domingo, 1 de dezembro de 2013

O futuro da Abril e das grandes empresas de mídia

Paulo Nogueira                                              

                   Futuro complicado para os irmãos Gianca e Titi Civita
Futuro complicado para os irmãos Gianca e Titi Civita
O futuro da Abril, como o de todas as grandes empresas de mídia, é mais ou menos como o de uma fábrica de carruagem quando surgiram os automóveis.
Não sobrou nenhum fabricante de carruagem.
A Abril, para ficar na imagem, sabe que carro não vai produzir, porque sua competência está toda voltada para as carruagens.
Mas está tentando achar outro espaço para evitar o cemitério.
É o que todos já sabemos, e é o que disseram esta semana ao jornal Valor Giancarlo Civita, primogênito de Roberto Civita, e o executivo Fábio Barbosa, presidente executivo da empresa.
Este espaço se chama educação. Mais que livros, que como as revistas estão sumindo por força da internet, a aposta se concentra em escolas.
Outras grandes empresas de mídia do mundo já disseram o que pensam a respeito do futuro da mídia impressa.
A News Corp, de Murdoch, separou seus negócios em dois. A área de entretenimento, à frente da qual está a Fox, ficou num lado. A de mídia – jornais como os britânicos Times e Sun e o americano Wall St Journal – foi para o outro.
A Time Warner fez o mesmo movimento. Separou as revistas e a área de entretenimento.
Em ambos os casos, o objetivo da separação foi evitar que o colapso de jornais e revistas afete os outros negócios.
A Abril não tem nem a Fox e nem a Warner para se agarrar. Daí a esperança depositada na educação.
Na transição, serão certamente desacelerados, ou simplesmente eliminados, os investimentos em revistas. Em pouco tempo, é difícil imaginar que sobrevivam, na Abril, mais revistas que Veja, Exame, 4 Rodas e Claudia.
Mesmo elas estarão menores e menos influentes a cada dia, pela excelente razão de que ninguém mais dá bola para revistas de papel.
O refúgio na educação, ainda que funcione, marcará uma nova etapa na vida da Abril. Educação está longe de dar o poder de influência que a mídia dá, e a rentabilidade é muito menor.
Os filhos de Roberto Civita provavelmente gostariam de vender a divisão de revistas, da qual só virão más notícias daqui por diante. Ao contrário do pai, eles não gostam de revistas. Jamais foram postos para trabalhar nelas, ao contrário do que o patriarca Victor Civita fez com os filhos Roberto e Richard.
Uma vez, no período em que respondi a Gianca na Abril, ele me contou que detestava revistas porque, criança, via o pai gastar o final de semana na leitura delas e não com os filhos.
Querer vender é uma coisa. Poder vender, outra.
Mas aí entra um paradoxo, uma espécie de ajuste de contas da história com gente que mamou no Estado.
Vigora na mídia uma inacreditável reserva de mercado. O Brasil se abriu à competição estrangeira nos últimos vinte anos, mas a mídia – por seu poder de intimidação – continuou protegida.
Estrangeiros podem comprar apenas 30% das ações das empresas. No caso da Abril, isso já foi feito.
Durante muitos anos, a reserva ajudou. Você ficava livre de competidores temíveis de mercados mais avançados.
Mas agora veio a ressaca. A reserva limita severamente as possibilidades de vender uma empresa. Quem, no Brasil, teria dinheiro para comprar uma grande empresa de mídia?
Não será surpresa se as empresas se juntarem, em algum momento, para reverem uma legislação que as favoreceu absurdamente. Se você quer vender e cair fora do negócio, a reserva já não significa nada senão um obstáculo à venda.
Com o mesmo entusiasmo cínico usado para defender a reserva – a Globo chegou a falar no risco de propaganda comunista se uma emissora chinesa se instalasse no Brasil – as companhias de mídia defenderão o oposto.
Vai ser interessante acompanhar os próximos anos na mídia.

