terça-feira, 3 de setembro de 2013

Glenn Greenwald, a espionagem de Dilma e o Fantástico                               

 O que o autor de um furo mundial, ativista e crítico da ligação da mídia tradicional com o poder, está fazendo num programa tão ruim?
Kiko Nogueira                                            DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO 
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O jornalista Glenn Greenwald deu um dos furos mais importantes do mundo nos últimos anos. Greenwald publicou as denúncias acerca do esquema de espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos. Suas conversas com o ex-consultor da CIA Edward Snowden renderam matérias no jornal inglês The Guardian, em que Greenwald é colunista, e em seu blog. Depois que seu companheiro David Miranda foi retido por mais de nove horas em Londres, voltando ao Brasil após encontrar Snowden, ele prometeu mais informações bombásticas.
Uma dessas histórias foi parar no Fantástico. Os EUA espionam Dilma. Uma longa reportagem, em que Greenwald foi um dos autores, mostra que ligações de Dilma foram interceptadas por programas americanos.
Greenwald é ex-advogado. Um idealista. Tem posições liberais claras. É corajoso e costuma estar do lado certo das grandes questões (e das pequenas também).
Por seu ativismo, costuma ser hostilizado por jornalistas da mídia tradicional, que se referem a ele, eventualmente, como “blogueiro” (você precisa ser um idiota rematado para achar que “blogueiro” é ofensa, mas isso é conversa para outra hora).
Greenwald não costuma pegar leve com essa turma. Já disse que o futuro do jornalismo está na Internet e que a televisão não é tão forte quanto antes. “É verdade que o Guardian, de maneira geral, e eu, em particular, somos outsiders, não membros da grande mídia estabelecida. Parte dessa hostilidade é amargura pessoal. Mas parte disso é o que eu tenho criticado neles: eles são muito mais servis do poder político do que vigilantes dele, e o que provoca raiva não é a corrupção daqueles que estão no poder (eles não ligam para isso), mas daqueles que expõem essa corrupção, especialmente quando aqueles que trazem transparência vêm de fora de seus círculos incestuosos. Eles são apenas cortejadores fazendo o que sempre fizeram. É assim que mantêm seu status.”
Seja quem for que tenha feito o contato com Greenwald para usar seu material na Globo, marcou um gol. Agora, é de se perguntar: Greenwald sabe no que se meteu? Assiste ao ‘Fantástico’? Já viu o quadro “Medida Certa”? Provavelmente, sim. Desde 2000, ele passa pelo menos oito meses do ano no Rio de Janeiro. Fala português. Ele e David Mirand têm uma vida aqui.
Suas novas revelações sobre a NSA e Dilma foram ao ar num programa que mistura dieta de subcelebridades, pegadinhas travestidas de utilidade pública, crianças com câncer e um humorista que perdeu a graça. Se Glenn Greenwald está sendo sincero ao criticar a mídia tradicional, seu servilismo ao poder, a maneira como as notícias são manipuladas — e não há por que duvidar de sua sinceridade –, causa alguma estranheza vê-lo numa organização e num programa que simbolizam tudo isso. Ou então esse alto padrão ético vale apenas para o mundo civilizado, e não para essa adorável bagunça selvagem que é o Brasil, olerê-olará.

O dia em que a Globo piscou

As Organizações Globo surpreenderam o país com uma autocrítica de seu apoio à ditadura. Soou artificial
                                                        Blog do Nassif                                     
  
Na sexta-feira passada, as Organizações Globo surpreenderam o país com uma autocrítica de seu apoio à ditadura.
Soou artificial.

Um dia antes, manifestantes jogaram merda em sua sede, em São Paulo. Nas redes sociais, com exceção da revista Veja, não existe organização capaz de despertar tanto amor e ódio.

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Para entender essa demonstração de fraqueza da Globo, é preciso analisar o atual estágio da mídia brasileira.

O mercado da Internet está sendo disputado por três grupos: a mídia convencional, as empresas de telefonia e as grandes redes sociais, como Google e Facebook.

Antes, mídia vendia publicidade; telefonia vendia pulsos; redes sociais vendiam sonhos. Agora, as redes sociais vendem publicidade, ligações telefônicas e filmes sob demanda. Nos EUA, já dominam completamente a publicidade nacional (dos grandes produtos) e os classificados.

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No ano passado, o Google se tornou-se o segundo faturamento em publicidade do país, atrás apenas da Globo, e à frente da Abril e demais grupos de mídia, com R$ 2,5 bilhões. Este ano, deverá crescer R$ 1 bi.

