segunda-feira, 29 de julho de 2013

Protestos não ajudarão direita, diz brasilianista

Segundo o professor Timothy Power, da Universidade de Oxford, “Dilma está mais fraca”, mas isso não melhora as chances eleitorais de nenhum dos seus adversários


Sylvio Costa
A agenda dos brasileiros tornou-se “pós-materialista”, afirma Timothy. Questões ligadas à “sobrevivência física e econômica são menos importantes no Brasil atual”
Dos acadêmicos estrangeiros que adotaram o Brasil como objeto de estudos (os chamados “brasilianistas”), o cientista político Timothy Power está entre os mais ativos. Nascido nos Estados Unidos, mas há sete anos residindo na Inglaterra, ele dirigiu entre 2008 e 2012 o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Oxford, no qual continua coordenando o programa de estudos brasileiros. Seu interesse pelo país, onde faz pesquisas desde 1990, se faz sentir na fluência com que fala português, com um sotaque bastante discreto.
Congresso em Foco encontrou Timothy por acaso, ao fim da tarde da última quinta-feira, no Senado. De saída de uma reunião no Instituto Legislativo Brasileiro (ILB), com o qual organiza um seminário sobre “presidencialismo de coalizão”, a se realizar em setembro, ele topou conversar sobre o significado dasmanifestações que ganharam as ruas brasileiras e o impacto que elas podem ter nas próximas eleições.
Apesar da ligeireza da conversa (pouco mais de 20 minutos), o pesquisador fez algumas observações dignas de atenção. As mais interessantes dizem respeito ao impacto eleitoral dos protestos populares.
Na sua opinião, “forças conservadoras não vão se beneficiar” dos protestos. O que vale, no seu entender, tanto para a direita mais radical quanto para nomes como o do senador Aécio Neves (PSDB-MG). Já Marina Silva lhe parece “quase o suficientemente distante” do sistema político que as ruas repudiaram, “mas nem tanto”. Sua conclusão: “A posição da Dilma está mais fraca, mas a insatisfação não está beneficiando nenhum ator politico”. Para ilustrar a ideia, Timothy Power recorre à língua nativa: “We can’t beat somebody with nobody [você não pode derrotar alguém com ninguém]”.
O pesquisador atribui os protestos a uma reação generalizada contra os políticos e à insatisfação com a qualidade dos serviços públicos, fenômeno em que enxerga um forte componente geracional – uma nova leva de brasileiros, muitos nascidos depois da adoção do real (1994), estão “encantados” com uma “novidade”, a possibilidade de participarem da vida política e se fazerem ouvir. Ele considera baixa a influência da situação econômica no que alguns passaram a chamar de “jornadas de junho”.
E critica o PT. “Acho que o PT continua pensando nas ferramentas do passado. Por exemplo: vale mais uma CUT ou uma conta do  Twitter hoje? Para mobilizar, acho que é a conta do Twitter, né?”, diz ele, ao mesmo tempo perguntando e respondendo, com um suave sorriso estampado entre os lábios.
Seguem os principais trechos da entrevista.
Pelo que o senhor conhece do Brasil e pelo que tem visto nas últimas semanas, pergunto: o que, na sua opinião, está acontecendo no país?
Vemos uma insatisfação, um conjunto de manifestações que não são partidárias, e o que salva um pouco a presidenta é que a oposição não é direcionada contra a Presidência da República nem contra o governo, é uma coisa mais generalizada. Mas acho que o PT continua pensando nas ferramentas do passado, né? Por exemplo: vale mais uma CUT ou uma conta do  Twitter hoje? Para mobilizar, acho que é a conta do Twitter, né? Mas essas redes sociais facilitam a mobilização instantânea, que elas tornam muito fácil, mas a longo prazo ou mesmo no dia seguinte você não tem capilaridade porque não tem um mecanismo aglutinativo para continuar a mobilização. Nisso aí os movimentos mais tradicionais, os partidos, os sindicatos e o PT ganham. Então, mobilização permanente e temporária são duas coisas bem diferentes, né? Mas as pessoas estão encantadas com a mobilização temporária que se vê nas ruas, porque é novidade. É coisa geracional. Desde 92, com o impeachment do Collor, não se teve nada parecido e antes disso foi 84 com as diretas já. É uma coisa um pouco cíclica. Essa geração… tem muita gente protestando que nasceu depois do Plano Real, é um outro Brasil. É a primeira vez que eles participam…
Na sua opinião, o alvo central dos protestos seria o governo, seriam os governantes, neste caso mais em geral, seria a situação econômica ou seria algo ainda mais amplo, uma repulsa geral às instituições, a tal crise de representatividade?
Acho que são duas coisas. Uma reação contra a classe política de modo geral, acho que aí não poupam ninguém. E também uma insatisfação com a qualidade  dos serviços públicos. Muita gente lá fora, no Financial Times, no New York Times, estão tratando isso como se fosse resultado da desaceleração da economia. Acho que isso tem alguma coisa a ver, mais não muito. Eu acho que o povo não sente o pibinho como antes, o povo sentia o pibinho muito mais no final dos anos 90. Um ponto a mais de inflação ou um ponto a mais de desemprego ia matar o Fernando Henrique. Mas com o salário mínimo de hoje e a bolsa família de hoje, essas oscilações são menos importantes para o poder de consumo. O que se teve no Brasil foi uma revolução de consumo, o consumo não para… como que é credit bubble em português? Isso. Bolha de crédito.  Não para de crescer… mas  eu acho que é mais uma agenda de qualidade de vida, né? Fora do Brasil, as pessoas também estão perguntando: o que que aconteceu no Brasil? Teve uma crescente inclusão social nos últimos dez anos. Isso não deveria levar a menos protestos em vez de mais protestos? E é justamente o contrário, né? Porque as pessoas têm outros critérios comparativos. Hoje, elas aplicam critérios muito mais severos, querem mais qualidade. Trazem uma agenda que na ciência política a gente chamaria de pós-materialista. Quando a gente é materialista, pensa em emprego, inflação, sobrevivência física e econômica. Isso é menos importante no Brasil atual do que há 15 anos.
