sábado, 29 de março de 2014

Maria Antônia
                                                                                 
 José Miguel Wisnik                                                       CULTURA 


Em 64 a repressão desarticulou o sistema político, perseguiu a esquerda, investiu contra os sindicatos, mas deixou funcionando uma vida universitária e artística que era majoritariamente oposta ao regime.                                                                     

É sabido, embora muitas vezes esquecido e confundido, que depois do golpe militar de 1964, e até o AI-5, no final de 1968, viveu-se no Brasil um período de exuberante cultura pública. Em 64 a repressão desarticulou o sistema político, perseguiu a esquerda, investiu contra os sindicatos, as organizações operárias, mas deixou funcionando uma vida universitária e artística que, de modo contraditório, era majoritariamente oposta ao regime. 

A rotina da censura prévia só se instalou a partir de 1969. Antes disso aconteceram os festivais da canção, o show “Opinião”, o Teatro Oficina, o Arena, o Tuca, o cinema novo, o tropicalismo. A garotada da classe média formada na escola pública durante o intervalo democrático de 45 a 64 tinha o que dizer ao Brasil, do Brasil, e encontrou espaços para isso.

Entrei no curso de Letras da USP, que funcionava na Rua Maria Antonia, em 1967. Calculo que grande parte dos acontecimentos marcantes a que me referi, os festivais, os teatros, além dos cinemas exibindo Glauber Rocha, aconteceu num raio não maior do que o de dois quilômetros em torno da faculdade. O público estudantil era o combustível daquela efervescência, e se sentia no umbigo do mundo em que o vietcongue derrotava o império. As aulas se comunicavam com o que acontecia nas ruas, nas casas de espetáculo e na televisão. A universidade em que tantos se formaram, como é o meu caso, foi a de dentro das salas de aula e a desse entorno.

Os dois anos cruciais, 67 e 68, fermentaram a passagem de muitos militantes do movimento estudantil para a luta armada. Outros viriam a passar, na década de 1970, para a guerrilha existencial também chamada desbunde, cujas armas eram as drogas psicodélicas, e cujo horizonte era não a revolução socialista, mas a utopia comunitária, ecológica e sexual. As duas linhas se opunham e se comunicavam de algum modo, como disse Zé Celso em depoimento ao GLOBO. Podem ser vistas como vertentes de uma mesma crença febril, alimentada na florescente sociedade de consumo do pós-guerra ocidental, em uma transformação radical das relações humanas. A terra estava em transe.

No movimento estudantil da faculdade, o Partido Comunista Brasileiro era a ponta mais à direita do mundo politicamente admitido. O Partidão, no qual militava clandestinamente meu tio Elson Costa, em meios operários, recusava a via armada e apostava numa ampla aliança de classes como saída da ditadura, que iria dos trabalhadores das fábricas e do campo à classe média progressista e à burguesia nacional, opostos idealmente ao inimigo externo (o imperialismo) e ao inimigo interno (o latifúndio). Essa concepção clássica da esquerda brasileira, nacional-populista e aliancista, que ressoava na fé festiva, expressada nos festivais da canção, de que a ditadura cairia muito em breve graças à força popular (tantos hinos de protesto disseram isso), se contrapõe à dos grupos que desacreditaram dessa visão e partiram para a vanguarda da guerrilha urbana e rural.

O alarme da radicalização estética, que ecoava polemicamente a radicalização política, foi dado pelas canções tropicalistas (como “Divino maravilhoso” e “É proibido proibir” em ambiente de festival) e rebatido por “Pra não dizer que não falei das flores”, com a sua cantilena processional de chamado para a luta (“Vem, vamos embora/ que esperar não é saber”).

Mais do que um pretenso resumo histórico, escrevo para relembrar colegas de pouco mais de 20 anos que mergulharam tragicamente na luta armada, no redemoinho da época. Helenira Nazareth(foto), bela jovem negra de fibra e inteligência inesquecíveis, morta não em combate, como se alega, mas depois de presa no Araguaia. Suely Yumiko Kanaiama, doce japonesinha cujo olhar de partida ainda está em meus olhos depois de décadas, e cuja visita de silenciosa despedida, numa tarde do início dos 70, só compreendi muito depois. Intrigante depoimento de um militar diz que seu corpo metralhado foi enterrado e mais tarde, quando exumado por eles mesmos para ser levado para uma vala comum estratégica, irradiava estranha e intacta brancura. Sinto Diadorim, a donzela guerreira, a menina de lá. Sobre a admirável Iara Iavelberg acaba de estrear um documentário. Elson Costa, que se opunha à luta armada, como eu já disse, foi preso em 1975, barbaramente torturado e desaparecido com métodos parecidos aos que acabam de ser ostentados pelo torturador Paulo Malhães, em depoimento à Comissão da Verdade.

