação futura. É componente lógico de um plano de ação que está muito acima dos túneis. E é levado pelas bombas à terra necessária à grandeza sonhada. 


janio de freitas
Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa com perspicácia e ousadia as questões políticas e econômicas. Escreve aos domingos, terças e quintas-feiras. 

Aeroportos      e colisões tucanas 


Saul Leblon                   

Arquivo
Há exatamente quatro anos, em 29 de julho de 2010, o jornal ‘O Globo’ noticiava a evidência de um  racha profundo nas fileiras tucanas, a minar a campanha  do então candidato à presidência da República pelo PSDB, José Serra.

Aspas para o Globo de 29-07-2010:
‘O candidato a presidente pelo PSDB, José Serra, terá uma estrutura independente em Minas Gerais para impulsionar sua campanha no Estado (…). A estratégia foi montada para fazer frente a algumas dificuldades. A decisão foi tomada após descontentamento com o ritmo da campanha no Estado, onde o ex-governador Aécio Neves, que recusou-se  a ocupar a vaga de vice na chapa de Serra, é a principal liderança do PSDB…’
Corta para o coquetel de autógrafos de  Serra, no Rio, na semana passada, dia 23 de julho de 2014, no lançamento de seu livro de memórias, “50 anos Esta Noite”.
Aécio Neves não compareceu ao evento, onde Serra comentou  laconicamente o episódio que há dez dias faz sangrar seu velho rival e agora o  candidato do PSDB à presidência.
‘Um programa de construção de aeroportos no interior de repente bate na família. Não quer dizer que houve favorecimento..’ disse olímpico sobre a obra de R$ 14 milhões feita por Aécio na fazenda de um tio,  paga com dinheiro público.  ‘Eu não tenho parentes no interior. Se tivesse, poderia ter acontecido…’, observou  Serra com irônica ambiguidade.
Especulações sobre a origem da denúncia veiculada em 20/07, pela  ‘Folha de SP’,  de notórias afinidades com o serrismo, ganharam lastro extra a partir do editorial  publicado pelo diário da família Frias , no último domingo, 27-07.
O texto com  sugestivo título,  ‘O pouso do tucano’,  desmonta as explicações de Aécio para o escândalo e lança uma comprida sombra sobre o futuro de sua candidatura:
‘Mais econômico, na verdade, teria sido não fazer obra nenhuma. A demanda por voos em Cláudio é pequena, e o aeroporto de Divinópolis fica a 50 km de distância. Ainda que todo o processo tenha sido feito de maneira legal, como sustenta Aécio Neves, restará uma pista de pouso conveniente para o tucano e seus parentes, mas de questionável eficiência administrativa. Não é pouca contradição para um candidato que diz apostar na união da ética com a qualidade na gestão pública’.
Mas o principal  subtexto das suspeitas quanto à fonte da denúncia remete ao recheio mineiro da derrota  sofrida por  Serra nas eleições presidenciais de 2010, quando as urnas sepultaram de vez suas pretensões ao cargo máximo da política brasileira.
Numa disputa marcada logo no  início pela colisão frontal com Aécio, que postulava a mesma indicação no PSDB, Serra terminaria abatido fragorosamente pelo ‘poste’,  Dilma Rousseff,  que teve  56,05% dos votos, contra 43,9% do ‘experimente’ ex-governador de São Paulo.
Um tônico inesperado da derrota foi  a desvantagem ampla de Serra nas urnas de Minas Gerais.
No  segundo maior colégio eleitoral do país – de onde Aécio conquistou uma vaga no Senado, arregimentando 7,5  milhões de votos–  Serra obteve um apoio inferior a sua média nacional ( 41,5%).
O de Dilma, ao contrário,  foi sugestivamente superior (58,4%).
Seria um erro atribuir o resultado ao boicote de Aécio, abstraindo assim a tradicional força do PT em Minas Gerais e o prestígio conquistado pelos investimentos do governo Lula (que teve 65% dos votos de Minas em 2006 e 66,5% em 2002) .