Datafolha, patético: Dilma

vai perder… para Lula!

Fernando Brito                                                          
adata
O conservadorismo está mais perdido, como dizem os gaúchos, que cachorro que caiu de caminhão de mudança.
A pesquisa Datafolha, na falta de um candidato viável para enfrentar Dilma Rousseff, arranjou um nome: Lula!
Não é preciso nada, senão uma palavra: ridículo.
Como registrou o Miguel do  Rosário, no texto abaixo, a Presidenta vence no primeiro turno em todos os cenários, exceto nos que os “sombras” Marina Silva e José Serra tomam o lugar de seus “candidatos postos” Eduardo Campos e Aécio Neves.
O Datafolha a não apresenta uma pesquisa, mostra uma inviabilidade.
E uma ameaça.
A UDN, que não é de nada em eleições, é ótima em manipulações e golpes.
E sempre teve sua “banda de música”, que fazia discursos “esquerdistas” e “populares”.
De agora até a Copa, não teremos uma disputa política, teremos uma conspiração.
O marqueteiro boquirroto que falou que teríamos um “duelo de anões” na oposição estava redondamente enganado.
Os anões políticos estão todos juntos, unidos.
Juntos e sós.
Desesperados e perigosos.

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Aécio, Marina e Campos caem no Datafolha; Dilma dispara


30 de novembro de 2013 - Miguel do Rosário
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Os números do Datafolha, divulgados neste sábado, 30/11, pela FolhaSP, falam por si mesmos. Dilma disparou em todos os cenários. Seus adversários caíram em todos os cenários. O destaque vai para queda de Campos, já detectada em pesquisa recente do Ibope, mesmo com toda a mídia gerada com a adesão de Marina Silva à sua candidatura. Chama a atenção também a pontuação razoável de Joaquim Barbosa, presente no cenário E. O presidente do STF tem 15% das intenções de voto, mas aparentemente ele rouba votos de Aécio e Campos. Analisem e comentem.

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A opinião pública

 como gado              

O documentado condomínio entre o PSDB, cartéis e a prática sistêmica de sobrepreço nas licitações do metrô paulista era do conhecimento da mídia desde 2009.

Saul Leblon                                 


Arquivo
A régua seletiva da emissão conservadora vive mais uma quadra de exibição pedagógica.

Vísceras, troncos e membros do grupo proprietário do Hotel Saint Peter, em Brasília, no qual trabalhará o ex-ministro José Dirceu, por apreciáveis R$ 20 mil, diga-se  – se fossem R$ 5 mil ou R$ 10 mil as suspeitas seriam menores?--  estão sendo trazidos a público em cortes sugestivos.

Chegam desossados e moídos.

Salgados e pré-cozidos, basta engolir, sendo facilmente digeríveis em sua linearidade.

Sem guarnição, recomenda o chef.

Assim costuma ser, em geral, com as informações que formam o cardápio de  fatos ou acusações relacionados ao PT.

Uma farofa seca de areia com arame farpado.

E assim será com o exercício do regime semiaberto facultado ao ex-ministro.

A lente da suspeição equivale desde já a um segundo julgamento.

Com as mesmas características do primeiro.

Recorde-se o jornalismo associado ao crime organizado que  não hesitou em invadir o quarto de hotel do ex-ministro, em Brasília, para instalar aparelhos de escuta, espionar gente e conversas no afã de adicionar chibatadas ao pelourinho da AP 470.

O cenário esquadrejado em menos de uma semana  –o emprego foi contratado na última 6ª feira— diz que não será diferente agora.

O dono do hotel é filiado a partido da base do governo (PTN), revela a Folha. Tem negócios na área da comunicação. Uma de suas emissoras, a Top TV, com sede em Francisco Morato (SP), conquistou recentemente o direito de transferir a antena para a Avenida  Paulista.

Suspeita.