A grandeza sacrificial de uns, com tudo que possa ter havido de ilusão nas suas apostas, e quem somos nós para dizer isto, se choca com a baixeza torpe assumida pelo outro como programa de vida.




COMPORTAMENTO

Respeitarás a sexualidade do próximo e não discriminarás 

A peleja dos homossexuais que querem exercer sua religiosidade sem ser discriminados
Marcelo Santos, com fotos de Gerardo Lazzari          
GERARDO LAZZARI/RBA
Fé e sexualidade
Lucas Paiva: 'No pensamento da Igreja os homossexuais devem viver em castidade. Mas isso não é um dogma'
Há algo muito caro ao advogado carioca Ricardo Pinheiro, 40 anos. Trata-se de sua espiritualidade. Ele diz que a sua vida seria impraticável sem a fé. E que assim pavimentou o caminho na carreira em defesa dos direitos humanos e no ativismo como líder comunitário. Nascido e criado em família protestante, Ricardo abraçou valores do cristianismo e fez deles sua bandeira. Chegou a estudar Teologia e liderou jovens, discutindo textos bíblicos em praças públicas. A chegada da maioridade, porém, assim como nos anos seguintes o dilema da orientação sexual passaram a ocupar espaço importante: fugir da realidade ou assumir a homossexualidade. Ele decidiu que não se tratava de enfrentar a si mesmo e seu dilema, mas o preconceito.
Na época, Ricardo frequentava uma igreja presbiteriana no Rio de Janeiro, e começou a colecionar as antipatias dos pastores da região, que o viam como um semeador de “confusões”. Recebeu ameaças, mas foi adiante no propósito de seguir anunciando o que acreditava ser a mensagem cristã “que liberta verdadeiramente o ser de um homem, de uma mulher”. Aos 32 anos, deixou para trás sua antiga igreja por não querer mais conviver com preconceitos e intolerâncias pregadas e ensinadas de púlpito. Mas ressentia-se de se afastar das atividades mais banais, como os cultos e os estudos bíblicos.
Foi assim que se aproximou da Igreja Episcopal Anglicana, que tem causado polêmica por sua posição mais respeitosa às uniões homoafetivas. A institu ição foi a primeira a se pronunciar oficialmente em apoio à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que equiparou, em 2011, as uniões homoafetivas às demais uniões estáveis, o que culminou nas mudanças feitas por meio de resolução do Conselho Nacional de Justiça (175/2013), autorizando o casamento civil com base nos princípios constitucionais de igualdade e de não-discriminação. “Fui vendo que, ao contrário do que a Igreja pensa e vê, por não querer enxergar, a sexualidade faz parte de uma individuação que não é e não pode ser formatada. Faz parte da beleza da diversidade criada.”
Hoje, Ricardo diz estar de bem consigo mesmo. “Abracei a fé que não teme o diferente de mim, nem o demoniza.” Tornou-se líder do movimento Episcopaz, pastoral de direitos humanos ligada à paróquia da Santíssima Trindade, na Diocese Anglicana do Rio. “Defendemos a inclusão numa perspectiva ligada à diversidade”, resume. Assim como ele, não são poucos os homossexuais que desejam vivenciar sua espiritualidade. Ao contrário do que faz parecer o truculento discurso de alguns líderes religiosos, para boa parte da comunidade de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros a fé é fundamental.

Igrejas inclusivas

Fé e sexualidade

Edith Modesto: 'Pais ainda dizem ter o filho o demônio no corpo, como se falava na Idade Média (foto: Gerardo lazzari - RBA)

A Igreja Evangélica possui curiosidades. Se entre os cristãos os evangélicos são os mais radicais no que chamam de “defesa da família tradicional” – nos parlamentos ou nas telas da TV –, foi justamente entre os protestantes que nasceu o fenômeno das igrejas inclusivas, comunidades lideradas por homossexuais e que carregam as mesmas características de outras denominações pentecostais. Com reuniões espontâneas, músicas e orações idênticas a qualquer outra igreja evangélica, estima-se que 10 mil fiéis, entre héteros e gays, frequentem os cerca de 40 templos pelo país.