A verdade, porém, é que a derrota consagrava um processo de desidratação interna do candidato do PSDB, que remontava à própria  dificuldade inicial de preencher a vaga de vice em sua chapa, reservada até o último minuto como um prêmio de consolação que Aécio rechaçou.
A recusa, mineiramente dissimulada na protocolar promessa de ‘não poupar esforços pelo candidato’, era o troco à forma  como o ex-governador de São Paulo   impusera seu nome ao partido, sem abrir espaço para uma consulta às bases, inédita entre tucanos, reivindicada pelo rival .
A disposição bélica das fileiras serristas de atropelar o adversário mineiro com um misto de fatos consumados e jogo baixo ficaria evidente  logo no início de 2009.
Um artigo  famoso, publicado em fevereiro daquele ano na página 3 do jornal O Estado de S. Paulo,  dava o peso e a medida  do fair play  que ordenaria o confronto a partir de então.
Assinado pelo editorialista do jornal, Mauro Chaves, reconhecidamente ligado aos tucanos, mas sobretudo a Serra, o texto trazia  no  título a octanagem do arsenal disponível,  caso Aécio insistisse em desafiar a vontade ‘bandeirante’.
“Pó, pará, governador?” , diziam as garrafais, num  trocadilho com o suposto uso de droga por parte do político mineiro.
Era o gongo de uma série de rounds subterrâneos.
Eles incluiriam acusações mútuas sobre dossiês mortíferos engatados de um lado e de outro em um embate fraticida que quase paralisaria o PSDB.
Sobre Serra pairavam suspeitas de ter mobilizado  ex-delegados  da polícia federal para municiar o paiol contra Aécio.
A ira do mineiro envolveria garras não menos afiadas.
Uma delas, Andrea Neves,  cabo-de- guerra do irmão para golpes de bastidores e controle da mídia, estaria associada à contratação de repórteres, antes até, em 2008,  pelo jornal Estado de Minas, para investigar a vida de Serra e de sua família.
Com resultados suculentos, diga-se.
O livro ‘A privataria Tucana’, de Amaury Ribeiro  Jr, seria um subproduto desse mutirão.
O nebuloso episódio de uma reunião  ocorrida em junho de 2010, da qual teriam participado  Amaury, arapongas e Luiz Lanzetta  –membro da pré-campanha de Dilma,  atiçaria as evidência de um tiroteio cerrado nos  bastidores da campanha tucana.
Denunciado por um alcagueta presente, o encontro  teria tratado de  informações comprometedoras envolvendo  lavagem de dinheiro, paraísos fiscais, Verônica Serra (filha do tucano) e a irmã do banqueiro Daniel Dantas, Veronica Dantas.
Na Polícia Federal,  Amaury confirmou que pagou R$ 12 mil a um despachante paulista para obter as informações sobre os tucanos, entre setembro e outubro de 2009. O jornalista não revelou quem o contratara, nem quem financiou a  investigação,  iniciada como pauta do Estado de Minas.
O fato é que, nesse processo,  a candidatura presidencial de Serra desidratava de dentro para fora do partido. Seu caminho para as urnas lembrava um trem fora dos trilhos, com poucas chances de ser devolvido ao leito original.
Em julho de 2010, a percepção de que estaria sendo cristianizado por fileiras amplas do tucanato era muito forte.
O termo ‘cristianização’ colava em sua trajetória como o bolor  nos  corredores  abafados dos hotéis de estação.
A expressão vem do nome do político mineiro, Cristiano Machado que, a exemplo de Serra, havia imposto sua candidatura ao partido (o PSD) nas eleições presidenciais de 1950.
Cristiano foi abandonado pelos companheiros, que acabaram apoiando Getúlio Vargas.
O termo “cristianização” passou a designar o candidato ‘escondido’ pela sigla, que teme o contágio tóxico que sua impopularidade acarreta às demais candidaturas.
Assim foi com Serra.