Mas as pessoas não estão tratando exatamente de questões materiais quando falam em saúde , educação, transporte, segurança publica? Todas essas coisas não têm uma dimensão materialista?
Eles foram incluídos nesse sistema, mas não gostam da qualidade dos serviços. O que o Brasil teve foi acess reforms [reformas de acesso]. Acesso às universidades, acesso ao SUS, acesso às ruas e estradas com carros, acesso aos aviões. Mas o acesso não resolve, né? Os números são impressionantes quando se conta o acesso, mas é a qualidade que estão reclamando. O cara pode comprar o primeiro carro da vida dele, mas ele não tem onde dirigir ou estacionar.
O senhor estava falando em salário mínimo. O salário mínimo brasileiro está em duzentos e tantos dólares…
Trezentos dólares. Passou de trezentos.
Tá bom. Mas isso não é nada para uma família com quatro pessoas que vá ao supermercado fazer a compra de mês, não é? Para comprar alimento, para pagar o básico do básico, o salário  mínimo brasileiro não está tão alto, se considerarmos os preços vigentes no Brasil. O país é muito caro. Será que esses protestos teriam ocorrido com a dimensão que têm ocorrido se a situação econômica fosse outra, ou seja, se a Dilma tivesse entregue o PIB e os investimentos que ela prometeu e não conseguiu entregar?
Eu tenho minhas dúvidas se esses protestos foram motivados pelo desempenho econômico do Brasil. Eu acho que isso é coisa de menor importância. Eliane Cantanhede publicou um artigo anteontem [na Folha de S. Paulo] em que ela fala assim: o pibinho tirou oito pontos da popularidade da Dilma, mas os protestos tiraram 27 pontos a mais. Isso dá um pouco a proporção…
Mas, por que tiraram? Por um mal-estar subjetivo ou por que a Dilma se atrapalhou de uma maneira absolutamente incrível, inesperada, ao reagir? Quer dizer, numa hora era a Constituinte, que horas depois já não valia mais nada, no dia seguinte era um plebiscito também proposto de forma amalucada, sem nenhuma construção prévia de consenso… Não foram essas questões que pesaram?
Eu acho que você tem razão. Dentro de um mundo de formadores de opinião, acho que você tem total razão: essas coisas pesaram. Nesse mundo a visão que se tem da Dilma e da equipe econômica é supernegativa, não tem dúvida. Mas eu duvido muito que isso se infiltrou entre os populares. Acho que houve um tipo de chain reaction [reação em cadeia] a partir de São Paulo. Me falaram, não se é verdade, que ela telefonou para o [prefeito de São Paulo, Fernando] Haddad em janeiro e pediu que ele não aumentasse a tarifa de ônibus…
… O Eduardo Paes recebeu esse pedido também…
Isso. Pedir ao povo que pague R$ 0,20 a mais parece pouca coisa, né? Isso é difícil de explicar no exterior. Dez centavos de dólar? O que houve? Se você está me dando um serviço que é uma merda, você não tem o direito de aumentar o preço. Então, quando cancelaram o aumento, isso foi uma admissão pública de que o transporte público é uma merda. É uma confissão. Sim, vocês tinham razão, não podemos cobrar mais.  Espero que agora o debate seja mais em torno da qualidade e não do preço. O problema é a qualidade.
Quem capitaliza, se é que alguém capitaliza, este momento tão peculiar da história política brasileira? Qual força politica?
A gente tem uma frase em inglês. We can’t beat somebody with nobody [“você não pode derrotar alguém com ninguém”]. A posição da Dilma está mais fraca, mas a insatisfação não está beneficiando nenhum ator politico. Mas a gente tem que comparar o Brasil com outros países. O bom é que não tem nenhum outsider no horizonte nacional. Não tem o Collor de 89, não existe.
Tem uma experiência histórica que não sei até que ponto seria aplicável à situação atual do Brasil, mas tivemos Paris de 68 e a contracultura norte-americana dos anos 60, com manifestações plurais, bastante heterogêneas, com muitas mensagens contra várias coisas mas sem apontar um caminho claro em relação ao que aqueles manifestantes pretendiam. Em Paris, isso terminou em De Gaulle e nos Estados Unidos em um período longo de hegemonia do Partido Republicano, Nixon etc. Será que no Brasil não há uma possibilidade concreta de um candidato bem trabalhado pela direita, pelas forças conservadoras, voltar ao poder?
Eu acho muito improvável. Só se os protestos continuassem com mais vandalismo, desordem, bagunça, mas acho muito difícil. Você nem tem o Enéas  hoje. Nem aquele general daqui de Brasília. Como é mesmo o nome dele?
Newton Cruz.
Newton Cruz. Você não tem mais na política nacional uma figuraças dessas.
Mas tem o Aécio Neves, que hoje une a direita. Ou não une?
Aécio Neves?
Se ficar claro para os conservadores que, "com esse cara a gente ganha a eleição", será que o eleitorado mais à direita do espectro político terá alguma hesitação em montar nessa garupa? E o Aécio nem tem essa imagem de alguém hiperconservador. Teria uma imagem de pessoa maleável, do diálogo…
O movimento é antipartido, o movimento é contra a classe politica. Não vejo um nome assim como o de Aécio Neves se beneficiando disso daí. Tem que ser um nome muito mais distante do centro do sistema político…
Marina, por exemplo?
Marina é quase o suficientemente distante, mas nem tanto. Ela está na fronteira.
O que leva o senhor a acreditar que não haveria ambiente para um candidato de perfil mais conservador ganhar a eleição?
Não vejo a direita se aglutinando em torno dos protestos, acho muito difícil.  Acho que o Brasil passou disso aí. Não existe isso mais. Forças conservadoras não vão se beneficiar. Eu acho que quem tem ideias sobre melhoria de qualidade dos serviços públicos… é um debate chato, tecnocrata, mas tem que ser por aí.
Professor, a Inglaterra está sendo muito citada como modelo a ser seguido na questão da prática médica e como inspiradora dessa exigência que o governo quer implantar para os médicos se dedicarem por pelo menos dois anos à saúde pública. O senhor tem alguma coisa que possa trazer sobre o assunto?
Eu não sou britânico, sou americano. Tenho sete anos morando lá, mas não sei nada sobre o sistema de saúde britânico. Não posso falar com autoridade sobre isso.

