sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Veja, em 1999: “O milagre veio de Cuba”                                                         

(Só que, naquele tempo, o governo era do PSDB, de FHC, com José Serra no Ministério da Saúde...E a mídia do PiG elogiou! Agora, claro, mudou de figura: trata-se de um     programa de amplo espectro e caráter nacional, o MAIS   MÉDICOS de Dilma, do PT...)                                               

Do AMgóes - A suposta 'indignação', que corre solta nas redes sociais, é ou não           sacanagem explícita com  'Padrão FIFA'?  Será que os 'coxinhas' de hoje subiriam nas tamancas face à 'importação milagrosa' de médicos cubanos por alguns municípios     (carentes CRÔNICOS de profissionais brasileiros), quase 15 anos atrás?                       

Blog FALANDO VERDADES  Reproduzindo a revista VEJA, de  20/10/1999
      

Proteção a um corrupto notório

Atitude irresponsável na Bolívia suscita suspeitas de toda natureza e não pode ficar impune 

                                                Blog do Pedro Porfírio                                                       
Tem que ser um pigmeu estúpido, desonesto e mal intencionado para aplaudir a suspeitosíssima "operação de guerra"  conduzida por um "diplomata" irresponsável (no mínimo) que deu fuga a um bandido do colarinho branco, condenado na Bolívia por corrupção e respondendo a outros 19 processos, inclusive pelo envolvimento no massacre de 11 agricultores indígenas em 11 de setembro de 2008. 
20 processos esperam este corrupto na Bolívia
Pelo que sei desse senador bilionário, tenho todo direito de suspeitar que rolou muita grana ao ponto de levar um secretário de Embaixada a arriscar sua própria carreira para envolver o Brasil numa situação desconfortável e gerar um clima beligerante entre dois países irmãos.

E pelo que sei da política intervencionista e colonialista dos Estados Unidos, não me surpreenderia se essa "fuga" tenha sido planejada e monitorada por uma dessas dezenas agências e empresas terceirizadas de espionagem a serviço de Washington, que tem investido pesado contra o governo do indígena socialista Evo Morales.

Se fosse num país de olhos azuis eu duvido que esse "diplomata" ousasse tal operação. Mas como a Bolívia é uma das nações mais pobres do Continente, como não tem bala na agulha, consumou-se uma das mais insólitas violações das relações internacionais, decorridas algumas semanas de outra humilhação, quando governos da Europa quase provocam um acidente fatal com o avião que conduzia o presidente Evo Morales, sob o pretexto de que ele estaria transportando o norte-americano que revelou ao mundo a espionagem cibernética dos Estados Unidos.

Afronta sem precedentes e indefensável

O que aconteceu neste último fim de semana foi uma afronta inqualificável e indefensável sob todos os aspectos. Feito maior autoridade da embaixada brasileira em La Paz, um medíocre e desconhecido Eduardo Saboia ( desses que entram na diplomacia por "herança", mas sem vocação) convocou dois fuzileiros navais e usou carros oficiais para transportar um políticoficha suja até Corumbá, do lado de cá da fronteira, mesmo sabendo que estava cometendo uma gravíssima violação dos seus deveres e comprometendo a seriedade da diplomacia brasileira.

Esse senador, corrupto de papel passado, gozava indevidamente de asilo diplomático e comandava seus negócios escusos de dentro da Embaixada, um edifício confortável conectado ao mundo, onde gozava de todas as regalias e comia do bom e do melhor.

Dono de muitas terras e considerado o maior pecuarista da região norte da Bolívia, na fronteira com o Brasil, teve sua fortuna multiplicada às custas de desvios de verbas federais como governador do Departamento de Pando e diretor da Zona Franca de Cobija, sua capital, onde se apossou irregularmente de muita grana, inclusive de recursos da Universidade Amazônica de Pando.

Percebendo que ia ser condenado já em junho passado, antecipou-se em maio e negociou com o ex-embaixador Marcel Biato sua entrada na embaixada brasileira, sob a alegação de estava sendo vítima de perseguição política. Ao mesmo tempo, mandou a família para o Acre, bem próximo dos seus latifúndios.

Ele já estava sob proteção diplomática quando foi condenado pela Justiça boliviana “por ter agido contra a Constituição e as leis, por prevaricação, e por causar prejuízos econômicos ao Estado de mais de 11 milhões de pesos bolivianos (US$ 1,6 milhão)”, de acordo com um relatório da Promotoria.