Em 2010, a três meses das urnas do 1º turno,  a maior parte do material de campanha de Aécio Neves, candidato ao Senado por MG, e o de Anastásia, seu candidato ao governo do Estado,  omitia a imagem de Serra em santinhos e adesivos.
O alto comando serrista busca desesperadamente formas de fazer com que a campanha demotucana encontrasse motor próprio em MG.
Além de um comitê exclusivo,  os serristas tiveram  que montar  40 subcomitês  distribuídos por todo o estado, na tentativa de algo quixotesca de contornar o boicote silencioso sofrido  no  segundo maior colégio eleitoral do país, por parte de seu ‘aliado’ e líder local, Aécio Neves.
No melancólico reconhecimento da derrota final para Dilma, em 1º de novembro de 2010, Serra diria que o “povo” não quis que sua eleição fosse “agora” e se despediu do eleitor com um “até logo”.
No breve discurso ao lado da família, o tucano agradeceu o empenho do partido, festejou a eleição de Alckmin, porém não citou uma única vez o senador eleito por Minas Gerais, Aécio Neves.
A queda de braço não terminaria ali.
Aécio rapidamente ocuparia o vácuo da derrota pavimentando a sua candidatura dentro de um PSDB de joelhos, com o serrismo acuado.
O mineiro aplastou o desafeto em todas as frentes de comando.
Tomou a presidência do partido em primeiro lugar. E negou a Serra até mesmo a direção do medíocre, mas rico, Instituto Teotônio Vilela,  o think  tank  do PSDB.
Humilhado, Serra  engoliu um cargo honorífico no Conselho Político do partido, um enxerto  criado pela Executiva Nacional, mas no qual, ainda assim, seria minoritário.
A partir de então, experimentaria a mesma ração de fatos consumados e menosprezo que dispensara ao oponente  em 2010.
Braço direito de Aécio Neves no Senado, o impoluto Cassio Cunha Lima, distribuía patadas em seu nome dirigidas diretamente ao estômago de Serra.
Em outubro  do ano passado, enquanto Serra se comportava como se ainda pudesse pleitear a  candidatura tucana ao Planalto –ou mudaria para o PPS, sugeriam seus ventríloquos  na mídia–  Cunha lima  desembarcou em São Paulo.
O emissário de Aécio conversou com FHC , Geraldo Alckmin e outros graúdos bicos curtos e  longos.
Não procurou  José Serra. Mas declarou às viúva do ex-governador na mídia :
‘Não vamos mais repercutir o que Serra diz. A imprensa que faça isso. Deixa ele falar, nós vamos ignorar’ (revista Veja; 25/10/2013).
Serra ouviu e registrou em sua volumosa  agenda mental  encapada com  o ditado: ‘a vingança é um prato que se come frio’.
Dois meses depois, 48 horas antes de Aécio lançar sua bisonha ‘cartilha’,  na qual não mencionaria uma única vez o pré-sal nos  12 pontos que comporiam  suas propostas de governo, Serra retirou o prato da geladeira.
E disparou um artigo na ‘Folha de SP’, em 15/12/2013.
O tema: o consumo de drogas.
O primeiro parágrafo: ‘ O debate sobre o consumo de cocaína no Brasil pode e deve ser uma pauta em 2014’.
Desde então, aconselhados por Fernando Henrique e o pelotão dos ‘interesses maiores’, os desafetos  baixaram os punhais. Uma trégua acomodatícia  foi costurada pelos seguidores dos dois lados com a linha grossa da conveniência.
Aécio trouxe o braço direito de Serra, Aloysio Nunes,  para ocupar a vaga de vice em sua chapa. Serra recolheu-se à disputa por uma cadeira no Senado, com a promessa de um ministério, se Aécio for eleito.
As farpas refluíram;  parecia que o PSDB cicatrizaria as  profundas fendas  internas.
Até que no  17 de julho agora, uma quinta-feira, surgiu a notícia da defecção de um serrista graúdo afastado de um cargo de confiança na campanha de  Aécio.
Xico Graziano, conhecido pela mão pesada com que exerce a fidelidade aos próprios interesses, foi defenestrado do pomposo cargo  de ‘chefe da estratégia de redes’ da candidatura Aécio.