sábado, 27 de julho de 2013

Quem você colocaria no lugar de Dilma?

Eduardo Guimarães                             BLOG DA CIDADANIA                                        
A semana termina com outra pesquisa de opinião mostrando que a aprovação e as intenções de voto da presidente Dilma Rousseff sofreram nova queda. Após os institutos Datafolha e MDA, agora foi o instituto Ibope que não apenas confirmou os números dos outros dois institutos como também mostrou que o percentual dos que reprovam a gestão dela (49%) ultrapassou o dos que aprovam (45%).
Este Blog tem entrevistado especialistas em estatísticas políticas e econômicas a fim de que se possa entender o fenômeno de uma governante que há dois meses batia recordes de popularidade e, de repente, passou a enfrentar uma onda de reprovação como a que tem sido vista.
Nesse contexto, o sociólogo Marcos Coimbra, diretor do instituto Vox Populi, revelou um fato importantíssimo ementrevista que deu ao Blog no último dia 18: as grandes manifestações de junho, que prosseguiram em julho – com menos ímpeto, mas que prosseguiram –, não deram início à queda de popularidade da presidente da República, mas a aceleraram.
As quedas da aprovação e das intenções de voto de Dilma já se faziam sentir nas pesquisas de fim de maio, começo de junho. Abaixo, gráfico do Datafolha revelando a trajetória descendente.
Duas semanas antes da entrevista de Marcos Coimbra ao Blog, o diretor do Datafolha também falou a este espaço sobre pesquisa recém-divulgada por seu instituto. No dia 4 de julho, Mauro Paulino deu entrevista a esta página em que explicou que, independentemente dos questionamentos à metodologia do Datafolha (que não leva em consideração eleitores das zonas rurais do país), a detecção da queda da presidente ocorrera dentro da mesma metodologia usada pelo instituto anteriormente e, portanto, não havia o que questionar.
Fato: a afirmação de Paulino se mostrou certeira.
As entrevistas que os presidentes de dois dos quatro maiores institutos de pesquisa do país deram ao Blog apontaram para o mesmo fenômeno apontado pela pesquisa que o instituto MDA fez para a Confederação Nacional dos Transportes no dia 16 de julho. O post Pesquisa mostra o pessimismo como causa da queda de Dilma reporta dado que o MDA apurou e que explica a razão pela qual Dilma perdeu tanta popularidade em tão pouco tempo.
Na entrevista ao Blog, Coimbra analisou que a renitência do noticiário negativo da grande mídia sobre a economia, que teve início – com a contundência que se tem visto – a partir de janeiro, terminou por convencer um setor bem maior da sociedade de que o país deve piorar futuramente.
As manifestações de junho e julho, portanto, só fizeram essa percepção se acentuar. Ver tanta gente na rua reclamando furiosamente, depredando, incendiando, agredindo, produzindo cenas de confronto entre si e contra a polícia referendou o noticiário, levando à sensação de que se tantos reclamam é porque o barco deve mesmo estar afundando.
Esse processo de busca pelo entendimento do fenômeno político em curso no Brasil culmina, agora, ementrevista que o ex-diretor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Marcio Pochmann também deu ao Blog na última sexta-feira (26).
Se realmente o descontentamento com o que ainda não aconteceu – uma grave crise econômica – estiver por trás da considerável perda de popularidade e de intenções de voto de Dilma ao longo de maio, junho e julho, a entrevista de Pochmann indica que essa situação pode ter vida curta.
Apesar do terrorismo econômico midiático (expressão usada pelo ex-diretor do Ipea), os dados macroeconômicos estão longe de apontar para o desastre. Segundo Pochmann, o Brasil deve fechar o ano com desemprego em patamar similar ao de hoje (ou igual ou um pouco melhor), o país deve crescer mais do que no ano passado e a inflação, como tem sido nos dez anos anteriores, deve ficar dentro da meta do Banco Central.
Ora, se a razão da insatisfação com o governo Dilma decorre de crença de grande parte da sociedade no catastrofismo (ou terrorismo) econômico midiático, se as desgraças que esses órgãos de “imprensa” de oposição não-assumida alardeiam não se materializarem os que se deixaram levar por previsões pessimistas concluirão que embarcaram numa canoa furada.
Claro que a mídia continuará prevendo desgraças, mas como falta muito tempo para a eleição de 2014 a realidade terá que confirmar os vaticínios midiáticos. Não será possível continuar por mais um ano e meio dizendo que a desgraça virá. Se não vier, as pessoas terão que refletir.
No ano que vem a esta hora, estaremos às portas do início da propaganda eleitoral “gratuita” no rádio e na televisão. Naquele momento, as pessoas começarão a refletir sobre como estão as suas vidas e se perguntarão se as desgraças anunciadas se materializaram.
Se o país não tiver mergulhado no desemprego, na hiperinflação, com salários e renda das famílias despencando e a economia em recessão, será inevitável que o eleitor pergunte a si mesmo quem vai colocar no lugar de Dilma e se vale a pena trocar o “técnico” de um time que, então, será impossível negar que estará ganhando.
Como no período eleitoral a presidente terá como falar ao país sem intermediação da mídia, que distorce e até censura seus argumentos enquanto ela, de forma temerária, não usa a sua prerrogativa de convocar pronunciamentos de rádio e TV, naquele momento – com a economia indo bem, com o desemprego baixo e o país crescendo – a sociedade terá que meditar.
Quando todos os lados puderem dizer o que bem entenderem, será simples para a coalização governista lembrar o que o principal adversário de então – que, obviamente, será o PSDB – fez quando ocupou o poder. Se a economia estiver indo bem tanto quanto hoje ou mais – ou seja, se as previsões catastrofistas não se materializarem – será praticamente impossível que o brasileiro troque o certo pelo duvidoso.
Marina Silva, que foi quem mais ganhou com a perda de popularidade de Dilma, será vista em sua real dimensão: uma outsider sem base partidária e sem propostas concretas. Aécio Neves terá que enfrentar o peso de sua trajetória e de pertencer ao PSDB – partido que a maioria sabe que afundou o país quando governou – e Eduardo Campos, se realmente for para a disputa, terá que explicar por que se opõe a um projeto que integrou.
A mídia e a oposição sabem de tudo isso e, assim, apostam em que as manifestações e a perda de popularidade de Dilma piorem a economia. Há, portanto, um processo de sabotagem do país, um legítimo crime de lesa-pátria sendo cometido. Quanto pior, melhor.
Caberá a Dilma e ao PT, pois, entenderem que, mais do que criar factoides para atender ao “clamor das ruas”, cabe cuidar da economia. Mais uma vez, será ela que irá definir quem estará no Palácio do Planalto a partir de 1º de janeiro de 2015. Há que pilotar o Brasil até outubro do ano que vem sem deixar que a sabotagem destro-midiática funcione.
Sim, os agentes econômicos estão assustados e isso preocupa. O Brasil depende de investimentos internos e externos para continuar mantendo o nível de emprego e para que a atividade econômica não despenque. Contudo, apesar de o capital ter o coração de um passarinho, este país é um manancial de lucros para quem souber aproveitar e o capital sabe muito bem disso. Não rasga dinheiro.

