domingo, 2 de fevereiro de 2014

O magistrado e a imprensa bandida


 Luciano Martins Costa   
Os três principais diários brasileiros de circulação nacional registraram com zelo a mais recente manifestação do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, que viaja pela Europa em férias oficiais, com direito a diárias e cobertura regular da imprensa. Desta vez, o ministro se queixa da Folha de S. Paulo, que publicou entrevista com o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), que foi condenado na Ação Penal 470 mas não pode começar a cumprir sua pena porque o presidente do STF não deixou o mandado assinado. De quebra, atira para todo lado, ao se referir a uma tal “imprensa bandida”.
O noticiário em torno do magistrado ganha contornos de chanchada, aqueles velhos filmes feitos na “Boca do Lixo”, em São Paulo, tal o conjunto de falsos improvisos e dramas capazes de fazer rir.
Observe-se, por exemplo, como o ministro aparece sempre em situações de aparente casualidade, fazendo compras numa loja de departamentos típica da classe média, sentado na poltrona da classe econômica de um avião e caminhando pelas ruas como um cidadão comum. É preciso muita comunicação entre assessor de imprensa e repórteres para criar esse clima de improviso.
Registre-se que os correspondentes e enviados especiais dos jornais estão sempre um passo à frente, esperando-o nos embarques e desembarques, estão informados de que ele chegará em tal lugar a tal hora, e podem contar que ele terá uma frase de efeito para assegurar um lugar de destaque na edição seguinte.
Detalhe: embora tenha recebido regularmente suas diárias como se estivesse a serviço, por conta de palestras que proferiu na França, o presidente do STF encontra-se oficialmente em gozo de férias, mas a cobertura é de chefe de Estado.
Também há muita comicidade nos diálogos, ou melhor, nas falas do ministro, sempre recheadas de expressões fortes e pontuadas por um mau humor digno do Seu Madruga, o irritadiço personagem da série televisiva “Chaves”. Se o observador isolar a severidade que as carrancas do magistrado tentam induzir em suas manifestações, o conjunto apresentado pela imprensa ganha ares de comédia popular.
Mas jornalistas não deveriam aceitar a imputação geral de “imprensa bandida”.
Roteiro de chanchada
Vejamos, então, o capítulo apresentado nas edições de terça-feira (28/1): em outra circunstância “casual” que a imprensa não explica, o presidente da Suprema Corte declara a jornalistas do Estado de S.Paulo,Folha de S.Paulo e O Globo que a imprensa não deveria ter publicado entrevista com o deputado João Paulo Cunha, porque, tendo sido condenado à prisão, o parlamentar tem que permanecer no ostracismo.
À parte o natural questionamento que deveria se seguir a essa afirmação no mínimo controversa, não ocorreu a nenhum dos repórteres observar que o deputado deu a entrevista porque está fora da prisão, e só não foi preso porque o ministro viajou sem emitir o respectivo mandado.
Afora o fato de que os editores do Estado de S. Paulo confundem os sentidos das palavras “mandado” e “mandato”, registre-se que o principal motivo de irritação do ministro foi uma frase do parlamentar condenado, na qual ele afirma que a omissão do presidente do STF, ao viajar sem ter assinado o mandado, foi manobra planejada para se manter no noticiário, mesmo em férias e ausente do país. Foi, segundo o deputado, “pirotecnia para ter mais dois minutos de repercussão”.
Estado também cita, mas os demais jornais não tiveram acesso, ou preferiram ignorar, uma entrevista concedida pelo magistrado à Radio France Internationale, na qual ele declarou o seguinte: “Há uma certa imprensa bandida no Brasil, com pessoas pagas com fundos governamentais que estão aí para me atacar, enquanto eu faço o meu trabalho”.
“Faço o meu trabalho e estou pouco ligando. Minha honestidade cabe aos brasileiros avaliarem, não a esses bandidos”, completou o ministro, numa demonstração de que se leva em altíssima conta.
Na interpretação do diário paulista, ele se referia à denúncia de que estaria recebendo diárias no valor de R$ 14 mil, mesmo em viagem de férias. O jornal vestiu a carapuça, ao lembrar ter sido o veículo a revelar a informação sobre as diárias, o que coloca seus editores na obrigação de responder ao xingamento.
A menos, claro, que os editores do Estado de S.Paulo acolham a ofensa, e como nas histórias de “amores bandidos”, aceitem apanhar em silêncio.
Isso também é típico das chanchadas.