Nos bastidores afirma-se que Xico Graziano perdeu o posto  por uma questão prosaica: incompetência.
Seu projeto de site de campanha teria sido  avaliado como um fiasco   pela cúpula da candidatura.
Depois se soube que um  outro  site já estaria pronto e seria lançado em seguida.
Quem supervisionou o trabalho paralelo e empurrou Xico para a ladeira da campanha  foi a irmã do mineiro, Andrea Neves.
Três dias depois do episódio, no domingo, a ‘Folha’ estamparia a  denúncia do aeroporto construído por Aécio na fazenda do ‘tio Múcio’, com gastos de R$ 14 milhões do tesouro de Minas Gerais.
Na série de escaramuças desse histórico pode ser um ponto fora da curva.
Uma desprezível  coincidência.

Julho acabou e tudo deu  e


'arrancada' de Aécio e Dudu


no pós-Copa 'foi pro saco'


Fernando Brito   
caosaereo
A Alemanha fez a sua parte, com aquele “sacode” que levamos na semifinal.
Mas, no resto, a estratégia da oposição de capitalizar a natural frustração com a derrota esportiva e, ao menos, reverter as perdas que tiveram com o fato de a Copa do Mundo, apesar das previsões catastróficas da mídia, ter sido um sucesso internacional, não funcionou. Aécio despencou de seu discurso moralista com o aeroporto de família em Cláudio.
A seca do Alckmin, que tinha sumido da midia, voltou com força depois da ação do Ministério Público que manda racionar a água. Como advertiu, preocupada, a Folha, não apenas é conversa de elevador como já virou, hoje, assunto de matérias locais na Globo, com o povão reclamando da falta de água.
Sobrava o terrorismo econômico, mas a inflação em queda trabalha para  desmontar o cenário e a traulitada dada na carta do Santander ainda ajudou a evidenciar a gula “mercadista”.
Até o insuspeito Clóvis Rossi diz, hoje, na Folha ( o mais lido do dia) que “além de patético, o comportamento de tais agentes de mercado é covarde”.
Afinal, e todo mundo sabe, ganharam muito dinheiro com  o Brasil e com a expansão econômica do Brasil.
De maneira mais apropriada à sua elegância, Rossi repete o que disse aqui quando chamei de “mentira deslavada” os pedidos de desculpas do banco espanhol:  ”é o clássico modelo de atirar pedras e esconder a mão”.
Mesmo a “mãozinha” do Ministro José Jorge, do TCU – Jorge foi Ministro do Apagão de Fernando Henrique – no caso da refinaria de Pasadena deu errado, porque não atingiu a figura da Presidente.
Até o coadjuvante Eduardo Campos e sua partner Marina O que é que estou fazendo aqui Silva tiveram que se defrontar com a “saia-justa” da sua nova política que explicou que estava montando uma provinciana “Casa de Eduardo” em Osasco para “ganhar unzinho”. Campos não representa nada eleitoralmente em termos nacionais – esperem as pesquisas mais adiante – e está a caminho de tomar uma tunda de proporções homéricas até mesmo em Pernambuco, onde até os prefeitos do PSB estão debandando para a candidatura Armando Monteiro,  do PTB mas apoiada – e apoiando – Lula.
A esta altura, sei não, acho que a tucanagem morre de saudades de José Serra.
E eu lembro da frase do Millôr Fernandes: mais importante do que ser genial é estar cercado de medíocres.

A íntegra da sabatina de 


Dilma Rousseff na CNI

 