São Paulo: Trens e Metrô 

superfaturados em 30%    


Ao analisar documentos da Siemens, empresa integrante do 

cartel que drenou recursos do Metrô e trens de São Paulo, o 

Cade e o MP concluíram que os cofres paulistas foram lesados m 

pelo menos R$ 425 milhões.


Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Sérgio Pardellas     IstoÉ independente
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PROPINODUTO 
Segundo integrantes do MP e do Cade, seis projetos de
trem e metrô investigados apresentaram sobrepreço de 30%
Na última semana, ISTOÉ publicou documentos inéditos e trouxe à tona o depoimento voluntário de um ex-funcionário da multinacional alemã Siemens ao Ministério Público. Segundo as revelações, o esquema montado por empresas da área de transporte sobre trilhos em São Paulo para vencer e lucrar com licitações públicas durante os sucessivos governos do PSDB nos últimos 20 anos contou com a participação de autoridades e servidores públicos e abasteceu um propinoduto milionário que desviou dinheiro das obras para políticos tucanos. Toda a documentação, inclusive um relatório do que foi revelado pelo ex-funcionário da empresa alemã, está em poder do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), para quem a Siemens – ré confessa por formação de cartel – vem denunciando desde maio de 2012 as falcatruas no Metrô e nos trens paulistas, em troca de imunidade civil e criminal para si e seus executivos. Até semana passada, porém, não se sabia quão rentável era este cartel.
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Ao se aprofundarem, nos últimos dias, na análise da papelada e depoimentos colhidos até agora, integrantes do Cade e do Ministério Público se surpreenderam com a quantidade de irregularidades encontradas nos acordos firmados entre os governos tucanos de São Paulo e as companhias encarregadas da manutenção e aquisição de trens e da construção de linhas do Metrô e de trens. Uma das autoridades envolvidas na investigação chegou a se referir ao esquema como uma fabulosa história de achaque aos cofres públicos, num enredo formado por pessoas-chaves da administração – entre eles diretores do metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) –, com participação especial de políticos do PSDB, os principais beneficiários da tramoia. Durante a apuração, ficou evidente que o desenlace dessa trama é amargo para os contribuintes paulistas. A investigação revela que o cartel superfaturou cada obra em 30%. É o mesmo que dizer que os governantes tucanos jogaram nos trilhos R$ 3 de cada R$ 10 desembolsado com o dinheiro arrecadado dos impostos. Foram analisados 16 contratos correspondentes a seis projetos. De acordo com o MP e o Cade, os prejuízos aos cofres públicos somente nesses negócios chegaram a RS 425,1 milhões. Os valores, dizem fontes ligadas à investigação ouvidas por ISTOÉ, ainda devem se ampliar com o detalhamento de outros certames vencidos em São Paulo pelas empresas integrantes do cartel nesses e em outros projetos.
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Entre os contratos em que o Cade detectou flagrante sobrepreço está o de fornecimento e instalação de sistemas para transporte sobre trilhos da fase 1 da Linha 5 Lilás do metrô paulista. A licitação foi vencida pelo consórcio Sistrem, formado pela empresa francesa Alstom, pela alemã Siemens juntamente com a ADtranz (da canadense Bombardier) e a espanhola CAF. Os serviços foram orçados em R$ 615 milhões. De acordo com testemunhos oferecidos ao Cade e ao Ministério Público, esse contrato rendeu uma comissão de 7,5% a políticos do PSDB e dirigentes da estatal. Isso significa algo em torno de R$ 46 milhões só em propina. “A Alstom coordenou um grande acordo entre várias empresas, possibilitando dessa forma um superfaturamento do projeto”, revelou um funcionário da Siemens ao MP. Antes da licitação, a Alstom, a ADtranz, a CAF, a Siemens, a TTrans e a Mitsui definiram a estratégia para obter o maior lucro possível. As companhias que se associaram para a prática criminosa são as principais detentoras da tecnologia dos serviços contratados.