Cobertura inexplicável sob todos os aspectos

Mesmo assim, por decisão do controvertido ministro Antônio Patriota, que se tornou chanceler graças a um lobby intermediado pelo vice-presidente Michel Temer, o governo brasileiro formalizou a concessão do asilo diplomático, violando os termos da Convenção de Caracas, de 1954, sobre asilo político, que estabelece em seu Artigo III:
" Não é lícito conceder asilo a pessoas que, na ocasião em que o solicitem, tenham sido acusadas de delitos comuns, processadas ou condenadas por esse motivo pelos tribunais ordinários competentes, sem haverem cumprido as penas respectivas".
Não há pretexto que justifique esse contrabando, que pode muito bem estar forrado em milhões de dólares, e não há a menor condição moral do Brasil legitimá-lo agora, que esse senador corrupto terá de formalizar novo pedido.

À luz da legislação, ele está no Brasil sem qualquer sustentação legal, é protagonista de um complô que fere nossa soberania e deve ser recolhido ao presídio da Papuda ou deportado para seu país, já que dispensou o abrigo na embaixada.

Da mesma forma, esse diplomata picareta que violou as normas disciplinares da carreira deve sofrer uma punição exemplar, além de ser demitido por justa causa, por que seu gesto, alem de desmoralizar a gerar insegurança sobre o comportamento de uma diplomacia com fortes tonalidades de hereditária, compromete a credibilidade do Estado brasileiro na sua relação com o mundo.

Na mesma linha, é dever da Comissão de Ética do Senado abrir um procedimento contra  senador Ricardo Ferraço por ter envolvimento direto com a operação ilegal,  cabendo-lhe oferecer um jato executivo para o transporte do delinquente de colarinho branco até Brasília, onde está numa mansão de seu advogado esbanjando saúde.

A presidente Dilma Rousseff fez bem em livrar-se do seu chanceler incompetente, mas errou em nomeá-lo para nossa embaixada na ONU. Tudo indica que essa operação ilegal e irresponsável teve seu dedo, até por que ele sempre fez jogo duplo por suas íntimas ligações com a máquina externa dos Estados Unidos.

O que não pode é deixar isso tudo no barato, sob pena de afundar a diplomacia brasileira no lamaçal da picaretagem e da chicana. Esse Eduardo Saboia, que tem o suporte da pior direita e até medalha vai receber na Câmara do Rio por iniciativa do vereador Cesar Maia, numa descarada provocação, conta com a impunidade, o corporativismo e as fofocas que fazem do Itamarati uma casa de intrigas e baixarias, onde meio mundo tem rabo preso.
Mas se ficar por isso mesmo, ninguém poderá reclamar se os condenados do "mensalão", que tiveram um julgamento único num ambiente claramente politizado, pedirem asilo à Bolívia ou a qualquer outro país, como disse num descuido comprometedor o governador Eduardo Campos:  "cumprimos uma tradição que é própria do povo latino e do brasileiro, que é a de abrigar".

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O caso de Sabóia é de polícia


PAULO NOGUEIRA                                                    DIÁRIO DO CENTRO DO MUN DO        
Ele disse que ouviu Deus
Ele disse que ouviu Deus
O caso de Eduardo Sabóia não é diplomático.
É um caso de polícia.
Ao ajudar na fuga de um homem procurado pela polícia boliviana sob graves acusações, Sabóia ultrapassou todos os limites legais.
Na melhor das hipóteses, ele fez justiça com as próprias mãos.
Suas justificativas, até aqui, são confusas. Invocou até Deus. Disse ter ouvido, no trajeto de fuga, a voz de Deus.
Ora, para ficar no terreno das crenças religiosas, alguém poderia rebater que foi o diabo se fazendo passar por Deus.
Comparou a embaixada brasileira em La Paz ao Doi Codi, o lugar em que eram presos e torturados opositores da ditadura militar brasileira.
Alguém imagina que Molina, o acusado, vivesse em condições menos confortáveis que as de Julian Assange na embaixada equatoriana em Londres?
Jornalistas brasileiros preguiçosos que tentam fazer dele um mártir foram, em algum momento, descrever como era a vida de Molina na embaixada?
Assange não tem como pegar sol, por exemplo, na acanhada embaixada equatoriana perto da Harrods. Puseram um aparelho que compensa a falta de sol.
Também não tem como se exercitar, e uma esteira foi colocada ali para que ele mantenha a forma.
Molina estava em situação pior?
Quem acredita nisso acredita em tudo, como disse Wellington.
Sabóia disse que resolveu um problema político.
Ora, ele criou um grande problema com um desrespeito histórico ao governo de Evo Morales.
Onde estaria toda essa bravura se o detido fosse um americano acusado de crimes por Washington?
Molina não estava bem, psicologicamente? Assange está? Manning estava, em sua temporada numa solitária? Os presos sem julgamento de Guantánamo estão?
humanidade está?
Sabóia está fazendo chantagens, agora. Diz que tem mensagens capazes de incriminar outras pessoas.
Que as mostre, se tem – à polícia.