Após três semanas de ataques em Gaza, contabilidade macabra só aumenta

Arquivo
Um bombardeio de Israel matou pelo menos 19 palestinos refugiados em uma escola administrada pela ONU (Organização das Nações Unidas) nesta quarta-feira (30). Outro ataque aconteceu na região de um mercado perto de Gaza, em que 17 palestinos morreram. Segundo a agência Reuters, 96 palestinos e três soldados israelenses morreram apenas na quarta-feira por conta da ofensiva de Israel.
Estima-se que muitos civis palestinos procurem abrigo nas escolas da ONU, especialmente em Jabalia, maior campo de refugiados palestinos existente, situado no norte da Faixa de Gaza, perto da fronteira israelense. O número de desalojados aumentou depois da advertência do Exército de Israel sobre a possibilidade de bombardeios em massa contra seus bairros. De acordo com a missão das Nações Unidas, só no norte da Faixa de Gaza, 70 mil civis deslocados estão abrigados em escolas.
No total, cerca de 180 mil habitantes do território palestino estão refugiados, em condições muito precárias, nas 83 escolas geridas pela UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina). Depois do ataque, a agência da ONU acusou o Exército de Israel de “grave violação do direito internacional”.
“Ontem à noite, crianças foram mortas enquanto dormiam ao lado de seus pais no chão de uma sala de aula em um abrigo da ONU em Gaza. Crianças mortas enquanto dormiam; isso é uma afronta para todos nós, uma fonte de vergonha. Hoje o mundo está em desgraça”, afirmou Pierre Krähenbühl, comissário-geral da UNRWA.
O Exército israelense tentou negar a autoria do ataque na escola das Nações Unidas, argumentando que a região teria sido alvo de militantes armados.
Israel decidiu continuar a ofensiva e não há sinal de uma interrupção no conflito que já dura três semanas e deixou 1.346 mortos palestinos, 56 soldados e três civis mortos israelenses. Na terça-feira, o porta-voz do Ministério da Saúde de Gaza, Ashraf Al Qedra, explicou que os ataques por terra, mar e ar se intensificaram ao longo do dia e que dois terços das vítimas deles são civis, incluindo mulheres e crianças.
Segundo Ashraf Al Qedra, as forças armadas israelenses “atacaram casas, edifícios, centros de imprensa, desabrigados, mesquitas e áreas rurais”. Testemunhas e forças de segurança palestinas informaram que os piores bombardeios de ontem foram contra várias moradias do campo de refugiados de Al Bureij, na região central de Gaza, onde morreram 17 pessoas – entre elas, o prefeito local, Anis Abu Shamalah, além de vários menores e mulheres.
Em um dos ataques israelenses, foi atingida a casa do líder do Hamas na Faixa de Gaza, Ismail Haniya, que não estava no local. A casa dele, que foi primeiro-ministro em 2006, ficou completamente destruída, segundo informou a TV Al Aksa.
Na terça-feira, também atingida a única central elétrica da Faixa de Gaza, que está em chamas após receber ao menos um disparo de artilharia. O porta-voz Fathi Jalil disse à agência palestina Mann que um disparo caiu em um tanque de combustível e assim o incêndio começou. Grandes colunas de fumaça negra tomam as instalações enquanto tentam apagar o fogo. Outra granada alcançou uma turbina. Até agora, os bombeiros não conseguiram apagar o fogo.
Jalil falou de consequências “desastrosas” para a região, na qual grande parte dos 1,8 milhões de habitantes depende do funcionamento da central, e pediu ajuda internacional. A central fornece eletricidade a casas, empresas, hospitais e bombas de água na região.