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O responsável por estabelecer o escopo de fornecimento e os preços a serem praticados pelas empresas nesse contrato era o executivo Masao Suzuki, da Mitsui. Sua empresa, no entanto, não foi a principal beneficiária do certame. Quem ficou com a maior parte dos valores recebidos no contrato da fase 1 da Linha 5 Lilás do Metrô paulista foi a Alstom, que comandou a ação do cartel durante a licitação. Mas todas as participantes entraram no caixa da propina. Cada empresa tinha sua própria forma de pagar a comissão combinada com integrantes do PSDB paulista, segundo relato do delator e ex-funcionário da Siemens revelado por ISTOÉ em sua última edição. Nesse contrato específico, a multinacional francesa Alstom e a alemã Siemens recorreram à consultoria dos lobistas Arthur Teixeira e Sérgio Teixeira. Documentos apresentados por ISTOÉ na semana passada mostraram que eles operam por meio de duas offshores localizadas no Uruguai, a Leraway Consulting S/A e Gantown Consulting S/A. Para não deixar rastro do suborno, ambos também se valem de contas em bancos na Suíça, de acordo a investigação.
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PEDIDO DE CPI
Líder do PT na Assembleia Legislativa, 
Luiz Claudio Marcolino, trabalha pela abertura de inquérito
No contrato da Linha 2 do Metrô, o superfaturamento identificado até agora causou um prejuízo estimado em R$ 67,5 milhões ao erário paulista. As licitações investigadas foram vencidas pela dupla Alstom/Siemens e pelo consórcio Metrosist, do qual a Alstom também fez parte. O contrato executado previa a prestação de serviços de engenharia, o fornecimento, a montagem e a instalação de sistemas destinados à extensão oeste da Linha 2 Verde. Orçado inicialmente em R$ 81,7 milhões, só esse contrato recebeu 13 reajustes desde que foi assinado, em outubro de 1997. As multinacionais francesa e alemã ficaram responsáveis pelo projeto executivo para fornecimento e implantação de sistemas para o trecho Ana Rosa/ Ipiranga. A Asltom e a Siemens receberam pelo menos R$ 143,6 milhões para executar esse serviço.
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O sobrepreço de 30% foi estabelecido também em contratos celebrados entre as empresas pertencentes ao cartel e à estatal paulista CPTM. Entre eles, o firmado em 2002 para prestação de serviços de manutenção preventiva e corretiva de dez trens da série 3000. A Siemens ganhou o certame por um valor original de R$ 33,7 milhões. Em seguida, o conglomerado alemão subcontratou a MGE Transportes para serviços que nunca foram realizados. A MGE, na verdade, serviu de ponte para que a Siemens pudesse efetuar o pagamento da propina de 5% acertada com autoridades e dirigentes do Metrô e da CPTM. O dinheiro da comissão – cerca de R$ 1,7 milhão só nessa negociata, segundo os investigadores – mais uma vez tinha como destino final a alta cúpula da estatal e políticos ligados ao PSDB. A propina seria distribuída, segundo depoimento ao Cade ao qual ISTOÉ teve acesso, pelo diretor da CPTM, Luiz Lavorente. Além da MGE, a Siemens também recorreu à companhia japonesa Mitsui para intermediar pagamentos de propina em outras transações. O que mais uma vez demonstra o quão próxima eram as relações das empresas do cartel que, na teoria, deveriam concorrer entre si pelos milionários contratos públicos no setor de transportes sobre trilhos. O resultado da parceria criminosa entre as gigantes do setor pareceu claro em outros 12 contratos celebrados com a CPTM referentes às manutenções dos trens das séries 2000 e 2100 e o Projeto Boa Viagem, que já foram analisados pelo CADE. Neles, foi contabilizado um sobrepreço de aproximadamente R$ 163 milhões. 
Não é por acaso que as autoridades responsáveis por investigar o caso referem-se ao esquema dos governos do PSDB em São Paulo como uma “fabulosa história”. O superfaturamento constatado nos contratos de serviços e oferta de produtos às estatais paulistanas Metrô e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos [CPTM] supera até mesmo os índices médios calculados internacionalmente durante a prática deste crime. Cálculos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, por exemplo, apontam que os cartéis ocasionam um prejuízo aos cofres públicos de 10% a 20%. No caso destes 16 contratos, a combinação de preços e direcionamentos realizados pelas companhias participantes da prática criminosa levaram a um surpreendente rombo de 30% aos cofres paulistas. 

Diante das denúncias, na última semana o PT e outros partidos oposicionistas em São Paulo passaram a se movimentar para tentar aprovar a instalação de uma CPI. “O governador Geraldo Alckmin diz querer que as denúncias do Metrô e da CPTM sejam apuradas. Então, que oriente a sua bancada a protocolar o pedido de CPI, pelo menos, desta vez”, propôs o líder do PT na Assembleia paulista, Luiz Cláudio Marcolino. “É flagrante que os contratos precisam ser revisados. Temos de ter transparência com o dinheiro público independente de partido”, diz ele. Caso a bancada estadual do PT não consiga aprovar o pedido, por ter minoria, a sigla tentará abrir uma investigação na Câmara Federal. “Não podemos deixar um assunto desta gravidade sem esclarecimentos. Ainda mais quando se trato de acusações tão contundentes de desvios de verbas públicas”, afirmou o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP). O que se sabe até agora já é suficiente para ensejar um inquérito. Afinal, trata-se de um desvio milionário de uma das principais obras da cidade mais populosa do País e onde se concentra o maior orçamento nacional. Se investigada a fundo, a história do achaque de 30% aos cofres públicos pode trazer ainda mais revelações fabulosas.
Queima de arquivo
Uma pasta amarela com cerca de 200 páginas guardada na 1ª Vara Criminal do Fórum da cidade de Itu, interior paulista, expõe um lado ainda mais sombrio das investigações que apuram o desvio milionário das obras do metrô e trens metropolitanos durante governos do PSDB em São Paulo nos últimos 20 anos. Trata-se do processo judicial 9900.98.2012 que investiga um incêndio criminoso que consumiu durante cinco horas 15.339 caixas de documentos e 3.001 tubos de desenhos técnicos. A papelada fazia parte dos arquivos do metrô armazenados havia três décadas. Entre os papeis que viraram cinzas estão contratos assinados entre 1977 e 2011, laudos técnicos, processos de contratação, de incidentes, propostas, empenhos, além de relatórios de acompanhamento de contratos de 1968 até 2009. Sob segredo de Justiça, a investigação que poderá ser reaberta pelo Ministério Público, diante das novas revelações sobre o caso feitas por ISTOÉ, acrescenta novos ingredientes às já contundentes denúncias feitas ao Cade pelos empresários da Siemens a respeito do escândalo do metrô paulista. Afinal, a ação dos bandidos pode ter acobertado a distribuição de propina, superfaturamento das obras, serviços e a compra e manutenção de equipamentos para o metrô paulista.

Segundo o processo, na madrugada do dia 9 de julho do ano passado, nove homens encapuzados e armados invadiram o galpão da empresa PA Arquivos Ltda, na cidade de Itu, distante 110 km da capital paulista, renderam os dois vigias, roubaram 10 computadores usados, espalharam gasolina pelo prédio de 5 mil m² e atearam fogo. Não sobrou nada. Quatro meses depois de lavrado o boletim de ocorrência, nº 1435/2012, a polícia paulista concluiu que o incêndio não passou de um crime comum. “As investigações não deram em nada”, admite a delegada de Policia Civil Milena, que insistiu em se identificar apenas pelo primeiro nome. “Os homens estavam encapuzados e não foram identificados”, diz a policial. Investigado basicamente como sumiço de papéis velhos, o incêndio agora ganha ares de queima de arquivo. O incidente ocorreu 50 dias depois de entrar em vigor a Lei do Acesso à Informação, que obriga os órgãos públicos a fornecerem cópias a quem solicitar de qualquer documento que não seja coberto por sigilo legal, e quatro meses depois de começarem as negociações entre o Cade e a Siemens para a assinatura do acordo de leniência, que vem denunciando as falcatruas no metrô e trens paulistas. “Não podemos descartar que a intenção desse crime era esconder provas da corrupção”, entende o deputado Luiz Cláudio Marcolino, líder do PT na Assembleia Legislativa do Estado.
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Além das circunstâncias mais do que suspeitas do incêndio, documentos oficiais do governo, elaborados pela gerência de Auditoria e Segurança da Informação (GAD), nº 360, em 19 de setembro passado, deixam claro que o galpão para onde foi levado todo o arquivo do metrô não tinha as mínimas condições para a guarda do material. Cravado em plena zona rural de Itu, entre uma criação de coelhos e um pasto com cocheiras de gado, o galpão onde estavam armazenados os documentos não tinha qualquer segurança. Poderia ser facilmente acessado pelas laterais e fundos da construção. 

De acordo com os documentos aos quais ISTOÉ teve acesso, o governo estadual sabia exatamente da precariedade da construção quando transferiu os arquivos para o local. O relatório de auditoria afirma que em 20 de abril de 2012 - portanto, três dias depois da assinatura do contrato entre a PA Arquivos e o governo de Geraldo Alckmin - o galpão permanecia em obras e “a empresa não estava preparada para receber as caixas do Metrô”. A comunicação interna do governo diz mais. Segundo o laudo técnico do GAD, “a empresa não possuía instalações adequadas para garantir a preservação do acervo documental”. Não havia sequer a climatização do ambiente, item fundamental para serviços deste tipo. 

O prédio foi incendiado poucos dias depois da migração do material para o espaço. “Não quero falar sobre esse crime”, disse um dos proprietários da empresa, na época do incêndio, Carlos Ulderico Botelho. “Briguei com o meu sócio, sai da sociedade e tomei muito prejuízo. Esse incêndio foi estranho. Por isso, prefiro ficar em silêncio”. Outra excentricidade do crime é que o fato só foi confirmado oficialmente pelo governo seis meses depois do ocorrido. Em 16 páginas do Diário do Diário Oficial, falou-se em “sumiço” da papelada. Logo depois da divulgação do sinistro, o deputado estadual do PT, Simão Pedro, hoje secretário de Serviços da Prefeitura de São Paulo, representou contra o Governo do Estado no Ministério Público Estadual. “Acredita-se que os bandidos tenham provocado o incêndio devido o lugar abrigar vários documentos”. Para o parlamentar, “esse fato sairia da hipótese de crime de roubo com o agravante de causar incêndio, para outro crime, de deliberada destruição de documentos públicos”, disse Simão, em dezembro passado. Procurados por ISTOÉ, dirigentes do Metrô de SP não quiseram se posicionar.
Fotos: PEDRO DIAS/ag. istoé
Fotos: ADRIANA SPACA/BRAZIL PHOTO PRESS; Luiz Claudio Barbosa/Futura Press; NILTON FUKUDA/ESTADÃO
Foto: Rubens Chaves/Folhapress

Primeiras impressões sobre

 a encíclica 'Lumen fidei'       



Leonardo Boff (*)                                                              

A carta encíclica Lumen fidei vem como autoria do papa Francisco. Mas notoriamente foi escrita pelo papa anterior, agora emérito, Bento XVI. Confessa-o claramente o papa Francisco: “Assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto alguma nova contribuição” (n.7). E assim deveria ser, pois, caso contrário, não teria a nota do magistério papal. Seria apenas um texto teológico de alguém que, um dia, foi papa. 