O movimento nasceu em 1968, em Los Angeles. Coube ao reverendo Troy Perry, um ex-pastor batista norte-americano, descasado e com dois filhos, reunir 12 pessoas para o primeiro culto da Metropolitan Community Churches, as Igrejas Metropolitanas que atualmente reúnem 43 mil pessoas em 37 países. No Brasil, há oito templos da denominação evangélica, com aproximadamente 500 pessoas.
Entre os fiéis católicos há também esperança de que o discurso mais contemporizador do argentino Jorge Mario Bergoglio, o papa Franscisco, possa aproximar a comunidade LGBTT (de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros) das paróquias. Em julho passado, após a Jornada Mundial da Juventude, realizada no Rio de Janeiro, Francisco disse: “Se alguém é gay e busca o Senhor com sinceridade, quem sou eu para julgá-lo?”.
Apesar da repercussão, o papa apenas seguiu o catecismo. A Igreja Católica não vê a homossexualidade como uma aberração ou possessão demoníaca e prevê ainda que as pessoas devem ser acolhidas com respeito, compaixão e delicadeza. Evitando todo sinal de discriminação injusta. “No atual pensamento da Igreja, os homossexuais devem viver em castidade. Porém isso não é um dogma, ou seja, uma verdade absoluta. Quer dizer, é um campo em que as coisas podem mudar. Assim como mudou e vêm mudando temas como a escravidão, o papel da mulher, além de outros, como o celibato dos padres, que são frequentemente questionados”, explica Lucas Paiva, 28, um dos líderes do Diversidade Católica, um grupo que acredita ser possível viver duas identidades aparentemente antagônicas: ser católico e ser gay.
Fé e sexualidade
       Elise: Nunca presenciei ato discriminatório em terreiros

       e já vi pai de santo incorporar entidades homossexuais'
       (foto: Gerardo Lazzari - RBA)


O IBGE ajuda a confirmar isso. Entre os casais homoafetivos contados no Censo de 2010, 47,4% se declararam católicos, enquanto 20,4% diziam não possuir nenhuma religião.
O Vaticano tem percebido esse rebanho e incluiu perguntas sobre famílias homoafetivas no questionário enviado às Conferências Episcopais para o documento preparatório da Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo de Bispos, que será realizada em outubro. “Apesar de não acreditar em uma alteração doutrinal agora, creio que a mudança no tom e um aprofundamento da ação pastoral para acolhida de gays, divorciados, mães e pais solteiros poderá trazer bons frutos e derrubar os argumentos dos preconceituosos­ que agem em nome de Deus. Isso de condenar os outros se apoiando em Deus é para mim o mais grave problema. Um grande pecado”, diz Lucas.
De família religiosa, ele viveu por um tempo recluso de sua relação com a igreja. Em 2009, no entanto, sentiu o que chama de “reflorescimento da fé”. A experiência levou o jovem gerente de call center a procurar as reuniões do Diversidade Católica, que em São Paulo acontecem na Casa de Clara, um centro franciscano localizado no bairro da Bela Vista, na região central. “Existem muitas pessoas que vivem escondidas, infelizes, porque se sentem rejeitadas. Nosso grupo, além de ser um espaço para encontro e expressão, é também um lugar de acolhida. Sobretudo para pessoas machucadas e com dificuldade de aceitação.”
Paralelamente, representantes de religiões, especialmente as cristãs, e movimentos gays, vivem em clima de tensão. Em 2011, a organização da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em uma resposta aos constantes ataques que vinha recebendo de religiosos e, sobretudo, a ação de fundamentalistas que bloqueavam uma legislação mais inclusiva e igualitária, saiu às ruas com imagens erotizadas de santos de devoção católica. Sob o tema “Amai-vos uns aos outros: basta de homofobia!”, a parada cobrava bom senso e respeito aos direitos humanos. A estratégia levou à fúria personalidades controversas, como o pastor televisivo Silas Malafaia, líder das Assembleias de Deus Vitória em Cristo: “Os caras na Parada Gay ridicularizaram símbolos da Igreja Católica e ninguém fala nada. É pra Igreja Católica ‘entrar de pau’ em cima desses caras, sabe? ‘Baixar o porrete’ em cima pra esses caras aprender”, vociferou em seu programa de TV.
Mais comedido, o cardeal dom Odilo Scherer publicou no jornal da Arquidiocese de São Paulo um artigo dizendo-se entristecido com o que considerou “deboche”. Lucas Paiva também desaprovou a ação: “Apenas serviu para reforçar um clima de rivalidade entre os gays e as religiões”.