GLOBO CENSURA VETERANO REPÓRTER
QUE ELOGIA MEDICINA DE CUBA                 

Site da GloboNews prefere a Tacanhêde… Qual a novidade ?
Paulo Henrique Amorim                                    CONVERSA AFIADA                             
Pontual: problema do Dr CRM é com o Che Guevara ...
                                                                  
Navegante do Tijolaço recupera destemida intervenção de Jorge Pontual, da Globo Overseas, em Nova York.

Não vai durar muito lá … 

Quem manda dizer que a medicina em Cuba, comunitária, preventiva, resulta em  índices melhores que os americanos ?
O Gilberto Freire com “i” (*) jamais o perdoará !

Quem vai longe na Globo Overseas é a 'Tancanhêde'.

Já, já assume o “Entre Caspas”.

GLOBONEWS “APAGA” PONTUAL E DEIXA SÓ CANTANHÊDE FALAR DE CUBA


O internauta que visitar a página do programa 'Em Pauta', da Globonews, só vai ouvir falando sobre a questão dos médicos de Cuba a comentarista Eliane Cantanhêde que, claro, desce a lenha no governo cubano, que vai se loucupletar co o trabalho daqueles pobres escravos.

Claro, a colunista da massa cheirosa, não podendo fazer outra coisa, entra na linha dos “pobres cubanos”, caçados a laço para estudar medicina e mandados sob chIcote, em aviões negreiros, para trabalhos forçados no Brasil.

Não puseram um segundinho do jornalista Jorge Pontual que, em lugar de ficar de chororô, prefere falar de como renasceu e com que características se desenvolveu a liderança de Cuba em atenção médica, que faz com que uma pequena ilha possa estar mandando médicos para um país enorme como o Brasil.

Pontual não vai ao ar na página da GloboNews, mas vai aqui, porque o internauta Felix Rigoli gravou e colocou no YouTube, de onde fomos pegar para colocar no Tijolaço. Vale a pena porque são três minutos de boa informação, com dados e explicações sobre o tema, em lugar de politicagem hipócrita sobre os médicos.

A gente posta aí embaixo o que a GloboNews sonegou na internet.
Diante da repercussão negativa, o canal da GloboNews, publicou no inicio da noite o vídeo do jornalista Jorge Pontual. Menos mal, que continue assim.
COPIE O 'LINK' ABAIXO NA BARRA DE ENDEREÇO DE NOVA GUIA E ASSISTA AO PONTUAL, CENSURADO NA GLOBONEWS...
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Sigtj8LaLV0
(*) Ali Kamel, o mais poderoso diretor de jornalismo da história da Globo (o ansioso blogueiro trabalhou com os outros três), deu-se de antropólogo e sociólogo com o livro “Não somos racistas”, onde propõe que o Brasil não tem maioria negra. Por isso, aqui, é conhecido como o Gilberto Freire com “ï”. Conta-se que, um dia, D. Madalena, em Apipucos, admoestou o Mestre: Gilberto, essa carta está há muito tempo em cima da tua mesa e você não abre. Não é para mim, Madalena, respondeu o Mestre, carinhosamente. É para um Gilberto Freire com “i”.


Dez coisas que você precisa
saber sobre os cubanos        
(copiado da página da Dayse M. Duarte - Rio de Janeiro, no Facebook)

   1) Sim, eles falam outra língua, mas é           parecida com a nossa. Não    há dificuldade   na comunicação.

  2) Eles são como nós, resultado de bela        mestiçagem. São taínos,     ciboneys,  europeus ibéricos, africanos e tudo isso  junto.

  3) O modelo de educação socialista               praticamente aboliu o racismo   naquele       país. É uma cultura humana de respeito à     diversidade.