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Tanto grupos da velha mídia como empresas de telefonia têm razão ao pleitear isonomia com grupos de fora – que não pagam impostos no Brasil nem contribuições às quais são obrigadas TVs a cabo.

Para estabelecer a isonomia, haveria a necessidade de um novo ordenamento jurídico. O caminho seria a Lei dos Meios – proposta há anos pelo então Secretário de Comunicações do governo federal Franklin Martins.

No entanto, demonizou-se a Lei dos Meios, como se fosse um instrumento para calar a mídia. Agora, necessita-se de uma mudança legal que defina os novos marcos das comunicações. E a Globo quedou-se só.

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Dias atrás, um interlocutor de João Roberto Marinho – um dos herdeiros da Globo – ouviu dele manifestação de surpresa com o ódio que a empresa desperta, o desassossego com a crise dos aliados - seus três maiores aliados, Folha, Abril e Estadão, perdem fôlego a cada dia que passa -, o desconforto com a competição das redes sociais.

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De fato, as empresas de telecomunicações contam com o lobby escancarado do Ministro Paulo Bernardo.

Já a Globo enfrenta o momento mais delicado de sua história sem dispor do antigo poder de definir as leis a seu talante e estando cada vez mais isolada.

É por aí que se entendem as mudanças.

Nos últimos tempos, a Globo trocou seu lobista em Brasília – Evandro Guimarães, competente porém herdeiro dos tempos do “eu sou o senhor do universo”- por outro, mais político. Nomeou para cargo de direção uma executiva incumbida de começar a enxugar a estrutura de custos para adaptar-se aos novos tempos.

Provavelmente seu noticiário começará a se tornar menos tendencioso e poderá até a voltar a praticar jornalismo de primeira, crítico porém plural. Ouvintes da CBN, telespectadores do Jornal Nacional e da Globo News voltarão a saborear comentaristas equilibrados, com bom senso, criticando, sim, mas sem prever mais o fim do mundo e a invasão do país pelas forças de Fidel Castro.

Seja qual for a mudança, continuará poderosa. Mas os tempos de poder absoluto não mais voltarão. Nos próximos anos, terá que fazer algo impensável para quem se considerava um império: sair do pedestal, legitimar-se novamente, montar redes de aliados
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(Postado por Luis Nassif, em 03.09.2013)

O verdadeiro alvo do Ocidente

é o Irã, e não a Síria                     

O Irã está profundamente envolvido na proteção ao governo sírio. Além disso, uma vitória de Bashar representa uma vitória do Irã. E vitórias do Irã não podem ser toleradas pelo Ocidente. 


Antes que comece a guerra ocidental mais idiota na história do mundo moderno – eu me refiro, é claro, ao ataque à Síria que todos nós vamos ter que engolir – podemos dizer que os mísseis que esperamos ver cruzando os céus de uma das cidades mais antigas das humanidade não têm nada a ver com a Síria.

Eles têm como objetivo atacar o Irã. Eles pretendem atacar a república islâmica agora que ela tem um presidente novo e vibrante – diferente do bizarro Mahmoud Ahmadinejad – e bem quando ele pode estar um pouco mais estável.

O Irã é inimigo de Israel. Então o Irã é, naturalmente, inimigo dos EUA. Então dispare os mísseis no único aliado árabe do Irã.

Não há nada de agradável no regime de Damasco. Nem esses comentários livram a cara do regime quando se trata de uso de armas químicas em massa. Mas eu tenho idade suficiente para me lembrar de que quando o Iraque – então aliado dos EUA – usou armas químicas contra os curdos em Hallabjah em 1988, nós não invadimos Bagdá. De fato, esse ataque esperou até 2003, quando Saddam não tinha mais armas químicas ou qualquer outra arma com as quais tínhamos pesadelos.

E eu também me lembro de que, em 1988, a CIA disse que o Irã foi o responsável pelo uso de armas químicas em Hallabjah, uma mentira deslavada, que mirava no nosso inimigo, contra quem Saddam estava lutando em nosso nome. E milhares – não centenas – morreram em Hallabjah. Mas aí está. Jeitos diferentes, padrões diferentes.

E eu acho que vale a pena notar que quando Israel matou 17 mil homens, mulheres e crianças no Líbano em 1982, numa invasão supostamente provocada pela tentativa de homicídio pela OLP do embaixador israelense em Londres – foi o amigo de Saddam, Abu Nidal, quem organizou o atentado, não a OLP, mas isso não importa agora – os EUA pediram aos dois lados que tentassem “se conter”. E quando, poucos meses antes dessa invasão, Hafez Al-Assad – pai de Bashar – mandou seu irmão para Hama para exterminar milhares de rebeldes da Irmandade Muçulmana, ninguém soltou um murmúrio que fosse condenatório. “Regras de Hama” foi como meu velho amigo Tom Friedman cinicamente classificou esse banho de sangue.