Estadão acha que leitor é burro, descasca clubes de futebol e “blinda” os grandes sonegadores

Fernando Brito                                  

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Observe, distinto leitor e gentil leitora, o gráfico aí de cima.
É a ilustração da ótima matéria BC vai à Justiça (AQUI) cobrar R$ 39,8 bi em multas de empresas e clubes de futebol , manchete de hoje do Estadão.
E é, também, a prova mais escandalosa de que a editoria do jornal crê que seus leitores sejam idiotas.
Os 12 clubes de futebol – velhos desencaminhadores de recursos nas transações de compra e venda de passe de jogadores do e para o exterior-  que são exibidos com suas dívidas milionárias somam, ali, uma provável sonegação de cerca de R$ 109 milhões.
A sonegação total apurada pelo Banco Central é de R$ 39,8 bilhões.
E, segundo a própria matéria, 126 empresas sonegadoras que estão sendo punidas com essas multas por ilícito cambial concentram nada menos do que R$ 26,2 bilhões deste débito.
É só ter terminado o ensino fundamental para saber que R$ 109 milhões representam 0,416%  destes R$ 26,2 bilhões dos grandes sonegadores.
Fichinha.
Onde estão os outros 99,58%?
A matéria admite que são bancos e grandes empresas.
Anônimos, é claro.
O único “empresário” que aparece no texto, assim mesmo lá no final,  é Sérgio de Paulo Pacheco, que está  condenado a 28 anos de cadeia há quase 20 anos, por estar metido nos escândalos de Arthur (des)Falk, com sua corretora Interunion.
E uma cervejaria, a Schincariol, por delito anterior à sua venda para os japoneses da Kirin. Os vendedores, os herdeiros Gilberto, Adriano e Alexandre Schincariol, são todos ilustres frequentadores da lista de 124 bilionários do Brasil, segundo a revista Forbes.
Dois casos que não evitam uma conclusão inevitável: se são 126 os grandes devedores, porque o distinto público só pode saber de dois?
Por que os clubes de futebol – repito, useiros e vezeiros em desviar dólares – são apresentados como sendo os grandes ralos , quando não representam nem meio por cento das maiores dívidas?
Se o Estadão teve acesso a uma lista reservada e resolveu divulga-la em nome do interesse público, não pode esconder uns e mostrar outros.
E pior, esconder os maiores.
Estadão está na obrigação de divulgar toda a lista dos grandes devedores, sob pena de, com razão, estar “blindando” os sonegadores “amigos”.

Joaquim Barbosa deve satisfações pela foto com um foragido                                     


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Circula hoje pela internet uma foto que é um embaraço – mais um numa longa série – para Joaquim Barbosa.
Nela, JB aparece confraternizando, nos Estados Unidos, com um homem que parece um a mais na multidão.
Mas não é.
Ao lado de JB está Antonio Mahfuz, que os amigos chamam de Toni ou Toninho. A foto foi postada por Mahfuz no seu Facebook, e nela ele sauda o “justiceiro” JB.
Não haveria problema nenhum não fosse Mahfuz a chamada chave de cadeia. Ele fugiu do Brasil, há quinze anos, e deixou atrás de si copiosos calotes. Uma contabilidade recente coloca Mahfuz como réu em 221 processos.
Foi exatamente para escapar da cadeia que ele se refugiou na Flórida, numa cidade chamada Hollywood, perto de Miami. Miami, sabemos, é onde JB comprou um apartamento em nome de uma empresa imaginária, para não pagar imposto.
Quando fugiu, a sentença de prisão de Mahfuz estava decretada, por conta do processo movido contra ele pelo seu principal credor, o banco Chase Manhattan.
Dono de uma rede de lojas nascida na região de Rio Preto, em São Paulo, e depois expandida para outras partes, Mahfuz deu em garantia para empréstimos bens.
Ele não honrou as dívidas, e o banco, quando o executou, simplesmente não encontrou os bens penhorados. Ele foi decretado pela justiça “depositário infiel”. Quando sua prisão foi pedida, ele foi para os Estados Unidos.
Deixou no Brasil as dívidas, e uma situação judicial extraordinariamente complicada.
Suas irmãs o estão processando sob a acusação de que ele falsificou a assinatura do pai numa procuração que lhe dava poderes para administrar os negócios do patriarca, Elias Mahfuz, um imigrante sírio que montou do nada um patrimônio respeitável no interior de São Paulo.
Um perito contratado por elas atestou que a assinatura no documento que investe Antonio Mahfuz não “partiu do punho” do pai. Um site da região conta com detalhes essa história.
Elas querem que todos os negócios realizados a partir da procuração sejam anulados. Seria a maneira de recuperaram a herança paterna que o irmão fez desaparecer.
É ao lado de Mahfuz, com esta folha corrida, que JB aparece na foto.
Tudo bem?
Não, evidentemente. Na hipótese mais benevolente, JB estava em algum lugar quando foi abordado por alguém que o reconheceu, e para quem ele é um herói.
Na pior, ele conhece Mahfuz, o que criaria um conflito ético profundo.
Num mundo menos imperfeito juízes não teriam amigos, porque isso pode afetar suas sentenças, mas vivemos num país em que Merval Pereira se abraça sem cerimônia com magistrados como Ayres Britto e Gilmar Mendes, com todas as partes aparentemente sem noção da gravidade dos abraços.
Seja qual for a origem da confraternização de Mahfuz e Joaquim Barbosa, está claro que JB deve uma satisfação aos brasileiros.
Paulo Nogueira
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Do ridículo ao grave e sério