Bento XVI queria escrever uma trilogia sobre as virtudes teologais. Escreveu sobre a esperança e o amor. Mas faltava sobre a fé, o que fez agora com pequenos complementos do papa Francisco. 

A encíclica não traz nenhuma novidade espetacular que chamasse a atenção da comunidade teológica, do conjunto dos fiéis e do grande publico. É um texto de alta teologia, rebuscado no estilo e carregado de citações bíblicas e dos Santos Padres. Curiosamente, cita autores da cultura ocidental como Dante, Buber, Dostoievski, Nietzsche, Wittgensstein, Romano Guardini e o poeta Thomas Eliot. Vê-se claramente a mão de Bento XVI, especialmente, em discussões refinadas de difícil compreensão, manejando expressões gregas e hebraicas, como sói fazer um doutor e um mestre em sala de aula. Seguramente, não serão compreendidas pelo simples fiel. 

É um texto dirigido para dentro da Igreja. Fala da luz da fé para quem já se encontra dentro no mundo iluminado pela fé. Nesse sentido é uma reflexão intrassistêmica. 

Ademais possui uma dicção tipicamente ocidental e europeia. No texto só falam autoridades europeias. Não se toma em consideração o magistério das Igrejas continentais com suas tradições, teologias, santos e testemunhos da fé. Cabe apontar esse solipsismo, pois na Europa vivem apenas 24% dos católicos; o resto se encontra fora, 62% dos quais no assim chamado Terceiro Mundo. Posso me imaginar um católico sul-coreano, ou indiano, ou moçambicano ou mesmo um andino lendo esta encíclica. Possivelmente, todos estes entenderão muito pouco do que lá se escreve, nem se encontram espelhados naquele tipo de argumentação. A teologia é pluralista, e não mais concentrada na Europa, mas se mostra também bem articulada entre nós, na Ásia e na África. Mas isso não é aproveitado. 

O fio teológico que perpassa a argumentação é típico do pensamento de Joseph Ratzinger como teólogo: a preponderância do tema da verdade, diria, de forma persistente. Em nome desta verdade, se contrapõe à modernidade. Tem dificuldade em aceitar um dos temas mais caros do pensamento moderno: a autonomia do sujeito e o uso que faz da luz da razão. J. Ratzinger vê esse uso forte como uma forma de minimizar ou até dispensar a luz da fé. 

Não demonstra aquela atitude tão aconselhada pelo Concílio Vaticano II, que seria: nos confrontos com as tendências culturais, filosóficas e ideológicas contemporâneas, cabe primeiramente identificar as pepitas de verdade que nelas existem e, a partir daí, organizar o diálogo, a crítica e a complementariedade. Seria blasfemar contra o Espírito Santo imaginar que os modernos somente pensaram falsidades e inverdades. 

Para Ratzinger, o próprio amor vem submetido à verdade, sem a qual não superaria o isolamento do “eu” (n.27). Contudo, sabemos que o amor tem as suas próprias razões e obedece a outra lógica, diversa, sem ser contrária àquela da verdade. O amor pode não ver claramente a realidade, mas a vê com mais profundidade. Já Agostinho, na esteira de Platão, dizia que só compreendemos verdadeiramente o que amamos. Para Ratzinger, o “amor é a experiência da verdade” (n.27) e “sem a verdade, a fé não salva” (n.24). Esta afirmação é problemática em termos teológicos, pois toda a Tradição, especialmente os Concílios, tem afirmado que somente salva “aquela verdade, informada pela caridade” (fides caritate informata). Sem o amor só a verdade é insuficiente para alcançar a salvação. Numa linguagem pedestre diria: o que salva não são prédicas verdadeiras mas práticas efetivas. 

Na sua parte final, a atmosfera é outra. Vê-se aí a mão do papa Francisco, pois se nota uma notável abertura pastoral que se compagina mal com as partes anteriores, fortemente doutrinárias. Nestas se afirma enfaticamente que a luz da fé ilumina todas as dimensões da vida humana. Na parte final, que seria do papa Francisco, a atitude é mais modesta: ”A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas é uma lâmpada que guia nossos passos na noite, e isto basta para o caminho” (n.57). Com exatidão teológica se sustenta que “a profissão de fé não é prestar assentimento a um conjunto de verdades abstratas mas fazer a vida entrar em comunhão plena com o Deus vivo” (45). 

A parte mais rica, no meu entender, se encontra no n. 45, quando se explana o credo. Aí se faz uma afirmação que desborda a teologia e tangencia a filosofia: ”O fiel afirma que o centro do ser, o coração mais profundo de todas as coisas, é a comunhão divina” (n.45). E completa: ”O Deus-comunhão é capaz de abraçar a história do homem e introduzi-lo no seu dinamismo de comunhão” (n. 45). 