De qualquer forma, há uma Irmandade diferente por aí esses dias – e Obama nem se dignou a dar uma vaiadinha quando seu presidente eleito foi deposto.

Mas espere um pouco. O Iraque – quando era aliado “nosso” contra o Irã – também usou armas químicas contra o exército iraniano? Usou. Eu vi os resultados desse ataque horroroso feito por Saddam – oficiais dos EUA, devo dizer, fizeram um tour pelo campo de batalha depois, e se reportaram de volta para Washington – e nós não demos a mínima bola para isso. Milhares de soldados iranianos foram envenenados até a morte por essa arma terrível na guerra entre 1980 e 1988. 

Eu viajei de volta para Teerã em um trem noturno com soldados feridos e cheguei a sentir o cheiro da coisa, abrindo as janelas dos corredores para diminuir o cheiro. Esses jovens tinham feridas dentro de feridas, literalmente. Eles tinham dores que surgiam dentro das dores, algo próximo do indescritível. Ainda assim, quando os soldados foram enviados para hospitais ocidentais para serem tratados, nós, jornalistas, chamamos esses feridos – depois de evidências das Nações Unidas muito mais convincentes do que as que podemos encontrar hoje em Damasco – de “supostas” vítimas de armas químicas.

Então o que diabos estamos fazendo? Depois de incontáveis milhares de mortes na terrível tragédia síria, de repente – agora, depois de meses e anos de prevaricação – estamos indignados com algumas centenas de mortes. Terrível. Inconcebível. Sim, é verdade. Mas nós deveríamos ter ficado traumatizados por essa guerra em 2011. E em 2012. Mas por que agora?

Suspeito que eu saiba o motivo. Suspeito que Bashar Al-Assad esteja ganhando a guerra contra os rebeldes que temos armado secretamente. Com a ajuda do Hezbollah libanês – aliado do Irã no Líbano – o regime de Damasco quebrou os rebeldes em Qusayr e podem estar no processo de quebra-los ao norte de Homs. O Irã está cada vez mais envolvido na proteção ao governo sírio. Portanto, uma vitória de Bashar é uma vitória do Irã. E vitórias iranianas não podem ser toleradas pelo Ocidente.

E enquanto estamos falando de guerra, o que aconteceu com aquelas ótimas negociações entre palestinos e israelenses de que John Kerry andava se gabando? Enquanto expressamos nossa tremenda angústia com o terrível uso de armar químicas na Síria, a terra palestina continua sendo destruída. A política do Likud de Israel – de negociar a paz até não haver mais Palestina – continua a toda, e é por isso que o pesadelo do Rei Abdullah, da Jordânia, (muito mais potente que as “armas de destruição em massa” que imaginávamos em 2003) só aumenta: que a “Palestina” fique na Jordânia, não na Palestina.

(*) Robert Fisk é correspondente no Oriente Médio do ‘The Independent’. É autor de vários livros sobre a região. 

Médicos cubanos: a velha classe média pira


Carlos Pompe(*)                                               Página Inicial


No livro Nova classe média?, o economista Marcio Pochmann mostra que foram criados 21 milhões de novos postos de trabalho nos últimos dez anos, sendo 94,8% deste total com salários equivalentes a 1,5 mínimo. 


Estes trabalhadores estão sendo chamados de “nova classe média” pelos oligopólios da comunicação brasileira. Na verdade, não integram a classe média”. Mas a velha classe média continua atuante no país, e é ela que, servil aos interesses da classe que lhe é superior, a burguesia, hostiliza os médicos cubanos que vieram atuar no Brasil e se enoja das políticas sociais que beneficiam a classe que considera “inferior” a si – a classe proletária, trabalhadora.

“Seja pelo nível de rendimento, pelo tipo de ocupação, pelo perfil e atributos pessoais, o grosso da população emergente não se encaixa em critérios sérios e objetivos que possam ser claramente identificados como classe média”, escreve Pochmann. Seja pelo nível de rendimento, pelo tipo de ocupação, pelo perfil e atributos pessoais, o grosso dos médicos e demais pessoas que participaram dos protestos contra o programa + Médicos e outras ações sociais do governo e contra a política e os políticos podem ser claramente identificados com a velha classe média brasileira, a pequena burguesia. 