Tolerância

Fé e sexualidadeNa opinião do teólogo Carlos Bregantim, 58, líder do Caminho da Graça, grupo protestante alternativo, a homofobia nada tem a ver com os escritos da Bíblia. “A comunidade de Jesus de Nazaré é a do amor. Não tenho dúvidas de que homoafetivos ou qualquer outra pessoa pode ter acesso a Deus.” Para ele, vozes como a de Malafaia ou de parlamentares como o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) não representam a comunidade cristã. Pastor há 30 anos, ele conta que em sua congregação há homoafetivos que cooperam na organização dos cultos. “Há pessoas nessa condição em muitas igrejas. Mas, geralmente, elas não têm coragem ou não são encorajadas a se assumir.”

Se entre os cristãos há ainda resistência à homossexualidade, o mesmo não ocorre em religiões como o budismo, espiritismo ou mesmo as religiões afro-brasileiras. “Claro que são pessoas diferentes e não existe um cânone na umbanda ou candomblé. Mas nunca presenciei nenhum ato discriminatório nos terreiros, e já vi pai-de-santo incorporar entidades homossexuais”, relata a professora Maria Elise Rivas, da Faculdade de Teologia Umbandista, em São Paulo. Segundo ela, as religiões afro-brasileiras possuem diversas entidades bissexuais, conhecidas como Edês. “Há uma perspectiva diferente da ocidental e cristã, que polariza homens e mulheres.”

Pais religiosos, filhos gays

No consultório da terapeuta Edith Modesto, 77, dia sim, dia não, pais a procuram desesperados após descobrir que seus filhos são homoafetivos. “De modo geral, os evangélicos são os pais com maior dificuldade e os que mais sofrem quando descobrem que tem um filho ou filha homossexual. Mas também há católicos ortodoxos que ainda sentem muita dificuldade. Ainda há pais que dizem que o filho tem o demônio no corpo, como se dizia na Idade Média”, relata.
A terapeuta coordena o Grupo de Pais de Homossexuais, iniciativa que começou a partir de sua própria experiência ao descobrir que o caçula de seus sete filhos é gay. Hoje, ela se reúne com cerca de 30 pais no seu consultório e conversa com outras centenas pela internet sobre preconceito e aceitação. Entre relatos, gente aflita como a psicóloga evangélica de 54 anos que pensou em suicídio, quando soube que o filho é gay. “Foi como uma punhalada no peito”, conta a mãe, que não quis se identificar.
Edith afirma que, assim como os pais conservadores, filhos homossexuais religiosos geralmente também pensam numa saída definitiva aos seus dramas. “Atendo muitos jovens que pensam em se suicidar. Já fui socorrer um garoto que estava prestes a pular de um viaduto. Ser religioso pode facilitar a auto-homofobia”.
Mesmo que o processo de aceitação em ambiente religioso seja mais penoso, ela não aconselha pais nem filhos a abandonar suas comunidades de fé. “A culpa pode ser pior. Acompanhamos a família, tentamos mostrar que a homossexualidade não é escolha, não é doença, nem é um pecado. É uma condição”, argumenta. E, se mesmo assim pais e filhos ficarem reticentes, ela orienta: “Conversem diretamente com Deus. Deus é amor, pai de todos nós. Independentemente da orientação sexual que tenhamos. O amor vence”.

O problema não é o decote, é o poder 

Mais do que revelar um quadro de crenças confusas, a pesquisa aponta um quadro de tolerância macabra com a violência contra as mulheres

Katarina Peixoto                           
Arquivo















A pesquisa do IPEA"Tolerância social à violência contra as mulheres" revela um quadro macabro sobre a disposição delinquente de abusar mulheres, no Brasil. Pesquisas baseadas em sistema de indicadores de percepção têm por objeto um conjunto necessariamente vago e confuso de crenças, desejos, conhecimentos mais ou menos refletidos e quase nunca científicos; a percepção é um pântano, algo necessariamente obscuro. Valem como uma fotografia borrada. Ainda assim, a pesquisa tem questões muito claras e respostas, idem.