  4) Os cubanos sorriem bastante, gostam de   humor e de uma boa prosa.

  5) Como médicos, são bons psicólogos. Conversam bastante, são meticulosos e raramente diagnosticam uma simples virose.

  6) Os cubanos fizeram o único país das Américas onde não há mais crianças desnutridas.

7) Sim, eles são ótimos para lidar com problemas básicos de saúde, mas também são bambas em biotecnologia. Nos últimos anos, registraram 600 patentes de remédios, vacinas, softwares e equipamentos de diagnóstico. Foi lá que se desenvolveu, por exemplo, a vacina contra o câncer de pulmão.

 Nos últimos anos, Cuba se viu livre da difteria, do sarampo, da coqueluche, da poliomielite e da febre amarela, entre outras doenças.

9) O país com o maior número proporcional de centenários (pessoas com 100 anos ou mais) é Cuba. Supera de longe o Japão, que fica em segundo lugar.

10) Médicos cubanos recebem forte formação humanista. Sabem que não exercem a profissão como um negócio, mas como uma forma solidária de gerar saúde e bem-estar. Que sejamos conscientes para estabelecer com eles uma sólida relação fraterna. Ganhamos todos.

Jornal do SBT: Flagrante indecoroso no “Menos Médicos” fluminense         

Copie o 'link' abaixo na barra de endereços de nova guia e assista ao procedimento criminoso de médicos no serviço público fluminense, especificamente em balneários da valorizada Região dos Lagos. São médicos brasileiros com práticas delituosas na próspera periferia do segundo maior centro do país, Rio de Janeiro, a exemplo do que já mostramos nesta página em relação a São Paulo. Imagine o que outros não fazem Brasil afora...
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=SVYsenbBo8U

Severinas: as novas mulheres do sertão

                     


Titulares do Bolsa Família, as sertanejas estão começando a transformar seus papéis na família e na sociedade do interior do Piauí e se libertando da servidão ao homem, milenar como a miséria. Por Eliza Capai, da Agência Pública.


“Cada um tem que saber o seu lugar: a mulher tem qualidade inferior, o homem tem qualidade superior.” É bem assim que fala, sem rodeios, um dos homens mais respeitados do município de Guaribas, no sertão do Piauí, pai de sete filhos (seis mulheres e um homem). “O homem é o gigante da mulher”, completa “Chefe”, como é conhecido Horacio Alves da Rocha na comunidade.

                                      

Para chegar a Guaribas são dez horas desde a capital, Teresina, até a cidadezinha de Caracol. Dali, 40 minutos de estrada de terra cercada de caatinga até o jovem município, fundado em 1997. Em 2003, Guaribas foi escolhida como piloto do programa Fome Zero. Tinha então o segundo pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil, 0,214 – para efeito de comparação, o país com pior IDH do mundo é Burundi, na África com índice 0,355. Hoje, Guaribas tem 4.401 habitantes, 87% deles recebendo o Bolsa Família. São 933 famílias beneficiadas, com renda média mensal de R$ 182. O IDH saltou para 0,508.

Em todo o Brasil, o Bolsa Família atende a 13,7 milhões de famílias – sendo que 93,2% dos cartões estão em nome de mulheres. São elas que recebem e distribuem a renda familiar.

“Eu vivi a escravidão”, diz Luzia Alves Rocha, 31 anos, uma das seis filhas de Chefe. Aos três meses, muito doente, ela foi dada pelo pai para os avós criarem. Quando eles morreram, uma tia assumiu a menina. “Achei que ela não ia aguentar aquela vida de roça: era vida aquilo?”, pergunta a tia Delci. Luzia trabalhou na roça, passou fome, perdeu madrugadas subindo a serra para talvez voltar com água na cabaça. “Quando tinha comida a gente comia, se não, dormia igual passarinho”, diz. Trabalhava sem salário, sem nenhum direito trabalhista, sem saber como seria a vida se a seca não passasse e a chuva não regasse o feijão e a mandioca. Era “a escravidão”.

Quando a seca piorou, Luzia pensou em migrar para São Paulo. Foi então que chegou o programa social do governo: “Com esta ajudinha já consigo levar”, diz. Luzia decidiu ficar em Guaribas. Os filhos estudam. O marido e ela cuidam da roça.

“A libertação da ‘ditadura da miséria’ e do controle masculino familiar amplo sobre seus destinos permite às mulheres um mínimo de programação da própria vida e, nesta medida, possibilita-lhes o começo da autonomização de sua vida moral. O último elemento é fundante da cidadania”, analisam os pesquisadores Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani, da Universidade de Campinas e da Universidade Federal de Santa Catarinas, no livro Vozes do Bolsa Família: Autonomia, dinheiro e cidadania. Durante a pesquisa, eles ouviram beneficiários do programa observando as transformações decorrentes do Bolsa-Família – em especial na vida das mulheres. Chegaram à conclusão que a mudança é grande: “Quando você tem um patamar de igualdade mínimo, você muda a sociedade. Claro que as coisas não são automáticas. Isto não pode ser posto como salvação da nação, mas é um começo.”

Luzia conseguiu realizar o sonho de diversas das mulheres ouvidas pela socióloga Walquiria Leão. Ela juntou R$ 50 e seguiu para o hospital da cidade vizinha, de São Raimundo Nonato para fazer laqueadura das trompas: “se tivesse mais filho a vida ia ser mais pior”. Segundo Walquíria, o desejo de controlar a natalidade foi manifestado por diversas das mulheres que ela entrevistou entre 2006 e 2011 em Alagoas, Vale do Jequitinhonha, Piauí, Maranhão e Pernambuco.

Serena, uma das filhas de Luzia, tem 8 anos e está na terceira série. Ela ajuda a arrumar a casa, já sabe cozinhar, ajuda na roça. Mas não perde suas aulas. Logo depois de cantar o alfabeto e os números, diz que quer ser “advogada e médica”. Quando perguntada sobre casamento, a pequena afirma, com a mão na cintura: “eu não vou casar, vou ser sol-tei-ra…”, diz, demorando nas sílabas.

Em maio o valor do Bolsa Família de Luzia saltou de R$ 70 reais para R$ 212. A mãe comemora: “Agora já posso comprar as coisas para minha filha: a sandália dela arrebentou e pude comprar outra”. No pé da menima, o calçado que custou R$ 7,50. “Primeiro comprei para a menina, num outro mês compro pra mim”, explica Luzia, com os pés descalços.

"MINHA SINA"
Do outro lado do vale que liga o centro de Guaribas ao bairro Fazenda, Norma Alves Duarte, 44 anos, vive numa casa de dois quartos. Na sala, paredes mal rebocadas mostram as marcas da massa corrida. No canto, um pequeno móvel com uma TV. A vida toda ela ajudou a mãe doente, quase não estudou – cursou até a segunda série. Como todas as mulheres dali, as atividades de criança incluíam colher feijão, pegar lenha e buscar água no olho d’água, que fica a dois quilômetros.

Norma tem 12 irmãos, 2 filhos e vive com o segundo marido – o primeiro a abandonou depois de 20 dias. “Era pau e cachaça. Aí depois arrumei o pai destes meninos. É bom mas é doido, vaidoso o velho, bebedor… Ele é bruto demais, ignorante que só. Fazer o que né? Destino é destino: quem traz uma sina tem que cumprir.”

“Esta palavra, sina, faz parte do que nós chamamos de cultura da resignação e acho que ela foi de fato rompida com o Bolsa Familia”, diz a socióloga Walquiria Leão.

No início do programa, Norma ganhava R$ 42 com seu cartão. Agora “tira” R$ 200. “Mudou, porque eu pego meu dinheirinho, compro minhas coisas, assim mesmo ele (o marido) xingando. Eu não dou ele, ele tem o dele. Ele não me dá nenhum real, bota para comer dentro de casa mas não me dá nem um real, nem dez centavos.” Para Walquíria Leão, “a renda liberta a pessoa de relações privadas opressoras e de controles pessoais sobre sua intimidade, pois a conforma em uma função social determinada, permitindo-lhe mais movimentação e, portanto, novas experiências”.

MAIS DIVÓRCIOS

Ao saírem da miséria, “da espera resignada pela morte por fome e doenças ligadas à pobreza”, nas palavras de Walquiria, estas mulheres começam a protagonizar suas vidas.

No vilarejo de Cajueiro, a uma hora do centro de Guaribas por uma estrada de terra esburacada, a água ainda não chegou às casas. Elenilde Ribeiro, 39 anos, caminha com a sobrinha por um areial com a lata na cabeça, outra na mão. É ela quem cria a menina. “Não quero que ela sofra como eu sofri”, diz. Chegando na casa, o capricho se mostra nos paninhos embaixo de copos metálicos, na estante com fotos de família, o brasão do Palmeiras, e um gato de louça ao lado da imagem de Jesus. Do lado de fora, o banheiro – onde se usa caneca e penico –, um pátio bem varrido, uma horta suspensa, e uma pilha de lenha que Elenilde mesma coleta e quebra, apontando: “está aqui meu botijão de gás”.

Os olhos de Elenilde marejam quando conta ter sido abandonada pelo marido há treze anos, mas seu tom de voz muda ao falar do papel da renda em sua vida. “Tiro R$ 134 no meu cartão Bolsa Família mas para mim está sendo mil. Porque com este dinheirinho eu tenho o dinheiro certo para comprar (na venda) e o dono me confia. E eu sei que com isso, com ele me confiar, eu já estou comendo a mais”, explica. Elenilde também se livrou de trabalhar na roça dos outros em troca de uma diária de R$ 5. “Eu quando pego o meu dinheiro (do cartão) vou na venda, pago a conta mais velha e espero pela vontade do vindião, aí ele vai e me franqueia… E eu vou e compro de novo”. Segundo Walquíria Leão, isso tem ajudado a mulher a conquistar um novo papel na comunidade. “A experiência anterior de vida era sempre de ser desrespeitada, desconsiderada porque ela não tinha dinheiro”.

No final da mesma rua, Domingas Pereira da Lima, 28 anos, não se arrepende de ter abandonado o marido. “Ele ficava namorando com uma e com outra e eu num resisti, vim embora”. Prendendo o choro, ela continua: “Deixava eu com as crianças e se tacava no meio do mundo. A vida não é fácil mas vou levando a vida devagarzinho aqui.” Desde então, Domingas cuida dos quatro filhos com o apoio das irmãs e da mãe.

Em 2003, quando chegou o Fome Zero, foram solicitados 993 divórcios no Piauí. Em 2011 o número saltou para 1.689 casos. Dos casos não consensuais, 134 foram requeridos por mulheres em 2003; em 2011 esse número saltou para 413 – um aumento de 308%.

Ainda assim, na pequena Guaribas, a mulher ficar presa em casa em dias de festa, o alcoolismo e a infidelidade masculina são histórias contadas com naturalidade. “Vixi, aqui se conta nos dedos as mulheres que não apanham do marido”, é comum as mulheres dizerem.

Na delegacia da cidadezinha, o delegado explica que por ali o clima é sempre “muito tranquilo, sem nenhuma ocorrência. Só umas brigas de casal, coisa que a gente aconselha e eles voltam” diz.

Mirele Aline Alves da Rocha é uma das que se conta nos dedos. Aos 18 anos, a bonita jovem explica: “Apesar da minha idade já ser avançada para os daqui, eu não estou nem aí para o que eles falam. Eu quero é estudar”. A maioria das amigas se casaram aos 13 anos. Já Mirele, soteira, cursa o terceiro ano do Ensino Médio na escola estadual de Guaribas, onde vive com a tia – os pais moram no município de Cajueiro. O cartão do Bolsa Família está no nome da mãe, que recebe R$ 102 por Mirele e pelo caçula de nove anos. Ambos estudam. “Eu vejo a realidade da minha mãe e não quero seguir pelo mesmo caminho. Eu quero estudar para ter um futuro, para ser independente, para não ficar dependendo de um homem”, decreta a jovem.

No primeiro bimestre de 2013, em Guaribas, a frequência escolar atingiu o percentual de 96,23%, para crianças e adolescentes entre 6 e 15 anos – o equivalente a 869 alunos – e 82,29% para os jovens entre 16 e 17 anos, de um total de 175.

Mirele vai fazer o Enem e “ver o que dá”. Para cursar faculdade ela terá que sair de Guaribas mas planeja se graduar e voltar: “Gosto mesmo é daqui”.

“Nunca é demais lembrar que nossa pobreza não é um fato contingente, mas deita raízes profundas na nossa história e na forma de conduzir politicamente as decisões estatais”, avalia Walquiria. “O Bolsa Família deveria se transformar em política publica, não mais política de um governo”. “É um processo, um avanço que mal começou. E ainda é muito insuficiente. Mas quem narra uma história tem que ser capaz de narrar todos os passos desta história”, finaliza.

(*) Eliza Capai é documentarista independente, autora do filme Tão Longe é Aqui. Esta reportagem foi realizada através do Concurso de Microbolsas de Reportagem da Pública.