Aquela pequena burguesia que compôs o Integralismo, no início do século passado; que apoiou a ditadura getulista durante o Estado Novo; que marchou “com Deus e pela liberdade” (na verdade, pelo golpe militar) em 1964. Essa pequena burguesia que não se conforma em perder a relação de criadagem dos trabalhadores domésticos, que herdou das centenas de anos em que a escravidão imperou no país, agora que eles conquistaram direitos trabalhistas. Essa gente que acha que os médicos cubanos “tem cara de empregada doméstica” – talvez achando que sua própria cara pequeno burguesa seja mais assemelhada à burguesia estampada na revista Caras do que à cara do trabalhador que vê amontoado no ônibus, no congestionamento, ao passar com seu carro último tipo (financiado).

No segundo semestre de 1946, numa reunião de sua Organização de Base no Partido Comunista, o escritor Graciliano Ramos questionou que a pequena burguesia seja realmente uma classe. “É uma camada vacilante, e diremos talvez sem contrassenso que o que a caracteriza é a falta de caráter. Subindo um pouco, tenta insinuar-se no capital – e é favorável à violência, detesta reuniões, pensa em conformidade com a polícia, teme a foice, o martelo, a cor vermelha, afeiçoa-se ao golpista e ao delator; largando o emprego, esgotada a caderneta da caixa econômica, avizinha-se do proletariado – e entra nas filas, é pingente de bonde, assiste a comícios, descompõe a Light, excede-se em parolagem demagógica”.

Marx considerava, no Dezoito Brumário, a pequena burguesia “uma classe de transição” (assim, em itálico), na qual os interesses da burguesia e do proletariado perdem simultaneamente suas arestas. O livro do fundador do socialismo científico foi escrito quase 100 anos antes do pronunciamento do escritor brasileiro – como se vê, a classe média é velha de séculos, apesar de hoje usar a alta tecnologia para difundir seus preconceitos arcaicos e ódio “aos de baixo”.




(*) Carlos Pompe é jornalista e curioso do mundo.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Dirceu e o declínio da Globo

                                     