A Anatel informa que não, a licença foi antecedida de audiência pública. Sim, mas a Folha desta 5ª feira argui tecnicalidades, cogita riscos de interferência em outros canais etc

Não só.

Dono também de rádios, o empregador de Dirceu operou irregularmente uma antena instalada em terraço do Saint Peter, diz o jornal  ainda sem mencionar o andar.

Deve ser o 13º.

A mesma Folha investiga ainda encontros do empresário --membro de partido da base aliada--  com o ministro Paulo Bernardo. Da Comunicação. A esposa do ministro é pré-candidata ao governo do Paraná..

Vai por aí a coisa.

Alguém com o domínio de suas faculdades mentais imaginaria que o ex-ministro José Dirceu, um talismã eleitoral lixiviado há mais de cinco anos no cinzel conservador, obteria um emprego em qualquer latitude do planeta sem a ajuda de aliados ou amigos?

O ponto a reter é outro.

Avulta dessa  blitzkrieg  uma desconcertante contrapartida de omissão: quando se trata de cercar pratos compostos de personagens e enredos até mais explosivos, extração diversa, impera a inapetência investigativa.

O braço financeiro da confiança de José Serra, Mauro Ricardo, seria um desses casos de inconcebível omissão se as suas credenciais circulassem na órbita do PT?

A isso se denomina jornalismo de rabo preso com o leitor?

Tido como personalidade arestosa, algo soberba, Mauro Ricardo reúne predicados e rastros que o credenciariam a ser um ‘prato cheio’ do jornalismo investigativo.

O economista acompanha Serra desde quando o tucano foi ministro do Planejamento (1995/96); seguiu-o na pasta da Saúde (1998/2002), sendo seu homem na Funasa, de cujos funcionários demitidos Serra ganharia então o sonoro apelido de ‘Presidengue’, na desastrosa derrota presidencial de 2002.

Nem por isso Mauro Ricardo perdeu a confiança do chefe, sendo requisitado por Serra quando este assumiu a prefeitura de São Paulo, em 2004/2006, ademais de acompanha-lo, a seguir, no governo do Estado.

Quando o tucano foi derrotado  pela 2ª vez  nas eleições presidenciais de 2010, Mauro Ricardo voltou ao controle do caixa da prefeitura, sob a gestão Kassab. 

Esse, o trajeto da caneta que mandou arquivar as investigações contra aquilo que se revelaria depois a maior lambança da história da administração pública brasileira: o desvio de R$ 500 milhões do ISS de São Paulo, drenados ao longo do ciclo Serra/Kassab por uma máfia de fiscais sob a jurisdição de Mauro Ricardo.

O que mais se sabe sobre esse centurião?

Muito pouco.

Seus vínculos, eventuais negócios ou sócios, círculos de relacionamento e histórias da parceria carnal com o candidato de estimação da mídia conservadora nunca mobilizaram esforço investigativo equivalente ao requisitado na descoberta de uma antena irregular  num terraço do Hotel Saint Peter, em Brasília.

Evidencia-se a  régua seletiva.

Que faculta ao tucano Aécio –e assemelhados-  exercitar xiliques de indignação ante as evidências de uma fusão estrutural entre o tucanato de SP,  cartéis multinacionais e a prática sistêmica de sobrepreço  nas compras do metrô paulista - desde o governo Covas.

Dados minuciosos do longevo,  profícuo matrimônio,  são conhecidos e circulam nos bastidores da mídia, de forma documentada, desde 2009.

Quem  confessa é o jornal Folha de SP desta 5ª feira.

Repita-se, o repórter Mario Cesar Carvalho admite, na página 11, da edição de 28/11/2003 do jornal, que se sabia desde 2009  da denúncia liberada agora pelo ‘Estadão’ –cujo limbo financeiro pode explicar a tentativa de expandir o universo leitor com algum farelo de isenção.

Por que em 2009 esse paiol não mereceu um empenho investigativo ao menos equivalente ao que se destina aos futuros empregadores de José Dirceu?

O calendário político da Folha responde.

Em 2010 havia eleições presidenciais; o jornal preferiu investir na ficha falsa da Dilma a seguir os trilhos do caixa 2 tucano em SP.

No seu conjunto, a mídia tocava o concerto do ‘mensalão petista’. Dissonâncias não eram, nem são bem-vindas.

Transita-se, portanto, em algo além do simples desequilíbrio editorial.

Temas ou versões conflitantes com a demonização petista mereceram, ao longo de todos esses anos, o destino que lhes reserva a prática dos  elegantes manuais de redação: ouvir o outro lado, sem nunca permitir que erga a cabeça acima da  linha da irrelevância.

Assim foi, assim é.

Só agora – picados e salgados os alvos em praça pública--  o pressuroso STF lembrou-se de acionar o Banco do Brasil para cobrar o suposto assalto aos ‘cofres públicos’ da AP 470.

Pedra angular das toneladas de saliva com as quais se untou os autos do maior julgamento-palanque da história brasileira, só agora,  encerrado o banquete, cogita-se do prato principal de R$ 70 milhões esquecido na cozinha?

O esquecimento serviu a uma lógica.

Até segunda ordem, perícia rigorosa providenciada pelo BB ofereceu uma radiografia minuciosa de recibos e provas materiais dando conta do uso efetivo do dinheiro nas finalidades de patrocínio e publicidade contratadas.

O documento capaz de trincar a abóboda da grande narrativa conservadora, nunca mereceu espaço à altura de seus decibéis no libreto dominante.

Ao mesmo tempo, o que a Folha admite agora, como se isso mitigasse o escândalo do metrô (‘Papéis que acusam o PSDB circulam há mais de quatro anos’) corrobora a percepção de que estamos diante de uma linha de coerência superlativa.

Ela traz a marca de ferro do que de pior pode ostentar quem se evoca a prerrogativa da informação isenta.

‘Cumplicidade’ diz o baixo relevo inscrito nas páginas e na pele daqueles que ironicamente, destinaram à  opinião pública, durante todos estes anos, o livre discernimento que se dispensa ao gado na seringa do abate.

Acesso de jovens à universidade cresceu 54% em dez anos

Segundo estudo do IBGE, frequência escolar aumentou também em outros níveis de ensino, mas permanecem desigualdades por cor, raça e região.
                                                         
 Comments
São Paulo – A proporção de jovens entre 18 e 24 anos que frequentam o ensino superior no Brasil aumentou 54% nos últimos das anos, segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2013 divulgada hoje (29) pelo IBGE. No mesmo período (2002-2012) também cresceram os investimentos públicos em universidades federais e em programas de inclusão universitária, como o ProUni.
Em 2002, 9,8% das pessoas nessa faixa etária estavam na faculdade. Agora são 15,1%. Do total de estudantes entre 18 e 24 anos (6,6 milhões), 52% cursavam o nível superior
Já entre os adolescentes de 15 a 17 anos, a taxa de frequência escolar subiu de 40% para 54.
No entanto, permanece a desigualdade por cor ou raça: dos estudantes em nível superior, 66,6% são brancos de 18 a 24 anos frequentavam o ensino superior; entre os estudantes pretos e pardos, apenas 37,4% (nessa faixa etária) estão na universidade. Em relação a 2002, houve aumento nos dois casos: entre os brancos, a taxa era de 43,4% e entre os pretos e pardos de 12,2%.
A escolaridade média da população de 25 anos ou mais também aumentou no período, passando de 6,1 para 7,6 anos de estudo completos, sendo que 40,1% das pessoas dessa faixa etária alcançaram 11 anos de estudo ou mais.
O incremento de escolaridade foi mais intenso para os 20% “mais pobres”, segundo o IBGE. O aumento foi de 58%, enquanto os 20% “mais ricos” apresentaram uma elevação de 10% na média de anos de estudo entre 2002 e 2012.

Pré-escola

A taxa de escolarização das crianças entre 4 e 5 anos de idade subiu de 56,7% em 2002 para 78,2% em 2012. Na área rural, contudo, uma em cada três crianças não frequentava escola.
As desigualdades de acesso por renda familiar são evidentes, de acordo com o IBGE: para aquelas pertencentes aos 20% “mais ricos”, o acesso à escola atingia 92,5%, enquanto os 20% “mais pobres” apresentaram uma taxa de escolarização de 71,2%.
Na faixa de 0 a 3 anos de idade, a frequência à creche aumentou de 11,7% em 2002 para 21,2% em 2012. Entretanto, a desigualdade de acesso permaneceu significativa.
Em 2012, a proporção de crianças com idade entre 2 e 3 anos que frequentavam creche era quase o triplo para o quinto mais rico (63%) em relação ao quinto mais pobre (21,9%). Em 2002, essa razão era ainda maior: 4,1 vezes (48,6% e 12%, respectivamente).

O pior e imperdoável crime

O papel desempenhado pelo PT, com relativo êxito até o momento, tem sido o de incorporar à vida pública camadas economicamente desfavorecidas da população.

Fabiano Santos                                          
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A principal emissora televisiva do país veio a público se desculpar junto a seu público por ter, 50 anos atrás, apoiado a conspiração civil militar que derrubou fora dos preceitos da legalidade o governo brasileiro legitimamente capacitado para exercer o poder no país. O gesto, até certo ponto, surpreendeu, mas não convenceu aos menos ingênuos que redundaria em guinada significativa nos valores e interesses defendidos pela empresa, de resto bastante similares aos apoiados pelas demais grandes corporações de mídia. Sobretudo, não convenceu de que algo mudaria no modo equivocado de se cobrir a política no Brasil e isto por um aspecto sempre presente no noticiário: a criminalização da atividade política, do Legislativo, dos partidos e entre estes, principalmente, o PT.

Por que a cobertura é essencialmente equivocada? Ora, os brasileiros que agora adentram a meia idade começaram sua vida adulta durante o período militar. Iniciam, portanto, sua socialização política em meio a uma ditadura, regime que resultou de um golpe civil e militar desferido em 1964 contra o governo de João Goulart e as instituições representativas criadas em 1946.

A crise que antecedeu o evento se explica em boa medida pelo processo de radicalização política a envolver os principais atores da cena brasileira à época. À esquerda, facções no interior de alguns partidos de orientação socialista e trabalhista, sindicatos, estudantes e segmentos minoritários das Forças Armadas confrontavam, à direita, facções no interior de partidos conservadores, empresários, o grosso das Forças Armadas, classes médias e principais órgãos de imprensa.

Embora afastados quanto a valores, interesses e visões de mundo, algo unia tais contendores: o desprezo pelas instituições da democracia representativa e seu mecanismo principal, o voto popular. À esquerda e à direita, uma visão negativa, profundamente negativa, prevalecia sobre o modo pelo qual operava o sistema político, sobretudo, o Congresso Nacional e os partidos. Instituições, para uns, controladas por elites atrasadas e pontos de veto às reformas necessárias para tornar o país mais justo, para outros, corruptas, clientelistas, responsáveis pela irracionalidade no gasto e nas contas públicas. O golpe, como é sabido, veio e com ampla vantagem para as forças da direita política.

E, pois bem, qual foi o legado do período ditatorial? No início dos anos 80 do século passado, do ponto de vista político, direitos básicos ainda sofriam severas restrições, como os de livre associação, manifestação, discordância, além da permanência de várias limitações ao exercício do voto. No âmbito macro, Judiciário e Legislativo, estados e municípios, partidos e candidatos se viam praticamente indefesos perante um Executivo federal hipertrofiado e sempre disposto e intervir nas instituições de forma a impedir dinâmicas políticas eventualmente contrárias aos seus desígnios.

Do ponto de vista econômico, o quadro se compunha de inflação galopante, sempre acima de dois dígitos, extrema vulnerabilidade externa, crises cambiais recorrentes, além de recessão, redução do PIB e aumento do desemprego. Finalmente, do ponto de vista social, exclusão, analfabetismo, desigualdade e pobreza crescentes e um cenário de mobilidade estagnado. Com alguma variação em algum dos diversos indicadores, em um ano ou outro, além de algum ensaio de descompressão aqui e ali, a visão geral de quem acordava para a vida adulta, de fato, nada tinha de alentadora.

A democracia e o clamor pela restauração das liberdades civis e políticas, pela volta da competição partidária plena e aberta, pelas eleições diretas para todos os cargos de representação e de chefia dos Poderes Executivos em todos os níveis tornaram-se o grande desiderato da geração que hoje inicia sua maturidade. Não apenas a democracia, mas também os resultados esperados do exercício do voto em larga escala, do exercício da crítica, da tolerância, da livre manifestação do pensamento, da resolução pacífica e institucionalizada dos conflitos. A duras penas a transição foi alcançada e realizada.

Com muito esforço e engenho político se elegeu uma Assembleia Constituinte, se desenhou e promulgou uma nova Constituição. Vitórias e testes importantes foram experimentados pelas instituições recém-criadas, quando, por exemplo, logo após exercer o voto direto para a escolha de seu presidente e a nação se vê compelida a destituir, dentro do marco legal, seu primeiro mandatário escolhido 29 anos após a eleição de Jânio Quadros. 

Algo em torno de 30 anos mais tarde, é possível promover balanço do que se alcançou a partir da transição para a democracia. Qual seria então o legado, também de uma perspectiva ampla, do livre funcionamento das instituições do governo representativo? Por definição, os obstáculos políticos existentes durante a ditadura foram removidos, pois do contrário não estaríamos a falar de legado democrático.

Do ponto de vista econômico, temos a retomada do crescimento (tendo sido raros os anos de recessão ou declínio), inflação de um dígito faz quase 20 anos, redução drástica da vulnerabilidade externa, aumento consistente do emprego e da renda, sobretudo das camadas mais pobres. Do ponto de vista social, embora ainda longe de se alcançar patamares razoáveis de qualidade, educação e saúde públicas massificadas, redução significativa nos indicadores de pobreza e desigualdade, além de um quadro de crescente mobilidade. 

Vários foram os atores políticos e movimentos sociais que contribuíram para a transposição do regime ditatorial para a democracia. Um, em especial, deve ser mencionado na atual conjuntura política brasileira: o Partido dos Trabalhadores. O papel desempenhado pelo PT, com relativo êxito até o momento, tem sido o de incorporar à vida pública camadas social e economicamente desfavorecidas da população brasileira. Aos olhos da grande mídia brasileira e da elite por ela representada este certamente foi o pior e imperdoável crime cometido pelos que, como José Dirceu e José Genoino, presidiram e ajudaram a criar este poderoso e eficiente instrumento político e eleitoral de inclusão social.

Ecos do Mengão, campeão da Copa do Brasil :
E ninguém segura / esse chororô.../    
Chora o glorioso / chora o almirante /
chora o tricolor...                                          

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Barbosa e o viés autoritário

Quem lida com pesquisa de opinião vê o aumento do número de eleitores que dizem odiar algo ou tudo na política.
Marcos Coimbra — publicado em 01/12/2013                                       Carta Capital 
                                                                                                                                                 Agência Brasil
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A figura de Joaquim Barbosa faz mal à cultura política brasileira. Muito já se falou a respeito de como o atual presidente do Supremo conduziu o julgamento da Ação Penal 470, a que trata do “mensalão”. Salvo os antipetistas radicais, que ficaram encantados com seu comportamento e o endeusaram, a maioria dos comentaristas o criticou.
Ao longo do processo, Barbosa nunca foi julgador, mas acusador. Desde a fase inicial, parecia considerar-se imbuído da missão de condenar e castigar os envolvidos a penas “exemplares”, como se estivesse no cumprimento de um desígnio de Deus. Nunca mostrou ter a dúvida necessária à aplicação equilibrada da lei. Ao contrário, revelou-se um homem de certezas inabaláveis, o pior tipo de magistrado.     


Passou dos limites em seu desejo de vingança. Legitimou evidências tênues e admitiu provas amplamente questionáveis contra os acusados, inovou em matéria jurídica para prejudicá-los, foi criativo no estabelecimento de uma processualística que inibisse a defesa, usou as prerrogativas de relator do processo para constranger seus pares, aproveitou-se dos vínculos com grande parte da mídia para acuar quem o confrontasse.

Agora, depois da prisão dos condenados, foi ao extremo de destituir o juiz responsável pela execução das penas: parece achá-lo leniente. Queria dureza.
Barbosa é exemplo de algo inaceitável na democracia: o juiz que acha suficientes suas convicções. Que justifica sua ação por pretensa superioridade moral em relação aos outros. E que, ao se comportar dessa forma, autoriza qualquer um a pegar o porrete (desde que se acredite “certo”).
Sua figura é negativa, também por um segundo motivo.
Pense em ser candidato a presidente da República ou não, Barbosa é um autêntico expoente de algo que cresceu nos últimos anos que pode se tornar um grave problema em nossa sociedade, o sentimento de ódio na política.
Quem lida com pesquisas de opinião, particularmente as qualitativas, vê avolumar-se o contingente de eleitores que mostram odiar alguma coisa ou tudo na política. Não a simples desaprovação ou rejeição, o desgostar de alguém ou de um partido. Mas o ódio.
É fácil constatar a difusão do fenômeno na internet, particularmente nas redes sociais. Nas postagens a respeito do cotidiano da política, por exemplo sobre a prisão dos condenados no “mensalão”, a linguagem de muitos expressa intenso rancor: vontade de matar, destruir, exterminar. E o mais extraordinário é que esses indivíduos não estranham suas emoções, acham normal a violência.   

Não se espantam, pois veem sentimentos iguais na televisão, leem editorialistas e comentaristas que se orgulham da boçalidade. Os odientos na sociedade reproduzem o ódio que consomem.

Isso não fazia parte relevante de nossa cultura política até outro dia. Certamente houve, mas não foi típico o ódio contra os militares na ditadura. Havia rejeição a José Sarney, mas ninguém queria matá-lo. Fernando Collor subiu e caiu sem ser odiado (talvez, apenas no confisco da poupança). Fernando Henrique Cardoso terminou seu governo reprovado por nove entre dez brasileiros, enfrentou oposição, mas não a cólera de hoje.    


O ódio que um pedaço da oposição sente atualmente nasce de onde? Da aversão (irracional) às mudanças que nossa sociedade experimentou de Lula para cá? Do temor (racional) que Dilma Rousseff vença a eleição de 2014? Da estupidez de acreditar que nasceram agora problemas (como a corrupção) que inexistiam (ou eram “pequenos”)? Da necessidade de macaquear os porta-vozes do conservadorismo (como acontece com qualquer modismo)?

Barbosa é um dos principais responsáveis por essa onda que só faz crescer. Consolidou-se nesse posto nada honroso ao oferecer ao País o espetáculo do avião com os condenados do “mensalão” rumo a Brasília no dia 15 de novembro. Exibiu-o  apenas para alimentar o ódio de alguns.
A terceira razão é que inventou para si uma imagem nociva à democracia. O papel que encena, de justiceiro implacável e ferrabrás dos corruptos, é profundamente antipedagógico.
Em um país tão marcado pelo personalismo, Barbosa apresenta-se como “encarnação do bem”, mais um santarrão que vem de fora da política para limpá-la. Serve apenas para confirmar equívocos autoritários e deseducar a respeito da vida democrática
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