Ou seja: a mídia nativa, das preferências gastronômicas da presidenta às manifestações anti-Copa
Mino Carta                             Carta Capital
           
Caso pudesse aconselhar a presidenta Dilma, diria a ela que não confie às cegas no Guia Michelin: quando fala de restaurantes estabelecidos fora das fronteiras francesas, comete amiúde erros grosseiros. Entra nisso um tanto de chauvinismo, uma dose de ideologia culinária, uma pitada robusta de business. Já a mídia nativa, que pouco entende de boa comida a ponto de enxergar em São Paulo uma capital gastronômica universal, preocupa-se não com a escolha feita pela presidenta de um restaurante lisboeta, mas com a conta do próprio. A qualidade dos nossos perdigueiros da informação avulta também nesta ocasião. Pretendem que o restaurante em questão teria sido premiado com uma estrela do Guia Michelin, mas nem isso corresponde à verdade factual. A turma é muito criativa.
O jornalismo pátrio sustenta que todos nós pagamos pelos excessos de Dilma e de sua comitiva. E, além de tudo, hospedam-se em hotéis de luxo... A acusada apressa-se a esclarecer que as contas pessoais ela paga do seu bolso. Mais pagaria se viajasse a São Paulo, ou Rio, mesmo em outros cantos do País. Temos restaurantes e hotéis que, em matéria de preços (sublinho, de preços), ombreiam com os mais luxuosos e requintados do mundo. Verdade factual esta que os nossos heróis midiáticos, premiados por salários e emolumentos variados muito superiores àqueles recebidos por qualquer profissional europeu, conhecem de cor e salteado. E nem se fale dos seus patrões.
A presidenta, de todo modo, esmera-se em incomodar. Não somente vai à Celac, cúpula dos Estados latino-americanos, que reúne em Cuba os representantes de 33 países, entre eles os presidentes, além de Dilma, de Argentina, Bolívia, Venezuela, México, Uruguai e Costa Rica. Que faz, porém, a presidenta? Cumprimenta os donos da casa, os irmãos Castro, comunistas históricos e subversivos atuantes. Não é de pasmar? O Estadão espumeja de puríssima e vetusta indignação.
Não é tudo, entretanto. A primeira mandatária está presente à inauguração do porto de Mariel, considerado entre os mais sofisticados e maiores do Caribe, em concorrência com Kingston e Freeport. O projeto, realizado em parceria pela Odebrecht e pela cubana Quality, foi em boa parte financiado pelo BNDES. Segundo o acordo selado com Havana, dos 957 milhões de dólares gastos na construção, 802 milhões destinaram-se à compra de bens e serviços totalmente brasileiros, a gerarem, informa o governo, 156 mil empregos, “diretos, indiretos se induzidos”.
Estas incursões da mídia nativa de tão primárias chegam a ser ridículas. Há outras críticas que poderiam ser formuladas. Quando o são, contudo, vestem-se de fatiotas impróprias. Atiram fora do alvo, completa e inexoravelmente. Tomemos as manifestações de quem, neste momento, pretende parar o Brasil da Copa. No caso, a reação dos manifestantes tem farta razão de ser, em um país assoberbado por questões e prioridades infinitamente mais significativas do que organizar um torneio de futebol. Mas a mídia nativa só se move contra a baderna.
É do conhecimento até do mundo mineral que o Brasil expõe-se ao risco de sediar um mundial da bola ainda pior sucedido do que o da África do Sul. Não há de nos preocupar, está claro, o senhor Blatter quando fala do atraso das obras ainda em curso. O senhor Blatter é mais um exímio discípulo de mais um brasileiro ilustre, João Havelange, enquanto José Maria Marin é da absoluta confiança de Ricardo Teixeira. Há tempo ouso sustentar que Totò Riina se sairia tão bem quanto o bando acima.
Preocupa-nos, no entanto, uma repercussão negativa mundo afora. A demonstração de uma infraestrutura insuficiente. E ainda, de pronto, o gasto exorbitante, a justificar seriíssimas dúvidas quanto ao bom uso dos recursos oficiais. E, para fortalecer as suspeitas, a escolha de cidades inadequadas para a construção de praças esportivas fadadas à inutilidade, ou mesmo ao oblívio. O quadro, aí sim, se oferece a críticas fortes, acima de crenças e ideias.
Há quem diga que é reacionário quem se posiciona contra a Copa, como se fosse quinta-coluna, conforme expressão antiga. Pois os manifestantes destes dias, focalizados na reportagem de capa desta edição, não são necessariamente de esquerda ou de direita, na percepção de CartaCapital, sem exclusão do risco de que sofram infiltrações de quantos querem apenas a baderna. Nem por isso evitamos a conclusão inescapável: sem entrar no mérito dos caminhos tomados pelo protesto, as razões de quem protesta são amplamente justificadas.