Para a maioria dos brasileiros, se usamos decote é porque merecemos ser violadas. Para a maioria dos brasileiros, e isto é mais grave, também devemos obedecer aos machos, dentro de casa. Como toda sociedade é, por definição, entre outras possíveis, um balaio de crenças contraditórias e calamitosas entre si, a maioria defende que o marido abusador deve ser punido. A tolerância com o abuso é que se destaca: que tipo seria o caso, para merecer a denúncia numa delegacia, já que a maior parte acha que os conflitos conjugais devem ser resolvidos dentro de casa? Ora, dentro de casa, diz a mesma pesquisa, quem manda é o homem. O corolário do convite ao estupro com base no decote é trivial.

O problema do machismo é que ele é uma propriedade, não um traço de caráter. Como propriedade, é uma característica cultural que atravessa as classes, gêneros, idades, graus de instrução. O que define o machismo é a crença segundo a qual os machos detém algum poder natural e, portanto, legítimo, sobre as fêmeas e que, isto é o grave, este poder antecede e vigora a despeito da lei. Se tomamos a definição elementar de fascismo como a crença e a defesa normativa da força sobre a razão ou da força sobre a lei, poderíamos tratar o machismo como um caso, uma variante privada e macabra, do balaio irracional da violência fascista, isto é, das autorizações auto-impetradas ao arbítrio.

Mas o problema do machismo é que ele é mais sutil; é impregnado de afetividade (transmite-se sobretudo pelas famílias) e aí está o poder de sua vigência. Isso explica, entre outras coisas, como pode haver uma ordem democrática que elege uma mulher como presidenta e segue tratando o aborto como crime. Assim, mais do que revelar um quadro de crenças confusas, a pesquisa revela um quadro de tolerância macabra com a violência contra as mulheres. O problema não é o decote; o problema é o poder: quem manda e deve mandar é o macho.

A pesquisa do IPEA mostra com clareza o que todo mundo, sobretudo mulheres, sabem e vivem: a violência contra nós começa, sempre, na família. E na infância e na adolescência. Os dados são dilacerantes porque os registros dos números de estupros sempre são índices precários, desses levados pelos vizinhos de parede às delegacias. A violência machista atravessa as classes e as classes mais abastadas não frequentam delegacias. A polícia é para os pobres, até mesmo no quesito protetivo.

É assim que vigora, em vários estados brasileiros, uma espécie de “série b”, clandestina, dos registros relativos a delitos previstos na Lei Maria da Penha. Essa “série b” contêm os delitos cometidos por homens com acesso aos sistemas de registros de informações criminais, isto é, policiais, militares, juízes, advogados, promotores, oficiais de justiça, desembargadores. As delegadas e os delegados sérios, que operam com essa “série b” de registros, têm em mãos o que nunca se conta nem contará, mas asseguram, ainda assim e segundo o alcance de uma igualmente paralela rede de confiança intraestamento, uma rede protetiva institucional e para todos os efeitos, legal, reconhecida e de reconhecimento, das vítimas.

Esta “série b” não tem como habitar pesquisa alguma. Ela existe, simplesmente, não se sabe por quanto tempo vigorará, ainda. Vai sem dizer o quanto a existência dessa linha oculta de investigação e registro é fator de enfraquecimento das denúncias e de mudança de tratamento do problema. A sua inclusão, como índice, numa pesquisa como a recentemente publicada pelo IPEA, poderia revirar o estômago de muito mais gente. E poderia tanto que não pode. O machismo assim segue vitorioso.

A maioria que quer que o espancador da mulher seja punido sabe que espancar, pode imaginá-lo ou percebê-lo, é errado. Isso não explica tolerância ou intolerância com o machismo. O que explica o machismo são os outros dados, esses sim, capturados na pesquisa, que apresentam um conjunto mais coerente e coeso de crenças que antecedem e condicionam as condutas e que não requerem, no próprio domínio perceptivo, uma agressão imaginada, como se pôde, desgraçadamente, inferir. Essas crenças se referem nas vestimentas das mulheres, na autonomia e na expressão das mulheres, na capacidade de exercício do poder e na legitimidade desse exercício. Aí, sim, o que é macabro se mostra deprimente, pedagogicamente deprimente.

A pesquisa nos ensina por que seguimos ganhando menos e precisando de cotas, quando somos maioria na população. Ajuda a entender o quadro de ansiedade e de sofrimento mental que assola as meninas adolescentes, alvos do crime organizado em que se converteu a propaganda e o abuso da imagem das crianças e adolescentes (um país em que criança vende cartão de crédito, inclusive de banco estatal, deveria sentir vergonha perante si mesmo). E nos mostra como pode haver milhares, dezenas e centenas de milhares de mortes, por ano, em curetagens que deram causa a choques sépticos, de mulheres sem amparo material para interromperem gravidez indesejada. É claro, há o fator religião, que incide não por acaso nas células familiares e explica, com nitidez superior a qualquer pesquisa de percepção, as cláusulas de silêncio avessas a quaisquer registros abertos.

Há no entanto um dado que, se não é hierarquicamente estabelecido nem capturado na investigação, condiciona vários outros da pesquisa e da vida. Trata-se da afirmação relativa ao poder. A maioria dos entrevistados considera que os machos têm de ser os “chefes de família”. Esse é, de longe, o dado mais assombroso. Ele é intuitivo – trata-se de uma pesquisa de percepção – numa sociedade em que a maior parte das famílias beneficiadas por programas de transferência de renda são dirigidas por mulheres, em que as mulheres são maioria e em que mulheres movimentam e dirigem a maior empresa do país e o país ele mesmo. É um dado que torna a Dilma uma espécie de anomalia político-institucional, quando deveria ser o dado ele mesmo a anomalia. Por que é que elegemos uma mulher e seguimos acreditando que quem deve mandar é o homem?

Quando Dilma Rousseff assumiu a presidência, montou um ministério cheio de mulheres. O tratamento midiático e político – oriundo das forças políticas partidárias, da esquerda à direita – desses quadros de mulheres é um caso de polícia. Há duas exceções, que assim se constituem, salvo melhor juízo, pela expressividade diminuta durante a gestão do governo. São quadros que, quando menos aparecerem, melhor para todos, afinal, trata-se do planejamento e do meio-ambiente. As tentativas de desmoralização, depreciação, humilhação, deboche, desrespeito e abuso, sobre todas as outras, configuram capítulos de inquéritos jamais reduzidos a termo nem encaminhados ao Ministério Público.

O que a resposta favorável ao convite ao estupro diante de uma vestimenta carrega consigo é uma relação naturalizada de poder. E é essa mesma relação que explica a imensa maioria, senão todas, as críticas abertas ao governo Dilma, por parte da oposição 'soi disant' ('que se diz') de esquerda, e de direita. Todos se juntam nas acusações de tom sexista, dessas que toda mulher fora da curva do juízo da maioria já sentiu, na pele e nas vísceras: expressa-se confusamente (mulher não tem nem pode ter pensamento lógico), é louca, autoritária (mulher tem de ser “calminha” e tranquila e doce), “passa por cima de todo mundo” (mulher não pode mandar, diz-nos a maioria), não tem sentimentos, é uma “engenheira malvada”, que maltrata os índios e destrói tudo (variante do “é antinatural”, é contra a natureza, claro, é mulher, divorciada, presidenta) e, para a galhofa da inteligência de qualquer pessoa alfabetizada, é “incompetente” e está conduzindo mal o país, economicamente. Confusa, louca, malvada, sem sentimentos, antinatural e incompetente.

Nenhum desses adjetivos cai sob um domínio democrático da Política. O uso de cada adjetivo desses indica o submundo imaginário, afetivo e simbólico que parasita os seus usuários. E ofende a todas nós, apoiadoras ou não, desse governo. Trata-se de uma maneira de nos alijar de um domínio da vida em que as relações de poder estão no centro de todas as decisões. É possível que haja determinações mais ou menos naturais, de poder. Não estamos cientificamente desautorizados a considerar essa possibilidade. Mas estamos racionalmente autorizados a nos desfazer da crença mística e violenta no poder natural dos machos sobre as fêmeas, essa crença medonha que anima as críticas e oferece uma paisagem de ódio e opressão, em ano eleitoral.