   
Observe a foto acima. O jovem José Dirceu sustenta um braço esticado, mãos abertas, como se mandasse uma mensagem de “pare aí” para um interlocutor que não vemos. Por uma dessas coincidências enigmáticas da vida, me parece uma correspondência perfeita com o que ele vive hoje. O interlocutor invisível são as forças que hoje lhe perseguem, também algo invisíveis, escondidas sob o manto obscuro de um moralismo de ocasião, com rosto mascarado por editoriais anônimos. A expressão facial de Dirceu também é curiosa. Nos olhos se vê um pouco de apreensão, perplexidade, até mesmo medo, mas a boca sugere um levíssimo sorriso desafiador, como se tivesse consciência de seu papel, ou como se o temor visto em seus olhos fosse um disfarce.
Quando um oficial se via isolado e cercado pelos inimigos, nas guerras tradicionais, ele fazia de tudo para que estes perdessem o máximo de tempo com si mesmo, visando consumir as forças adversárias. Com isso, explicaríamos também o gesto do braço. Ele seria não apenas um gesto de “afaste-se”, mas também um chamado. Bastaria virar as palmas para cima e mexer os dedos. Dirceu chama para si mesmo as forças reacionárias, num esforço heróico e suicida, para que elas consumam suas forças tentando destruí-lo. Enquanto isso, o resto das tropas avançam. O Brasil se desenvolve. E Dirceu se transforma, talvez sem muita consciência disso, num mártir pós-moderno. Ele se ofereceu em sacrifício aos chacais da mídia, permitindo que o lulismo seguisse adiante, concretizando políticas sociais urgentes, reformando o Estado, acumulando forças para embates futuros.
Jamais um político ocidental foi tão satanizado pela mídia como José Dirceu. A agressão simbólica, semiológica, gráfica, audiovisual, literária, política, jurídica e até mesmo econômica que este homem sofreu não tem paralelo na história das democracias modernas.
Todas as forças obscuras, golpistas, reacionárias, se uniram para derrotar José Dirceu. Não visaram apenas o homem, mas toda sua história. Era preciso aniquilar o mito, afinal Dirceu era o quadro intelectualmente mais preparado do Partido dos Trabalhadores, e poderia vir a ser o próximo presidente da República.
A destruição de Dirceu transformou-se no símbolo do esforço da mídia para criminalizar a política. Esforço este que tem sido uma de suas prioridades. Quando a mídia chama os blogueiros de “chapa-branca” por se posicionarem às claras num lado do embate político e ideológico, e os acusa de receberem, clandestinamente ou não, dinheiro do campo que defendem, usa a mesma tática de criminalização. Uma tática sobretudo hipócrita porque ninguém jamais recebeu tanto dinheiro do Estado, via publicidade, financiamentos, leis favoráveis, do que os grupos tradicionais de mídia. Recebeu e recebe.
A criminalização de Dirceu, e a pressão inaudita que a mídia exerceu sobre a opinião social, sobre a Procuradoria Geral da República e depois sobre o Supremo Tribunal Federal, para condená-lo sumariamente, independente dos autos e das provas, e jogá-lo numa prisão, são a perfeita síntese deste objetivo: criminalizar a política é uma forma sutil de manietar a democracia e entregá-la nas mãos das famílias que controlam os meios de comunicação.
O clã Marinho detêm a maior fortuna já amealhada por uma só família brasileira em 500 anos de história. Nem a família imperial, nem a monarquia portuguesa, jamais possuíram um poder financeiro tão avassalador: 52 bilhões de reais. Por isso é um imperativo moral que o governo brasileiro interrompa imediatamente qualquer transferência de recurso público para esta empresa. Eles já têm dinheiro demais. Um poder midiático dessa magnitude, somado ao gigantismo financeiro de seus proprietários, representa uma ameaça ao regime democrático e à igualdade de condições entre os diferentes agentes políticos que é condição vital para a existência de uma democracia.
Prender Dirceu tornou-se uma obsessão para as Organizações Globo. Será uma prova de seu poder. A vingança contra as derrotas que a democracia lhe impôs desde que as forças progressistas deram fim à ditadura. Derrotas intermitentes e relativas, é verdade, visto que a Globo venceu em 1989, com a eleição de Collor, cuja eleição não apenas apoiou como colaborou decisivamente através da manipulação do último debate na TV; venceu depois com a deposição do mesmo Collor, quando este já tinha realizado as reformas que a Globo defendia e lhe interessava a partir de então se desvincular de sua impopularidade.
Venceu em 1994 e 1998, com a eleição de FHC, abafando o escândalo da reeleição e minimizando os problemas econômicos que se acumulavam; de certa maneira, também venceu durante os governos petistas, ao impor uma política de comunicação que lhe permitiu superar sua crise financeira e consolidar-se como a família mais rica do país. Os seis ou sete bilhões de reais que a Secom deu à Globo, nos últimos 11 anos, ajudaram-na a esmagar seus concorrentes, via práticas monopolísticas e predatórias no mercado publicitário, e a transformar a família Marinho num Leviatã tatuado com uma cifra na testa.
Entretanto, mesmo reunindo um patrimônio tão impressionante, a Globo tem visto seu poder minguar. Seu principal ativo, uma concessão pública, tem perdido audiência para internet e outros canais, abertos ou fechados. Seu lobby no parlamento declinou. O jovem de classe média hoje vê a Globo como um veículo cafona, sem graça e anacrônico. Suas apostas presidenciais falharam e prometem falhar outra vez no ano que vem.
A estratégia inconsciente de Dirceu, portanto, acabou dando certo. A Globo investiu tantos recursos em sua destruição que negligenciou o resto do exército. Enquanto Globo e Veja continuam a dar capas e mais capas contra Dirceu, o Brasil profundo continua melhorando de vida. E se hoje se tornou mais crítico e mais contestador, se exige mais dos governos, também está cobrando mais da mídia, que vê igualmente como um agente político, e dos mais conservadores e odiosos. A queda de “popularidade” que tanto assustou os políticos, como vemos, também atingiu em cheio a Rede Globo. A verdade, enfim, é dura…
Em mensagem a militantes enviada nesta segunda, 2, o ex-ministro confirmou que irá apelar a todas as instâncias possíveis para lutar por sua inocência. Levará seu caso à Organização dos Estados Americanos (OEA), para denunciar os vários abusos que sofreu, junto com outros réus, no curso da Ação Penal 470: “ausência da dupla jurisdição, a opressiva publicidade, um julgamento ao vivo pelas redes de TV, a falta de provas, o desconhecimento das provas da defesa, a farsa do dinheiro público e do desvio dos recursos da Visanet, o uso indevido da Teoria do Domínio do Fato, o julgamento durante as eleições, as condenações as vésperas do primeiro e segundo turno, as penas absurdas numa violação aberta do código e da jurisprudência, a ausência de ato de oficio, no meu caso o reconhecimento explícito pelo MP e Ministros da ausência de provas.”
O ex-deputado lembra que hoje há “farto material de provas colhidos pela revista Retrato do Brasil” que provam o uso regular dos recursos da Visanet e apontam os erros grosseiros da procuradoria e do STF.
Íntegra da mensagem de Dirceu:
Prezada … minha gratidão pelo apoio, solidariedade e presença amiga, vou lutar, vamos lutar, ate provar minha inocência, vou à revisão criminal e às cortes internacionais, a farsa e o julgamento de exceção têm que ser denunciados, a violação dos mínimos direitos da defesa e das garantias individuais, a ausência da dupla jurisdição, a opressiva publicidade, um julgamento ao vivo pelas redes de TV, a falta de provas, o desconhecimento das provas da defesa, a farsa do dinheiro publico e do desvio dos recursos da Visanet, o uso indevido da Teoria do Domínio do Fato, o julgamento durante as eleições, as condenações as vésperas do primeiro e segundo turno, as penas absurdas numa violação aberta do código e da jurisprudência, a ausência de ato de oficio, no meu caso o reconhecimento explicito pelo MP e Ministros da ausência de provas, há farto material de provas colhidos pela revista Retrato do Brasil. Vamos à luta, conto com você e sua indignação que é minha também. Estou às ordens para juntos vencermos essa batalha, nada me impedirá, vou lutar sempre. abraços Ze


A candidatura do PSDB 

volta à estaca zero            

Em torno da construção da candidatura de Aécio, FHC reassumiu o comando do PSDB, inclusive sobre o programa para 2014. Mas Serra ainda é o espectro que ronda o partido a cada campanha e segue como um de seus problemas. Enquanto patinam, Dilma tem dianteira de quase o triplo das intenções de voto sobre os tucanos.


Antônio Lassance (*)                                            
Tarde demais para voltar atrás

O muro, que tantas vezes serviu de metáfora para os tucanos, funciona como nunca enquanto representação de um partido emparedado.

Seu candidato preferencial, Aécio Neves, não deslancha nas pesquisas. Ao contrário, recuou. Sua primeira estratégia naufragou e ele corre contra o tempo para aprumar-se. Com a mística mineira de que come quieto, pelas beiradas, e de que devagar se vai mais longe, Aécio tratou de sua candidatura como se tivesse todo o tempo do mundo. Foi engolido pelos acontecimentos.
                                                 

Em 2012, Aécio articulou dentro do PSDB para que recebesse apoios firmes e tivesse seu nome aventado como a bola da vez. Em seguida, em fevereiro de 2013, fez um discurso de candidato ao qual a velha mídia só não deu mais destaque porque o conteúdo era fraco, e sua oratória, sofrível. Em maio, foi eleito presidente do Partido, forma de insuflar sua evidência nacional e estreitar os laços com os diretórios regionais. Finalmente, em agosto, recebeu o apoio dos presidentes dos 27 diretórios estaduais. Cada evento dessa natureza foi organizado para consolidar Aécio como a opção incontestável do PSDB para 2014. No entanto, quanto mais reafirmam o senador como "o" candidato, menos seguros os tucanos estão de que fizeram a escolha acertada. A única certeza é a de que é tarde para voltar atrás.

Quando parecia que tinha tudo para se aproximar dos 20% de preferência dos eleitores, vieram as manifestações de junho. Entre julho e agosto, suas intenções de voto caíram perigosamente para próximo da linha dos 10%.

O partido que tanto esperou por outras candidaturas para favorecer as chances de um segundo turno corre o risco de, se houver, não ser convidado para a festa. A torcida para que Marina e Eduardo Campos entrassem no páreo agora vem misturada com o frio na barriga de que a Rede e o PSB lhe roubem a maior parte dos votos que não irão para o PT.

Para piorar, José Serra, seu arquirrival, apareceu melhor pontuado nas últimas pesquisas. Eterno candidato, Serra mostrou que tem bom "recall" (é bem lembrado), embora também seja dono da maior de todas as rejeições (é extremamente mal lembrado).
                                      
                                                         Amizade mais falsa do que nota de 30 reais
Serra apresenta suas armas
Misto de zumbi e kamikaze, a candidatura Serra é um espectro que ronda o PSDB a cada quatro anos e permanece como um de seus grandes problemas.

A guerra travada nos bastidores contra Aécio Neves é bem maior que a troca de farpas que circula pela imprensa. Enquanto muitos dos analistas se debruçam mais sobre os golpes abaixo da linha de cintura, as verdadeiras batalhas tiveram como cenário não só as hostes tucanas. As disputas mais encarniçadas e ferozes se deram pelo apoio de outros partidos, como o PSD, o PPS, o PMN e o DEM.

Serra estava recolhido, desde o início do ano, diante não apenas da costura partidária pavimentada por Aécio. Havia uma restrição importante à sua candidatura por parte dos grandes financiadores de campanha, mais exatamente, dos bancos. Sondados desde o final de 2012, eles responderam que o mais importante critério para o apoio concentrado de oposição a Dilma era o de arranjar um nome realmente competitivo. A rejeição no eleitorado e o histórico de derrotas pesaram contra o velho postulante de sempre. Hoje, a ascensão de Marina e o fato de ela ter se cercado de interlocutores da cozinha do sistema financeiro privado criaram um compasso de espera entre os grandes financiadores. Enquanto Serra foi imediatamente preterido, o ímpeto pela campanha de Aécio também sofreu um refluxo.

A prioridade de Aécio vinha sendo a de desbastar arestas internas e dar coesão ao PSDB nos estados. Serra, por sua vez, saiu a campo com a estratégia de mostrar-se mais competitivo por sua capacidade de atrair apoio de outros partidos. Aécio partia apenas da fidelidade canina do DEM em quase todas as campanhas presidenciais do PSDB (à exceção da de 2002) e da sinalização de apoio de Paulinho da Força, com seu partido em gestação, o Solidariedade, que, pelo andar da carruagem, deve nascer nanico, bem abaixo do peso declarado por seu progenitor.

Serra foi para cima do PSD, do PPS e do PMN. Rapidamente conseguiu uma simulação de neutralidade do PSD em relação ao governo Dilma. Depois, ganhou de presente de Gilberto Kassab uma declaração de compromisso, segundo a qual, fosse Serra candidato, Kassab se sentiria na obrigação de apoiá-lo. O presidente do PSD pôde retribuir e agradar aquele que foi responsável por tê-lo guindado à prefeitura sem ter que apoiá-lo ao final. Julgava remota, como de fato é, a chance de ver Serra candidato.

Em seguida, Serra acionou Roberto Freire (PPS-SP) para dar andamento à ideia de fusão do PPS com o PMN, que levaria à criação do MD (Mobilização Democrática). Freire em momento algum escondeu que o movimento estava sendo feito patrocinado por Serra.
                                                 
FHC assume o comando
A certa altura, Serra não apenas rivalizava com as intenções espontâneas de Aécio como se mostrava mais apto a conquistar, com outros partidos, mais tempo de TV e rádio para os tucanos. Teria assim uma candidatura mais robusta que a de Aécio. O laço final do embrulho foi a ameaça de abandonar o partido e fazer carreira solo, o que o trouxe definitivamente de volta ao jogo. A ofensiva assustou Aécio e forçou sua reação. Conseguiu, do DEM e do PPS, a garantia de que, se conseguisse unir o PSDB e demover Serra da tentativa de ser candidato, contaria com o apoio desses dois partidos.

Mais importante, convenceu FHC a agir de modo mais ostensivo a seu favor. Usou, para isso, dois argumentos que soavam como música aos ouvidos do ex-presidente. Primeiro, o de que FHC era a única pessoa capaz de unir o PSDB em torno de um só candidato. Aécio se apresentava com a proposta de ser, antes de uma candidatura do PSDB, uma candidatura de FHC. Estava ali o ex-presidente diante de alguém que lhe rogava ser transformado em sua criatura. Em troca, Aécio se comprometia a resgatar a imagem desgastada da presidência FHC, defendendo-a sem constrangimentos. Era tudo o que FHC gostaria de ouvir e de ver acontecer em uma nova campanha do PSDB, sepultando de vez as experiências de 2002, 2006 e 2010, quando seus 8 anos de governo foram renegados por Serra e Alckmin.

Ao invés de uma candidatura com vergonha de defendê-lo, finalmente aparecia um candidato sem vergonha de ser privatista, contracionista, pró-globalização, desregulamentador, gerencialista, enfim, alguém para fazer uma campanha com a cara e o legado de FHC. O discurso ainda viria a calhar na estratégia de recuperar o entusiasmo dos bancos no patrocínio à candidatura.

A operação desmonte da candidatura Serra
Sobre Alckmin, a pressão veio no sentido de disseminar incertezas sobre sua reeleição em 2014. Afinal, o que garantiria que as articulações de Serra, embora a princípio mirassem a campanha presidencial, não fossem ao fim direcionadas para uma candidatura a governador contra o próprio Alckmin? A cizânia surtiu efeito rapidamente. Em março, Alckmin sacramentou seu apoio à eleição de Aécio como presidente do Partido. A única condição imposta foi: una o partido - ou seja, resolva o problema chamado José Serra.

A jogada seguinte de Aécio foi desmontar a operação de fusão do PPS com o PMN. O alvo central foi o PMN. Contra a negociação nacional para a fusão que criaria o Mobilização Democrática (MD), capitaneada por Freire, agiram dois pesos pesados. O próprio Aécio entrou em cena diretamente sobre o PMN mineiro, enquanto Alckmin atuou sobre o PMN paulista. Em ambos os casos, o PMN é inquilino do condomínio peessedebista dos governos de cada um desses estados. Entre trocar o certo pelo duvidoso, o PMN preferiu agir pragmaticamente. Calculou que valia mais a pena ser leal aos governos do que a uma pré-candidatura instável (Serra). Desfez seus acertos com o PPS alegando questões programáticas sobre reforma política e prioridade às bases municipais. Traduzindo: os governos aliados a Aécio cobriram a oferta de Serra e Freire e a ideia da MD se dissipou feito fumaça.   
                                           
A sucessão de estocadas irritou Serra, mas também o enfraqueceu. A ameaça de sair do partido acabou posta sobre a prateleira, trocada pela insistência em realizar prévias. Alckmin foi o primeiro a manifestar-se favoravelmente à ideia. Não apenas para contemporizar com Serra, cuja presença no PSDB paulista é considerada intimidatória sobre o grupo alckmista. Depois que Serra dissera que certamente seria candidato “a alguma coisa” em 2014, Alckmin passou a ver as prévias como uma maneira de amarrá-lo ao PSDB, enterrando por completo qualquer ameaça à sua candidatura à reeleição do Governo do Estado. Aécio chegou a cogitar que as prévias ocorressem depois de 5 de outubro, tirando a chance de Serra, se derrotado, mudar de partido. A proposta carimbaria a desconfiança contra Serra dentro do próprio PSDB.

No capítulo mais recente da novela, FHC deixou de fazer o papel de bombeiro e preferiu incinerar de vez as pretensões serristas. Em entrevista ao jornal Valor Econômico (26/8/2013), foi duro com Serra e fez uma defesa enfática da candidatura de Aécio. Disse que era muito difícil que ocorressem prévias e afirmou que "a imensa maioria do PSDB quer Aécio". Foi além ao dizer que Serra era um "ser racional", que deveria ser realista e que seu palpite era de que ele fica no PSDB. Para bom entendedor, FHC acusou Serra de estar blefando.

O recado, dado em alto e bom som, era o de que aquela pré-candidatura estava isolada e esvaziada dentro e fora do PSDB. Se saísse do partido, sairia sozinho, abandonado inclusive por seus aliados mais próximos, como o senador Aloysio Nunes Ferreira.

Em torno da construção da candidatura de Aécio, FHC reassumiu o comando estratégico do PSDB, inclusive sobre o programa para 2014. Foi ele um dos primeiros a arquitetar a candidatura de Aécio e, agora, era o responsável por jogar a pá de cal sobre Serra.
                                    
Xeque! Cabe a Serra a próxima jogada.
Enquanto isso, a pouco mais de um ano das eleições, Dilma tem uma dianteira de quase o triplo das intenções de voto em relação aos tucanos, que patinam na tentativa de sair da estaca zero.

(*) Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). 

Debate sobre os médicos

me dá vergonha                

Gilberto Dimenstein                            folha de são paulo                                 paulo
O perfil dos médicos cubanos é o seguinte: em geral, eles têm mais de uma década de formados, passaram por missões em outros países, fizeram residência, parte deles ( 20%) cursaram mestrado e 40% obtiveram mais que uma especialização.

Para quem está preocupado com o cidadão e não apenas com a corporação, a pergunta essencial é: essa formação é suficiente?

Aproveito essa pergunta para apontar o que vejo como uma absurda incoerência - uma incoerência pouca conhecida da população - de dirigentes de associações médicas. Um dos dirigentes, aliás, disse publicamente que um médico brasileiro não deveria prestar socorro (veja só) se um paciente for vítima de um médico estrangeiro. Deixa morrer. Bela ética.

Provas têm demonstrado que uma boa parte dos alunos formados nos cursos de medicina no Brasil não está apta a exercer a profissão. Não vou aqui discutir de quem é a culpa, se da escola ou do aluno. Até porque para a eventual vítima tanto faz.

Mesmo sendo reprovados nos testes, os estudantes ganham autorização para trabalhar.
Por que essas mesmas associações, tão furiosas em atacar médicos estrangeiros, não fazem barulho para denunciar alunos comprovadamente despreparados?
A resposta encontra-se na moléstia do corporativismo.

Se os brasileiros querem tanto essas vagas por que não se candidataram?
Será que preferem que o pobre se dane apenas para que um outro médico não possa trabalhar?

Sinceramente, sinto vergonha por médicos que agem colocando a vida de um paciente abaixo de seus interesses.
Gilberto Dimenstein
Gilberto Dimenstein ganhou os principais prêmios destinados a jornalistas e escritores. Integra uma incubadora de projetos de Harvard (Advanced Leadership Initiative). Desenvolve o Catraca Livre, eleito o melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela Deutsche Welle. É morador da Vila Madalena.