Paulo Nogueira a Traumann:    mais pluralismo teria evitado golpe militar

 Miguel do Rosário                                  
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É um privilégio para a blogosfera ter, entre seus quadros, uma figura experiente como Paulo Nogueira. Não só experiência, mas disposição em partilhá-la com os internautas, contando o que viveu e observou durante os anos em que trabalhou na grande mídia brasileira.
Sua(AQUI) descrição de como funciona o Conselho Editorial da Globo, com riqueza de detalhes, deveria ser lida em sala de aula, para todos entenderem que um jornal muitas vezes é uma empresa que visa o lucro e o poder, e não necessariamente a verdade e a justiça social.
Hoje Nogueira conta um pouco sobre o novo secretário de comunicação da Presidência da República, Thomas Traumann, e faz observações pertinentes ao medo da grande mídia, em especial a Globo, de que o governo mude os rumos da distribuição de verbas, investindo mais recursos na internet.
Nogueira acha que, se houvesse a internet, seria mais difícil acontecer o golpe militar de 64.
Concordo.
Do AMgóes - O artigo de Paulo Nogueira foi publicado nesta sexta-feira, 31 dejaneiro, aqui no blog, e você pode rememorá-lo abaixo... 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A missão de Thomas Traumann, novo titular da Comunicação no governo Dilma