Em sabatina da CNI, Dilma discute projetos; já Aécio e Campos apenas discursam

Candidato do PSB perde pontos com promessas difíceis de cumprir. Tucano adota tom que mais agrada ao mercado financeiro que ao empresariado. Petista defende políticas atuais e promete melhorias.
Helena Sthephanowitz           
                                                                                                                                                                                     MIGUEL ÂNGELO/CNI
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Dilma cumprimenta representantes da indústria após sabatina. Contraposição a Aécio marca encontro
Os assessores de Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) devem estar atordoados com a participação da presidenta Dilma Rousseff (PT) na sabatina da Confederação Nacional da Indústria (CNI), tamanha foi a aula de competência dela na área econômica, em contraste com o vazio de propostas e a platitude dos dois adversários.
Cada um participou em horário diferente, no formado de três entrevistas diferentes, uma com cada candidato. Todos assumiram compromissos com várias pautas apresentadas pela entidade, em geral as consensuais, já que cada candidato recebeu vários cadernos temáticos com propostas e demandas do setor.
Eduardo Campos foi o primeiro a ser sabatinado. Criticou o governo federal, apresentou propostas genéricas sobre a indústria brasileira e requentou promessas. Ao responder pergunta sobre que importância o setor da indústria vai ter no governo, Campos iniciou um discurso de que a “solução” para a melhora do setor está na política. Segundo ele “é preciso acabar com o presidencialismo de coalizão para também estimular o setor” e “a produtividade pública do Brasil é baixíssima”.
Mas, na hora de dizer o que vai fazer, foi semelhante àqueles vendedores que prometem terreno na lua. Por exemplo, fazer reformas na primeira semana de governo. Na reforma tributária, falta combinar com o Congresso Nacional, os governadores e com os grupos de pressão setoriais que atuam sobre o Legislativo. Em suma, o pernambucano perdeu pontos em uma plateia de empresários pragmáticos, bem informados e insensíveis a populismo empresarial.
Em seguida, Aécio Neves, apesar de ter boa parte da torcida ao seu lado e que o aplaudiu, decepcionou por ser evasivo. Também reclamou, criticou, mas, na hora de propor projetos, limitou-se a acenar com as medidas amargas que mais agradam ao setor financeiro do que o industrial.
Repetiu os chavões neoliberais de choque de gestão, corte de custos, privatizações, que filosoficamente agradam os empresários, mas pragmaticamente todos ali sabem que as práticas e acordos políticos que Aécio fez em Minas para ter a governabilidade são até bem mais concessivas à velha política do que as adotadas pelo atual governo federal.
Além disso, o setor produtivo não abre mão de políticas industriais promovidas por governos desenvolvimentistas, até porque todos os países ricos fazem isso, de uma forma ou de outra, para defender e crescer seu parque industrial. Por fim, Aécio retomou o tomo do retrocesso e defendeu uma das principais bandeiras do governo de Fernando Henrique Cardoso, as agências reguladoras. “O resgate das agências reguladoras parece urgente e possível de ser enfrentado nos primeiros dias de governo.”
Dilma Rousseff foi a última a falar, adotando compromisso com seu projeto nacional, sem escapismos. Falou sobre o que foi feito em desonerações, desburocratização, redução dos custos de logística e de produção, de qualificação profissional. E falou também mirando o futuro.
Abordou política industrial e geopolítica comercial multipolar para aproveitar oportunidades no comércio com a América Latina, com o G-20 e com os Brics; falou da reforma política necessária para tornar o Estado mais eficiente e transparente, das compras governamentais com conteúdo nacional para fortalecer a indústria, dos investimentos em inovação, educação e pesquisa para aumentar a produtividade, da política energética que até os Estados Unidos fazem com o gás de xisto em vez de seguir o livre mercado. Deu uma aula sobre como o governo estadunidense faz política industrial com as agências de inteligência, recentemente envolvidas na espionagem ilegal, para desenvolvimento de sua indústria de tecnologia da informação e de comunicações, da mesma forma que o Pentágono faz com complexo industrial-militar.
Se depender só do desempenho na sabatina, muitos empresários podem ter escolhido ali sua candidata.

"Dilma deveria ‘parar com entrevistas exclusivas’     para a mídia conservadora"



Dilma deu uma aula de economia aos jornalistas da Folha
Dilma deu uma aula de economia aos jornalistas da Folha
A presidenta Dilma Rousseff conseguiu, na última segunda-feira,/28, escapar de uma série de ‘pegadinhas’ preparadas contra ela por entrevistadores de um conglomerado de mídia ligado ao capital internacional. Mas não saiu ilesa. Segundo a doutora em Economia pela Sourbone e correspondente do Correio do Brasil, em Paris, Marilza de Melo Foucher, embora a presidenta Dilma tenha conferido “uma aula de economia” aos jornalistas presentes, “os argumentos por eles fornecidos foram muitos fracos e distorcidos da realidade”.
Se a entrevista tivesse, além de jornalistas da mídia conservadora, alguns da imprensa alternativa e independente, “certamente o resultado teria sido outro”, afirma a economista.
Leia, a seguir, o texto de Marilza de Melo Foucher:
“Depois de ter lido a matéria escrita da Folha de São Paulo tomei meu tempo pra escutar a entrevista gravada em vídeo no UOL. Vocês podem fazer o mesmo para cruzar as informações entre o que a Folha chama sabatina no vídeo e a síntese do que escrevem. Verifiquem que a síntese escrita e as afirmações nas entrelinhas, de forma em geral, são feitas para desacreditar o discurso ou gerar dupla interpretação. A presidenta Dilma Rousseff, na entrevista deu aula de economia aos jornalistas da Folha (o diário conservador paulistano Folha de S. Paulo) e seus associados. Eles fizeram varias tentativas para destabilizá-l. Todavia, os argumentos que utilizaram foram muitos fracos e destorcidos da realidade. Se essa entrevista, além dos jornalistas da Folha, contasse com alguns imprensa alternativa, certamente o resultado teria sido outro.
“Ela teria sido mais profícua para os leitores brasileiros que poderiam ter tido mais elementos para analise da realidade atual e na certa disporiam de dados para comparar com a administração de Fernando Henrique e, principalmente, teriam melhores condições para ver como diferentes governos agiram face à crise da economia mundial. A presidenta Dilma não é dotada de carisma e não tem uma oratória politiqueira, daquele discurso bem rodado para dar prazer para a platéia. Ela não sabe fazer isto, ela é muito pragmática e por vezes um pouco tecnocrática nas explicações, todavia, isto não pode ser considerado somente como um defeito político. Ela tem um costume, não sei se é mineiro ou gaúcho, de chamar todos de “querido”, como o paulista diz “meu bem”, talvez isto seja incômodo numa relação com jornalistas que estão lhe preparando armadilhas e só esperam lhe fazer atropelar nos verbos. De todo modo, isto faz parte do jornalismo.
“Agora, faço aqui uma observação. A Presidência da República e sua assessoria já estão caducas de saber que os especialistas em manipulação de fatos e reinterpretação de falsas análises são sempre os mesmos. Esses jornalistas trabalham para os mesmos grupos que são adversários políticos declarados do governo e, além disso, têm ódio do PT. Tal condição os impede de formular perguntas com objetividade. Daí, o ideal seria a presidenta parar de dar entrevistas exclusivas para essesw grupos midiáticoss conservadores, o que não quer dizer boicotá-los. Todavia, sua assessoria de Comunicação Social poderia convidar  analistas da imprensa alternativa, que entendam mais de economia internacional, para formularem questionamentos comparativos. Além disso, ter como interlocutores jornalistas dotados de senso mais crítico e de maior imparcialidade pode contribuir para  elevar o nível do debate que a oposição difreciona ao mais baixo nível possivel.
“Somente teríamos todos a ganhar com a pluralidade dos meios de comunicação, ou seja com a presença de outros jornais que não sejam apenas aqueles da grande midia. Na certa os questionamentos seriam mais pertinentes e as contradições poderiam ser mais bem impostas para melhorar a qualidade das intervenções. O que me chamou atenção e me leva a escrever essas linhas foi a leitura da analise do jornalista carioca, editor-chefe do CdB, Gilberto de Souza. Ele faz certos questionamentos que eu penso, alguns, serem pertinentes”.
Aeroporto sai da mídia