Mas constata-se na encíclia uma dolorosa lacuna: não aborda as crises da fé do homem de hoje, suas dúvidas, suas perguntas, a que a própria fé tem dificuldades em responder: Onde estava Deus no tsunâmi que dizimou milhares de vidas ou em Fukushima? Como crer depois dos massacres de milhares de indígenas feitos por cristãos ao longo de nossa história, dos milhares de torturados e assassinados pelas ditaduras militares dos anos 70-80? Como ainda ter fé depois dos milhões de mortos nos campos nazistas de extermínio e nos progroms soviéticos? A encíclica não oferece nenhum elemento para respondermos a estas angústias. Crer é sempre crer, apesar de… A fé não elimina as angústias de um Jesus que grita na cruz: ”Pai, por que me abandonaste”? A fé tem que passar por este inferno e transformar-se em esperança de que para tudo existe um sentido, mas escondido em Deus. Quando se revelará? Crer que um dia vai se revelar, pertence também à substância da fé.

(*) Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é também escritor. É dele o livro ‘Proteger a Terra e cuidar da vida: Como evitar o fim do mundo' (Record, 2010).

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A bordo do 'papa mobile', Francisco curte um chimarrão no capricho
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Afora o cinegrafista oficial do Vaticano, o fotojornalista JÚLIO CÉSAR GUIMARÃES(portal UOL) documentou, certamente inspirado na teoria do 'instante decisivo' de Cartier Bresson,  o flagrante informal do Papa Francisco, nesta quinta-feira, 25, sorvendo um caprichado chimarrão a bordo do 'papa móvel', na avenida Atlânrtica/Copacabana, rumo ao palco monumental da JMJ,  na praia do Leme.

BOICOTE AMEAÇA O MAIS MÉDICOS

Com a PIOR elite do mundo, o que esperar ? Relaxe. O zé apura !
Saiu no Estadão, que precisa de Mais Médicos, urgente!
Ministério da Saúde desconfia que esse dado pode significar um boicote ao programa

BRASÍLIA – O programa Mais Médicos conseguiu atrair a inscrição de 18.450 médicos. Desses, 1.920 são estrangeiros, de 61 nacionalidades diferentes. No entanto, 8.307 inscritos aparecem com registros inválidos nos conselhos regionais de medicina, o que reforça a impressão do Ministério da Saúde de que pode ter havido um boicote ao programa.

Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, as inscrições precisam ser validadas até domingo, 28, e erros como esses poderão ser corrigidos, se tiverem sido feitos por engano.

Outros 1.270 médicos estão atualmente matriculados em programa de residência e, se quiserem realmente participar, precisarão apresentar um documento mostrando que estão se desligando do curso. Do total, 15.300 profissionais ainda precisam finalizar seu cadastro.

Entre os municípios prioritários para o programa, 3.511 – 92% do total – também se inscreveram para receber profissionais.


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Navalha
A situação do Ministro Alexandre Padilha inspira cuidados.
De um lado, Aloizio Mercadante, que dá sinais de pretender recuar.
Mercadante não resiste a uma pressão da Globo e, aí, ele plimpa.
De outro, o zé da Justiça, quinta categoria na escala Ciro Gomes de competência.
A PF do zé investiga se há boicote nas inscrições do programa Mais Médicos.
Coitado do Padilha …
A última da PF foi descobrir que existe corrida a banco sem causa .
É a corrida espontânea.
Ué, o Bernardo plim-plim não jurou que o grampo americano era um grampo sem áudio ?
Esse é outro que entra na escala Ciro Gomes de competência em situação sofrível.
Que o boicote foi convocado, não há a menor dúvida.
Está nas redes sociais.
Quais são os “erros” mais comuns nesse possível boicote ?
Ou o CRM do inscrito não existe ou é de outro médico.
Informar o numero do CRM é elementar, primário.
Porém, vamos admitir que tenha havido um erro de digitação, uma confusão de recém-formado cujo numero do CRM ainda não esteja integrado à base de dados do Conselho de Medicina.
É uma hipótese, digamos, benevolente.
Outra questão em aberto é o numero de candidatos que, no momento, fazem residência médica.
São uns 1.300.
É um numero alto, convenhamos.
Não há vagas, hoje, no Brasil, para residências médicas.
O exame para residências médicas é como um segundo vestibular, para quem já é medico formado.
É estranho, alguém querer voltar ao ponto de “generalista”, no Mais Médicos, se já pode seguir em direção à especialização…
Depois da inscrição no Mais Médicos, há duas etapas a vencer.
Primeiro, este domingo se encerra a fase de escolher seis cidades em que o candidato gostaria de trabalhar.
Seis cidades das seguintes categorias: capital, região metropolitana, cidades com baixa receita per capita, cidades em que mais de 20% dos habitantes vivem em situação de extrema pobreza, cidades de extrema pobreza, e áreas de população indígena.
O candidato tem que escolher seis, em ordem de preferência.
Na semana que vem, o Ministério da Saúde vai cruzar as informações de todos os candidatos e oferecer a cada um – diante do cruzamento feito – a oportunidade de, em dois dias, informar por qual optou.
E, ao dizer por qual cidade optou, provar que se desligou da residência médica.
Exatamente para evitar o boicote da “dupla militância”.
Ou seja, mostrar, desde este fim de semana, que não vai dar para boicotar o programa sentado na residência médica: fingir que é candidato e não é.
Pode parecer inacreditável, que, num país que precisa de médicos, médicos formados sejam capazes de boicotar um programa como o Mais Médicos.
Mas, no Brasil, que, como diz o Mino Carta tem a PIOR elite do mundo, tudo é possível.
E tudo isso porque os médicos brasileiros, já formados, não querem a concorrência dos médicos cubanos, um exemplo para a Organização Mundial da Saúde.
E não querem que o Brasil copie a Inglaterra e obrigue os médicos a trabalhar dois anos depois de formados no serviço público.
E o boicote, existe mesmo ?
Ora, amigo navegante, relaxe.
O zé vai descobrir.
Viva o Brasil !

(Paulo Henrique Amorim)






Navalha