 Paulo Nogueira                       
 
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Thomas Traumann foi uma excelente aquisição para a Secom, em Brasília.
Trabalhamos juntos na Época em meados dos anos 2000. Thomas é um jornalista competente e um homem de caráter.
Fazia, na revista, uma das seções mais lidas: Filtro. Como o nome diz, era uma filtragem das notícias mais importantes da política. (O espírito dela está presente em nosso Essencial.)
Eu era diretor editorial, e minha divisa era: “um olho na revista e outro no site”. Thomas, com seu Filtro, era a representação disso.
Na edição semanal, você tinha ali o principal do mundo político no papel. Diariamente, pela internet, você se informava por Thomas.
O mundo político acompanhava-o. Lembro que uma vez Serra, então forte candidato à presidência, nos contou que uma de suas leituras obrigatórias era o Filtro de Thomas.
Ele chega à Secom sob uma cínica desconfiança da mídia.
Absurdamente privilegiada há anos, décadas, por sucessivos governos com coisas como publicidade em doses abjetas e financiamentos a juros maternos em bancos públicos, a mídia teme que a Secom coloque algum dinheiro em blogs que representam, hoje, a garantia de que vozes e visões alternativas chegarão à sociedade.
As companhias de jornalismo defendem, essencialmente, seus próprios interesses – e os do grupo a que pertencem, o chamado 1%.
Antes da internet, elas comandavam – manipulavam – a opinião pública. Veja o que elas fizeram com Getúlio e, depois, Jango. Com Lula, no Mensalão, o mesmo comportamento padrão se repetiu – a tentativa de minar governantes populares. A diferença é que a estratégia não funcionou. A intenção era a mesma.
Foi nesse quadro que a internet surgiu e floresceu como uma vital contrapartida às empresas de mídia.
Colunistas que reproduzem o pensamento patronal estão criticando a nomeação de Thomas.
Reinaldo Azevedo – que tem uma velha obsessão por mim – é um deles.
É até engraçado. Quando dirigiu uma revista a favor do PSDB, Azevedo recebeu mensalões do governo paulista na forma de anúncios. Nem isso foi suficiente para salvar a publicação.
A revista para a qual ele trabalha – a Veja – é abençoada com a compra de lotes consideráveis pelo governo de Alckmin.
Os exemplares vão terminar em escolas estaduais cujos alunos estão na internet. São conhecidos os relatos de gente que vê as revistas indo para o lixo exatamente como chegam – na embalagem plástica.
Alguém pode imaginar jovens lendo revistas de papel, com a internet à sua disposição? Mas o governo Alckmin gasta milhões em Vejas que não serão lidas por estudantes que sequer a conhecem.
Thomas Traumann chega com uma missão relevante: dar mais nexo ao investimento publicitário oficial.
Faz sentido a Globo – com audiência em queda aguda por conta também da internet – continuar a receber tanto dinheiro em anúncios governamentais?
A Globo é uma bizarrice. Graças ao BV (Bonificação por Volume), uma espécie de propina para as agências, a Globo tem 60% da receita publicitária brasileira tendo 20% da audiência.
Todo este dinheiro – o governo colocou 6 bilhões de reais nos últimos dez anos – alimenta uma máquina que defende os interesses dos Marinhos, dos Marinhos e ainda dos Marinhos.
E defende bem: os herdeiros de Roberto Marinho têm, juntos, a maior fortuna do Brasil, como mostra a lista de bilionários da Forbes. São cerca de 55 bilhões de reais, somados.
Durante muito tempo, só o governo pagava tabela cheia de publicidade quando os anunciantes privados tinham descontos que podiam passar de 50%. Era uma torração infernal de dinheiro público.
Dívidas com bancos oficiais eram pagos, frequentemente, com anúncios. Nos anos 1980, o Jornal do Brasil regurgitava de anúncios do governo.
Investir no jornalismo digital é fundamental – sobretudo para a sociedade. Jango não teria sido derrubado tão fácil se na época houvesse a internet para mostrar o que os jornais não mostravam.
Teríamos evitado, simplesmente, a ditadura militar – a qual, além de matar brasileiros, construiu um país campeão mundial de desigualdade.
Os militares – apoiados pela mídia – fizeram um governo de ricos, por ricos e para ricos.
Thomas, na Secom, é a esperança de que cheguem ao fim as mamatas das empresas de mídia no que diz respeito às verbas oficiais.
Se Thomas se sair bem, mais que o governo Dilma, quem ganhará mesmo é a sociedade brasileira.
Paulo Nogueira
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises 'Diário do Centro do Mundo'


Lula está bem. Folha tinha até infográfico “urubu” à espera

Fernando Brito                          
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Os exames do ex-presidente Lula, realizados na manhã deste sábado, 1º de fevereiro, no Hospital Sirio Libanês, em São Paulo, tiveram resultados normais.
O que deve ter deixado muita gente triste.
A Folha publica a matéria(AQUI) acompanhada de um infográfico  produzido antecipadamente,  com o mais evidente espírito “urubu”, dando detalhes – até anatômicos – da doença.
Muito espaço e detalhes para um “ele não tem nada”.
Bastavam cinco ou seis linhas, mas mandou dois repórteres.
Coitados! Num sábado de sol...
Se ainda pudesse, aposto que Lula pagava um chopp pra galera que ficou ali, urubuzando.

França: um exemplo do             poder destruidor que podem ter as redes sociais                       

A última crise francesa fornece uma prova, ao mesmo tempo demolidora e cômica, acerca da influência desses dispositivos na opinião pública.


Eduardo Febbro                            

Le Monde
Paris - As linhas que seguem são um reflexo verbal da realidade, e não uma piada forjada no coração de uma das grandes democracias do Ocidente. Se alguém duvida do poder destruidor que podem alcançar as redes sociais e os instrumentos de comunicação mais avançados, a última crise francesa fornece uma prova ao mesmo tempo demolidora e cômica acerca da influência desses dispositivos na opinião pública.

Um falso rumor propagado por católicos de ultradireita através de Facebook, Twitter e SMS fez com que dezenas de milhares de pessoas acreditassem que o Executivo se preparava para ensinar a masturbação nos jardins de infância, para dar cursos sobre a famosa teoria de gênero ao mesmo tempo em que atribuiu à senadora socialista Laurence Rossignol a seguinte frase: “as crianças não pertencem aos pais, mas sim ao Estado”.