A manipulação da opinião pública por parte das empresas que, num passado recente, apoiaram a ditadura militar no país e para a qual a presidenta Dilma mantém total prestígio e suporte financeiro pesado, segue a marcha de uma bem montada operação na tentativa de desaparecer com o aeroporto dos Neves do noticiário. Pretendem, assim, proteger o candidato do PSDB, da mídia e dos conservadores, ao Planalto, senador Aécio Neves (PSDB/MG). Basta observar a cobertura no final de semana sobre o aeroporto construído pelo então governador de Minas, Aécio (2003-2010), com dinheiro público do Estado, no município de Cláudio (MG).
Estudos junto à opinião pública mostram que Aécio teme o crescimento da rejeição (em média, em 17%, de acordo com as últimas pesquisas) após a divulgação do Aeroporto dos Neves. A revista IstoÉ desta semana, vejam só, uma revista semanal, só publicou uma frase, a do próprio Aécio Neves: “Está tudo explicado já”. Que aliás virou bordão dele. A revista semanal de ultradireita Vejanão sonegou a informação a seus leitores, deu uma matéria de quatro páginas, mas, o foco é mostrar que Aécio é vítima. Para a revista, ele é uma vítima do PT, da campanha do partido contra o tucano, principalmente, pelas acusações que circulam nas redes e na blogosfera independente.
“Já o jornalão da família Marinho, O Globo, que nunca deu o caso com destaque, pôs uma pedra em cima no final de semana: nenhuma palavra a respeito. O diário conservador paulistano O Estado de S. Paulo, por sua vez, nos dois dias do fim de semana saiu com meia página em cada um de entrevistas com personalidades que costumam aparecer no noticiário do jornal, como o tio-avô de Aécio, Múcio Tolentino, dono da fazenda em, que o agora candidato a presidente construiu o aeroporto à 6 km da sua própria Fazenda da Mata; e o presidente de uma entidade de classe de Cláudio (MG). Ambos defendendo a construção do aeroporto dos Neves. Claro”, mostra o site Vermelho.org.
Silêncio de FHC
Já o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso, embora tenha concedido entrevista à IstoÉna semana passada, um dia depois da Folha denunciar o aeroporto, em sete páginas a ele destinadas pela revista, simplesmente não tocou no caso. Fez o mesmo neste domingo, na página inteira dada a ele pelo Estadão. Pode ser que FHC, ou os veículos de comunicação, ou ambos, consideram dar de presente um aeroporto à família, um mimo de R$ 14 milhões, pago com dinheiro público de Minas, é um negócio de menor importância. Assim, praticamente só a Folha continua no caso. Neste domingo, inclusive, apontou que o QG da campanha Aécio teme o crescimento da rejeição ao tucano (em média, em 17%, de acordo com as últimas pesquisas) depois da divulgação do Aeroporto dos Neves.
O temor, aponta a matéria, levou o QG e assessores tucanos a optarem por operar os desmentidos nas redes sociais, (dai eles chegam aos outros veículos), para que o candidato tucano não se exponha falando a respeito. Nas redes, 80% desaprovaram a atitude de Aécio, de construir o aeroporto da família.
Redes sociais
A estratégia de usar as redes sociais, aponta a Folha, foi idealizada, montada e operada por Andréa Neves, irmã do candidato e que comandou por oito anos a área de Comunicação do governo de Minas, quando ele foi governador. A opção prioritária desta vez pelas redes é porque a mídia em geral já está com Aécio e cumprirá o papel que sempre cumpriu: o fazer de conta que noticia, mas defendendo o tucano; e, no limite, atribuindo ao PT a denúncia com fins eleitorais ou por pura perseguição dado ao “caráter autoritário” que atribuem ao PT.
Enquanto a imprensa some com o aeroporto da família Neves dos noticiários, Aécio come pastel de feira, ao lado do governador tucano paulista e também candidato à reeleição Geraldo Alckmin. Quer e tenta continuar governador, agora pela 4ª vez. No Rio, em campanha na 6ª feira, e em São Paulo, na companhia de Alckmin, o tucano candidato ao Planalto repetiu o bordão de sua campanha: “a reeleição da presidenta Dilma não gera boas expectativas” para o mercado, o mundo econômico. Coincidência, é a mesma toada de FHC em suas entrevistas!
É, também, a mesma campanha do comunicado do Santander encaminhado a seus 40 mil clientes-Select, os mais ricos. É o que disseram a seus clientes as quatro consultorias arroladas pela Folha no sábado (duas do Brasil, uma dos Estados Unidos, outra do Japão), que fazem relatórios a seus clientes espalhando terrorismo em relação à reeleição da presidenta. É a campanha do caos e aquilo que o presidente do PT, Rui Falcão, classificou de “terrorismo eleitoral”.