O resultado desta campanha foi devastador: o governo se encontrou em sérios apuros quando milhares de pais decidiram participar de uma greve e se negaram a levar seus filhos às escolas. Tudo, porém, é falso. Os grupos de ultradireita e os católicos integristas que, no ano passado, saíram às ruas para se manifestar contra a lei que aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo estão por trás dessa argúcia mentirosa difundida por meio das redes sociais. A mentira acertou no alvo.

A história passaria por um caso anedótico se não se tratasse de uma sociedade avançada como a francesa e se não tivesse tido nenhum impacto na realidade. Em setembro do ano passado, o ministro da Educação, Vincent Peillon, e a ministra dos Direitos da Mulher, Najat Vallaud-Belkacem, cogitaram a ideia de realizar em alguns estabelecimentos escolares do país uma operação destinada a promover a igualdade entre homens e mulheres. Reciclada pelos católicos integristas e a extrema-direita, a ideia se converteu em uma ameaça imaginária articulada em torno de um suposto programa cujo objetivo consistia em propagar nas escolas a teoria de gênero, ou seja, esse princípio segundo o qual ser homem ou mulher é uma mera construção social e não uma consequência biológica por completo.

Milhares de pais começaram a receber SMS advertindo que o governo, em nome da teoria de gênero, havia dado instruções aos professores para que estes ensinassem aos filhos a arte da masturbação e convidassem transexuais para as aulas. Muitos deles acreditaram. No dia 24 de janeiro, em uma dezena de departamentos da França, as salas de aula estavam vazias. Aterrorizados diante de semelhante barbaridade, os pais tiraram os filhos das escolas. Delirium tremens.

Os tópicos desta operação perversa realizada por pequenos grupos de extrema direita e católicos fanáticos agrupados em diversas associações: JDR, JRE 2014, os fascistas do grupo Jour de Colère (Dia de Cólera), próximo do ensaísta de extrema-direita Alain Soral e da militante Farida Belghoul, 24 heuresactu, Boulevard Voltaire, Egalité et Réconciliation, Manif pour Tous, Printemps Français, Action Française, Familles de France. Estes movimentos pertencem à órbita mais extrema da direita e vivem em uma esfera paranoica.

Em um artigo publicado em meados de janeiro, 24heuresactu, por exemplo, assegura que o governo socialista está estudando “um informe da OMS (Organização Mundial da Saúde), que propõe estimular a masturbação infantil e permitir à criança a expressão de seus desejos sexuais”. O informe existe, mas não expressa nenhuma dessas ideias. No entanto, o rumor acabou sendo tomado como verdade.

Esta nebulosa católica-fascista denuncia uma espécie de engrenagem lógica onde se associa o casamento entre pessoas do mesmo sexo com a igualdade entre o homem e a mulher, o ocaso da família tradicional com a decadência da civilização, a ampliação do direito de aborto com a intoxicação da imigração, a cultura laica com a suspeita de que se está buscando reconfigurar a família e mudar a mentalidade das crianças, a obsessão de que serão transmitidas coisas de adultos para as crianças, de que serão incitadas a mudar de sexo, a se masturbar ou se converter em pedófilos.

O catálogo é pesado. A teoria de gênero carece de todo fundamento. De fato, ela é chamada assim, mas nem sequer é uma teoria. Trata-se de um estudo de gêneros iniciado nos Estados Unidos nos anos 60 e 70. No entanto, os “anti” inventaram sua existência nas escolas da França e estão convencidos de que os socialistas querem reorientar a sociedade com base nas orientações sexuais, as quais se converteriam, assim, no fundamento do direito e da igualdade. A política governamental contra a desigualdade entre o homem e a mulher não tem nada a ver com isso, mas sim com a igualdade dos papéis sociais entre homem e mulher.

O ministro francês da Educação, Vincent Peillon, respondeu a estes delírios: “não escutem a quem quer semear a divisão e o ódio nas escolas. O que nós fazemos não é ensinar a teoria de gênero, eu a rechaço, mas sim promover os valores da República e a igualdade entre os homens e as mulheres”, disse o titular da pasta.
 
A chamada facho-esfera conseguiu, contudo, que muitos pais acreditassem nessas invenções. A França se viu assim sob o poder hipnótico de uma intoxicação destruidora, de um fantasma que, em pleno século XX, ganha adesões no coração de sociedades que sustentaram seus progressos em valores totalmente opostos aos que essas correntes extremistas promovem.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer